ABRUPTO

31.12.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)





Hoje no Funchal, esperando o fogo de artifício. (João Botelho)



Nuvem na Amazônia, Brasil. (Luis Reino)















Na Ria de Aveiro, hoje de manhã. (José Carlos Santos)



Hoje de manhã. Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)





Animação comercial no Freeport de Alcochete . (MJ)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1189 - The Trees

The trees are coming into leaf
Like something almost being said;
The recent buds relax and spread,
Their greenness is a kind of grief.

Is it that they are born again
And we grow old? No, they die too,
Their yearly trick of looking new
Is written down in rings of grain.

Yet still the unresting castles thresh
In fullgrown thickness every May.
Last year is dead, they seem to say,
Begin afresh, afresh, afresh.

(Philip Larkin)

*

Bom dia!

(url)

30.12.07


A CULTURA DE BLOGUE NACIONAL


Os blogues, a blogosfera, são um facto cultural novo nos últimos cinco anos. Não abunda assim tanto a novidade no domínio lato da cultura, para que possa passar despercebida, ou melhor, notada mas não percebida, ou erradamente percebida. Muita coisa nos blogues vem em continuidade do passado, existia noutros meios e sob outras formas, mas mesmo a que apenas fez a transmutação dos media clássicos para os blogues como media mudou também com o meio. Mudou e continua a mudar.

Existe por isso uma nova "cultura de blogue", com traços comuns com idênticas culturas da Rede urbi et orbi, mas também com traços nacionais próprios. Não é por se usar a mesma ferramenta de software que os americanos, brasileiros, japoneses e chineses que deixamos de ser portugueses, de levar para lá o nosso mundo exterior. Não somos ricos na Rede se somos pobres cá fora, não somos sofisticados em linha, se somos trogloditas cá fora, não sabemos mais e pensamos melhor nas páginas do Blogger do que pensamos cá fora, nos cafés de província, ou no Bairro Alto ou no Lux ou nas páginas dos jornais, não se é cosmopolita lá dentro se se é provinciano cá fora, não se é subserviente cá fora e independente no ecrã diante do computador, não se é burro cá fora e inteligente lá dentro.
Sobre a "cultura de blogue" estas notas: 1, 2, 3, 4, 5, 6 , METABLOGUISMO - SINAIS DE CRISE, e a critica ao livro de Andrew Keen.
O que se passa é que esse verdadeiro mostruário em linha, feito de mil egos à solta, revela mesmo a nossa pobreza, a nossa rudeza, a falta de independência face aos poderosos, grandes, pequenos e médios, os péssimos hábitos de pensar a falta de estudos e trabalho, de leitura e de "mundo", que caracterizam o nosso "Portugalinho". Nem podia ser de outra maneira. Com a diferença que nos blogues o retrato é mais brutal porque mais arrogante e mais solto, ou pelo anonimato, ou pela completa falta de noção de si próprio de quem, por poder escrever sem edição para os milhões de leitores potenciais da Rede, acha que é crítico de cinema instantâneo, engraçadista brilhante, analista político, escritor genial de aforismos, herói único da denúncia dos males do mundo, e portador de todas as soluções que só não são aplicadas porque os outros, a começar pelo blogue do lado e a acabar no fim do mundo, são todos corruptos, vendidos e tristes. Como os blogues são viveiros de elogios mútuos e de complacência, estes traços alastram como um vírus e tornam-se comunitários, definidores do meio. Mas, até porque nos dá um retrato único da mesquinhez da vida intelectual e cultural nacional, o lado do não dito, do não enunciado no Jornal de Letras, no Ipsilon, nas notícias culturais do Diário de Notícias e no contínuo que vai das novas colunas sociais disfarçadas de sociologia do presente e no jornalismo light até às revistas do jetset, a blogosfera é interessante e única.

Eça, se fosse hoje, poderia escrever sobre os blogues o que escreveu sobre os jornais:
"A tua ideia de fundar um jornal é daninha e execrável. (...) tu vais concorrer para que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os juízos ligeiros, se exacerbe mais a vaidade, e se endureça mais a intolerância. Juízos ligeiros, vaidade, intolerância - eis três negros pecados sociais que, moralmente, matam uma sociedade! (...) Foi incontestavelmente a Imprensa que, com a sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de tudo afirmar, de tudo julgar, mais enraizou no nosso tempo o funesto hábito dos juízos ligeiros. (...) É com impressões fluidas que formamos as nossas maciças conclusões. Para julgar em política o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em literatura o livro mais profundo, (...) apenas nos basta folhear aqui e além uma página (...) . Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos "Este é uma besta! Aquele é um maroto!" Para proclamar "É um génio!" ou "É um santo!" oferecemos uma resistência mais considerada (...) Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há acção individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda."
Tudo isto é certeiro, mas, se ficássemos por aqui, não percebíamos a novidade, a mesma, aliás, que Eça defrontava com o papel crescente da imprensa. Mesmo assim, e até por isso, os blogues são coisa nova, são um fenómeno de per si. Trazem a quantidade, a lei dos grandes números, trazem as "massas". É verdade que apenas uma escassíssima minoria escreve blogues que caibam nesta categoria para além do puro confessional, e que apenas uma minoria os lê, mas nunca na história tanta gente se revela assim no espaço público, acompanhando mutações de geração e de hábitos culturais que vai no mesmo sentido de, por exemplo, a desvalorização da privacidade, do tempo lento, do silêncio, da palavra escrita em relação às imagens em movimento. E isso é uma novidade que está para ficar e evoluir. Evoluirá a partir daqui, desta logomaquia, mas evoluirá acrescentando uma nova dimensão ao retrato das diferentes sociedades e mentalidades, incluindo Portugal.
Um dos rodriguinhos da escrita em Portugal é ter que sempre enunciar que há excepções. Há excepções? Claro que há, mas são mesmo excepções e não alteram a regra. A regra é esta. Eu estou a falar da regra.
É ainda cedo para medir o papel dos blogues em Portugal enquanto consumo cultural e mediático, como fonte quase única de conhecimentos "dinâmicos", envolventes, para as gerações que se estão a "educar" mais fora da escola do que dentro dela. Mas há indícios, principalmente nos mais jovens, do aparecimento de uma "cultura de blogue", de uma aproximação cultural ao mundo feita de pouco mais do que a leitura de blogues e de outras páginas da Rede, que têm mecanismos de social networking como as variantes nacionais do Facebook, ou o Hi5, o Second Life, e o mecanismo de trocas de "favoritos" que vai dar ao YouTube. Em Portugal, a absorção do mundo - política nacional, internacional, produtos culturais da moda, discursos e julgamentos, escolhas de podium e de agenda - pelos blogues difere da que se poderia obter através dos media tradicionais.

Para uma geração de jovens que só lê escassamente os jornais, para além dos desportivos e dos gratuitos, a "cultura de blogue" começa a deixar os seus traços próprios: redução da temática considerada "importante" ao que é discutido nos blogues, valorização do posicionamento comprometido, de "prós e contras", maior radicalismo político e opinativo, mecanismos de identidade grupais ou tribais, para além da absorção generalizada dos males que o Eça atribuía aos jornais: "juízos ligeiros, vaidade, intolerância", "impressões fluidas" e "maciças conclusões". Está longe de ser uma boa escola, mas é a escola, mais intolerante, mais a preto e branco, mais agressiva nas opiniões e menos ponderada, mas também mais democrática, no sentido em que envolve muito mais gente do que a que em qualquer altura teve sequer a veleidade de ter uma opinião, muito menos dá-la. Não é um fenómeno "mau" por si só, tem também aspectos "bons", na proporção desigual que é habitual para Portugal nestas coisas, mas caminha para ser um instrumento suplementar que reforça as duas tendências em curso nos nossos dias: a da substituição da democracia pela demagogia e a espectacularização da sociedade.

A blogosfera é tão avessa à crítica como os media tradicionais, com a agravante de que o envolvimento narcísico é tão forte que, mesmo dentro de blogues colectivos, a mais pequena fractura se torna explosiva. Os blogues não gostam de ser objecto de críticas e, como é obvio, tem uma alta noção de si próprios e estão tão cheios de autocomplacência e de elogios mútuos que consideram um anátema qualquer discurso que lhes pareça exterior e que os ponha em causa, a eles e às regras do jogo que estabeleceram. Desde o início da popularização da blogosfera o chamado "metabloguismo" era considerado um desvio da genuinidade do discurso em linha, mas, sem reflexão crítica sobre o próprio meio, sobre o meio em Portugal, que introduza critérios de qualidade e exigência que os blogues são lestos a exigir a outros mas não a aplicar a si próprios, os blogues serão apenas mais uma câmara de ressonância da pobreza da nossa vida cívica.

Como também tenho um blogue, deixo aos leitores o julgamento do que se me aplica do que aqui digo.

(versão do Público, 29 de Dezembro de 2007)

(url)


JARDINS DE INVERNO



(Mónica Granja)

(url)


BOAS / MÁS / PÉSSIMAS COISAS NA COMUNICAÇÃO SOCIAL PORTUGUESA EM 2007
VISTAS POR UM GRANDE (EM QUANTIDADE) CONSUMIDOR 5



Segue-se a lista 1 , lista 2 , lista 3+ comentários.

A maior atenção e destaque às necrologias e biografias. No Diário de Notícias algumas biografias nacionais acrescentam ao que se conhece e cumprem a função das necrologias, outras são cópias da imprensa internacional e aparecem muitas vezes como bizarras nos seus critérios de escolha. No Expresso escreve o melhor"necrologista" português sobre figuras internacionais, José Cutileiro. O Público é o único jornal que ocasionalmente publica artigos de fundo nos seus suplementos sobre figuras esquecidas do antes-25 de Abril (Julieta Gandra, Ferreira Soares, autores de banda desenhada, etc.).


*
COISAS MÁS

- A preponderância da "pró-anómica" televisão sobre os restantes OCS, sempre que se fala sobre este tema. Apesar do seu peso mediático e da frequente encenação do espectáculo noticioso, não deixa de ser verdade que as televisões são quase sempre os últimos OCS a darem as notícias e os que mais se alimentam do trabalho dos outros, incluindo dos bloggers.

- O uso da língua portuguesa cada vez mais de rastos, em todos os OCS. Mais grave do que as deficiências de sintaxe é este sentimento geral de que o Português é uma língua de segunda, de pobres e de saloios. Logo, incompatível com a inexorável marcha do progresso que consagra o Inglês como língua franca. Não tardará que as novas gerações de portugueses tenham mais competências linguísticas no Inglês do que na sua língua pátria. Ainda não se inventou disco rígido com capacidade para armazenar os atropelos públicos à língua portuguesa feitos pela Comunicação Social e até por muitos reposnsáveis políticos, mas uma visita ao Pelourinho das Ciberdúvidas pode dar uma ideia do massacre.

- O mimetismo entre os OCS.
Há muito que a investigação deixou de ser praticada na maioria dos OCS. O mais parecido com isso é a obsessão com as grandes "cachas" de escândalos, quase sempre reveladas através de episódios de "zangas de comadres" e denúncias subsequentes. As notícias são copiadas de uns OCS para outros, que assim impõem a ditadura informativa sempre em torno dos mesmos temas. Os jornalistas deixam de escrever a pensar no leitor mas apenas pensando no seu concorrente, numa espécie de competição intestina onde todos ficam a perder, em especial os leitores. O fastígio deste mecanismo de circuito fechado sucede quando nos apercebemos que seria possível juntar à volta da mesma mesa de consoada quase todos os jornalistas, comentadores e articulistas dos OCS portugueses. Eles são realmente poucos, mas convidam-se uns aos outros para assumirem lugares em simultâneo - hoje tu comentas no meu jornal, amanhã eu vou ao teu programa de TV, etc. numa espécie de solipsismo metodológico aterrador.

- As Redacções deixaram de ser oficinas de notícias para passarem a ser lojas (hipermercados) de notícias. Os fornecedores da mercadoria preferidos são os que já apresentam o produto "pronto a consumir", com o tempero adequado: 90% de Pathos, 9% de Ethos e 1% de Logos. A mercadorização chegou às notícias, que agora se chamam “conteúdos”, e os OCS funcionam como entrepostos comerciais desses produtos ao serviço de interesses particulares.

- A institucionalização da comunicação social como palco de propaganda governamental e dos grandes financiadores do partido do poder. É preocupante quando não vemos diferenças entre os discursos do poder político estabelecido, do poder económico e da Imprensa.

- A informação desportiva (quase exclusivamente futebolística) na emissora estatal e taxada Antena 1, que ocupa ocupa mais do dobro do tempo de emissão das restantes notícias.

- A obsessão de, por tudo e por nada, ilustrar as notícias com a "opinião dos portugueses", que não são mais do que 3 ou 4 passantes, arrebanhados à porta da redacção.

- Cada vez mais o escopo da informação é o jornalista e não a notícia. Até para o assunto mais absurdo tem de vir um "apontamento de reportagem" onde 99% do tempo é dedicado a ver e/ou ouvir o jornalista-estrela, sem qualquer justificação.

- O Canal Parlamento, que poderia ter um papel determinante na elevação da consideração por aquela instituição tão depreciada pelos portugueses, confirma-se a mais completa desilusão. De entre todas os órgãos de soberania, o Parlamento deveria ser o mais acarinhado pela sociedade democrática, mas dir-se-ia que são os próprios parlamentares os menos preocupados com o prestígio daquela nobilíssima instituição. De que têm medo os nossos deputados?



COISAS BOAS


- O incremento do uso da Internet como fonte de informação noticiosa e como sério concorrente à passividade frente à televisão. (Onde estão os estudos de audiências em que também surja a Internet?)

- As dezenas de blogs regionalistas e de pequenos projectos de ciberjornalismo regional que conseguem romper com a versão institucional, partidarizada e subserviente da Imprensa local (jornais e rádios).

- O Abrupto, o Do Portugal Profundo e um pequeno punhado de blogs que ainda provocam turbulência mesmo entre aqueles que se esforçam por demonstrar que a blogosfera (e a Internet) é um meio de comunicação desprezível. Será medo da liberdade e da democracia? Ou saudade das ditaduras?

- As crónicas de António Barreto, no Público. Fazem-me lembrar uma afirmação célebre do dramaturgo Friedrich Dürrenmatt: "Mas que tempo este em que é preciso lutar pelo que é evidente!"

- O crescimento e a emergência de jornais de distribuição gratuita, num país avesso à leitura e onde o preço de um jornal já pesa no orçamento de muitas famílias. E ainda porque estes jornais, cujo conteúdo não é muito mais do que um repositório de "telex" de agências, revelaram a mesma displicência profissional que se instituiu nos "órgãos de referência". Para quê ler o DN, o JN, o Público, etc. se as mesmas notícias, redigidas praticamente da mesma forma, estão ali à mão, num dos gratuitos?



COISA EXCEPCIONAL (no sentido de excepção; de circunstância notável a que se deve dar especial atenção; de fenómeno kantiano, suspenso nas teias da percepção contemporânea)

- O Blog de Pedro Santana Lopes: uma espécie de imperativo categórico dos tempos que correm, em que se revela como a forma, mais do que se impor à substância, configura-se, ela mesmo, como a verdadeira e única substância – esta é a "maravilha fatal da nossa idade". Aqueles textos, aquelas imagens, aqueles comentários, tudo aquilo são documentos históricos que consubstanciam a realidade antroposociológica portuguesa actual com uma densidade ímpar. Uma preciosa epítome que deve ser preservada para memória futura e júbilo dos historiadores vindouros.

(Carlos Robalo)

(url)


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 30 de Dezembro de 2007


O dedo do Governo na comunicação social, hoje no Correio da Manhã:
Por duas vezes desde o início de Novembro passado os Falcon que transportavam o primeiro-ministro e outros membros do Governo foram obrigados a aterrar, pouco tempo após terem levantado voo, por motivos de segurança. Mesmo assim, José Sócrates já deixou claro a vários membros do Executivo que “enquanto houver garantia de segurança não haverá compra de nenhum avião”, nas palavras de fonte conhecedora do processo. (...) A substituição dos três Falcon, adquiridos nos anos 70, tem sido um assunto corrente nos últimos anos. Por forma a incluírem estes aviões como troca num futuro negócio, os governos dos últimos anos apuraram que uma nave com capacidade para 20 pessoas custa quase 20 milhões de euros. Como “neste momento há contenção orçamental, está fora de hipótese comprar outros aviões na actual legislatura”, afirma a mesma fonte."
Mensagem que se pretende passar: o Primeiro-ministro prefere por em causa a sua segurança pessoal a gastar dinheiro numa compra que parece aos portugueses um luxo. Um herói do orçamento, um exemplo de contenção e moderação. Bem pensada para o Correio da Manhã e o seu público.

Mensagem passada, premeie-se o assessor ou a agência.

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1188 -Theme for English B


The instructor said,

Go home and write
a page tonight.
And let that page come out of you--
Then, it will be true.

I wonder if it's that simple?
I am twenty-two, colored, born in Winston-Salem.
I went to school there, then Durham, then here
to this college on the hill above Harlem.
I am the only colored student in my class.
The steps from the hill lead down into Harlem,
through a park, then I cross St. Nicholas,
Eighth Avenue, Seventh, and I come to the Y,
the Harlem Branch Y, where I take the elevator
up to my room, sit down, and write this page:

It's not easy to know what is true for you or me
at twenty-two, my age. But I guess I'm what
I feel and see and hear, Harlem, I hear you:
hear you, hear me--we two--you, me, talk on this page.
(I hear New York, too.) Me--who?
Well, I like to eat, sleep, drink, and be in love.
I like to work, read, learn, and understand life.
I like a pipe for a Christmas present,
or records--Bessie, bop, or Bach.
I guess being colored doesn't make me not like
the same things other folks like who are other races.
So will my page be colored that I write?

Being me, it will not be white.
But it will be
a part of you, instructor.
You are white--
yet a part of me, as I am a part of you.
That's American.
Sometimes perhaps you don't want to be a part of me.
Nor do I often want to be a part of you.
But we are, that's true!
As I learn from you,
I guess you learn from me--
although you're older--and white--
and somewhat more free.

This is my page for English B.

(Langston Hughes)

*

Bom dia!

(url)

29.12.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



O Sol poente para os lados de Torres Novas. (Ochoa)

(url)


COISAS DA SÁBADO:
NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE, NEM BEM QUE NUNCA ACABE




1. Acabou para Sócrates o alibi dos governos anteriores. Com excepcionais condições de governação, com maioria absoluta, com o show europeu para dar dimensão internacional, sem “forças de bloqueio” na Presidência, com uma oposição nos dois primeiros anos muito mais responsável do que alguma vez o PS foi, gozando de muitas simpatias e ainda de mais cumplicidades, mas agora são os resultados que se esperam.

Os primeiros resultados que se conhecem são todos maus com excepção do controlo do défice e mesmo aí parece (ao Tribunal de Contas) que as coisas também não são tão boas como se pensava. O empobrecimento dos portugueses continua e é um empobrecimento sem esperança. Como se todos fossem, a seu modo, um desempregado com quarenta anos.

2. A propaganda governamental está a esgotar-se. PowerPoint, simulações de computador, assistências reverendas ou de casting, já só sobrevivem na RTP e nos “momentos-Chávez” do Primeiro-ministro. Os especialistas, as agências, os assessores, bem podem estudar novas fórmulas para “comunicar”, que a teimosia dos factos erodiu as técnicas de propaganda que o governo e o Primeiro-ministro tem usado até à exaustâo.

3. As reformas estilo Sócrates não passaram na maioria dos casos de medidas de contenção orçamental e, só em raros casos, foram medidas de verdadeira reforma. Mas quer as verdadeiras quer as falsas reformas foram sempre acompanhadas de um discurso de agressividade populista contra as classes e grupos profissionais destinatários – funcionários públicos, professores, agentes da justiça, jornalistas – que motivaram respostas corporativas. Este estilo agressivo colocou os grupos profissionais inteiros contra o governo em vez de os dividir entre sectores conservadores e “modernizadores”, o que retirou eficácia às poucas reformas genuínas que se esboçaram.

4. Três programas emblemáticos caracterizaram este governo: o Plano Tecnológico, o Simplex e as “Novas Oportunidades”. O que de melhor o governo Sócrates fez, passou por aqui. Talvez, de todos, o Simplex tenha sido o que melhores resultados trouxe. Ainda é cedo para se fazer uma avaliação global, mas a simplificação burocrática conheceu um impulso sério.

5. O Plano Tecnológico traduz muito do deslumbramento de Sócrates e da sua geração pelo poder das tecnologias, e pela crença que as tecnologias tem efeitos sociais de per si. Não tem. São instrumentos que só actuam em contextos sociais próprios e muitos milhares de euros de material avariado, computadores, gadgets, estão por essas escolas e instituições públicas onde depois das belas sessões públicas de ofertas e inaugurações não se cuidou, por exemplo, da manutenção. Para além disso, ter banda larga em Ferreira do Alentejo é excelente se ela servir para alguma coisa, se as literacias para a usar existirem para além da ida à Internet para ver os sítios de futebol, pornografia e as fotografias da turma no Hi5.

Terá ainda que se esperar para ver outros resultados do Plano Tecnológico, mas este perdeu dinâmica no último ano.

6. Quanto às “Novas Oportunidades” foram no seu início um sucesso naquilo que era mais difícil: revalorizar o papel do ensino, da educação, da aprendizagem, do saber, em sectores da população que na sua vida tinham voltado as costas a esses valores, ou por necessidade, ou por facilidade. Porém o programa entra agora numa fase crucial: após os momentos de arranque incial, é suposto que se começe agora a aprender e a ser avaliado. Esta é a parte difícil, mas a que justifica o projecto. E aqui as intenções iniciais começam a esmorecer, os atrasos a somarem-se, a perplexidade dos formadores a aumentar e o anúncio regular pelo governo da outorga de mais uns milhares de diplomas faz suspeitar de facilitismo. Vamos ver.

7. No PSD deu-se mais um passo para a irrelevância, ou ainda pior, para tornar o partido um mero gestor alternativo das políticas do PS. Ora, para fazer a mesma política, os eleitores preferem o PS como mais eficaz e mais credível.

Com Marques Mendes, o PSD esboçou um ruptura com o período negro anterior, mas como quando se fazem “revoluções pela metade cava-se o seu próprio túmulo” (dizia Saint Just), perdeu-se o pouco que se tinha adquirido voltando o partido ao dia anterior da derrota de 2005 . Mendes não conseguiu impor-se, mas os seus esforços foram no sentido certo. Menezes também não está a conseguir impor-se, mas todos os seus esforços vão no sentido errado. O governo está verdadeiramente à solta, a oposição numa crise maior do que alguma vez esteve desde 2005.

8. O PP já atingiu o equilibrio dos pequenos partidos, que atingem uma “stasis” interna onde que tudo o que acontece, não acontece. E no entanto, a retirada do PSD da oposição poderia ser uma oportunidade e o PP tem aproveitado os vazios para ocupar o terreno de algumas questões importantes como a dos direitos dos contribuintes e a omnipotência do fisco. Mas não chega. Portas reduziu o partido a si próprio, e dar atenção ao PP é dar atenção a Portas e cada vez menos pessoas o fazem.

9. O PCP teve um bom ano, o problema do PCP é que ninguém dá por ela disso. O PCP é o único partido cuja força é “civil”, mesmo que se tenha em conta o processo de estatização dos sindicatos, maior na UGT do que na CGTP. Conseguiu com autonomia uma capacidade de mobilização que já tinha perdido e pôs na rua muitas dezenas, senão centenas de milhares de pessoas. O problema do PCP é que passou de moda mediática, a sua contestação parece um arcaísmo social e por isso parece ser inútil.

10. O BE está em crise. Deixou-se enredar com o PS em Lisboa, o pior sítio para alguém se enredar com o PS. Deixou-se reduzir a Louçã e Louçã fixou-se num discurso cujo esgotamento irrita mais do que cansa. Para a contestação social o PCP é mais eficaz, e as causas "fracturantes" são na maioria dos casos ou inócuas, ou tão vanguardistas que ficam na marginalidade e no radical chic.

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)





Saída para o mar na Póvoa de Varzim. (Mário de Sá Peliteiro)





Feira da Ladra, hoje.



Nevoeiro matinal em Lisboa.



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)





Nascer do Sol perto de Tomar. (Ochoa)



Chiado à meia-noite. (RM)

(url)


JARDINS DE INVERNO



(url)

28.12.07


INTENDÊNCIA



Os Estudos sobre o Comunismo que estavam inactivos já há uns meses estão a voltar à vida.

As bibliografias estão a ser actualizadas não só para muitos títulos de 2007, como também para novas entradas anteriores que não estavam referenciadas. Cada vez mais o âmbito se alarga para cobrir todas as actividades da oposição, incluindo os anarquistas, os republicanos e os socialistas. Cerca de 100 novas entradas já foram integradas, algumas das quais de textos que se encontram em linha e de artigos em publicações locais ou estrangeiras. O processo continuará nos próximos dias. Foi igualmente alterada a estrutura das bibliografias para evitar a divisão das entradas por páginas diferentes, situação facilitada por um novo arranjo gráfico das páginas permanentes. No seu conjunto, as bibliografias são as mais completas existentes, em papel ou em linha, para o assunto e período de 1926-1974. Depois será actualizada a lista de biografias e o próprio conteúdo do blogue.


(url)


JARDINS DE INVERNO



(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



Geada matinal nos campos do Ribatejo. (Ochoa)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1187 - Sunday Night in Santa Rosa

The carnival is over. The high tents,
the palaces of light, are folded flat
and trucked away. A three-time loser yanks
the Wheel of Fortune off the wall. Mice
pick through the garbage by the popcorn stand.
A drunken giant falls asleep beside
the juggler, and the Dog-Faced Boy sneaks off
to join the Serpent Lady for the night.
Wind sweeps ticket stubs along the walk.
The Dead Man loads his coffin on a truck.
Off in a trailer by the parking lot
the radio predicts tomorrow's weather
while a clown stares in a dressing mirror,
takes out a box, and peels away his face.

(Dana Gioia)

*

Bom dia!

(url)

27.12.07


JARDINS DE INVERNO



(url)


PELO MEU PORTO



Sempre um ar diferente de tudo o resto. Húmido, de uma humidade certa para o tempo, o rio, as casas, as ruas. Uma névoa pela manhã que se levanta do sítio certo, do rio, do mar, que se espalha junto com as gaivotas, cada vez mais para terra. Ruas desertas como se fossem puro exterior e toda a intimidade tenha sido contida por detrás das paredes de granito. Silêncio, poucas luzes.

*

Urbi et orbi. O Papa olha por detrás dos paramentos dourados. Está a pensar. Parece estar sempre a pensar, nunca a rezar, apenas a ver e a pensar. Em que pensa, o velho universitário bávaro, habitante de bibliotecas, gabinetes, papéis, lidando com burocratas toda a vida, agora ali, com um acólito arranjando-lhe as vestes do ofício de S. Pedro? No Sol de inverno que também ilumina a Praça imperial? Nos negócios do mundo? Ajusta os óculos, o microfone, os sinais da imperfeição e numa voz débil fala do "giorno santo". Urbi et orbi.


*

Poucas missas de Natal têm a dignidade severa da que ocorre em Bagdad. Ali é fé mesmo.

*

Desde que a CNN roubou à BBC Richard Quest que este faz o papel do inglês excêntrico no canal americano. Na BBC fazia apenas o papel do inglês, ou seja, mais um na casa, onde de repente se vê a jornalista habitual do noticiário, que todos imaginamos na sua confortável casa londrina, a fazer uma reportagem na Índia e a pegar num jornal em gujarate e a começar a lê-lo e a comentá-lo como se fosse a coisa mais natural do mundo. Malhas que o império tece.

Quest, sempre nomeado como o jornalista mais divertido do mundo, passeia a sua estudada inadequação funcional pelos "festivais da luzes", Natal cristão e Diwali indiano, para que a "cadeia global" não perca a sua marca de politicamente correcto. Depois vai visitar a senhora Bush, uma americana sólida, competente, e que sabe cumprir o seu papel muitas vezes melhor do que o marido. Mostra-lhe a árvore de Natal da Casa Branca, fala do "tema" escolhido para este ano, os parques nacionais, o mesmo do filme com os cãezinhos em que entra Blair, e dá-lhe a comer um boneco de pão.Junto de tanta eficácia e competência, Quest fica um velho colonial, um anacronismo e os "patriotas" ganham mais uma vez aos redcoats.

(url)


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS ELEITORES: PLANO TECNOLÓGICO






















Um exemplo de /qual é a verdadeira questão/ na educação. Se somos os mais atrasados em tudo porque deveriamos ser melhores na educação? Sem mais comentários.


(Carlos HP Ribeiro)


*




















Passagem superior para peões com dificuldades de locomoção, em Entrecampos, Lisboa. Um cartão, que ninguém sabe onde se adquire, dá direito ao uso de uma maquineta que ninguém sabe se alguma vez funcionou.


(C. Medina Ribeiro)



*












Telheiras, 27 de Dezembro de 2007, 08h30 - lixo do primeiro mundo num país do terceiro... e eu, como muito boa gente, ainda tenho o lixo reciclável do Natal em casa, à espera.

(Fernando Correia de Oliveira)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1186 - Das circunstâncias

Hase también de tener en cuenta en [e]sta consideración y memoria para tener arrepentimiento y hazer deuida confessión, no solo con la substancia destos peccados desnudamente sino también con las circunstancias que los han acompañado, especialmente, con las que agrauan de manera que mudan la especie y naturaleza del peccado o la alteran notablemente, assí como cometer el hombre algo contra sus padres o prelados o peccar en lugar sagrado.

Las circunstancias communes son siete:

1. Quién.

2. Quál.

3. Quánto.

4. Porqué.

5. En qué lugar.

6. En qué tiempo.

7. Quántas vezes, pocas más o menos.

¶ Quién, es a saber, qué perdona, qué officio tiene y en qué vocación está puesto el penitente sino fuere notorio el confessor.

¶ Quál, es a saber, la persona con quien o contra quien se pecca. Y guárdese mucho de explicar ni declarar en particular la persona con quien ha peccado sino declare su confessión de manera que nadie se infame porque aunque se pueda dar algún caso en que se pueda o deua hazer esto, pero en lo ordinario no es lícito hazerse, antes es perjudicial a la fama del tercero y al exercicio y prática deste sancto sacramento y de que pueden nascer muchos males y atemorizarse los penitentes para venir a este sacramento de la confessión.

¶ Quánto, es a saber, la quantidad del peccado o del daño o del menosprecio que enel peccado se haze y del detenimiento en él.

¶ Porqué, el fin o intención con que se pecca.

¶ En qué lugar, es a saber, si es público o secreto, profano o sagrado o lugar de oración.

¶ En qué tiempo, si es día de fiesta o de ayuno o de pública oración.

¶ Quántas vezes, circunstancia es que está de sí clara.

¶ Y no piense el christiano que esta meditación de su vida se ha de hazer ansí seca y fríamente sino con recogida y atenta consideración de sus peccados y arrepentimiento efficaz y verdadero dellos con esperança y fiuzia de su misericordia, estribada en la sangre y mérito de Iesú Christo, nuestro señor, y con verdadero propósito de la enmienda porque poco aprouecharía hauerse traýdo a la memoria su mala vida passada sino procurasse, con el ayuda de Dios, arrepentirse y tener contrición verdadera de sus peccados, lo qual podrá hazer de la manera que se sigue.

(Martín de Ayala, Compendio para bien examinar la consciencia en el juizio de la confessión)

*

Bom dia!

(url)

26.12.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Estes dias de Natal. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



A lua esta noite, do Porto (Av. Marechal Gomes da Costa) . (Nuno Ortigão)





Noite de Natal em Amarante. (Helder Barros)



Praia Formosa - Funchal. (Carlos Oliveira)







Dia de Natal, às 7 da manhã, amanhecer com neve, uma perfeita "white Christmas" nas longinquas terras do Colorado. (Manuela Mage)



O cais da doca de Setúbal na tarde calma de hoje. (Ochoa )



Foz do Arelho.



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

(url)

24.12.07




(Frederick McCubbin)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1185

A Musa

Quando tarde na noite te esperei,
Com toda a vida presa por um fio.
Oferecendo a minha juventude, liberdade, glória,
À minha convidada de flauta na mão.
Então chegas.
Pousas o casaco,
E olhas para mim com firmeza.
Perguntei-te: "Ditaste a Dante
As páginas do Inferno?"
Respondes: "Sim, fui eu. "

(Anna Akhmatova)


Муза


Когда я ночью жду ее прихода,
Жизнь, кажется, висит на волоске.
Что почести, что юность, что свобода
Пред милой гостьей с дудочкой в руке.
И вот вошла. Откинув покрывало,
Внимательно взглянула на меня.
Ей говорю: "Ты ль Данту диктовала
Страницы Ада?" Отвечает: "Я".

1924

*

Bom dia!

(url)


ONDE ESTÁ O PSD?



É só uma questão de tempo até os jornais começarem a perguntar onde está o PSD, onde está Menezes, onde está a oposição vinda do partido que é suposto "liderá-la", que não se vê em parte nenhuma. O PP, o PCP e o BE, nalguns casos mesmo alguns raros dissidentes do PS socrático, têm criticado o Governo, enquanto o PSD passa entre as sombras, ou ficando pura e simplesmente silencioso, ou murmurando umas críticas de circunstância que ninguém ouve, ou, em muitos casos, concordando com o Governo e o PS. O único "não" sonoro que se ouviu foi a recusa do empréstimo à Câmara de Lisboa, acompanhado por uma condução política que primou pela completa inépcia. Esse é daqueles que mais valia não se ter ouvido, sem com isso dizer que Costa tinha razão, que não a tinha.

A pergunta do "onde está" é tradicional na comunicação social e nalguns casos foi feita com estragos consideráveis, como aconteceu com Vítor Constâncio à frente do PS. A pergunta em si é pouco relevante, porque o que a comunicação social quer é festa e, quando acha que não a tem, clama por actores no palco. Admito que os tempos agora não estarão como estavam no tempo de Constâncio, nem a dedicação carinhosa da comunicação social ao PSD é idêntica à que na época prodigalizava ao PS, cujo estado a preocupava. Mas, quando vier a pergunta, será mais para a coreografia do que para a substância, porque esta está há muito respondida: de há uns tempos a esta parte, o PSD está onde está o PS.

A razão pela qual o PSD se ausentou para parte incerta foi explicada na pouco noticiada conferência de imprensa "oferecedora de pactos", antecedendo o debate parlamentar de "primeira oportunidade" entre Sócrates e Santana Lopes. Desde aí que se conhecem as razões de substância para este já longo silêncio: o PSD aproximou-se politicamente do PS como nunca esteve antes, ao ponto de se oferecer para co-governar em praticamente todas as áreas. Na conferência e em declarações avulsas - da política externa à política europeia, passando pela defesa, segurança interna e legislação eleitoral, e acabando no célebre "pacto das obras públicas", a que se soma o "pacto da justiça" vindo do tempo de Marques Mendes -, o PSD faz uma abdicação da diferença, da alteridade, da oposição.

O que nos é dito é que em Janeiro tudo vai mudar, aparecerão propostas e tomadas de posição, vai começar a oposição "a sério", quando estiverem gabinetes e assessores a funcionar. É um pouco bizarro que se anuncie um tempo de adiamento da oposição, uma paragem para uma retoma anunciada, quando antes tudo era tempo urgente. Menezes criticava Marques Mendes por não fazer oposição dia a dia, minuto a minuto, fogosa, ardente, caso a caso, para o que, dizia, não faltavam temas nem razões e que "com ele" isso iria mudar radicalmente. Já não me refiro às idas às fábricas que encerraram - entretanto já encerraram várias -, mas a um estilo prometido de pathos oposicionista, comunhão com o povo e de entusiasmo militante, que, de todo, não se vê. Não é que o estilo prometido fosse bom, mas foi o que foi prometido, antes deste enorme esforço de respeitabilidade fabricado por agências de comunicação. Estas flutuações matam o flutuante, mas, infelizmente, são o que é normal, quando se actua para uma sociedade do espectáculo.

Permitam-me por isso que duvide da ofensiva putativa de Janeiro, porque a diferença não se faz com mais ou menos "estudos", "porta-vozes" ou "governos-sombra". Faz-se em primeiro lugar com políticas e não faltaram ocasiões nos últimos meses para se ser firme e duro com a política de um governo que está a empobrecer-nos a todos em nome de um modelo "social" que não tem futuro. Isto, na hipótese de o PSD ter um modelo diferente, que só pode ser mais liberal, mesmo que só moderadamente liberal, o que já não era mau.

Quando dois partidos se colam tanto que pouco se diferenciam, o que sobra para a luta política tende a ser incidental, conjuntural: esta nomeação, aquela opção por Ferreira de Cima em vez de ser por Ferreira de Baixo e várias variantes de questões "fracturantes", que em muitos casos são distracções dos problemas centrais de poder político e remetem para agendas em que nem sequer é líquido que o Estado e o poder político devam entrar.

Este "bloco central" político esteve sempre dentro do PSD, como esteve e está no PS e é uma sobrevivência de laços de interesses profundos representados nos dois partidos e que, depois, encontra expressão no rastro salazarista antidemocrático dos consensos. Nos primeiros anos da democracia, este "bloco central" concentrava-se em exercer o poder através da economia nacionalizada pós-1975, daí poder ser representado simbolicamente na cena real de responsáveis dos dois partidos reunidos a distribuir os lugares de gestores públicos nas empresas: estes dois são para mim, este fica para ti, este vai para a TAP e dou-te dois na CP, mas este da EDP não pode ser comparado como este na Imprensa Nacional, etc., etc. Este tipo de partilhas que durou até há muito pouco tempo e em muitas áreas, a começar nas autarquias e nas empresas municipalizadas, ainda está longe de ter acabado.

Mas o "bloco central de interesses" evoluiu com a economia, e adaptou-se às privatizações, deslocou-se para fora do Estado e foi para os grupos económicos, para os bancos, as seguradoras, as empresas de construção civil, etc., etc. Quase que se pode formular uma regra simples: quanto mais depender um grupo económico de decisões do governo para conduzir a sua actividade empresarial, tanto maior é a presença deste "bloco central de interesses" no seu seio. A deslocação do Estado para o privado significa que os mecanismos de influência tendem a deslocar-se de fora para dentro, a centrar-se na mediação de negócios, assentes em empresas de consultadoria e em grandes escritórios de advogados, que todos sabem serem as portas certas para chegar ao governo, este e os anteriores. Quando um partido político, ainda por cima na oposição, se demarca deste jogo de interesses instalado, as suas lideranças são sujeitas a um processo que começa pela descredibilização e acaba na tentativa de expulsar os incontroláveis. Marcelo Rebelo de Sousa, num momento da sua liderança, quando contestou alguns grandes negócios, foi sujeito a essa campanha.

É verdade que no PSD há a presença deste "bloco central", mas há também uma tradição de ruptura que, no passado, tornou o partido na principal força reformista em Portugal. O PS foi crucial na defesa da democracia política em 1975, o PSD foi crucial na normalização democrática. Sem o PSD, na fórmula da AD de Sá Carneiro, não se iria tão longe e tão cedo no fim da presença militar na tutela da democracia. Sem Cavaco Silva não haveria uma cultura de "bom governo", o fim da Constituição socializante na economia, o retorno à economia de mercado, o boom de infra-estruturas, a democratização do ensino, uma modernização imperfeita mas real do país. Ambos associaram um programa de reformas à alteração das condições políticas dominantes em momentos desejados e sentidos como de ruptura: Sá Carneiro e Freitas do Amaral mostraram que outros partidos podiam governar Portugal que não apenas o PS, e Cavaco abriu caminho para as maiorias absolutas como condição de governabilidade.

Se estamos no caminho do bonnet blanc, blanc bonnet, como dizem os franceses, esta é a melhor receita para matar o lado reformista do PSD, o de Sá Carneiro e Cavaco Silva. Sem esse lado reformista, o PSD ficará tão próximo do Governo e do PS que, à luz de um, não se vê a sombra do outro. E nem de holofote a laser, banhado no mais forte néon, Diógenes encontrará qualquer homem na cidade.

(No Público de 22 de Dezembro de 2007)

(url)

23.12.07


EARLY MORNING BLOGS


1184 - On s'en fiche!

De traverse en traverse,
tout va dans l' univers
de travers.
Toute femme est perverse,
tout traiteur exigeant
pour l' argent.
à tout jeu le sort nous triche ;
mais enfin est-on gris,
biribi,
on s' en fiche !

Désespoir d' un ivrogne,
vient un marchand maudit
qui vous dit
qu' en Champagne, en Bourgogne,
les coteaux sont grêlés
et gelés.
à tout jeu le sort nous triche ;
mais enfin est-on gris,
biribi,
on s' en fiche !

Oubliez une dette,
chez vous entre un huissier
bien grossier
qui vend table et couchette,
et trouve encor de quoi
pour le roi.
à tout jeu le sort nous triche ;
mais enfin est-on gris,
biribi,
on s' en fiche !

Aucun plaisir n' est stable :
pour boire est-on assis
cinq ou six,
avant vous sous la table
tombent deux, trois amis
endormis.
à tout jeu le sort nous triche ;
mais enfin est-on gris,
biribi,
on s' en fiche !

C' est trop d' une maîtresse :
que je fus malheureux
avec deux !
Que j' eus peu de sagesse
d' en avoir jusqu' à trois
à-la-fois !
à tout jeu le sort nous triche ;
mais enfin est-on gris,
biribi,
on s' en fiche !

De ma misanthropie
pardonnez les accès
et l' excès ;
car je crains la pépie,
et je ne vois qu' abus
et vins bus.
à tout jeu le sort nous triche ;
mais enfin est-on gris,
biribi,
on s' en fiche !

(P.-J. de Béranger )

*

Bom dia!

(url)

22.12.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



Hoje à noite. Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)



Lisboa depois de feitas as últimas compras de Natal. (António Cabral)



Patinador no logradouro da Casa da Música, no Porto. (Gil Regueiro)



Recolha de generos para o Banco Alimentar, Escola Secundária de Alcochete. (Carlos Romão)



Presépio de palha, Escola EB2,3/S do Baixo Barroso, Venda Nova, Montalegre.
(Isabel Cristina Soares)



(António Cabral)



Imagem do Mercado Municipal de Coari (Amazonas, Brasil).



Manaus (Amazonas, Brasil) de manhã cedo. (Luis Reino)

(url)


COISAS DA SÁBADO: O EMPOBRECIMENTO


Todas as semanas sai uma nova estatística com um único ponto comum: estamos a ficar mais pobres. Agora é uma análise do PIB na UE em que Portugal recua um lugar, começando a aproximar-se da Roménia e da Bulgária.
"O Produto Interno Bruto (PIB) per capita português foi, em 2005, inferior à média da União Europeia em 29 por cento. Uma descida, de um ponto percentual em relação a 2004 ,que contraria a tendência da maioria dos países comunitários. Segundo um estudo do Eurostat divulgado esta segunda-feira, Portugal apresentou no ano passado um PIB per capita de 71 por cento em relação à média dos 25, ao passo que em 2004 este valor era de 71 por cento.

De acordo com o Gabinete de Estatística de Bruxelas, até mesmo alguns dos dez novos Estados-membros contrariam a tendência de Portugal. A República Checa, que apresentou o mesmo valor que Portugal em 2004, este ano já ultrapassou o resultado português em dois valores percentuais. A acompanhar esta subida estiveram o Chipre e a Eslovénia, outros dois países que aderirão à União em Maio de 2004. (...) Já a vizinha Espanha também continua a convergir, ao registar uma subida de um ponto percentual em relação ao 2005, mantendo-se agora nos 98 por cento." (TSF)
Após o esbanjamento de responsabilidade Guterres – Pina Moura, a última oportunidade que tinhamos de andar para a frente, sem grandes custos sociais, oportunidade perdida com tão grande irresponsabilidade que deveria ser inscrita a negro nos anais do nosso pobre país, tem sido sempre a descer.

Sócrates consolidou esse empobrecimento, aumentando brutalmente os impostos, mantendo o estado gastador, pagando um preço altíssimo pelo mito ideológico do Estado – Providência que apoia mal quem deve apoiar para manter uma universalidade de gratuitidades para quem delas não necessita. O caminho para o empobrecimento não vai parar, vai continuar. Está escrito no “modelo social português”, variante já débil do “modelo social europeu”, um mecanismo frágil de garantismo para o presente, para as actuais gerações, mas uma certeza de falência no futuro. E como o futuro é sempre maior do que o presente, e, mal eu escrevo uma palavra começa já na próxima, estamos mal.

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1183 - Song of the Bowmen of Shu

Here we are, picking the first fern-shoots
And saying: When shall we get back to our country?
Here we are because we have the Ken-nin for our foemen,
We have no comfort because of these Mongols.
We grub the soft fern-shoots,
When anyone says "Return," the others are full of sorrow.
Sorrowful minds, sorrow is strong, we are hungry and thirsty.
Our defence is not yet made sure, no one can let his friend return.
We grub the old fern-stalks.
We say: Will we be let to go back in October?
There is no ease in royal affairs, we have no comfort.
Our sorrow is bitter, but we would not return to our country.
What flower has come into blossom?
Whose chariot? The General's.
Horses, his horses even, are tired. They were strong.
We have no rest, trhee battles a month.
By heavn, his horses are tired.
The generals are on them, the soldiers are by them.
The horses are well trained, the generals have ivory arrows and
quivers ornamented with fish-skin.
The enemy is swift, we must be careful.
When we set out, the willows were drooping with spring,
We come back in the snow,
We go slowly, we are hungry and thirsty,
Our mind is full of sorrow, who will know of our grief?

By Bunno, reputedly 1100 B. C.

(Ezra Pound)

*

Bom dia!

(url)

21.12.07


COISAS DA SÁBADO: A DIFERENÇA ENTRE O JORNAL DE NOTÍCIAS E O DIÁRIO DE NOTÍCIAS

No dia em que a operação “Noite Branca” começou a prender suspeitos de serem responsáveis pelo clima de violência no Porto, a comparação entre um jornal de Lisboa, o Diário de Notícias, e um do Porto, o Jornal de Notícias, no mesmo dia 17 de Dezembro, não podia ser mais significativa. O Diário de Notícias falava das biografias e do background dos detidos, fazendo nota, como é óbvio, do seu profundo envolvimento com a claque do FCP, os Super Dragões. Na verdade nenhum destes homens se tornou conhecido por ser segurança na noite, nem por frequentar ginásios e mesmo as suas páginas e vídeos guerreiros (*) nunca tinham merecido muita atenção. Onde eles apareciam era à frente da claque em filmes (a SIC mostrou-os) e em fotos de segurança aos dirigentes do clube. No Jornal de Notícias tudo isto é cuidadosamente omitido e os presos aparecem sem biografia, ou apenas com uma referência casual e singular a essa pertença. De facto, o Jornal de Notícias parece ser um jornal do Casaquistão tal é a ignorância do que se passa à sua volta. Mas não é, é mesmo do Porto e esse é que é o problema: é do Porto e cala.
(*) No Jornal de Notícias nunca se viu. por exemplo, isto? No Jornal de Notícias as letras destas músicas nada tem a ver com o que se passa? De facto só não vê quem não quer ver e é por isso que a estatueta dos macacos que ofereceram a Gandhi está aqui muito bem aplicada.

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1182

No puede hacer cosa buena
El que no la examina,
Ni después se determina.

(Trezientos proverbios... Compuestos por... el noble don Pedro Luys Sanz )

*

Bom dia!

(url)

20.12.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



Barragem da Bemposta no Douro.



Castelo de Bragança, hoje de manhã. (José Costa)





Degola de carneiros num prédio de habitação da classe média em Alger. (J.)



Chuva na Ponte Vasco da Gama. (António Cabral)

(url)


OS NOVOS DESCOBRIMENTOS: POR ONDE ANDA A DAWN?

http://neo.jpl.nasa.gov/orbits/dawn.jpg

A sonda Dawn, que transporta o nome do Abrupto num chip, continua o seu caminho para Vesta e Ceres. Ainda falta muito mas lá chegará.

(url)


BOAS / MÁS / PÉSSIMAS COISAS NA COMUNICAÇÃO SOCIAL PORTUGUESA EM 2007
VISTAS POR UM GRANDE (EM QUANTIDADE) CONSUMIDOR 4



Segue-se a lista 1 e lista 2 + comentários.


A revista Egoísta já recebeu todos os prémios e todos os elogios, mas é a melhor publicação com origem numa empresa (Casino do Estoril) que se publica em Portugal.

A saída da edição lisboeta da Time Out é excelente para a cidade e para todos nós.



A relação entre os media em papel e a blogosfera é muito pouco saudável. (A desenvolver)


(Continua)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1181 - In The Desert

In the desert
I saw a creature, naked, bestial,
Who, squatting upon the ground,
Held his heart in his hands,
And ate of it.
I said: "Is it good, friend?"
"It is bitter—bitter," he answered;
"But I like it
Because it is bitter,
And because it is my heart."

(Stephen Crane)

*

Bom dia!

(url)

19.12.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)







Bona, hoje fim da tarde, princípio da noite. (João Pedro Francisco)



Barca de Alva. (José Costa)



Setúbal. (Ochoa)



Chuva lisboeta. (RM)

(url)

18.12.07


COISAS DA SÁBADO: UM FIM DO ANO TRISTE



para muitos portugueses é o que o fisco traz por carta registada. Por esta altura muitas pequenas empresas estão a fechar, muitas pessoas estão desesperadas para pagar os seus impostos, muita gente está a ficar mais pobre. Não se trata apenas da evasão fiscal, que essa como é obvio não tem desculpa. trata-se do puro e simples facto dos impostos serem muito elevados, demasiado pesados para a maioria dos que os têm que pagar. Numa altura em que nenhum pequeno contribuinte tem qualquer defesa face ao fisco, sem direitos, sem tempo, sem os advogados que as grandes empresas podem pagar, o fisco (com a ajuda da ASAE que é também um braço do fisco) está a fazer estragos invisíveis para a grande comunicação social que apenas se dedica aos “Furacões”, mas bem presentes para os pequenos, os remediados, os esmagados por uma tributação elevadíssima.

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje de manhã. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)





Mirandela hoje. (Eduardo Maximino)







Nuvens, mudança do tempo. (António Cabral)



Colheita matinal.



Jardins da Gulbenkian. (RM)



8:46 am, Sintra (Afonso Azevedo Neves)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1180

tada oreba oru tote yuki no furi ni keri

Apenas estando aqui,
Estou aqui.
E a neve cai.


(Issa, tradução de Edson Kenji Iura)

*

Bom dia!

(url)

17.12.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Estes dias. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)









Tejo, faina fluvial. (António Cabral)



Estado do Amazonas na cidade de Tefé (Brasil). (Luis Reino)



Portraits from the West Coast. (Fernando Gonçalves)



Porto visto da Casa da Música. (MJ)

(url)

16.12.07


O "MEIO"

Eu li o livro de Carolina Salgado com atenção e não devo ter sido o único. Pelos vistos, as polícias também o leram. Não vi ainda o filme feito a partir do livro, em que cada personagem fictícia é colada à personagem real. O Correio da Manhã fez até uma interessante página central em que para cada personagem do filme lá estava a figura real, a família Salgado, Pinto da Costa, o ex-presidente do Conselho de Arbitragem, o vereador de Gondomar que foi espancado, o major, os advogados, os médicos, os empresários do futebol à volta do clube, o líder da claque do FCP, Joaquim Oliveira, o patrão da Olivedesportos, tudo e todos num filme chamado Corrupção. Se os incomoda a figuração e o retrato não sei, o que sei é que é tudo público e conhecido com mais ou menos verosimilhança e ficção, e o retrato é aquele. E das duas uma: ou aquilo é para tomar a sério ou é de faz-de-conta. Parece que é de faz-de-conta.

Eu li o livro de Carolina Salgado com interesse, não pela absoluta veracidade do que lá vem, que cabe às polícias julgar, não pelos motivos dúbios da autora, não pela mão que possa haver de outrem na sua execução, mas sim pelo que ele comporta de descrição perfeita, psicológica, antropológica e sociológica de um "meio" que muitos conhecem mas preferem ignorar, ou por complacência, ou por cumplicidade, ou apenas por medo, puro e simples medo. E se o livro de Carolina Salgado acrescenta o detalhe dos actos individuais vistos de dentro, aquelas fabulosas histórias dos chocolatinhos aos árbitros, esse mesmo "meio" está retratado também nas escutas telefónicas do Apito Dourado, nos mil e um incidentes que envolvem a claque do Futebol Clube do Porto (seria bom conhecer os relatórios policiais e do SIS sobre a perigosidade desta claque), nas violências públicas diversas semeadas ao longo dos últimos 20 anos e que só têm em comum permanecerem impunes. Toda a gente sabe, vem nos jornais, é público, nada acontece. Há demasiado faz-de-conta para ser natural. Tem que haver cumplicidades.

Os incidentes naquilo que eufemisticamente se tem chamado a "noite do Porto" não estão longe deste "meio". Muitas personagens são comuns, muitos sítios são comuns, há fotos e circunstâncias comuns, amizades, companhias, más companhias, jantares, carros e seguranças. O relatório confidencial da PSP sobre a escalada de ajustes de contas entre grupos violentos que o Correio da Manhã publicou esta semana é um retrato preocupante não só sobre o que se está a passar, com o seu rasto de assassinatos, mas também da inacção das autoridades que, sabendo, nada fizeram, mesmo quando as vítimas as informaram das ameaças de morte, entretanto executadas sem dificuldade. As testemunhas calam-se com medo. É à luz destes factos que se devem entender as palavras de Mourinho quando veio ao Porto com seguranças e, perguntado sobre porque é que o fazia, respondeu: "Quando vou a Palermo tenho de tomar cuidado." O special one sabia do que estava a falar.

Pode-se dizer que faço uma amálgama indevida entre casos distintos que só têm em comum a ilegalidade dos actos? Significa isso que eu defendo que há uma causalidade de mando entre A e B? Só por má-fé e para confundir as coisas é que tal se pode afirmar. O que eu digo e repito é que há um "meio" muito pouco saudável no Porto, que se tem vindo a criar nos últimos 20 anos, que goza de consideráveis cumplicidades e complacências, policiais e políticas, no PS e no PSD, onde tudo acontece e parece que nada acontece, e que, quando se diz aquilo que é uma evidência, cai o Carmo e a Trindade.
Devia ter acrescentado jornalísticas, mas foi esquecimento. Fica aqui rectificado.
Não os meto no mesmo saco de responsabilidades criminosas como é óbvio, não digo que A foi mandante de B num crime determinado, nem nada que se pareça, nem confundo as instituições, nem o clube, nem a cidade, com os homens que se servem delas ou do seu nome. Apenas digo que o "meio" é comum e comunicante e que as sementes de violência, as protecções e cumplicidades, os serviços e os "servicinhos" não são estanques. A "noite do Porto" tem o seu dia. E digo mais: para atacar uma coisa tem de se atacar a outra e é preciso livrar o Porto dessa doença que lavra no seu seio. Só não vê quem não quer ver ou quem, vendo, tem medo de ver.

É um "meio" que só exista no Porto? Outros "meios" existem em Lisboa, no Algarve, nos subúrbios de Lisboa, nalguns casos com diferentes níveis de perigosidade e com outro tipo de ligações políticas, com problemas étnicos diferentes, mas, em nenhum outro sítio, se associou ao nome da cidade, ou o nome de um clube, a um mesmo grupo de personagens, a um mesmo milieu, a melhor palavra para designar o ambiente miasmático em que tudo se passa.

Numa também típica reacção "italiana" - os mafiosos dos Sopranos quando são perseguidos pelos seus crimes respondem que se trata de uma perseguição aos italo-americanos -, levantam-se vozes indignadas a defender, imaginem, o Porto e o FCP "nojentamente" atacados por mim. Um deles escreve que "crimes como estes não são fáceis de explicar, as suas razões profundas são difíceis de entender. Fácil, fácil, é dizer que a culpa é do FC Porto", o que como é óbvio ninguém disse, e outro escreve esta pérola: "De Pacheco Pereira podemos esperar tudo, desde que vivamos na Área Metropolitana do Porto." As mais sinistras intenções me são atribuídas e as ameaças veladas ou às claras abundam. As mesmas pessoas que em público dizem que nada disto existe e que estou a exagerar, dizem-me depois em privado para ter cuidado, muito cuidado.
Os artigos citados são de David Pontes no Jornal de Notícias e de Manuel Tavares no Jogo, os dois de 14 de Dezembro de 2007. Ambos se inserem numa campanha de ódio ad hominem, sendo que a desonestidade e falsidade do primeiro, escrito por um responsável do jornal de que José Saraiva foi director, intitulado "As costas largas do FC do Porto", representa uma deturpação deliberada destinada a acirrar a violência cujos ecos se encontram aqui entre insultos e apelos à agressão física.
Os jornais do Porto e alguns desportivos, cujo papel na denúncia deste tipo de "meios" é escassa para não dizer nula, mesmo quando agressões violentas a jornalistas os deveriam ter obrigado a um sobressalto moral, fazem assim um péssimo serviço à cidade e aos seus valores. Deveriam lembrar-se do rol das agressões a jornalistas que se estende desde o final dos anos 80 até aos dias de hoje e em que os jornalistas desportivos têm um lugar de honra, mas não só. Carlos Pinhão, Eugénio Queirós, João Freitas, Manuela Freitas, Marinho Neves, Paulo Martins, entre outros, a que se associa José Saraiva, militante do PS e director durante muitos anos do Jornal de Notícias, já falecido, conheceram o "meio" na prática.

"20.11.1988 – Em Aveiro, Carlos Pinhão de A BOLA foi agredido no final de Beira Mar-Fcporto. O MP não acompanhou a queixa por falta de provas. No mesmo dia, Martins Morim, do mesmo jornal quando abandonava o estádio foi empurrado por um grupo de indivíduos entre os quais identificou Tonio Maluco. O guarda Abel disse aos jornalistas que “era melhor do que cair por uma ribanceira”

5.3.1989 – Eugênio Queirós do Correio da Manhã, foi violentamente empurrado para fora do corredor de acesso à cabine do Fcporto no Estádio do Restelo. Apresentou queixa na PJ que acabou arquivada por não conseguir identificar os agressores

24.9.1989 – João Freitas de A BOLA foi agredido perto dos balneários das Antas. Foi assistido no Hospital de Santo António e identificou Virgílio Jesus e um tal Armando entre os agressores. A queixa foi arquivada porque a testemunha principal o agente da PSP Oliveira Pinto, disse que não se lembrava nada

4.10.1990 - Manuela Freitas do jornal Publico na véspera do jogo Portadown-Fcporto, foi ameaçada e insultada no hall do hotel por integrantes da comitiva portista

24.10.1990 – José Saraiva, chefe da redacção do jornal de Noticias, foi agredido de madrugada à porta de casa. Não identificou os ofensores. O JN publicara uma noticia envolvendo Pinto da Costa num caso de investigação pela PJ de Aveiro

1.9.1992 – Pinto da Costa, o filho e Joaquim Pinheiro intimidam o jornalista António Paulino e forçam a entrada do Expresso, no Porto, procurando descobrir quem fora o autor de uma noticia envolvendo Alexandre Pinto da Costa

11.12.1994 - Marinho Neves da Gazeta dos Desportos, foi agredido por dois seguranças afectos ao FCPORTO após ter publicado uma reportagem sobre os meandros da arbitragem. Fez queixa à PJ acompanhada da foto dos agressores, e apresentou quatro testemunhas que nunca foram ouvidas

10.3.1993 – Paulo Martins da RTP, no final de um jogo nas Antas, com o Famalicão, foi agredido em directo. Não houve queixa judicial" (Expresso)

O mais espantoso é que muitos deles nunca apresentaram queixa, outros nunca souberam o resultado das suas queixas, e mesmo quando as agressões são públicas, não se passa nada. Nunca se passa nada e nunca ninguém quer ver. E quando se fala do que está à vista de toda a gente, é uma conspiração "lisboeta", "benfiquista", contra o Porto, o Norte e o FCP e os tambores do ressentimento regionalista rufam contra os "mouros". Têm pouca sorte comigo, porque menos "mouro" que eu é difícil.


De poucas coisas gosto mais do que do Porto, a minha terra. Vou para lá e, ao fim de meio dia, já troco os "vês" pelos "bês". Os meus lugares são a D. João IV, Santos Pousada, o Padrão, a Batalha, o jardim de S. Lázaro, o Marquês, o Liceu Alexandre Herculano, os Leões, o Piolho, a Sé (onde nasci), a Ribeira, a Foz, a Circunvalação, e a memória, infelizmente só a memória por que o estão a estragar, do Cabedelo visto do Porto. É lá que quero ter as minhas cinzas deitadas, onde o Douro, o único rio a sério em Portugal, entra pelo Atlântico, com fúria. E também, imaginem, o "meu" clube, na forma mínima como me dou com o futebol, é o Futebol Clube do Porto...

Só lá me sinto inteiro, sem heimatlos. E é exactamente por isso que a doença que grassa já há uns anos na minha terra me preocupa e não me cala. Não foi "Lisboa" que a inventou, foram portuenses que a fizeram e que a mantêm com todos os maus argumentos e com a única lógica que conhecem, a do poder e a do dinheiro, com a mesma dimensão do Bada Bing. Tenho a veleidade de considerar que, falando desta doença e destes "meios", sirvo melhor a minha terra, o Porto.

(No Público de 16 de Dezembro de 2007)

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Estes dias. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



Bombeiros em Nova Iorque. (João Costa)



Circo Máximo de Roma ao fim da tarde. (Raúl César Sá)





Lisboa de baixo e de cima. (RM)



Dia de descanso. (António Cabral)



Lavadouro público, na freguesia de Junqueira, Vila do Conde (Nelson Silva e Mónica Fernandes)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1179 - Historion


No man hath dared to write this thing as yet,
And yet I know, how that the souls of all men great
At times pass athrough us,
And we are melted into them, and are not
Save reflexions of their souls.
Thus am I Dante for a space and am
One Francois Villon, ballad-lord and thief,
Or am such holy ones I may not write
Lest blasphemy be writ against my name;
This for an instant and the flame is gone.

'Tis as in midmost us there glows a sphere
Translucent, molten gold, that is the "I"
And into this some form projects itself:
Christus, or John, or eke the Florentine;
And as the clear space is not if a form's
Imposed thereon,
So cease we from all being for the time,
And these, the Masters of the Soul, live on.

(Ezra Pound )

*

Bom dia!

(url)

15.12.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 15 de Dezembro de 2007




Governar para os media: a operação policial de ontem à noite é uma pura exibição mediática do MAI para dar a entender que alguma coisa se faz para combater a violência no Porto.

*

Penosa a cena de Maria Barroso e Villas Boas a irem com as televisões atrás beijar o sargento que mantem na sua posse a criança "Esmeralda", numa manifestação de completa irresponsabilidade face a um problema que só ajudam a agravar. Em breve se saberá se há estado de direito ou de espectáculo em Portugal.

*




É difícil discutir tão mal um problema demasiado sério como são os objectivos e métodos da ASAE como fez o Expresso da Meia Noite da SICN ontem.

*

Muito trabalho eu dou ao meu pobre cão.

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Estes dias. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



Passagem do tempo por um banco do jardim em Alcochete. (António Cabral)



Portraits from the West Coast. (Fernando Gonçalves)



Ground Zero.



Nova Iorque. (João Costa)



Barcelona. (Ochoa)







Manifestação nas Laranjeiras. (MJ)

(url)

14.12.07


BOAS / MÁS / PÉSSIMAS COISAS NA COMUNICAÇÃO SOCIAL PORTUGUESA EM 2007
VISTAS POR UM GRANDE (EM QUANTIDADE) CONSUMIDOR 3



Segue-se a lista 1 e lista 2 + comentários.

Coisas boas

Blogues: Abrupto; Rerum Natura; Indústrias Culturais - entre uma grande diversidade de blogues e seus comentários, que escolho ver, ler e ouvir.

Imprensa escrita e online: ‘Visão’; ‘Expresso’ / ‘Actual’; ‘Público / ’Mundo’ e ‘Pingue-pongue’; os comentários no sistema online.

Televisão: Programas de debate em directo ou com reduzida mediação editorial e boas Séries (nacionais e internacionais) - RTP2 / quase todos os programas e noticiários; SIC Notícias / alguns debates e ‘60 minutos’; RTPN / noticiários, debates e ‘Antena Aberta’; RTP1 / alguns ‘Prós e Contras’ e série ‘Guerra’.

Rádio: RTP, Antena 2 / música; Marginal / música; RTP, Antena 1 / ‘Contraditório’ e ‘Revista de Imprensa’, entre outros.

Coisas más

Blogues: Incoerência nas preferências do(s) autor(es) - os blogues são lugares virtuais onde se veicula todo o tipo de convicções, que procuro conhecer, ou não.

Imprensa escrita e online: A incompetência, cobardia e aligeiramento da crítica cultural e política (nacional e internacional); as pequenas armadilhas para os cidadãos, forjadas como sendo campanhas institucionais e humanitárias (ex: campanhas de solidariedade e/ou de esclarecimento sobre temas de sustentabilidade energética/outras); a predominância de notícias redutoras em todos os jornais, incluindo os gratuitos; o sistema online pago.

Televisão: Dominância de concursos e novelas no horário nobre; reduzido jornalismo de investigação; noticiários longos e predominantemente politico-institucionais.

Rádio: Por preferências de horários/conteúdos, mudo de canal quando me desinteressam os programas ou aparece a publicidade.

Coisas péssimas

Blogues: Jactância do(s) autor(es) - os blogues podem intrometer-se de forma arrivista nas nossas preferências de busca.

Imprensa escrita e online: A inexistência da crítica cultural e política (nacional e internacional) nos diários e semanários; as grandes armadilhas para os cidadãos, forjadas como sendo campanhas institucionais e humanitárias (ex: campanhas políticas sob a capa de campanhas culturais); a predominância de notícias enganosas em todos os jornais, incluindo os gratuitos.

Televisão: Excesso de concursos e de publicidade; ausência total de programas culturais; predominância de ‘noticiário de agência’.

Rádio: Por preferências de horários/conteúdos, desligo quando me incomodam os programas e a publicidade.

(MJ)


*

1.Boas

A Guerra, Joaquim Furtado, RTP

Intelectuais há muitos, carta de um leitor, Revista Única, Expresso, 24Nov07.

Um cheiro intenso a cadáver, António Marinho Pinto, Público, 26Set07.

A funcionalização dos magistrados, Henrique Monteiro, Expresso, 24Nov07.

A casa tradicional portuguesa, Revista Única, Expresso, 17Nov07.

As lições que a escola vai dando, Henrique Monteiro, Expresso, 27Out07.

Portugal, um retrato social, António Barreto e outros, RTP.

Ramalho Eanes e a República, Baptista Bastos, Jornal de Negócios, 2Fev07

O estilo e a substância, Constança Cunha e Sá, Público, 15Mar07.

Pressionar (um jornalista) no sentido de evitar uma notícia, é hoje um disparate, Mário Crespo, Diário económico.

O País tem de saber se pode acreditar na qualidade dos títulos académicos atribuídos pelas universidades, Medeiros ferreira, DN.

Um bom ensino superior é uma missão de soberania, não deve cair no economicismo, Adriano Moreira, Público, 2Abr07

2.Más

O que parecem ser certas relações entre jornalistas de economia e grupos económicos.

A manutenção de certos jornais e revistas aparentemente em pré-coma.

Muitos OCS continuam demasiado iguais ao que sempre foram.

3.Péssimas

A forte contribuição de muitos OCS, na forma e no conteúdo, na sugestão à sociedade da noção (errada) de que pose e aparência são quase tudo.

A forma e o tempo de certas notícias, deixam muitas vezes a sensação/suspeição de por trás existirem ou terem existido pressões sobre jornalistas.

A continuada e muito generalizada atitude de não publicar/reportar direitos de resposta com o mesmo destaque do que lhe deu origem.

(António Cabral)

*

Outro epifenómeno que me perturba particularmente (ou não fosse eu militante activo de um partido, no caso do PSD/JSD), e que vem confirmar a "preguicite aguda" dos jornalistas e jornalismo portugueses, é o facto de estes só publicarem os comunicados dos partidos políticos quando estes venham já em formato " prêt-à.porter", isto é, quando o texto venha, da fonte, jornalisticamente (?!) preparado para ser imprimido tal qual.

Como é possível que não se dêem sequer ao trabalho de confirmar o que lhes dizem, nem uma simples chamada ou email para contradizer ou esclarecer aspectos mais ou menos dúbios.
Que jornalismo é este que se faz com aspas e parêntesis, que esquece os principais mandamentos da profissão em favor de uma visão (alegadamente) agnóstica, mas que se compraz em pincelar com locuções conjuntivas a propaganda política ( vide exemplo Sócrates e o Babilónico "Tratado de Lisboa, se bem que na imprensa regional não se notam diferenças para melhor), seja ela qual for.

(João Marques)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1178 - Credo

I would rather be ashes than dust!
I would rather that my spark
should burn out in a brilliant blaze
than it should be stifled by dry-rot.

I would rather be a superb meteor
every atom of me in magnificent glow
than a sleepy and permanent planet.

The function of man is to live
not to exist.
I shall not waste my days trying to prolong them.
I shall use my time.

(Jack London)

*

Bom dia!

(url)

13.12.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.


(Susan Sontag, On Photography)



Trabalhos durante a noite na estação de S. Apolónia. (A)

(À memória de Maurício Levy assassinado há dias, um dos grandes especialistas de comboios em Portugal, leitor e colaborador do Abrupto. Para além das notas anteriores foi publicado em anexo ao Abrupto o seu texto Sou o último viajante – recordações do “Sud-Expresso”.)



Anoitecer em Monsanto. (António Cabral)



Pombos em Barcelona. (Ochoa)



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

(url)


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 13 de Dezembro de 2007 (2)


Alguém lembra à jornalista da RTP que faz o relato da chegada dos signatários do Tratado ao Museu do Coches que uma manifestação e uns assobios não são uma "mancha" na alva brancura do acto cerimonial?

*

Já não vale a pena sequer lembrar à RTP ( e admito que neste caso às outras estações) que o Tratado é um documento político, um documento político, um documento político, um documento político, um documento político, um documento político, e que não é suposto os jornalistas tratarem assim um documento político, um documento político, um documento político, um documento político, repetindo na sua voz e nas suas palavras sem distanciação o discurso dos políticos que o fizeram, coisa que não fariam em relação a nenhuma outra coisa, seja um programa de governo, um discurso de oposição, ou uma moção parlamentar. Repetindo todos os lugares comuns do discurso oficial como se fossem seus, os jornalistas abdicam da sua qualidade para se tornarem propagandistas.

*
A sua nota sobre o "documento político", além de arrancar uns sorrisos (talvez porque um dos mistérios deste Universo seja qual a natureza do senso de humor de JPP), lembrou-me que aqui há uns anos estive em Glasgow pelo programa Erasmus e tomei contacto com a escola de pensamento dos escoceses referente à Teoria do Discurso. Significativamente mais interressante do que o que tenho visto por cá, baseada em princípios retirados de Foucault, com grande componente prática. Um dos professores, Hugh O'Donnell, tinha vários trabalhos de investigação publicados, incluindo uma análise do funeral de Diana, e tinha estabelecido algumas regras básicas de "spinning" utilizadas pelos Media ou pelos SpinDoctors que os tentam influenciar. Uma dessas regras era "nacionalização" do evento, o torná-lo uma questão de Nação e não de Governo. A força dessa idéia seria tão forte que se torna por um lado um pathos irresistível, e por outro cria uma ansiedade terrível nos órgãos que contemplam o não-seguidismo. No geral, o resultado seria que todos entrassem em linha. O argumento era exemplificado, por exemplo, com uma gravação que mostrava como o discurso do pivot no funeral de Diana - "o luto nacional, a multidão chorosa, as manifestações de saudade" - constrastava com as imagens que se víam - a festa, as máquinas fotográficas, os turistas.

Creio que por cá abundam casos (sendo Timor e o Euro2004 os que me vêm à cabeça como as grandes experiências de laboratório), mas talvez este tratado seja de certo modo o mais marcante porque sim - é um documento 100% político, uma cerimónia 100% política, que consegue o milagre de se furtar, pelo menos na televisão, aos usuais mecanismos de crítica democrática. Infelizmente, não tenho tido tempo para ver os jornais desta semana, não faço ideia se a imprensa afina pelo mesmo diapasão.

(Paulo Lourenço)

(url)


BOAS / MÁS / PÉSSIMAS COISAS NA COMUNICAÇÃO SOCIAL PORTUGUESA EM 2007
VISTAS POR UM GRANDE (EM QUANTIDADE) CONSUMIDOR 2



Segue-se a esta lista. + comentários.


Expresso
e Sol. (Em breve.)


O suplemento Digital do Público.


O suplemento Ipsilon do Público.

Sugestões dos leitores que entram já para este balanço, o que não significa que outras não venham a entrar:

A febre dos directos, sempre que há uma notícia, um pequeno acontecimento temos que assistir ao filme deprimente do jornalista a tropeçar nos cabos, a engasgar-se sem saber o que há-de dizer, a fazer perguntas completamente despropositadas aos "populares" e claro, no final, a explicar-nos tudo aquilo que acabámos de ouvir [às vezes de forma deturpada o que permite imaginar a qualidade de alguns jornalistas]. (Paulo Rocha)


Edições de qualidade do Público: Àrvores e Florestas de Portugal. (RM)

(Continua)

*
Uma pequeno nota:

Em baixo refiro informação/imprensa desportiva. Conheço a sua opinião sobre o peso do "futebolês", em especial na TV. Eu subscrevo-a, quando refere os excessos, de tempo, de amplificação, dilatação e repetição de irrelevâncias

Só que por outro lado, gosto de seguir o Desporto. Especialmente o Futebol. Por isso é inevitável a procura, nos 'média', de noticias sobre o tema. Onde quero e espero apenas ser bem informado! Não mais, nem permanentemente, apenas bem, o que inclui a ponderação adequada do tema "Desporto" no quadro geral de outras, porventura mais importantes, noticias e a clara separação do "Desporto" (o dos golos, das medalhas..) de outros aspectos que podem ser tratados nos tempos e em meios onde existe disponibilidade para outras abordagens, e.g. tabloide ou publicitária.

--------
Boas Coisas:

- A acrescentar ao blog de JG "O Portugal dos Pequeninos", os excelentes textos de Francisco José Viegas no "Origem das Especies" e de Filipe Nunes Vicente no "Mar Salgado".

- A secção de Opinião do "Público" - a sua coluna, mas também a de Vasco Pulido Valente, António Barreto, Rui Ramos e muitos dos Editoriais de José Manuel Fernandes.

- No piorar do "Expresso", continua porém a valer a pena João Pereira Coutinho,
e os escritos de José Cutileiro e Miguel Monjardino sobre o mundo além-fronteiras.

- Apesar de se estar a acomodar, a SiC-Noticias resta a referência para Noticiarios, Reportagens e programas de debate.

Más Coisas:

- A aparente facilidade com que a Comunicação Social se esquece de monitorizar e depois avaliar/confrontar/pedir contas, e.g. ao Governo, a Autarcas, aos Politicos ou a outros actores da vida pública. As primeiras páginas de meses atrás, onde se anunciavam e.g., "choques", simplificações, novas eras, reformas, etc, só esporádicamente são re-analisadas. Não sei se é impressão minha, mas antes viam-se mais ministros (agora a moda parece ser mandar secretários de estado; nunca se viram tantos como agora!) ou politicos a prestar contas, a ser escrutinados pelo que fizeram ao mesmo tempo que anunciavam/discutiam novas/futuras iniciativas. Agora parecem só falar do "futuro"!

- Miguel Sousa Tavares, que no tempo de Cavaco foi "Nómada no Oásis" e depois intuiu a síntese perfeita dos anos de Guterres, i.e. "Os Anos Perdidos", parece sedado, algo repetitivo e um pouco ensimesmado. Só se exalta com os PINs e aparece verdadeiramente em forma nos seus escritos em "A Bola".

- O Jornalismo/edição desportiva - especialmente nos jornais da especialidade da capital, mas ainda na rádio e tv. Intui-se demasiada incompetência, boçalidade e muita disponibilidade para o 'frete'; reproduz-se muita 'opinião' de gente sem ela, ou então, cuja dita é simplesmente irrelevante.

Nos jornais, as primeiras páginas, que não os conteúdos - especialmente nas publicações da Capital- são com frequência completamente desfasadas de qualquer intuitiva relevância noticiosa, ou mesmo desprovidas de qualquer informação.
Por outro, repetem-se conteúdos, com demasiadas "talking heads" a mimetizarem-se, sem que exista o minimo de análise, hierarquização ou ponderação critica. O "Público" ainda se esforça por algum profissionalismo, mas falta uma referência séria, onde o desporto é observado e noticiado de forma mais equilibrada e objectiva.

(A.J. F. Rebelo )

*

Enchendo chouriços na rádio
Em certos noticiários radiofónicos, há o péssimo hábito de nos darem as notícias em triplicado, quadruplicado ou "pentuplicado". O padrão, com pequenas variantes, é o seguinte:

1 - [Dos estúdios]: «O senhor Batatas garante que vai estar um dia muito bonito. Vamos passar em directo para (...), onde está o Sr. Batatas».

2 - [O repórter local]: «Estamos em directo com o Sr. Batatas, que nos garante que vai estar um dia muito bonito»

3 - [O Sr. Batatas]: «Sim, garanto-vos que vai estar um dia muito bonito!»

4 - [O repórter local]: «Pudemos ouvir o Sr. Batatas que nos garantiu que vai estar um dia muito bonito»

5 - [Dos estúdios]: «Ouvimos o nosso repórter (...), em directo com o Sr. Batatas, que nos garantiu que vai estar um dia muito bonito».

(C. Medina Ribeiro)

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Estes dias. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)







Jardins japoneses. (António Rebordão)

(url)


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 13 de Dezembro de 2007


É um pouco tarde e a más horas, mas mais vale tarde do que nunca: a comunicação social começa a falar de alguns aspectos do Tratado em que o tratam como documento político, de política externa e interna, e não como a Verdade Revelada. Por exemplo:
Nas regras de Nice, Portugal pesava 3,4% em cada decisão; após 2014, terá apenas 2%; a Alemanha sobe de 8,4% para 16,7%; a França, de 8,4% para 13,2%. Em resumo, Berlim terá maior facilidade em fazer aprovar ou bloquear decisões. A proporcionalidade é mais democrática, mas prejudica os pequenos países. (Diário de Notícias)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1177 - Vespers [In your extended absence, you permit me]

In your extended absence, you permit me
use of earth, anticipating
some return on investment. I must report
failure in my assignment, principally
regarding the tomato plants.
I think I should not be encouraged to grow
tomatoes. Or, if I am, you should withhold
the heavy rains, the cold nights that come
so often here, while other regions get
twelve weeks of summer. All this
belongs to you: on the other hand,
I planted the seeds, I watched the first shoots
like wings tearing the soil, and it was my heart
broken by the blight, the black spot so quickly
multiplying in the rows. I doubt
you have a heart, in our understanding of
that term. You who do not discriminate
between the dead and the living, who are, in consequence,
immune to foreshadowing, you may not know
how much terror we bear, the spotted leaf,
the red leaves of the maple falling
even in August, in early darkness: I am responsible
for these vines.

(Louise Glück)

*

Bom dia!

(url)

12.12.07


BOAS / MÁS / PÉSSIMAS COISAS NA COMUNICAÇÃO SOCIAL PORTUGUESA EM 2007
VISTAS POR UM GRANDE (EM QUANTIDADE) CONSUMIDOR



NOTAS DE ABERTURA

Escrevo no Público e na Sábado e participo em programas da SICN e do RCP. Se esses são conflitos de interesse, aqui ficam registados. Este balanço depende muito do que li, ouvi e vi directamente, logo pode ser desigual e injusto com muito de bom ou mau na comunicação social. Ouço pouca rádio, e vejo poucas vezes a TVI com excepção dos noticiários, mas leio quase toda a imprensa.

Estas primeiras notas são ainda uma aproximação incompleta, em muitos casos enunciando apenas a questão para posterior desenvolvimento. Como sempre, espero dos leitores do Abrupto opiniões, sugestões, correcções e debate, antes de fazer um texto definitivo.


*


A grande falha no debate público e a grande ausência de pluralismo e contraditório na comunicação social: a questão europeia, a Presidência portuguesa e o Tratado.


Os "momentos-Chávez " de Sócrates na RTP são melhor retrato da governamentalização do "serviço público". O modo como se dá acolhimento embevecido às sessões de propaganda do governo (nalguns casos com casting profissional) distinguem os telejornais da RTP dos demais noticiários.

O tempo que mediou entre as primeiras publicações de documentos levantando problemas sobre a carreira e os títulos académicos do Primeiro-ministro (no blogue Do Portugal Profundo) e a sua notícia num jornal de referência, o Público. E o tempo do silêncio, muito mais grave, entre a primeira notícia do Público e as primeiras referências noticiosas noutros jornais e na televisão.


Como nos anos anteriores, continua a futebolite crónica, o circo a que temos direito e de que os governos gostam porque ocupa espaço no ecrã e acima de tudo, na cabeça.



A obsessão pública, doentia e perversa com os "casos de crianças": Esmeralda, Maddie, Iara, e a Joana.




A ERC.



Na blogosfera desapareceu o Bloguítica que faz falta.


A forma do Público em linha não me convence. Ao assentar a apresentação do jornal na reprodução da página em papel ela mostra uma opção pela fixidez estática do papel desvalorizando a grande vantagem da Rede que é o hipertexto. Os artigos ficam assim presos ao papel e a edição em linha não ganha a funcionalidade própria do meio. Não é mais do que o papel, é menos porque não tem sequer o espaço visual do papel.



A edição do Diário de Notícias em linha continua muito má.

Vantagens únicas da blogosfera. A facilidade de fazer blogues permite excelentes oportunidades para se entenderem melhor personalidades, estilos e opiniões que nunca se perceberiam tão bem e tão publicamente se estes "diários" não existissem. Três exemplos:
1. Os blogues de jornalistas que são excelentes retratos do que está por trás das notícias, simpatias, antipatias, adesões, ideias, gostos, amizades electivas, ódios de estimação. Eu se tivesse um conselho de prudência a dar a muitos jornalistas portugueses seria o de que nunca, jamais , em tempo algum, escrevessem blogues tão reveladores como, por exemplo, o Glória Fácil ou o Corta-Fitas. Percebe-se tudo bem demais.

2. Blogues como o Lugares Comuns de Luís Paixão Martins interessam-me para perceber o craft, a arte, a técnica, a especialidade.

3. Na categoria de blogues -retrato único, imprescindível, insubstituível, absolutamente espelhar, absolutamente revelador, o mais significativo é o de um político: Pedro Santana Lopes. Espero que os seus textos nunca sejam apagados.
O blogue que eu mais leio enquanto blogue, uma categoria especial que só existe para este media, é o Portugal dos Pequeninos. Na meio da pasmaceira nacional, nas suas idiossincrasias entre o zangado e o ingénuo, o João Gonçalves faz o seu blogue com força, pathos e bathos.

De forma sistemática, leio o Blasfémias, o Cinco Dias, o Causa Nossa, o Da Literatura, entre outros. De forma especial leio A Terceira Noite, a Natureza do Mal e o fworld. O blogue com informações "técnicas" que leio em português é o Planet Geek.

O José Medeiros Ferreira apreendeu bem a forma-blogue de escrever embora eu o leia mais vezes transcrito por outros do que no Bicho Carpinteiro onde o resto me interessa pouco.


Blogues que acrescentam. (Em breve.)

O aparecimento e a sobrevivência de revistas políticas como a Atlântico é tão raro em Portugal que merece ser saudado, independentemente de se concordar ou não com a sua linha editorial.


O reaparecimento da revista Artes e Leilões.

(Continua.)

*

Más coisas nas comunicação Social Portuguesa :

1. A monotonia do Jornalismo económico .Sempre as mesmas caras , os mesmos protagonistas , as mesmas declarações ...No fundo , o espelho de uma economia pouco dinâmica que não consegue produzir novas empresas , nem novos empresários ...

2. A crispação do jornalismo desportivo .

3. A pobreza franciscana dos sites dos órgãos de comunicação social portuguesa ( excepcção ao Público e ao Expresso ). Particularmente grave o site do DN.

4. A existência de Jornais moribundos, que ninguém lê , em completo estado vegetativo : Diabo , Semanário e provavelmente outros .


Boas coisas nas comunicação Social Portuguesa :

1. A saída da Informática e das Novas tecnologias da esfera dos especialistas e freaks para o público generalista com a edição de suplementos bem editados como o e o contributo de Lourenço Medeiros ( um bom comunicador ) com os seus apontamentos no telejornal da SIC.

(João Melo)

*

Péssimas
O Caso Maddie
Más
Relações entre jornalistas de economia e grandes empresas
(Martim Avillez Figueiredo na Sonae e Sérgio Figueiredo? na EDP)
Cobertura acrítica e laudatória dos eventos da presidência Portuguesa da UE
Boas
O documentário sobre a guerra do ultramar por Joaquim Furtado

(Luís Bonifácio)

*

A sua principal omissão já foi assinalada pelo seu leitor Luís Bonifácio, mas quero realçá-la: o documentário de Joaquim Furtado sobre a guerra do Ultramar.

Uma sugestão para a categoria «Péssimas»: a perseguição movida pela direcção da RTP a José Rodrigues dos Santos.

(José Carlos Santos)

*


Coisas boas na Comunicação Social em 2007:

Os espaços de intervenção pública:
Antena 3 - Prova Oral
SicNotícias - Opinião Pública

O programa de comédia/entretenimento Vai Tudo Abaixo apresentado
na SicRadical e disponível no YouTube

A qualidade informativa do Jornal2

As notas semanais de António Vitorino na RTP1 - clareza e síntese

Coisas más:

A falta de informação sobre os processos políticos europeus & o excesso de informação e mediatização dos feitos políticos do governo nacional (e do primeiro-ministro), nomeadamente a apresentação dos pequenos ajustes administrativos como grandes reformas e restruturações.

A propaganda do "grande sucesso da presidência portuguesa da UE" engolida por grande parte dos agentes da Comunicação Social.

O brilharete de José Sócrates na RTP em Abril de 2007 com a ajuda de Maria Flor Pedroso e sobretudo de um muito dócil José Alberto Carvalho.

O excesso de protagonismo do comendador/comentador Joe Berardo. A forma como surge na cena económico-futebolística-social é no mínimo intrigante.

Coisas péssimas:

O destaque dado durante semanas a fio às dúvidas sobre o currículo de José Sócrates.

A crescente pobreza de conteúdos dos principais blocos informativos dos 3 canais generalistas: RTP1, SIC, TVI e a crescente falta de impudor em dramatizar nas peças jornalísticas a vida privada dos cidadãos bem como em explorar a "tragédia pessoal".

O "aparecimento" de Maddie na TV nacional e a espiral de informação, contra-informação, comentários e calhandrice-de-toda-a-espécie que sucedeu em torno do caso.

(Ricardo Moreira)

*

Coisas boas na comunicação social em 2007:

- Portugal um retrato social - da autoria de António Barreto

- A RTP2 passou uma serie de documentários durante a "silly season"
que contrastaram com a mediocridade do resto (gostei especialmente de
um sobre David Mourão Ferreira que passou a 15 de Agosto).

- Prós-e-contras, nem sempre é bom mas é dos poucos debates não
"filtrados" a que podemos assistir.

- Na sicnotícias: o jornal das 9 com Mário Crespo, 60 minutos, Toda a
verdade, Eixo do Mal.

- Na TVI: comentários de Miguel Sousa Tavares e Peres Metelo.
[Refira-se, no entanto, que à excepção da RTP que tantas vezes é merecidamente criticada no "abrupto" nenhuma dos canais ditos "generalistas" tem um programa de debate político ou cultural... Quem não tem TV cabo vê novelas]

Coisas más:

- O regresso dos concursos: em família, com noivo(a), sozinhos, com crianças que sabem mais do que os adultos... os concursos proliferam; não têm o menor.

- A duração dos telejornais: os telejornais são muito longos, o que não seria mau se passassem notícias, o que não acontece na grande maioria do tempo.

- a febre dos directos, sempre que há uma notícia, um pequeno acontecimento temos que assistir ao filme deprimente do jornalista a tropeçar nos cabos, a engasgar-se sem saber o que há-de dizer, a fazer perguntas completamente despropositadas aos "populares" e claro, no final, a explicar-nos tudo aquilo que acabámos de ouvir [às vezes de forma deturpada o que permite imaginar a qualidade de alguns
jornalistas].

- O processo disciplinar a José Rodrigues dos Santos, clara retaliação pelas suas declarações numa entrevista onde confirmava aquilo que já todos podiamos adivinhar.

- O professor Marcelo, começa a dar a sensação que o programa é já
uma rubrica do gato fedorento.

Coisas que vale a pena recordar

- A saída de Santana Lopes a meio da entrevista quando foi interrompido por causa da chegada de Mourinho. Pode ser que a partir de agora os senhores jornalistas tenham mais consideração por quem entrevistam e usem critérios editoriais mais qualificados (aliás, gostava que me explicassem os critérios editoriais dos telejornais no que toca a futebol. Será que o público de "classe C e D" querem mesmo tanto tempo do telejornal dedicado ao futebol ou esta é uma boa maneira de se evitar fazer jornalismo a sério que sai mais caro?)

- A "encomenda" do Público a Vasco Pulido Valente para comentar o livro de Sousa Tavares. Não ficou bem.

(Paulo Rocha)

*

Coisa boa: Edições de qualidade do Público: Àrvores e Florestas de Portugal e colecção Arquitectos

Coisa boa: a cobertura mediática dos "Verdeufémios" feita pelo Abrupto, aliás na senda da cobertura do sismo de Fevereiro.

Coisa boa: O regresso tímido, e ainda à procura do tom certo, do MEC à imprensa escrita. Uma sugestão: deixar o registo piadético e escrever a sério. Já tem idade e "bagagem" para isso. Apesar das saudades dos bons velhos tempos que todos temos.

Coisa boa: O You Tube no referendo sobre o aborto. Não tanto pelo resultado (embora também importe) mas mais pela utilização generalizada de uma nova ferramenta-media no espaço público.

Coisa "assim assim": O Rádio Clube Português, que ainda não se sabe onde fica.

Coisa "coisa": O blogue do Ministério da Administração Interna, que ainda lá está, activo..

Coisa má: A forma como as agências de comunicação ganharam notoriedade.

Coisa má: O "caso" José Rodrigues dos Santos

Coisa má: A perda de pluralismo e notoriedade do Prós e Contras.

Coisa muito má: a cada vez maior escassez de opinião de qualidade nos nossos jornais e televisões e a não renovação de "stocks". A disseminação da ideia de que a opinião e o comentário de qualidade se podem fazer a partir de meia dúzia de sound bites e por "curiosos" bem (ou mal) avontadados. Nesse aspecto, acho que houve uma migração da forma de estar na blogosfera para a imprensa escrita que diminuiu a qualidade desta. A novas gerações de comentadores e analistas, com raríssimas excepções, pecam pela ligeireza da análise, normalmente epidérmica e pela ausência de back ground intelectual ou de conhecimentos para sustentação das suas opiniões. O que interessa é ter uma opinião e, de preferência, contrária à de outrem, para alimentar uma polémica que, muitas vezes, acaba em insultos e zangas juvenis. Acresce que, em regra, se escreve muito mal.

E mais uma nota: há pouca opinião (e mesmo informação) especializada e de qualidade.

Coisa péssima: o Eixo do Mal na Sic, que só tem a vantagem de ninguém ver nem saber o que é.

(RM)

*

1. Algo que não foi mencionado por si e, até agora, pelos outros leitores, é (pelo menos é a minha impressão) de que a situação não sempre foi esta. Por exemplo, no caso dos debates, parece-me recordar tempos onde existiram muitos mais programas de debate de ideias. Alguns tinham muitas falhas e, em muitos casos, os temas escolhidos não eram os melhores mas, em vez de se ter progredido para melhores programas e temas e para uma maior concorrência entre estes, o que poderia gerar melhor qualidade, o caminho parece ter sido o do declínio. Na minha opinião, após o saudoso "Terça à noite", pouco se fez; já agora, menciono este programa não só pela sua participação nele, mas também para dizer que outro sinal de que as coisas foram (intencionalmente?) degradadas foi o afastamento de pessoas como o Miguel Sousa Tavares (de quem eu adorava discordar), Vasco Pulido Valente, António Barreto, etc. (Continuam a escrever e a publicar as suas opiniões, mas com muito menos acesso ao Espaço público, que está cada vez mais pobre. Por mim, já só quase leio a imprensa Anglo-Saxónica e sou um viciado nas selecções do Arts & Letters Daily).

2. Relativamente aos blogues, acho que reflectem algumas das fragilidades intelectuais dos portugueses: quase não hà, que eu conheça, blogues científicos ou filosóficos (excepção feita a Porfírio Silva, que faz o trabalho de cem homens), ou escritos por cientistas portugueses, enquanto que (opinião puramente pessoal) hà uma Babel de blogues políticos que falam entre si. Novamente aqui a aversão portuguesa ao pensamento rigoroso...

(João Carlos Soares)

(url)


BOAS / MÁS / PÉSSIMAS COISAS NA COMUNICAÇÃO SOCIAL PORTUGUESA EM 2007
VISTAS POR UM GRANDE (EM QUANTIDADE) CONSUMIDOR



Vou começar a preparar a lista deste ano. São bem-vindas todas as sugestões

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Estes dias. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



Vista do Hotel El-Aurassi, em Argel, na madrugada de dia 12 de Dezembro de 2007. (Miguel Fontoura )



Ponte D. Luís, Porto. (Paulo Alves)



Alto da Vela, Peniche. (Manuela Bello)



"Amu-te". Grafitos na estação da CP de Lagos. (C. Medina Ribeiro)



Sinais "americanos" no arredores do Cairo. (Pedro Miguéns)

(url)

10.12.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)





Hoje no Campus Universitário da Universidade de Tóquio, Tóquio, Japão.

(António Rebordão)

(url)


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 10 de Dezembro de 2007 (2)

O noticiário da RTP de hoje mostra que não é inútil protestar contra o modo apologético como foi apresentada a Cimeira UE - África pela estação, como aqui se fez, e que há jornalistas que se esforçam por fazer diferente e melhor. Como jornalistas e não como propagandistas. Por exemplo, a revista da imprensa de hoje na RTP é já muito mais crítica do que aconteceu na Cimeira e mostra a escassez de resultados em contraste com o tom épico e congratulatório de ontem. O problema é que o efeito propagandístico já está adquirido, e as notícias mais sérias já estão empurradas para o fim de um telejornal secundário, após quase uma hora de espectáculo. Vamos ver se mesmo assim resistem até logo.

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)





Sado, faina fluvial. (António Cabral)

(url)


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 10 de Dezembro de 2007


Em matérias europeias é espantosa a capacidade de alguns jornalistas funcionarem como uma câmara de eco das posições governamentais, da UE e do nosso "espírito de Lisboa" materializado em homem, José Sócrates. No caso da Cimeira UE - África ainda me espanta (como posso ser ainda tão ingénuo? Pergunto-me sem resposta...) a capacidade de dar voz, eco, amplificação a tudo o que é construção governamental, à voz do poder, a aceitar sem uma dúvida, sem uma hesitação, sem um distanciamento crítico, o quadro mental com que se deve analisar o que aconteceu, por singular coincidência o exacto enquadramento do spin pretendido como sendo o mais favorável para a propaganda governamental. Onde é que está aqui o jornalismo, a "edição", a análise, ou sequer os factos?

O Público de hoje é impressionante neste mimetismo do poder. Por exemplo, o título do artigo de Sofia Branco (que pode não ser de responsabilidade da jornalista) diz: "Cimeira inaugurou "um novo espírito" nas relações entre a União Europeia e África". Esta agora! Isto não é um facto, é a caução pelo jornal de uma afirmação retórica de propaganda dos responsáveis da Cimeira. Como é que se mede o "novo espírito"? E quem é que o incarna, Mugabe, Oumar Konaré, o presidente do Senegal, Sócrates, Merkel, os que não vieram cá e não foi só Gordon Brown? E porque é que Mugabe foi "uma voz isolada"? Vários dirigentes africanos deram-lhe total solidariedade e foi bem acompanhado no anátema da culpa do colonialismo, a começar por Kadafi. O artigo de Teresa de Sousa é outro exemplo de abandono de qualquer distanciação crítica em relação ao establishment da UE, mas isso não é novidade e como vem apresentado como "análise", é a sua opinião. Aí o problema do jornal é a necessidade do contraditório, apesar de tudo esboçada no editorial de José Manuel Fernandes que contraria a afirmação de Teresa de Sousa de "que ninguém hesitou em chamar de "histórica" à Cimeira."

O problema disto tudo é que temos um jornalismo crítico do estado da escola de S. João de Longe e cínico face às explicações do senhor Presidente da Junta de S. João de Longe sobre por que é que a escola está assim, mas beato e reverente face à Europa e à propaganda da Presidência portuguesa. E não só.

*
Para quem não percebeu o que foi e em que resultou a cimeira, o tempo de antena de Sócrates esclareceu: um virar de uma página em branco que alguém há-de discutir e escrever, olhos nos olhos, de igual para igual, sob a forma de uma relação madura, com esperança, entre iguais, num novo espírito, de progresso e liberdade, em que Portugal foi uma ponte perfeita, resultando a Declaração de Lisboa. Foi uma chuva torrencial de letras que juntas formaram palavras pré-fabricadas que estão algures entre o “plástico” de que falava Vasco Pulido Valente e o “parasitismo” apontado por António Barreto. Constata-se online que a cimeira vale zero (CNN), menos que a crise no Paquistão, ou que houve falha quase total, excepção feita aos chineses, que devem ter estado a festejar a noite toda e hoje de manhã cedo continuaram o seu caminho africano, silencioso, mas rápido e eficaz. De substancial, sobrou a evidência do percurso de auto-promoção pessoal europeia que José Sócrates julgou ou julga estar a traçar para si mesmo, à margem da realidade não virtual noticiada no Yahoo News, onde se lê: “But EU officials and businessmen fear growing Chinese investment in Africa could displace Europe from the top spot”. Quanto ao jornalismo, parte dele manifesta-se completamente incapaz de olhar para trás, para a Agenda de Lisboa, para Guterres e para o pântano.

(Paulo Loureiro)

Etiquetas: ,


(url)


EARLY MORNING BLOGS


1176 - Dream Song 324: An Elegy for W.C.W., the lovely man

Henry in Ireland to Bill underground:
Rest well, who worked so hard, who made a good sound
constantly, for so many years:
your high-jinks delighted the continents & our ears:
you had so many girls your life was a triumph
and you loved your one wife.

At dawn you rose & wrote—the books poured forth—
you delivered infinite babies, in one great birth—
and your generosity
to juniors made you deeply loved, deeply:
if envy was a Henry trademark, he would envy you,
especially the being through.

Too many journeys lie for him ahead,
too many galleys & page-proofs to be read,
he would like to lie down
in your sweet silence, to whom was not denied
the mysterious late excellence which is the crown
of our trials & our last bride.

(John Berryman )

*

Bom dia!

(url)

9.12.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 9 de Dezembro de 2007


Bastam dois minutos para se perceber o tom do noticiário da RTP sobre a Cimeira UE - África. Em dois minutos estamos em plena retórica empolada e palavrosa, épica e grandiloquente, sem um átomo de jornalismo. Pelos vistos ninguém dá por ela na RTP.

*

A demonização de Gordon Brown também é interessante...

*

Ah! grande Merkel! Ah! pequeno Sócrates!

*

O "espírito de Lisboa" é na cabeça de Sócrates o seu próprio "espírito". Quando louva o "espírito de Lisboa", o que ninguém sabe o que é, gaba-se a si mesmo.

*

Alguém consegue saber o que aconteceu na Cimeira, o que se conseguiu e o que não se conseguiu, as fracturas UE - África que dominaram as discussões comerciais, tudo o que de novo aconteceu nestes dias, não apenas o que já estava preparado há muito? É isto que é matéria jornalística, não as múltiplas distrações incidentais e sobre isto sabe-se pouco. Lá vamos ter que ir aos jornais ingleses...

*

Ou a BBC cujo correspondente retrata uma Cimeira muito diferente da da RTP, assim como o Le Monde:
"As the Portuguese hosts hailed a "new chapter" in relations, Senegal's president railed against new EU-African trade deals proposed by the EU. And Zimbabwe's President Robert Mugabe reportedly accused Europe of arrogance in criticising his human rights record.

The hosts have lauded the summit as heralding a new relationship of equals. The 67 leaders gathered at the summit agreed to work together to forge a new partnership on issues including security, development, trade and good governance. The BBC's Mark Doyle, in Lisbon, says the joint declaration is hugely ambitious in scope, and that clear differences remain on several issues.

Angry words flew over trade deals - known as Economic Partnership Agreements - proposed to replace existing agreements due to expire at the end of the year. "We are not talking any more about EPAs, we've rejected them," said President Abdoulaye Wade of Senegal.

Although some east African nations have already agreed to the deals, many other countries argue that they will damage their fragile economies. The deals - to replace historical agreements which gave former European colonies preferential trade terms - demand that African countries open their markets to European goods in order to keep tariff-free EU access for their own exports. The summit was seen as an EU attempt regain lost ground in Africa and combat growing Chinese influence in the continent. But President Wade said that "Europe is close to losing the battle of competition in Africa".


"Concernant les accords de partenariat économique (APE) proposés par l'UE, le président sénégalais Abdoulaye Wade a déclaré qu'ils ont été rejetés par ses pairs et qu'"on n'en parle plus". Disant représenter "la tendance de la majorité des Etats africains", il a indiqué que "quand on va se retrouver, on discutera, l'UE présentera des APE, nous présenterons autre chose". Selon le porte-parole de la Commission européenne, Amadeu Altafaj, l'UE n'a pas encore décidé si elle relèverait, comme le demande l'OMC, les tarifs douaniers pour les Etats africains à revenu moyen qui ne signeraient pas de nouveaux accords commerciaux avant le 31 décembre."


(sublinhados meus)

*
Não sei o que se conseguiu e não se conseguiu. Não sei o que se ganhou ou perdeu. Nem a UE nem África. Mas sei uma coisa: a mim, como português, como europeu crente que um conjunto de países que, apesar das diferenças, compartilha ideiais de pluralismo democrático e respeito pelos direitos humanos, repugna-me ver o primeiro-ministro do meu país alardear os benefícios de um acordo (acordo? declaração de intenções? memorando de entendimento? outra coisa qualquer?...) com a Líbia, essa nação democrática, com um soba que está há décadas no poder, que compra páginas inteiras de anúncios contra o tribunal penal internacional nos principais jornais em circulação, que é suspeito de múltiplos atentados dentro e fora de portas, que se passeia com total descaramento por onde quer que vá, com óculos escuros e ar sinistro dentro dos recintos onde decorrem os "trabalhos", devidamente acompanhado por umas igualmente sinistras mulheres que são quem lhe serve de protecção pessoal. Esse mesmo chefe de estado cujos assessores queriam desgravar uma parte do filme de um repórter da RTP só porque ele perguntou se ele já tinha ou não sido confrontado com algumas questões menos simpáticas. Os mesmos assessores e seguranças que perguntavam ao conjunto de jornalistas que ali estavam, num inglês mal falado e ameaçador «do you have any problem?». Estes chefes de estado, verdadeiros líderes que se impuseram à força em países sem condições para os expulsar definitivamente, vieram cá porque Portugal exerce actualmente a presidência da UE. Nada a apontar. Mas alguns desses vieram cá e passearam a sua arrogância e prepotência, montando tendas em fortes e sendo ofertados com banquetes presidenciais. Para além do mais, ainda são agraciados com declarações únicas do primeiro-ministro, porque existem interesses económicos que, como é óbvio e qualquer um compreende, se sobrepõem claramente a quaisquer questões de princípio. Isto é hoje o meu país. Um país que cada vez tenho mais dificuldade em aceitar.

(Rui Esperança)

Etiquetas: ,


(url)


ESCRITAS







Grafitos numa escola de Setúbal. (Ochoa)

(url)


"NÃO É GRANDE DESCONSULAÇÃO BUSCAR E NÃO ACHAR?"


Nestes tempos em que as grandes palavras da moda estão associadas aos aparatos tecnológicos, em particular às tecnologias de informação e à Internet, as ciências humanas, a filosofia, as artes, a literatura, o corpo clássico da escrita e do saber estão, por assim dizer, fora de moda. Isso vê-se quando se discute o muito falado Plano Tecnológico, um dos símbolos da governação Sócrates (e dos seus alter-egos no PSD), muito hábil com telemóveis, computadores, gadgets e devices, mas pouco sensível àquilo que, com alguma comiseração, hoje se nomeia de "conteúdo". É a forma, o instrumental, o brilho das luzinhas e a rectidão perfeita dos lasers que os entusiasma, perpetuando assim mais uma vez o divórcio das "duas culturas" que no passado pendia para a ignorância científica e para o sebentismo nas humanidades e hoje pende para o deslumbramento tecnológico e para a extinção das humanidades. Nem uma, nem outra "cultura" da clássica divisão de C. P. Snow existem como cultura sem se olharem entre si.

Um caso deste menosprezo pelas humanidades está no "conteúdo" em português na Rede, que omite quase por completo a nossa literatura, o que significa que o "português" é uma língua pobre na Internet. Com uma excepção, e uma excepção que vale tanto que podia ser considerada uma regra, que é a do esforço dos brasileiros em prol da sua língua e literatura que inclui também a nossa. Como se verá, alguns dos nossos grandes escritores só estão na Rede porque os brasileiros aí os colocaram.

Vou fazer um exercício simples, que qualquer pessoa pode fazer sem ser académico e evitando o academismo: escolher dez nomes consensuais no triplo sentido de serem grandes escritores em português, serem autores-referência do corpo da própria língua e fazerem parte do nosso espelho colectivo, fautores de identidade nacional. Escolhi Fernão Lopes, Gil Vicente, Fernão Mendes Pinto, Bernardim Ribeiro (podia ser Sá de Miranda...), os autores da História Trágico-Marítima, Francisco Manuel de Melo, os padres António Vieira e Manuel Bernardes, Frei Luís de Sousa e Bocage. É uma lista que tentei fazer na base da minha memória escolar do ensino do Português no Liceu Alexandre Herculano, nos anos sessenta. A lista exclui Camões e fica-se cronologicamente pelo princípio do século XIX, porque a contemporaneidade mereceria ter um tratamento próprio para o qual não há espaço neste artigo. Com estes nomes vou fazer uma simples pesquisa no Google, como qualquer estudante ou leitor interessado faria, consultando os primeiros 20 resultados e não usando nenhum dos instrumentos de procura mais sofisticados que podem acrescentar mais um ou dois resultados, mas não alteram o panorama.
Não há duas procuras iguais no Google, o que significa que não é possível reproduzir no dia seguinte os resultados do dia anterior. No entanto, sucessivos resultados em diferentes dias não alteram o essencial do que o Google "responde" e do que lá se encontra.
Isto significa que só chegarei a repositórios como a Biblioteca Nacional Digital quando o Google para aí me encaminhar, porque o problema de colocar autores em linha não é apenas o da edição dos seus textos mas o da sua acessibilidade através de procuras simples. Isto leva a excluir muitas edições fac-similadas (em formatos JPEG por exemplo) , ou mesmo em PDF, que não possam ser procuradas pelo seu texto e que exigem algum tempo para serem importadas sem ser em banda larga. A Biblioteca Nacional Digital é uma iniciativa importante, mas não será nunca por seu intermédio que se podem popularizar os autores, dadas as naturezas científica e académica das suas edições e pelo facto de não aparecer nos motores de busca.
A leitura de um "clássico" deve ser limpa do aparato académico pelo que o que procuro em linha são versões escorreitas e modernizadas de textos e não edições críticas, que também devem existir em linha, mas que não são aquelas a que me refiro neste artigo. Oriento-me aqui no que diz Italo Calvino: "La lettura d'un classico deve darci qualche sorpresa, in rapporto all'immagine che ne avevamo. Per questo non si raccomanderà mai abbastanza la lettura diretta dei testi originali scansando il più possibile bibliografia critica, commenti, interpretazioni. La scuola e l'università dovrebbero servire a far capire che nessun libro che parla d'un libro dice di più del libro in questione; invece fanno di tutto per far credere il contrario. C'è un capovolgimento di valori molto diffuso per cui l'introduzione, l'apparato critico, la bibliografia vengono usati come una cortina fumogena per nascondere quel che il testo ha da dire e che può dire solo se lo si lascia parlare senza intermediari che pretendano di saperne più di lui."
O que procuro são os textos originais e não notícias sobre os autores. No caso de haver um artigo da Wikipedia sigo as suas ligações, porque é também o que faria um estudante ou um amante de literatura. Por razões que têm a ver com a legibilidade do artigo em papel não coloco aqui as ligações, o que farei quando colocar o artigo em linha.
(Mais uma vez neste tipo de artigos se percebe como faz falta o hipertexto nos media em papel e como ele não pode ser substituído pela colocação dos endereços escritos, que atrapalham a leitura do texto. A possibilidade do hipertexto é o grande argumento, para já, a favor da edição electrónica.)
Começando por Gil Vicente, há uma edição brasileira do Auto da Barca do Inferno nos Google Books e os poemas escritos em castelhano estão publicados em sítios espanhóis. No Projecto Vercial, um projecto privado que colocou mais literatura portuguesa em linha que todas as instituições do Estado juntas, há uns fragmentos dos Autos da Índia e da Barca do Inferno. Existem em linha vídeos com fragmentos de algumas peças de Gil Vicente e, nalguns sítios de poesia e blogues, há partes de peças e alguns poemas. A maioria das ligações do artigo da Wikipedia sobre Gil Vicente não vai dar a lado nenhum, o que significa que há um retrocesso da representação do autor em linha.

De Fernão Lopes há na Rede três crónicas para download na Biblioteca Nacional (ligações do artigo da Wikipedia)e no Projecto Gutemberg, o que, sendo útil, não é o melhor mecanismo para a "leitura" em linha e apenas o Projecto Vercial publica uma página com partes das Crónicas de D. Pedro, D. Fernando e D. João. E nada mais.

De Fernão Mendes Pinto há textos no sempre presente Projecto Vercial e na Biblioteca Nacional Digital, embora as ligações para esta última edição estejam quebradas na Wikipedia, e não seja fácil descobrir nas páginas a que se acede pelas ligações externas onde estão os textos. Partes da Peregrinação foram publicadas num blogue Carreira da Índia e nada mais...

Bernardim Ribeiro está no Projecto Vercial e um ou outro poema disperso aparece em sítios de poesia, em particular brasileiros. Mas o texto da Menina e Moça não se encontra acessível e uma edição que existia de um amador americano tinha muitos erros de transcrição e parece ter desaparecido das primeiras procuras.

A História Trágico-Marítima tem uns fragmentos no Projecto Vercial e uma edição em PDF na Biblioteca Nacional Digital e nada mais. Junto com a Peregrinação, este é um dos casos mais graves de sub-representação de uma obra identitária de Portugal e dos portugueses com muito pequena presença na Rede.

De Francisco Manuel de Melo há também muito pouca coisa em linha: uma referência às obras na Biblioteca Nacional Digital não funciona e escrevendo o nome do autor na procura não dá resultados. Existem edições académicas em PDF das Epanáforas de Varia História Portuguesa e da Carta de Guia de Casados e alguns poemas dispersos em sítios de poesia.

Dos grandes prosadores clássicos em português apenas o padre António Vieira está bem representado, com muitos dos seus mais famosos sermões integralmente publicados, com destaque para as edições brasileiras. É também um dos raros casos onde existe um índice dos seus textos em linha, cuidadoso, actualizado e acima de tudo simples de consultar e útil. "Não é grande desconsulação buscar e não achar?", perguntava o orador no seu Sermão da Primeira Oitava da Páscoa. No seu caso sempre há menos "desconsulação".

Do padre Manuel Bernardes, um autor considerado como canónico para o português escrito, há muito pouca coisa em linha, uns fragmentos de prosa publicados no Projecto Vercial, em sítios brasileiros e apenas numa página brasileira e de índole religiosa se encontram alguns textos de Luz e Calor. A mesma sorte não tem Frei Luís de Sousa, que, se não fosse o Projecto Vercial, praticamente não existia na Rede.

Bocage, o nosso último autor, para ficarmos no limiar do romantismo, está bem representado na Rede, embora padeça de dispersão que, no seu caso, é o preço do sucesso. Muitos dos seus poemas estão em blogues, sítios de poesia, páginas pessoais, embora a poesia erótica e satírica esteja menos representada do que o que se podia prever. O Projecto Vercial tem uma selecção da sua poesia "séria" e em muitos sítios se pode ler a sua Epístola a Marília sob o nome do seu primeiro verso a "Pavorosa ilusão da eternidade".

Os resultados desta pesquisa com métodos comuns que representam as típicas literacias de procura na Rede são, para falar curto e grosso, catastróficos. Nem vale a pena estar a comparar com o que acontece em espanhol, francês, inglês e mesmo latim e grego.

Mas, oi tdbem quem krer falar = ao Bernardes? :- ).

(Versão do artigo no Público de 8 de Dezembro de 2007)

Etiquetas: ,


(url)


EARLY MORNING BLOGS


1175 - My Visit to St Petersburg

Gentlemen – oh and ladies, please forgive me!
I have been too many years in the army.
But that’s all in the past now. Here I am
With a gathering of my friends in this good old house.
We are cosy, are we not? Let it roar outside,
Our coals and candles, sofas, drinks replenished
Are like a magic cave where all that lacks
Is tales to tell, to startle, tales to match
The flickering shadows. My mind is full,
My memories are sharp and clear, I tell it
As it was. Judge if you will, listen you must.
Truth gives a tongue the strength of ten.
Well then,
I begin! One tingling day in December
I was skelping along towards St Petersburg
On a one-horse sledge, as they do in that country,
When a large lean cold and hungry wolf
Slunk out of the forest behind me and ran
Panting to overtake us. This was not good!
I pressed myself flat on the sledge until whoosh –
The wolf leapt over me and sank its jaws
Into my horse’s hindquarters. Sorry, horse!
But that is what saved me. Now hear more.
The famished wolf went crazy, burrowing,
Munching, slurping deep into the horse
Till only its rump was showing. I rose up,
Quickly gave it the mother of all whacks
With the butt-end of my whip; the horse
Was now pure wolf, the carcass fell to the ground;
The wolf was in its harness, galloped forward
Slavering and howling till we reached St Petersburg.
The crowds that came out! You’ve no idea.
They clapped, hooted, whistled, rocked and laughed.
Great entrance to a great city, don’t you think?

(Edwin Morgan)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

8.12.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



Ponte à noite.



Antenas no fim do dia.



Cimeira UE - África - os que não participam.



África em Lisboa. (MJ)



Dióspiros em Rio, Fregim, Amarante. (Helder Barros)



Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)

(url)


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 8 de Dezembro de 2007


Será que algum jornalista de algum noticiário (vi o da SIC e parte da TVI, porque o "serviço público" está em maré de canções) me informa alguma coisinha, por minúscula que seja, sobre o que se passa na Cimeira UE - África, o que é que se está a resolver, que problemas existem, quem defende ou combate o quê, alguma coisinha de substantivo que não seja o trânsito de Lisboa, as idas e chegadas dos chefes de Estado, a segurança e as manifestações, os pratos do dia, e mais mil e um pormenores estereotipados destas coberturas jornalísticas em Portugal? Não é certamente o mais importante, pois não? A não ser que fique apenas o discurso oficial congratulatório de Sócrates e se tenha que ler a imprensa inglesa...

*

Sobre o processo de desindividuação (deindividuation) nos comentários nos blogues, o caso do New Scientist onde, desde que se introduziram comentários, apareceu "a stubborn minority that are rude, intentionally provocative, or just plain abusive. It seems people will say things online that they would never say face-to-face."

*

Pode-se sempre considerar que há uma nova estirpe de vírus a atacar os advogados, a julgar pelas peripécias à volta das eleições para a sua Ordem, com um show único ontem na SICN entre Júdice e Marinho Pinto, antigo e actual Bastonário. Nunca se sabe quando é que um vírus desenvolve este tipo de especialização profissional e começa a atacar desde cima, do homem do Bastão, que eles se encarregam de tornar ex-imponente.

A mim parece-me que o vírus em causa é o mesmo que já atacou outros grupos profissionais e que tem causas: a "proletarização" de um grupo profissional até então de "elite" e, saindo da "elite", a sua entrada no mundo do espectáculo mediático, que quer sangue e lágrimas a rodos. Agora é preciso adaptarem-se, permitir a publicidade às claras e não em notícias encomendadas aos diários económicos, divulgar quanto custa um divórcio, um testamento, uma partilha, criar uma cultura de litigância como existe nos EUA, seguir o exemplo dos que abriram loja de porta aberta num centro comercial, mudar o nome à Ordem e transformá-la num Sindicato, etc., etc. Não será bonito de se ver, horrorizará os velhos profissionais, mas é o "espírito do tempo" a funcionar. Sejam bem-vindos ao mundo dos comuns mortais, à televisão popular, aos tablóides, ao vulgo.

*
Sim, é um velho problema (em anos de internet). Por isso é que Mena Trott da empresa Six Apart (que entre outras coisas desenvolveu o motor de blogues Movable Type) há um ano já dizia: "If you aren't going to say something directly to someone's face, then don't use online as an opportunity to say it". ( aqui)
E eu concordo, mas não é exercício fácil no malabarismo entre teclado e rato. Muitas vezes arrependo-me de escrever ao mesmo tempo que clico no "send".

(José Rui Fernandes)

Etiquetas:


(url)


EARLY MORNING BLOGS


1174 - Du faux

On est faux en différentes manières. Il y a des hommes faux qui veulent toujours paraître ce qu'ils ne sont pas. Il y en a d'autres, de meilleure foi, qui sont nés faux, qui se trompent eux-mêmes, et qui ne voient jamais les choses comme elles sont. Il y en a dont l'esprit est droit, et le goût faux. D'autres ont l'esprit faux, et ont quelque droiture dans le goût. Et il y en a qui n'ont rien de faux dans le goût, ni dans l'esprit. Ceux-ci sont très rares, puisque, à parler généralement, il n'y a presque personne qui n'ait de la fausseté dans quelque endroit de l'esprit ou du goût.

Ce qui fait cette fausseté si universelle, c'est que nos qualités sont incertaines et confuses, et que nos vues le sont aussi; on ne voit point les choses précisément comme elles sont, on les estime plus ou moins qu'elles ne valent, et on ne les fait point rapporter à nous en la manière qui leur convient, et qui convient à notre état et à nos qualités. Ce mécompte met un nombre infini de faussetés dans le goût et dans l'esprit: notre amour-propre est flatté de tout ce qui se présente à nous sous les apparences du bien; mais comme il y a plusieurs sortes de biens qui touchent notre vanité ou notre tempérament, on les suit souvent par coutume, ou par commodité; on les suit parce que les autres les suivent, sans considérer qu'un même sentiment ne doit pas être également embrassé par toute sorte de personnes, et qu'on s'y doit attacher plus ou moins fortement selon qu'il convient plus ou moins à ceux qui le suivent.

(La Rochefoucault )

*

Bom dia!

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



Ponta Delgada à noite. (António Cabral)



Anoitecer em Setúbal.



Tarde na Rua da Corredoura, Tomar. (Ochoa)



O Outono no carvalho-português ou cerquinho (Quercus faginea) no centro do país. (Luis Reino)



Novo placard do Clube de Ténis de Setúbal - a dar para a rua. (Ochoa)



Abertura matinal do comércio em Lisboa. (RM)

(url)

7.12.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 7 de Dezembro de 2007


O problema não está em Mugabe vir à Cimeira UE - África. As relações internacionais assentam em relações entre estados e nos interesses que os aproximam ou afastam, não em afinidades políticas ou ideológicas ou em posturas morais. Não se pode querer "falar" com África sem ser interlocutor da sucessão de horrores que passam por ser os "chefes de estado" africanos.

O problema está na deliberação de 2002 que impediu Mugabe de vir à Europa. Se foi considerada necessária e correcta, então devia ter sido levada a sério, e só havia cimeira com quem aceitasse a exclusão de Mugabe. Se a UE respeitasse as suas proclamações de boa moral universalista e se respeitasse a si mesma, teria sido assim. Mas como acontece com muita política externa da UE, esta é uma mera retórica moralista, boa para as consciências correctas, que nos momentos de apuro económico e de encolhimento do "espaço" comercial, como é este com os chineses a implantarem-se em África, é imediatamente substituída por mais "realismo". No seu conjunto, é má diplomacia, mostra de fraqueza e de indecisão.

Etiquetas:


(url)


CAPAS: MEMORABILIA DO SALAZARISMO (1)



Agora que vivemos numa espécie de reconstrução nostálgica do salazarismo, estas capas permitem dar a dimensão do salazarismo real face ao imaginário. Desde a "direcção política única" aos três rapazinhos representando o camponês, o estudante e o operário, ao lado da muralha com as quinas, este era o mundo simbólico dos anos de claustrofobia, miséria, hipocrisia e violência do homem que apertava os cobertores da sua "pupila" Micas num gesto que hoje certamente despertaria todas as suspeições. Felizmente que os tempos mudaram.

Etiquetas:


(url)


CAPAS: MEMORABILIA DO SALAZARISMO (2)



(Clicar para aumentar)

Um jornal da época escreveu que este livro e poemas como este eram obras "de génio".

Etiquetas:


(url)


COISAS DA SÁBADO: A OPORTUNIDADE DE OURO FALHADA DO PP



Perante os sucessivos compromissos do PSD com o PS, o PP podia ter uma oportunidade de ouro para crescer num espaço político que está em crise de representação. Alguns dos temas actuais do PP, como a denúncia dos abusos e prepotências do fisco, são acertados e correspondem a um crescente sentimento de revolta nos mais pequenos, nos contribuintes mais remediados, nas mais pequenas empresas. Mas, mesmo apesar disso, o PP não crescerá porque a figura do seu líder Paulo Portas será sempre a garantia que o partido permanecerá um pequeno grupo. Por muito que isso custe a muitos próceres do PP é Paulo Portas que impede o partido de crescer, condenando-o ao limite cada vez mais apertado da sua própria figura. Reduzindo o PP à sua imagem e semelhança, ao seu estilo entre o pomposo e o arrogante, envolvido em sucessivos casos que ficam sempre por esclarecer e por explicar, Portas é bom para um grupusculo de fiéis assente no culto da personalidade, mas péssimo para um partido nacional. Com ele o PP é apenas isto que já é e nada mais.

Etiquetas:


(url)


EARLY MORNING BLOGS


1173 -"Red Sea," indeed! Talk not to me

"Red Sea," indeed! Talk not to me
Of purple Pharaoh—
I have a Navy in the West
Would pierce his Columns thro'—
Guileless, yet of such Glory fine
That all along the Line
Is it, or is it not, divine—
The Eye inquires with a sigh
That Earth sh'd be so big—
What Exultation in the Woe—
What Wine in the fatigue!

(Emily Dickinson)

*

Bom dia!

(url)

6.12.07


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES
Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



Cais do Sodré. (António Cabral)



Infante, Porto. (Paulo Alves)





Centro de Guimarães. (Rui Cruz)



Eixo Norte-Sul. (António Cabral)



Traineiras em Peniche, na Ribeira, enquanto existem traineiras… (Bernardo Ribeiro Costa)



Corrida virtual do jogo Project Gotham Racing 4 para a Xbox 360, na cidade de São Petersburgo, com passagem junto à Catedral de Nosso Salvador do Sangue Derramado.

(Vitor Alexandre Leal)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1172 - Le Rat qui s'est retiré du monde.

Les Levantins en leur légende
Disent qu'un certain Rat, las des soins d'ici-bas,
Dans un fromage de Hollande
Se retira loin du tracas.
La solitude était profonde,
S'étendant partout a la ronde.
Notre ermite nouveau subsistait la dedans.
Il fit tant, de pieds et de dents,
Qu'en peu de jours il eut au fond de l'ermitage
Le vivre et le couvert: que faut-il davantage?
Il devint gros et gras: Dieu prodigue ses biens
A ceux qui font voeu d'être siens.
Un jour, au dévot personnage,
Des députés du peuple rat
S'en vinrent demander quelque aumône légère:
Ils allaient en terre étrangère
Chercher quelque secours contre le peuple chat;
Ratapolis était bloquée:
On les avait contraints de partir sans argent,
Attendu L'état indigent
De la république attaquée.
Ils demandaient fort peu, certain que le secours
Serait prêt dans quatre ou cinq jours.
"Mes amis, dit le Solitaire,
Les choses d'ici-bas ne me regardent plus:
En quoi peut un pauvre reclus
Vous assister? que peut-il faire
Que de prier le Ciel qu'il vous aide en ceci?
J'espère qu'il aura de vous quelque souci."
Ayant parle de cette sorte,
La nouveau saint ferma sa porte.

Que désigné-je, à votre avis,
Par ce Rat si peu secourable?
Un moine? Non, mais un dervis:
Je suppose qu'un moine est toujours charitable.

(Jean de la Fontaine)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)

4.12.07


NOTAS SOBRE A CULTURA BLOGUE



Putin é muito mais perigoso do que Chávez, mas Chávez é muito mais folclórico e engraçado, Putin é sinistro e não tem humor. Chávez dá para se "ser" da "esquerda" e da "direita", Putin não. Chávez é muito da cultura blogue, Putin não.

Etiquetas:


(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



Acesso à VGama do lado de Montijo.



Catamaran da Transtejo a sair de Montijo e entrar no nevoeiro. (António Cabral)



Prcta Manuel Nunes Almeida em Setúbal a libertar-se da neblina matinal. (Ochoa)

(url)


EARLY MORNING BLOGS


1171 - Le Censeur (fragmento)

On me disait : il est temps d' être sage ;
au pinde aussi l' on change de drapeaux.
Tentez la gloire, et, dans un grand ouvrage,
pour le théâtre abdiquez les pipeaux.
De mes refrains j' ai repoussé le livre ;
mais, quand j' invoque et Thalie et sa soeur,
leur voix me crie : ah ! Que Dieu nous délivre,
nous délivre au moins du censeur.
La liberté, nourrice du génie,
voit les beaux-arts pleurant sur son cercueil :
qui va d' un joug subir l' ignominie
a de son vers d' avance éteint l' orgueil.
Réponds, Corneille, oserais-tu revivre ?
Et toi, Molière, admirable penseur ?
Non, dites-vous ; ou que Dieu vous délivre,
vous délivre au moins du censeur.

(P.-J. de Béranger)

*

Bom dia!

(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Ontem e hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)

Hoje.



Nevoeiro matinal em Setúbal. (Ochoa)

Ontem.



Luzes na noite de Lisboa. (António Cabral)



Nuvens em Setúbal ao anoitecer. (Ochoa)









Crepúsculo visto do outro lado do Tejo. (António Cabral)



Luz do fim do dia nas janelas.







Marés vivas no Molhe da Foz. (Paulo Loureiro)



Clínica de sexologia em Deli. (LM)



Livro de Lídia Jorge numa livraria em Saintes, França. (António Marques)



Luz matinal em Liboa. (RM)

(url)

3.12.07


NUM BLOGUE PERTO DE SI, NUMA GALÁXIA MUITO LONGE




(url)


GRANDES CAPAS


Etiquetas:


(url)


EARLY MORNING BLOGS


1170 - And now the leaves suddenly lose strength

And now the leaves suddenly lose strength.
Decaying towers stand still, lurid, lanes-long,
And seen from landing windows, or the length
Of gardens, rubricate afternoons. New strong
Rain-bearing night-winds come: then
Leaves chase warm buses, speckle statued air,
Pile up in corners, fetch out vague broomed men
Through mists at morning.

And no matter where goes down,
The sallow lapsing drift in fields
Or squares behind hoardings, all men hesitate
Separately, always, seeing another year gone -
Frockcoated gentleman, farmer at his gate,
Villein with mattock, soldiers on their shields,
All silent, watching the winter coming on.

(Philip Larkin)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)





Acender das luzes da árvore de Natal gigante dos Aliados, Porto. (Mónica Granja)



Ementa belga. (FR)




Aviões na Base do Montijo. (António Cabral)





Hoje de tarde. Passagem do tempo por um banco do jardim de S. Amaro. (RM)



Manhã de chuva em Porto santo. (João Almeida)

(url)

2.12.07


RETRATOS DO TRABALHO NA ÍNDIA





Fábrica de calçado em Chennai.





Operários da construcção civil,

(João Costa)

(url)


AS GREVES SÃO SINAIS DE VIDA NO MEIO DA PASMACEIRA GERAL



Enquanto escrevo decorre uma greve da função pública e os noticiários seguem o padrão habitual de todas as greves recentes: o Governo diz uma coisa, os sindicatos outra, as televisões e rádios fazem uma ronda por escolas, hospitais, tribunais, transportes, com também os habituais resultados, esta repartição funciona esta mais ou menos, esta escola está fechada, aqui não se notou nada. Parece uma recitação de uma peça de cor, em que todos os actores já sabem mecanicamente os seus papéis sem ninguém prestar nenhuma atenção especial ao que se passa. O que sobra é um discurso de nonchalance e desprezo que une os yuppies da direita moderna, os socialistas tecnológicos sem o "bocadinho de socialismo" que Soares desejava e os bem-pensadores da imprensa económica.

O que motiva os sindicatos é a defesa de um modelo de sociedade, economia e política que em nada se distingue do do Governo a não ser no peso da repartição dos sacrifícios entre o presente e o futuro mais imediato. Em ambos os casos, Governo e sindicatos, partilham o mesmo "modelo social europeu", só que o Governo pretende geri-lo de forma a adiar os seus efeitos de ruptura para um prazo mais longo, enquanto os sindicatos se preocupam com a geração actual. A célebre sustentabilidade da segurança social é o adiamento programado da ruptura gerada pela conjugação da demografia e da globalização sobre o actual esquema de segurança social, universal e tendencialmente gratuita, ou seja, paga pela redistribuição fiscal dos rendimentos da classe média para manter um sistema "socialista", cujos efeitos de injustiça social são grandes - ricos e pobres beneficiam dos serviços sociais universais e gratuitos, precisem ou possam pagar ou não, em nome de uma ideia de carácter político-ideológico, a de que ao Estado cuida dar a todos ensino, saúde, reformas, subsídios.

The image “http://www.cgtp.pt/temas/3conforg/teses/cgtp.gif” cannot be displayed, because it contains errors.

No fundo, sindicatos e governo querem o mesmo, só que com tempos diferentes e com benefício de gerações diferentes, ou de tempos diferentes da mesma geração. Os sindicatos que representam a geração actual exigem que esta não seja muito sacrificada em nome do futuro, o Governo coloca mais a ênfase na sustentabilidade a prazo, dez anos pelo menos, e adia os problemas de fundo de insustentabilidade estrutural do "modelo social europeu", onerando mais o presente para fazer durar mais uns anos um sistema que está condenado a prazo. Proclamações grandiloquentes sobre a sustentabilidade da segurança social já tinham sido feitas pelo governo de Guterres e bastaram meia dúzia de anos para se perceber que a ruptura estava para amanhã e não para décadas, e o mesmo irá acontecer com as medidas deste Governo. São paliativos e adiamentos, não são uma política que resolva os problemas de manter competitiva a economia portuguesa e europeia, de modo a garantir bem-estar e progresso social, defrontando o mercado global e o envelhecimento das sociedades pelo aumento da produtividade e pela abertura à competição.

Só há uma alternativa a esta política do modelo social europeu e essa alternativa é um consistente, persistente e intransigente programa de liberalismo moderado, reformista, prudente, passo a passo, sempre no mesmo sentido de dar mais liberdade a pessoas e a empresas do domínio abafador do Estado. Quando o PSD propunha menos impostos, obrigando o Estado a diminuir e racionalizar os seus gastos, e quando defendeu contra o PS um sistema misto de segurança social que responsabilizasse os indivíduos por parte do esforço para garantir as suas reformas, dando-lhe a possibilidade de aplicar como entendessem parte do que hoje pagam ao Estado, ia-se no caminho de uma outra política. Hoje, com a aproximação PS-PSD, nem isso há.

Mas uma coisa é a similitude de objectivos e visão da sociedade que une a CGTP, a UGT, o PSD, o PS e o Governo e outra são os motivos para que cada um adira à greve. Uma coisa são os sindicatos, outra os grevistas, muitos dos quais fazem greve contra o Governo pelo que este lhes está a fazer no seu dia-a-dia e porque já não têm esperança. Muitos milhares de portugueses vão perder um dia do seu magro salário para protestar, por uma multiplicidade de motivos, e mesmo que os cínicos digam que na realidade estão apenas a comprar mais um dia de fim-de-semana, é absurdo e arrogante tratá-los com o desprezo que circula pelos discursos sobre a greve e que se tornaram habituais nos nossos dias.

A arrogância e o desprezo pelas greves está muito para além da discordância com os seus objectivos, é uma manifestação antidemocrática e mais uma, entre muitas, manifestações do tardo-salazarismo inscrito no nosso espaço público e que abomina o conflito como se fosse um mal, e que deseja um mundo sem ondas e sem confrontos, onde os negócios prosperem sem complicações, em que uma mediocridade remediada seja a regra para todos e onde a ausência de escrutínio e vigilância democrática decorrem do peso abafador dos consensos. Um pouco como já acontece com a "Europa".

2007 (JPG)Mas, a realidade que mobiliza os grevistas é incontornável e tem a ver com o empobrecimento dos portugueses. Com a excepção de muito poucos, a maioria dos portugueses estão mais pobres e não tem qualquer esperança sobre o seu futuro. Cada vez mais ameaçados pelo desemprego, pela perda de poder de compra, pelo peso esmagador do fisco, o sentimento e a realidade do empobrecimento atinge as pessoas, as famílias e as empresas. Todas as estatísticas revelam esta crise, e todos os dias saem novas estatísticas mostrando o mesmo caminho: menos "desenvolvimento humano" (um agregado da ONU de vários indicadores), mais desemprego, aumento da inflação, quebra de poder de compra dos salários, menos confiança dos consumidores e dos empresários, mais penhoras, falências, dívidas incobráveis, e os sinais de perturbação social no aumento da criminalidade.

"O indicador de confiança dos Consumidores apresenta um movimento descendente desde Novembro transacto, com agravamentos sucessivos nos últimos cinco meses, registando o valor mais baixo desde Fevereiro de 2006. Para esta evolução contribuíram negativamente todas as suas componentes, à semelhança do sucedido no mês anterior. As perspectivas de evolução da situação económica do país voltaram a apresentar o contributo mais expressivo, registando também o valor mais baixo desde Fevereiro de 2006. As perspectivas sobre a evolução da situação financeira do lar e do desemprego mantiveram os movimentos desfavoráveis, fixando-se nos valores mais baixos desde Julho e Junho de 2006, respectivamente. As expectativas de poupança atingiram um novo mínimo histórico, apresentando agravamentos sucessivos desde Março." (INE, Novembro 2007)

Quando tudo isto é recebido por manobras comunicacionais e spin do Governo e dos seus apoiantes, transformando sinais de empobrecimento e estagnação em sinais de que se vai no "rumo certo"; quando a oposição do PSD continua muda e calada quando não ao lado do Governo, às claras ou às escondidas, a negociar tudo e todos, com meio mundo; quando mesmo os cínicos habituais do jornalismo ficam estranhamente apáticos e complacentes; quando numa sociedade em que as dependências e a precariedade são tantas que poucas vozes são efectivamente livres, apoucar os grevistas de hoje é ser parte da pasmaceira colaboracionista em que nos atolamos. É que há mais dignidade cívica nos grevistas do que naqueles que se queixam por tudo o que é recanto discreto ou anónimo dos males da governação Sócrates e não têm coragem para alto e bom som dizer o que pensam e sofrer as consequências.

(No Público de 1 de Dezembro de 2007)

*
Tendo em conta a sua preocupação com a validade das fontes jornalísticas, que tanto abalam a credibilidade da informação que recebemos, creio que esta informação é importante e útil. Como se sabe, na passada Sexta-Feira houve uma greve da função pública. A sempre zelosa DREN enviou, por esse motivo, uma ordem aos conselhos executivos das escolas sob sua jurisdição proibindo as escolas de fornecerem aos meios de comunicação informações sobre o número de professores e funcionários que tinham feito greve. "Recomendava" a mesma mensagem que os jornalistas deveriam ser encaminhados para o gabinete da ministra da educação para obterem qualquer informação nesse sentido, como se a referida ministra ou os membros do seu gabinete soubessem o que se estava a passar nas escolas todas do país. O objectivo desta proibição é, aparentemente, o de controlar a informação e depois poder lançar os números "oficiais" ridículos de adesão às greves que o ministério tem por hábito divulgar, sem que pareçam isso mesmo, ridículos e irreais.

Não sei se estas "orientações" foram uma prática corrente nas outras direcções regionais de educação ou em outros ministérios, mas são por si só graves e reveladores de um pensamento muito redutor em termos de liberdade de expressão.

(Paulo Agostinho)

Etiquetas:


(url)


EARLY MORNING BLOGS


1169 - Mattino

La finestra socchiusa contiene un volto
sopra il campo del mare. I capelli vaghi
accompagnano il tenero ritmo del mare.

Non ci sono ricordi su questo viso.
Solo un'ombra fuggevole, come di nube.
L'ombra è unida e dolce come la sabbia
di una cavità intatta, sotto il crepusculo.
Non ci sono ricordi. Solo un susurro
che è la voce del mare fatta ricordo.

Nel crepusculo l'acqua molle dell'alba
che s'imbeve di luce, rischiara il viso.
Ogni giorno è un miracolo senza tempo,
sotto il sole: una luce salsa l'impregna
e un sapore di frutto marino vivo.

Non esiste ricordo su questo viso.
Non esiste parola che lo contenga
o accomuni alle cose passate. Ieri,
dalla breve finestra è svanito come
svanirà tra un istante, senza tristezza
né parole umane, sul campo del mare.

(Cesare Pavese)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Hoje em S. Petersburgo. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)





2 perspectivas da Igreja de S.Nicolau (vista por Pushkin e vista por Dostoevsky)



Mercado de rua. (João Tiago Santos)

(url)

1.12.07


GRANDES CAPAS: OS CLÁSSICOS DA ARGONAUTA



*

É interessante que tenha colocado no Abrupto o seu texto da Sábado sobre a guerra do Iraque e, logo a seguir, uma série de capas, duas quais são duas das três obras que formam a trilogia «Fundação» de Isaac Asimov (mais tarde, ele acrescentaria mais quatro livros à série). Esta trilogia toma como ponto de partida uma ciência, a psico-história, criada pelo matemático Hari Seldon, que vive numa época em que toda a galáxia forma um imenso império espacial. A psico-história, quando aplicada a grandes massas de seres humanos, permite prever a sua evolução e quando Seldon acaba de a desenvolver aplica-a ao próprio império. A conclusão que retira da teoria é que o império está condenado a desaparecer e que, após o seu fim, se seguirão 30.000 de caos, barbárie e anarquia. Mas a próprio psico-história também lhe dá uma maneira parcial de impedir isso: criando uma fundação (no sentido anglo-saxónico de «foundation», ou seja, base ou alicerce), num planeta e com uma população cuidadosamente escolhidos. As leis da psico-história prevêem que, ao fim de somente um milénio, toda a galáxia estará novamente unificada, desta vez governada pela fundação. A fundação, embora tendo um grande número de cientistas no seu seio, não teria psico-historiadores. De facto, nenhum dos seus membros saberia de que modo é que a fundação passaria de um único planeta para o domínio da galáxia inteira.

Consta que uma houve nos anos sessenta uma tradução para árabe da trilogia que teve uma edição pirata no Líbano. Essa edição viria a ser lida mais tarde por um jovem saudita no qual a ideia de um pequeno núcleo de pessoas ir crescendo até dominar tudo à sua volta, precisando somente de ser constituído no local certo e com as pessoas certas, parece ter deixado uma forte impressão. O jovem chamava-se (e chama-se) Osama bin Laden. Já agora, Al-Qaida significa «a fundação».

Não inventei nada disto. Fui buscar este rumor ao livro de Nuno Rogeiro «O Inimigo Público: Carl Schmitt, bin Laden e o Terrorismo Pós-Moderno».

(José Carlos Santos)

*

Muito interessante a ligação que o seu leitor José Carlos Santos faz entre os textos de Asimov e a “Fundação” da Al-Qaida. É como se a chamada ficção científica, supostamente antecipando futuros, moldasse, pela sua simples enunciação escrita, a realidade de agora. O presente. Mas era de capas que se tratava. E não ficaria mal assinalar a razão pela qual são grandes aquelas capas (pelo menos as primeiras quatro). O seu autor é o hoje praticamente ignorado pintor surrealista Cândido da Costa Pinto (1911 – 1976) nome perdido na curta memória dos recolectores de nomes nas redacções das páginas de cultura dos jornais (ainda existem?) que, no que ao movimento surrealista em Portugal diz respeito, não vão além de Cesariny, António Maria Lisboa, António Pedro, Vespeira, e, com sorte, Fernando Azevedo, António Dacosta. Contudo, constrangido a trabalhos “menores” como as capas da Vampiro (trabalho até mais conhecido que as capas da Argonauta, sendo ambas as colecções da “Livros do Brasil”), nem por isso Cândido da Costa Pinto deixou de, neste suporte “pobre”, manifestar a originalidade e riqueza da sua arte, hoje injustamente ignorada sempre que se fala do nosso (aliás modesto) movimento surrealista.

Bolseiro da Gulbenkian (vistas largas, vistas largas, as desta outra “Fundação”), Costa Pinto teve um papel importante na dinamização do Grupo Surrealista de Lisboa, e expôs internacionalmente. Não era para todos, à época. Quando abriu o CAM, a colecção permanente tinha uma pequena tela do pintor em exposição, possivelmente menos expressiva (questão de gosto) que algumas das capas de livros que CAN (como assinava, envergonhadamente) pintava para ganhar a vida. Tempos estranhos, estes anos quarenta, em que os editores de livros “menores”, para “entreter” (policiais, ficção científica), se davam ao luxo de contratar homens desta qualidade para lhes fazerem as capas. A título de exemplo, o excepcional trabalho para a desinteressante obra da desinteressante (de novo uma questão de gosto) Agatha Christie – “Poirot Desvenda o Passado”. A capa está nos antípodas do conteúdo. E vale infinitamente mais. E valeria muito alguém lembrar-se de organizar uma retrospectiva possível da obra de Cândido da Costa Pinto (muita investigação a fazer, muito trabalho, muito gasto. Para um nome tão pouco mediatizado não deve ser grande estímulo). Ironicamente, em diálogo com o seu leitor de Asimov, talvez só a “Fundação” (estou a falar da nossa, aquela que tem sólidas ligações históricas ao Iraque) reúna capacidades para tanto.

(Manuel Margarido)

*

Mais capas. (Gil Regueiro)



(url)


COISAS DA SÁBADO: BARROSO E O IRAQUE

http://www.geographicguide.net/asia/maps/middle-east-map.jpgDurão Barroso sentiu-se na necessidade de se justificar da atitude de apoio à intervenção militar no Iraque com o argumento que tinha sido enganado com as provas “que lhe tinham mostrado” sobre a existência de armas de destruição massiva no Iraque. Ele lembrou, e com razão, que na altura toda a gente (incluindo serviços secretos franceses e russos, os inspectores da ONU, e muitos outros insuspeitos geopolíticos) estava convencida de que essas armas existiam, embora não considerassem que isso era motivo suficiente para a acção militar contra o Iraque. Eu próprio não tinha dúvidas sobre a sua existência e certamente por não querer dar o braço a torcer, que não é a minha escola, ainda não estou inteiramente convencido sobre o que é que lhes aconteceu. Esta é uma história que permanece mal contada, quer pelos EUA, quer pelos próceres do regime iraquiano, quer pela Síria, Irão e companhia. Mas nunca falaria como Barroso, que tem necessidade de se justificar do passado para ter margem de manobra para o presente, porque nunca considerei que a existência de armas de destruição massiva fosse a principal razão para invadir o Iraque. Nem eu, nem Bush, nem Blair, nem Aznar, e muito menos Barroso, perdoe-se a presunção da companhia. Aí é que eles estão a ser “mentirosos”, a tentar convencer-nos que a invasão do Iraque teve como única e exclusiva causa a presumida existência de armas de destruição massiva.

Eu estou noutra, pensava e continuo a pensar que havia (e há) uma explicação racional, politicamente suatentável, para invadir o Iraque muito para além da presumida existência de tais armas. Escrevi-o na altura e repito-o agora para que se veja que nem todos foram da escola dos actuais “enganados” : numa altura em que o terrorismo fundamentalista é a maior ameça estratégica mundial para o século XXI era fundamental desiquilibrar a relação de forças favorável no Médio Oriente ao radicalismo anti-ocidental. Nunca pensei que o Iraque apoiasse a Al-Qaida, não era essa a questão, mas sim que o Iraque era um factor de instabilização em todo o Médio oriente, em particular na Palestina, e que gerava as condições para uma turbulência permanente que, impedindo a resolução do conflito israelo-palestiniano, criava um “irritante” que alimentava o terrorismo fundamentalista. A Al-Qaida não queria saber dos palestinianos para nada, mas alargava a sua influência e recrutamento com o radicalismo de regimes como o de Saddam, que se tinha colocado com vigor por detrás do extremismo palestiniano, juntando-se aos sírios e ao Irão, para evitar a emergência dos palestinianos moderados.

Se alguma coisa correu mal no processo iraquiano foi que estes objectivos de longo fôlego acabaram por ser postos em causa pela enorme incompetência da “administração” do Iraque ocupado, que permitiu a curto prazo o reforço do risco B, o desiquilibrio de forças regionais com o Irão, sendo que o risco A era falhar a operação militar. Por tudo isto foi um erro de consequências enormes, ter utilizado como argumento principal a existência das armas de destruição massivas. Quando se verificou que elas não existiam, a crise de legitimidade dos defensores da invasão foi devastadora e essa legitimação era fundamental para prosseguir um plano que só tinha e tem sentido a médio e longo prazo. Mas, no preciso momento em que Barroso pede desculpas, nem tudo corre mal no Médio Oriente, mesmo no Iraque, embora não tenha tanto destaque nas notícias como os atentados. Vamos ver.

*
Embora eu suporte a sua justificação de base, a de que a invasão do Iraque se justificaria se, independentemente da existência de armas de destruição macissa, ela contribuísse para um reequilíbrio do poder anti-neo-fundamentalismo islâmico, o que não consigo ver agora, nem conseguia ver na altura, é como é que a invasão realizaria esse objectivo! A começar por que se metia pelos olhos dentro de toda a gente, inclusive de Bush pai, desde os tempos em que Portugal vendia armas "de tecnologia intermédia" a ambos os lados, que o Iraque era imprescindível para equilibrar o Irão, que é onde foi, não esqueçamos, o berço do moderno neo-fundamentalismo islâmico!

O que admito que haja quem não previsse, a começar por muitos americanos "naif", é que em vez de abraçarem agradecidos o way of life americano, os iraquianos optassem pela resistência nacional com adesão crescente ao neo-fundamentalismo. Mas isso, desculpe-me que lhe diga, só me faz é lembrar a cena do "Full metal jacket" do Kubrick, em que um oficial repreende o "herói" da fita por ele trazer o símbolo pacifista no capacete, e lhe diz que as coisas hão-de correr bem porque acredita que "no fundo de todo o vietnamita há um bom americano"... E não consigo ver como é que as coisas estão a melhorar no Iraque, quando todo o resistente iraquiano sabe que só tem de esperar pelas próximas eleições americanas para cantar vitória!

Quanto a Barroso, mantém-se apenas igual a si próprio.

(Pinto de Sá)

Etiquetas:


(url)


EARLY MORNING BLOGS


1168

hito chirari ko no ha mo chirari horari kana

Algumas pessoas.
Folhas caem também
Aqui e ali.

(Issa, tradução de Edson Kenji Iura)

*

Bom dia!

Etiquetas:


(url)


MOMENTOS EM TEMPO REAL: EXTERIORES

Estes dias. Usando o Abrupto como janela.



(Susan Sontag, On Photography)



Lisboa às 4 horas da manhã de hoje. (RM)



Fantasmas de Almada. (MJ)



A lua vista a partir do maciço calcário, perto de Fátima. (Luis Reino)



Comboio de mercadorias na estação das Devezas. (A)



Limos na praia da Parede. (António Cabral)



Jardim das Amoreiras. (RM)



Castelo de Neushwanstein (na Baviera, arredores de Munique). (Filipe Matias Santos)




Amanhecer na ilha de Porto Santo. (João Almeida)



A2-145, 3º C. (MJ)

(url)


DE REGRESSO

esta noite.

(url)

© José Pacheco Pereira
Site Meter [Powered by Blogger]