ABRUPTO

5.3.11


COSTUMES DOS ANTIGOS

Estante dos livros para ler.

No seu livro sobre a biblioteca pessoal de Hitler, Timothy Ryback cita Walter Benjamin e a eterna pergunta que toda gente que tem bibliotecas a dar para o grande conhece: "Mas já leu estes livros todos?" De um modo geral, quem faz esta pergunta não é um grande leitor nem tem muita experiência de leitura, porque senão saberia de imediato que é absolutamente impossível ler todos os livros de qualquer biblioteca que tenha mais de 6000-7000 livros, na melhor e raríssima hipótese de se ser um leitor excepcional. Mas na pergunta há também uma ingenuidade que me é muito simpática: se não lê todos esses livros, para que é que os tem? E aí estamos noutro território, passamos da leitura para a bibliofilia. No seu conjunto, tudo costumes dos antigos.

O número de livros que se pode ler em vida é controverso e difícil de avaliar. Há livros e livros, uns maiores e outros mais pequenos, uns mais fáceis de ler e outros impossíveis de ler de forma recreativa, fluente, e que exigem uma leitura muito especial e naturalmente muito lenta. Algumas das maiores asneiras e demonstrações de ignorância que conheço são as afirmações presumidas sobre livros de que não se faz a mínima ideia o que são, muito menos lê-los.

Colecciono testemunhos de três asneiras, uma clássica, duas de pura ignorância. A clássica, chamemos-lhe assim, ocorre num romance "social" de Abel Botelho e diz respeito ao operário que tinha alimentado as chamas da sua "revolução", porque, numa noite de insónia, tinha lido o Capital de Karl Marx. Está-se mesmo a ver na mansarda esquálida, o jovem a ler sem sono à luz da vela ou do gás, o árido volume, presume-se que o primeiro, da complexa obra, que é o último texto que se pode considerar incendiário. Ainda dei o benefício de dúvida de que podia ser a edição resumida que Lafargue fez, mas mesmo assim não calha o livro com o "incêndio". O segundo exemplo foi uma aluna minha de Filosofia, num curso de adultos, que me jurou a pés juntos que, também na noite passada, tinha lido de uma assentada a Crítica da Razão Pura de Kant "inteirinha". Está visto que as noites devem ser particularmente excitantes para certos leitores, que lhes permitem ler de uma assentada várias centenas de páginas de um dos livros mais complexos da história da Filosofia. O livro então nem sequer existia em português e o seu fascínio intelectual só se apreende com uma leitura lenta, longa e quase de vida, e que implica o acesso ao vocabulário filosófico alemão, sem paralelo na sua capacidade conceptual. Chumbou, apesar da sua especialidade nocturna em Kant. O último exemplo foi a tentativa por alguns seguidores cheios de zelo, que queriam justificar uma referência de Passos Coelho a um livro que não existia, a "Fenomenologia do Ser" de Sartre, com uma confusão do leitor então muito jovem com o Ser e o Nada de Sartre, cujo subtítulo é Ensaio de Ontologia Fenomenológica. A mera ideia de que um adolescente, com "interrogações existenciais", teria lido o Ser e o Nada de Sartre, livro que os tais zelosos seguidores não faziam a mínima ideia do que fosse, ainda é mais ignorante do que a pobre aluna que tinha lido o Kant nocturno ou o operário inflamado por Karl Marx.


Estante dos livros para ler.

Voltemos aos livros que efectivamente se podem ler numa vida, deixando as imaginárias leituras para os seus cultores. Para uma biblioteca minimamente razoável, ou seja, acima dos 5000 volumes, e por isso feita por quem gosta de livros, tomo como válidos os números entre 2500 e 6000, no máximo, de livros lidos. 2500, já se trata de um muito bom leitor, 5000 um excelente leitor. Benjamin calculava o número em cerca de 10% de uma biblioteca de amador, e Churchill, numa reflexão sobre os livros que nunca teria tempo para ler, achava que tinha lido por volta de 5000, um número já muito elevado, dado que duvido que tivesse muito tempo para ler, por exemplo, nos anos da guerra.

 Estante dos livros para ler.

O número razoável para um grande leitor anda à volta de 100 por ano, o que, em 60 anos úteis de leitura, dá à volta de 6000, mas, mesmo assim, parece-me já muito exagerado, porque ninguém mantém tanta regularidade de leitura. Tenho registo de ter lido na juventude quase um livro por dia, trinta por mês, mas olho com espanto para muitos desses títulos de que não me recordo absolutamente nada. "Alimentaram o monstro", mas desapareceram da memória útil. Mas lembro-me de muitos outros na mesma altura, os únicos que deveriam figurar na lista. Foi assim que li toda a colecção Argonauta até pelo menos ao número 100 e muita literatura americana, Steinbeck, Faulkner, Upton Sinclair, John dos Passos, Erskine Caldwell, todos os volumes da Ática do Pessoa e as traduções do Eliot, antes da sucessão de leituras, já noutra fase, das traduções de Quintela de Holderlin, Novalis e Rilke, e das obras de Thomas Mann. Continuei a ler muito, mas o ritmo baixou para o actual de cerca de um livro por semana, número estatístico, visto que leio dois ou três ao mesmo tempo durante várias semanas. Deixo de parte as "releituras", porque o são do mesmo livro, embora haja uma moda de "releituras", muito faladas em certas entrevistas por quem não lê quase nada - "estou a reler Eça", o livro que toda a gente se "lembra" de ter na mesinha de cabeceira - e são tão inventadas como o Kant, o Sartre e o Marx imaginários.

 Estante dos livros para ler.

Na Internet, respondendo a esta mesma pergunta, há quem dê totais superiores de livros lidos, mas se eu quiser ler alguns livros infantis, até posso ler 20 por dia e fazer uma estatística absurda. No meu cálculo, os livros andam à volta de uma média de 200-250 páginas e são, na sua maioria, de leitura "narrativa", ou seja, fáceis de ler. As minhas excepções confirmam a regra, alguns dos livros que li mais recentemente chegaram às 1000 páginas, por exemplo sobre a guerra civil americana, ou a história "oficial" do MI5, e um ou outro cai na categoria do "difícil", como alguns ensaios de Teologia, mas é na base desse cálculo mais modesto que eu me coloco a mim mesmo perante o mesmo espelho de Churchill: calculo ler na vida à volta de 4000-5000 livros, e terei já lido, melhor ou pior, cerca de 3500.

Ou seja, ainda me sobram nas estantes muitos milhares para poder ler, mesmo no caso pouco provável de chegar à idade de Matusalém. Não é grande drama, pior seria deixar de ter livros para ler. 

(Versão do Público de 26 de Fevereiro de 2011.)

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O MUNDO DOS LIVROS (26)


Livraria Esperança, Funchal, Madeira.

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ÍNDICE DO SITUACIONISMO (127)

A questão do situacionismo não é de conspiração, é de respiração.
E, nalguns casos, de respiração assistida.

 A capacidade da comunicação social de comer o que lhe é posto no prato é abissal.

Os jornais de hoje são um completo espectáculo da submissão acrítica às modas. Manifestam-se por um lado, como um excelente amplificador da moda que está; e por outro,  como um considerável obstáculo a que se pense para além da moda que está. Seguem sem hesitar todos os slogans, rodriguinhos, lugares comuns, "mensagens" que lhes aparecem em frente e, como nunca reflectem sobre o que estão a fazer, continuam na mesma até ao absurdo. Exemplos: a revolta árabe, o "deolindismo" militante, etc., etc.

Depois, muda a moda e tudo fica esquecido. Exemplos: a história do urânio empobrecido. Já ninguém se lembra...

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EARLY MORNING BLOGS

1974 - Provérbio

Escuta o conselho dos outros e segue o teu.

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4.3.11


EARLY MORNING BLOGS

1973 - Provérbio
 
Não mates mais do que podes salgar.

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3.3.11


COISAS DA SÁBADO:   A RUA ENTRA EM CENA


Agora as coisas vão começar a aquecer e vamos juntar novos problemas aos muitos que já temos. Do modo como evolui o país e pelo modo como os responsáveis, seja no PS, seja no PSD, tem dificuldade em escapar de um jogo político mútuo de perdas e ganhos, adiando ou dificultando entendimentos de emergência e a prazo, vai ser difícil evitar que a rua entre em cena, como na Grécia, E não vem da CGTP, nem do PCP, de cujas manifestações políticas vamos ter saudades. Vem do Bloco em primeiro lugar, vem da ala esquerda do PS, vem da extrema-direita, vem de anos e anos de um fermento que anda por aí, alimentado pela incúria e irresponsabilidade, feito por velhos reaccionários com nostalgia de Salazar e por jovens modernaços que passam a vida no Facebook e acham que o ecrã do computador mudou o mundo.

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ESPÍRITO DO TEMPO: HOJE


Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

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(NOT SO)  EARLY MORNING BLOGS

1972 - Provérbio

Mais vale sê-lo que parecê-lo.

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2.3.11


COISAS DA SÁBADO:   
DENTRO DA DEMOCRACIA NEM TUDO É POSSÍVELFORA DA DEMOCRACIA TUDO É POSSÍVEL

De facto, fora da democracia é possível muita coisa, sem leis, sem direitos, sem parlamento, sem representação, sem partidos, mas todas essas coisas são más. Todas conduzem ao reino da força, a uma pior governação, ao conflito civil, à derrocada da nossa economia, ao reforço de todos os autoritarismos e totalitarismos. O melhor pretexto da demagogia e do populismo sempre foi o da “luta contra a corrupção”, pretexto trágico e irónico quanto se sabe que o país bem precisa de lutar contra a corrupção. O problema é quando se coloca um sinal de igual entre política e políticos e corrupção, quando se começa a falar de “sistema”, para descrever a democracia e quando se aceita a hipocrisia de não se associar essa berraria a actos concretos de mudança, está-se a proteger os piores misturando-os com os melhores. Esse é o tipo de confusão de que os corruptos gostam mais, a de “serem todos iguais”, “serem todos ladrões”.

Acaso José Sócrates e o PS são hoje diferentes do que eram em 2009 quando deliberadamente e com dolo enganaram o país com promessas eleitorais que todos sabiam ser mentirosas, já em plena crise? Não o são certamente e, no entanto, milhões de portugueses deram-lhe uma maioria que ainda não fez dois anos. E não me venham com a treta que a oposição era pior, porque não era, era muito melhor. E mais: quem é que vota em autarcas corruptos e ou em demagogos locais que se preparam para deixar as suas câmaras endividadas para dezenas de anos, obrigando os seus sucessores a ficar obrigados a pagar a festa e a popularidade do irresponsável anterior? Muitas vezes os mesmos que são capazes de correr a assinar petições populistas na Internet contra o estado gastador e a corrupção.

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COISAS DA SÁBADO:   DENTRO DA DEMOCRACIA NEM TUDO É POSSÍVEL

Anda muita gente a brincar com o fogo. E, depois de o acender, não vale a pena queixarem-se das consequências. A tendência para soluções e propostas não-democráticas, para uma espécie de “democracia orgânica” feita de protestos inorgânicos, para formas de “democracia directa” que substituem o voto e a representação, cresce todos os dias. É verdade que a incapacidade dos dois partidos para gerar confiança, nem que seja na alternância, parece muito escassa. O PS no governo e com José Sócrates à cabeça, mostra o seu enorme desprezo pelos portugueses, fazendo a mais rasteira propaganda quotidiana no meio de uma crise em que tem enormes responsabilidades. O PSD parece demasiado errático na sua condução, e transporta consigo muita gente que os portugueses querem a milhas de qualquer governo. Depois, do lado dos responsáveis políticos, há uma atitude defensiva absurda, um complexo de culpa quando não um colaboracionismo passivo, com as mais erradas e perigosas das propostas anti-democráticas que por aí circulam. Nestes momentos em que a demagogia e o populismo tem muita força, é difícil dizer que não a certas propostas, para quem quer passar pelas gotas da chuva. O resultado é que não só não passarão, como a chuva os molhará mais. A cobardia nestas alturas difíceis paga-se caro.

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EARLY MORNING BLOGS

1971 - Provérbio

Voz corrente muito mente.

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© José Pacheco Pereira
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