ABRUPTO

28.2.07


O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: MONTAIGNE E OS JORNAIS DO FUTURO

http://www.bibliotecasvirtuales.com/biblioteca/LiteraturaFrancesa/Montaigne/Montaigne.jpgA propósito das suas reflexões sobre os jornais do futuro, gostava de lhe dar notícia de um exercício um pouco semelhante feito por Montaigne nos Essais (Cap. 35, excerto transcrito abaixo). Montaigne cita o pai e o seu desejo de que houvesse locais acessíveis onde se pudessem registar os pequenos "negócios" (affaires) de cada um. A ideia prenuncia os anúncios classificados da imprensa periódica, mas toma como ponto assente que a intervenção de um notário é indispensável. O pequeno anúncio teria portanto a forma de um registo notarial, consultável em estabelecimento público. A observação mais automática é a de que, em qualquer época, se dá uma importância gigantesca à estabilidade dos formatos e dos contextos de leitura dos suportes de escrita.

(Rita Marquilhas)

Feu mon pere, homme, pour n'estre aydé que de l'experience et du naturel, d'un jugement bien net, m'a dict autrefois qu'il avoit desiré mettre en train qu'il y eust és villes certain lieu designé, auquel ceux qui auroient besoin de quelque chose, se peussent rendre et faire enregistrer leur affaire à un officier estably pour cet effect, comme: Je cherche à vendre des perles, je cherche des perles à vendre. Tel veut compagnie pour aller à Paris; tel s'enquiert d'un serviteur de telle qualité; tel d'un maistre: tel demande un ouvrier; qui cecy, [Image 0094v ] qui cela, chacun selon son besoing. Et semble que ce moyen de nous entr'advertir apporteroit non legiere commodité au commerce publique: car à tous coups il y a des conditions qui s'entrecherchent, et, pour ne s'entr'entendre, laissent les hommes en extreme necessité.

Fonte:
Michel de Montaigne, Les Essais, 1580-1588 (Chapitre 35 - D'un Defaut de nos Polices)

*
Para mim Montaigne, (a avenida de seu nome em Paris é uma das minhas favoritas: hotel, teatro, bar e moda que mais pode pedir um homem!?) tanto pede umas páginas amarelas como pede um mercado onde se pode comprar e vender: uma bolsa de produtos e serviços - uma bolsa de produtos agricolas é algo que faz muita falta cá em Portugal! O que Montaigne não diz é como tal coisa deve ser feita, eu arrisco a dizer que ele se estava nas tintas para isso, mas calculo que ele também desejaria a melhor tecnologia disponivel.

(DG)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
"BOKREA", SALDOS DOS LIVROS NA SUÉCIA




Bokr
ea numa livraria Wettergrens, há uma hora. A fila para pagar era comprida, terei de lá voltar.

(Madalena Ferreira Åhman)

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SOFTWARE QUE SE PORTA MAL

http://blog.garethjmsaunders.co.uk/wp-content/office2007.gifA um mês da sua instalação. Se o Vista se porta muito bem, já o mesmo não se pode dizer do Office 2007, ainda por cima na versão Ultimate. Já usava o Beta há vários meses por isso já estava habituado às inovações dos programas, em particular da sua "face". O Outlook sempre se portou mal, no Beta, e continua na mesma. Avaria várias vezes, é excessivamente lento. É verdade que eu nem sempre "arquivava" quando devia, tinha muitas "regras" para organizar a correspondência e trabalhava com pastas com muito correio, mas mesmo assim parece-me pouco "profissional" para um programa profissional. Mas a minha desilusão, pior ainda, o meu problema, que me surgiu pela primeira vez desde que trabalho com o Access foi o aparecimento de tabelas com campos corrompidos, apagando conteúdos de umas entradas e colocando-os em campos de outras entradas. Nunca me aconteceu isto com nenhuma base de dados até agora (nem sequer no Beta) e por isso interrompi de imediato o uso das bases de dados em Access 2007 até mais ver. É uma enorme complicação para o meu trabalho, mas a integridade das bases de dados é essencial.

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EARLY MORNING BLOGS

978 - Air has no Residence, no Neighbor

Air has no Residence, no Neighbor,
No Ear, no Door,
No Apprehension of Another
Oh, Happy Air!

Ethereal Guest at e’en an Outcast’s Pillow—
Essential Host, in Life’s faint, wailing Inn,
Later than Light thy Consciousness accost me
Till it depart, persuading Mine—

(Emily Dickinson)

*

Bom dia!

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26.2.07


RESTOS: LINHA DO TUA








(Ana da Palma)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: "BOKREA"

http://www.alingsas.se/bibliotek/bilder/bokrea.jpgUma “tradição” sueca, que começou nos anos 20, é a “bokrea”, ou seja, os saldos dos livros. No fim de Fevereiro (por razões de fácil compreensão, depois do pagamento dos ordenados de Fevereiro...) as livrarias, pequenas e grandes, os alfarrabistas, as livrarias dos museus, as secções de livros dos supermercados e, nestes tempos modernos, até as livrarias on-line, saldam entre 3 e 5 mil títulos.

Encontra-se de tudo: ficção e não-ficção, literatura infantil e juvenil, livros de bolso e “coffee table books”, enciclopédias, guias de viagem e mapas. A maior parte é, evidentemente, em sueco, mas há também bastantes livros em inglês (e em menor escala noutras línguas). Há edições especiais para os saldos de alguns autores mais antigos (obras que já estão no domínio público e não estão assim sujeitas a pagamento de direitos).

O interesse costuma ser enorme. Com umas semanas de antecedência, as grandes livrarias publicam e distribuem catálogos dos livros que vão saldar, para que os leitores possam comparar os preços e fazer as suas listas. Os jornais e os blogues publicam críticas dos livros apresentados nos catálogos e sugerem as “boas compras”.

Embora os saldos comecem “oficialmente” amanhã, muitas livrarias abrem as portas já esta noite, à meia-noite, aos bibliófilos mais entusiastas (ou mais noctívagos) que se vão acotovelar entre toneladas de "papéis pintados com tinta". Vou esperar pela relativa acalmia de quinta ou sexta-feira, e este ano vou levar um daqueles sacos de compras com rodas, porque já sei que vou acabar por comprar mais do que pensava...

(Madalena Ferreira Åhman)

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COISAS DA SÁBADO: LINHA DO TUA

http://aptus.gotdns.org/nml/admin/conteudos/screenshots/687.jpgPoucos sítios mantêm a paisagem natural rude e agreste, bela ao modo do “terrível”, do que os vales dos afluentes do Douro, rio de montanha rodeado por rios de montanha, que fizeram o seu leito cavando rochas e não espraiando-se por terras baixas irrigadas. O vale do Tua é um desses casos de beleza, ignorado, perdido, numa parte de Portugal que a maioria dos portugueses nem sabe que existe.

Mas, não tenhamos ilusões, a sua beleza selvagem só tem uma explicação, a de não ter havido até agora nenhum negócio rapace que tornasse o vale numa selva de empreendimentos e as cumedas em enxames de eólicas. É natural que este seja o desejo dos locais, que precisam de emprego, negócio, comércio e riqueza e que, como, uma vez, me disse um velho de um desses locais pristinos, “não percebo porque gosta disto, são só montes, estamos fartos de só ver montes, que interesse têm?”. A verdade é que se for assim, nem o pouco que têm em potência vai sobrar em acto. Gastar-se-á em meia dúzia de anos. .Porque o nosso problema é que passamos sempre do oito para o oitenta, do nada miserável do atraso, para o novo riquismo da combinação construção-turismo barato subsidiado-obras públicas.

E no meio do caminho da sua vida, como Dante à entrada do Inferno, lá continuará o vale do Tua, com a sua linha de “metro” que transporta meia dúzia de pessoas ao dia, de lado nenhum para lado nenhum, num sítio tão remoto e deserdado de tudo menos da beleza, que nem um responsável dos comboios achou necessário ir lá para honrar os seus mortos, os mortos da empresa que “gere”. Retirado o último morto das águas, o silêncio voltará, se calhar também já sem o “metro” de Mirandela.

*
O seu post s/ o Tua e o Douro fez-me lembrar a velha anedota s/ a diferença entre o inferno p/ turistas e o inferno p/ residentes. O campo, a montanha, os vales, etc. são muito bonitos p/ quem não tem que tirar deles o seu sustento e está farto da correria (para ganhar o pão) da cidade. Para quem lá vive todos os dias (“viver todos os dias cansa”), tem que de lá tirar o seu sustento (muitas vezes c/ trabalhos fisicamente duros e de resultados muito dependentes das condições climatéricas), tem muito pouco p/ ver ou fazer ao nível do lazer / cultura / consumo (onde estão cinemas, teatros, livrarias, cafés- concerto, etc, etc.? e até os centros comerciais? Não sei se ainda há mas nos idos de 80/90 havia excursões da província p/ visitar os grandes centros comerciais) e difícil acesso a alguns serviços básicos (saúde, educação,
outros) o campo é muito pouco bucólico. Naturalmente a solução não passa por “algarvizar” o país que ainda não está “algarvizado”. Por exemplo o “turismo rural” tem permitido manter a paisagem, complementar actividades agrícolas, criar condições p/ um turismo de qualidade e oportunidades de emprego quer directamente nas unidades de turismo rural quer ao nível de alguns produtos regionais (gastronomia, doçaria, tapeçaria, cerâmica, etc).

Termino relembrando um comentário que li há uns anos quando em Berlim um antigo hotel da Ex-Alemanha de Leste re-abriu reproduzindo as características “originais” (decoração de propaganda comunista, controlo documental por funcionários fardados a rigor, etc) “uma coisa do velhos tempos não pode ser mantida, as condições higiénicas, porque nesse caso as autoridades sanitárias não permitiriam a abertura”. Felizmente há certas coisas “tradicionais” que a evolução faz desaparecer para sempre.

(Miguel Sebastião)

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RETRATOS DO TRABALHO EM ISTAMBUL, TURQUIA

Local onde se esteve a trabalhar - Hagia Sophia - Istambul

(Raul César de Sá)

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EARLY MORNING BLOGS

977 - Driving to Town Late to Mail a Letter


It is a cold and snowy night. The main street is deserted.
The only things moving are swirls of snow.
As I lift the mailbox door, I feel its cold iron.
There is a privacy I love in this snowy night.
Driving around, I will waste more time.

(Robert Bly)

*

Bom dia!

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25.2.07


ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Serra de Arga.

(AM)

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EARLY MORNING BLOGS

976 - L' Homme et la Mer

Homme libre, toujours tu chériras la mer !
La mer est ton miroir, tu contemples ton âme
Dans le déroulement infini de sa lame,
Et ton esprit n'est pas un gouffre moins amer.

Tu te plais à plonger au sein de ton image ;
Tu l'embrasses des yeux et des bras, et ton coeur
Se distrait quelquefois de sa propre rumeur,
Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage.

Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets :
Homme, nul n'a sondé le fond de tes abîmes ;
O mer, nul ne connaît tes richesses intimes,
Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets !

Et cependant voilà des siècles innombrables
Que vous vous combattez sans pitié, ni remords,
Tellement vous aimez le carnage et la mort,
O lutteurs éternels, ô frères implacables !

(Charles Baudelaire)


*

Bom dia!

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PENSAR OS JORNAIS - 2
(Devido à sua extensão o artigo não pode ser publicado integralmente no jornal. As partes em vermelho foram cortadas e são aqui repostas.)
1. O exercício que se fará a seguir é o de pensar num jornal ideal a partir do que é um jornal de hoje e das possibilidades tecnológicas que o podem moldar num período de cerca de uma década. Esse jornal do próximo futuro será reconhecível como um jornal, da mesma maneira que a Gazeta de Lisboa pode ser reconhecida ainda nos dias de hoje como um jornal. Não estou a falar de qualquer coisa exótica, nem sequer revolucionária, mas de um jornal, mantendo o núcleo de identidade de um órgão diário (ou semanário) assente no acto de ler, pelo qual se obtém informações, notícias, análises, comentários, críticas sobre a realidade do mundo à nossa volta. Dentro desta definição, muita coisa pode mudar, a ênfase pode ser colocada no político, no cultural, no social, o texto pode ser factual ou de creative non-fiction, privilegiar histórias ou estórias, ter mais ou menos opinião, dirigir-se a públicos eruditos ou populares, ter causas ou não ter, etc., etc., mas todas estas modalidades cabem numa concepção comum de jornalismo.


2. Não custa muito pensar no jornal ideal, nem são necessários exercícios de futurologia ou de ficção científica. O jornal ideal que refiro será possível em meia dúzia de anos, incorporando tecnologias já existentes, mas ainda experimentais e caras. Será apenas uma questão de tempo, e pouco tempo, até este jornal existir e não será em papel, mas em "papel" electrónico. O jornal do próximo futuro poderá ter apenas uma folha dupla aberta, de plástico, do tipo dos que hoje a Plastic Logic produz, pesará cerca de 100 gramas e o texto que terá será um texto electrónico, transmitido em wireless e mudando durante o dia. O jornal poderá ter uma estrutura diária e partes que não são diárias, mas o fluxo noticioso será isso mesmo, um fluxo contínuo.
Uma experiência deste tipo, ainda muito rudimentar, é a do jornal de negócios belga De Tijd usando um leitor chamado iLiad, tecnologia da Philips. Sobre e-paper ver E-paper et encre électronique : les habitudes de lecture commencent à changer.
3. Um jornal deste tipo não é apenas um ecrã portátil, mas uma folha de papel electrónico com a qual se poderá fazer o mesmo que se faz hoje com o papel, menos deitá-lo fora no fim, ou usá-lo para embrulhar peixe, porque fica caro. Há apenas uma razão, para além do custo actual, para o papel electrónico não ter ainda substituído o papel: ainda há limitações técnicas na sua funcionalidade para se adaptar em pleno ao principal factor limitador das tecnologias, o corpo humano e os seus hábitos. Há certas coisas que não fazemos, ou que não é confortável fazer com os ecrãs actuais de computador e, enquanto não existir papel electrónico capaz e barato, a mutação do papel para o ecrã plástico não se fará. Quando houver, a mutação será muito rápida e o papel de impressão ficará um nicho de mercado de luxo como os relógios analógicos.


4. O jornal estará obviamente numa forma de ecrã, mas não estará preso ao computador, não será laptop, nem desktop, embora consigo vá um computador especializado e uma ligação permanente à rede. Será mais um dos múltiplos objectos que passarão a ser inteligentes porque tem um processador, software e a comunicar em rede: casas, frigoríficos, lâmpadas, roupas, automóveis, etc. Transportar-se-á como um jornal, ler-se-á como um jornal, terá a mesma resolução, ou ainda mais do que um jornal. O suporte tem de permitir o espaço que necessita um jornal, precisa de páginas e de paginação, e também aqui há considerações ergonómicas que dependem do nosso corpo, do nosso olhar. A razão pela qual o jornal ideal depende mais do papel electrónico do que de um grande ecrã, mesmo que ultrafino, é que tem de ter espaço para se espraiar e ler e portabilidade. Não cabe num telemóvel, e não cabe num ecrã de computador que não necessita na maioria das suas funções de tanto espaço como a página dupla aberta de um jornal.

O seu grafismo mudará, a partir do modelo clássico do jornal, mas incorporará o grafismo dos sítios em rede, como aliás já acontece com o grafismo da rede a influenciar o grafismo dos livros, jornais e revistas e publicidade. Posso partir do princípio de que esse jornal terá o mesmo tamanho do Público e do Diário de Notícias, cujas qualidades ergonómicas permitem que se possa ler nos mesmos sítios onde hoje se lê um jornal, no carro, na cama, numa cadeira, num autocarro. E que se possa levar debaixo do braço ou numa pasta.

5. Até aqui, o papel electrónico foi mais papel de plástico do que electrónico, mas a verdadeira revolução dos jornais virá do electrónico, ou seja, do conteúdo em linha e do hipertexto. Começa logo no facto de todas as vantagens do ecrã e da ligação em linha estarem presentes, tornando o papel vivo: os que lêem mal podem alterar o tipo de letra, os cegos podem ouvir o jornal, e nesse jornal não se lerá apenas, pode-se ouvir sons e ver filmes, pode-se procurar palavras-chave, ler artigos para que remete uma bibliografia, seguir ligações em linha na rede. O hipertexto acelera a integração de todos os fluxos digitais, numa só estrutura de "leitura". O papel vivo pode ser lido por contacto na página, como no iPhone, ou nos ecrãs sensíveis e por isso, desde a simples função de folhear as páginas, até ao acesso aos arquivos, à sequência de notícias, a canais em directo de televisão, tudo se poderá fazer a partir de uma estrutura que será essencialmente voltada para informar, analisar, debater, como é suposto serem os jornais. Todos os actos simples que se fazem com um jornal, preencher as palavras cruzadas, responder a um anúncio, escrever uma carta à redacção, marcar um artigo e recortá-lo, deitar fora um suplemento que não se deseja, estão presentes.

6. Este jornal ideal acabará com a distinção entre o jornal em papel e o jornal em linha, mas essa mudança não se fará apenas pela hegemonia do jornal em linha, mas pela valorização de um contínuo que incorpora o mecanismo fundamental que os distingue: o hipertexto. O que está a gerar a crise do jornal de papel é a sua impossibilidade de incorporar hipertexto, ou seja, de comunicar com todos os outros fluxos de informação que um jornal em linha pode utilizar: som, vídeo, arquivo, leitura em volume típica do hipertexto propriamente dito, tempo real.

Um exemplo: um artigo sobre a actual campanha do aborto nesse jornal do futuro conterá a notícia da novidade que foi a utilização utilização dos vídeos no YouTube e conterá os vídeos de Marcelo Rebelo de Sousa e do Gato Fedorento. O leitor poderá ler sobre eles e ter de imediato disponível toda a informação em que se baseia o jornalista. Quando, ao lado, estiver um artigo de crítica ou um comentário, quem o escreve terá que o fazer com muito mais rigor e precisão, com valor acrescentado, porque o leitor que o lê dispõe da mesma informação em bruto que tem o jornalista ou o crítico. No final, os textos, as análises, as fontes, os números, as opiniões, fornecem o tipo-ideal da informação: matéria prima noticiosa, mediação e opinião plural. Isto hoje só é possível num orgão de informação com o hipertexto.

O próprio conceito clássico do artigo mudará com o hipertexto. Embora este "texto" de Lawrence Lessig não seja um artigo no sentido clássico do termo, funciona como se fosse um artigo de opinião: expõe uma posição usando mecanismos que estão entre o texto, o filme, a conferência, a imagem como reforço da palavra, etc. O jornal do futuro terá artigos clássicos, e artigos deste tipo.

7. O primeiro objectivo de um jornal é informar, e um jornal em papel é um meio mais pobre para informar do que um jornal em linha. Esta é que é a chave da crise da imprensa escrita, a impossibilidade de incorporar o hipertexto. Eu próprio, ao escrever este artigo, já várias vezes tive de abandonar formas mais simples e explicativas de dizer o que quero dizer. Quando o colocar em linha, vou poder fazê-lo: incorporar imagens da Gazeta de Lisboa, do Diário de Notícias de 1945 e do papel electrónico da Plastic Logic, com ligações para os vídeos em que se percebe como se pode manipular o novo papel. Se eu colocar aqui [na edição em papel] um endereço electrónico, uma URL, ele mostrará de imediato a inadequação do meio actual: http://www.plasticlogic.com/index.php . Este “texto” não serve para ser lido como a frase anterior e não pode ser clicado. Terá que ser copiado à mão e reescrito, algo que muito poucos utilizadores intensivos da Rede farão. Eles verão o nome da companhia, Plastic Logic e colocarão o nome no Google e chegarão lá de forma que já tem muito pouco a ver com o jornal. Acima de tudo, terão que, pelo caminho, deixar o jornal de papel de lado, porque a partir daqui lhes é inútil.

8. Há também algo que tem que mudar, mas também já se percebe de modo grosseiro como tal possa acontecer: o modelo económico dos jornais, quem paga os jornais e como, para estes sobreviverem como empresas que são. Deixo de lado o facto de a edição em papel ser por si só muito cara e para, uma outra ocasião, as mudanças na produção jornalística que a “vida” do papel electrónico trará a redacções e aos jornais como organização. A aparição de produtoras de textos, reportagens, análises, de material para os jornais, será uma consequência da desadaptação de redacções muito grandes, pouco flexíveis e muito caras ao modelo do jornal do futuro. Como já existe para o audiovisual, haverá um novo mercado de “textos” (e de imagens, vídeos, sons, etc.) dando uma outra dimensão ao jornalismo freelancer e será um caminho que pode mudar o tamanho gigantesco que atingiram as redacções, com os enormes custos associados.
Mas o modelo económico do jornal do futuro estará na Rede. Na Rede, os grandes percursores dos pagamentos em linha não foram os bancos, nem as instituições financeiras, mas os sítios pornográficos. Eles precisavam de meios fáceis, simples, seguros e quase anónimos de pagamento e desenvolveram mecanismos que depois a Amazon, a Ebay e a Paypal utilizaram. Há investigações em curso para encontrar meios fáceis (que não exijam sequer um clic suplementar) e seguros para pagamentos muito diferenciados, incluindo sistemas de “pay-per-view” quase nominais, um cêntimo por exemplo, para o consumo de todas as partes do jornal em linha, que não incorporam muito valor acrescentado. Mesmo numa Rede que tem uma cultura da gratuitidade, estes pagamentos nominais podem obter aceitação generalizada no acesso a sítios profissionais e empresariais que “vendem” um produto único e de necessidade. Uma das formas de combater a pirataria nas músicas e nos filmes foi tornar os produtos digitais muito mais baratos do que o que eram, e, com a crescente centralidade da Rede em todas as actividades, o mercado de massas será aí.

Um artigo do New York Times sobre o problema do "pay-per-view" a partir da situação do próprio jornal em que "the number of people who read the paper online now surpasses the number who buy the print edition."

Esta mudança nos pagamentos, reflectir-se-á a prazo na publicidade e dependerá, como nas bancas, em última razão, das “vendas”, das “audiências” e dos públicos especializados. Na rede é possível fazer uma diferenciação de públicos muito mais certeira do que no jornal em papel e as formas de publicidade, que muito embrionariamente estão a surgir à volta do Google, mostram caminhos novos.

9. Será por aqui que os jornais irão e, se quiserem sobreviver, deverão pensar-se desde já no modelo do futuro mais próximo, para onde já estão, sem se aperceberem, a migrar. É por aqui que eu parto para analisar o presente, porque, utilizando-se este método de aproximação, verifica-se que muita coisa que se pode fazer desde já não está a ser feita. Ou seja, se eu tivesse de analisar como se devem mudar os jornais actuais, em particular os que pretendem manter o estatuto "de referência", eu pensava-os essencialmente a partir da pergunta: o que é que eu posso fazer desde já na combinação jornal de papel com versão em linha, para os fundir cada vez mais, aproveitando as vantagens de cada um dos meios e tentando minimizar as desvantagens que existem em cada um deles. Uma coisa eu não faria de certeza: era pensar os jornais em papel para "competir" com os meios electrónicos, jornais em linha, sítios e blogues, pela simples razão de que essa competição está perdida a prazo. Eles têm hipertexto, o papel não tem. Ponto final, por aí não há competição.

(No artigo seguinte farei a aplicação deste modelo: como é que desde já os jornais em papel - em complemento com a versão em linha, que quase todos têm - podem evoluir para maximizar tudo o que os aproxima deste jornal do futuro. É muito mais do que se pensa, e mudará profundamente a organização, métodos de trabalho, preparação, o "tempo e o modo" dos jornalistas. Mas continuará a ser jornalismo.)

(A partir da versão do Público de 24 de Fevereiro de 2007)

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1. Parece evidente que o futuro da imprensa escrita passará, inevitavelmente, pelas soluções electrónicas emergentes;

2. O salto que (...) visiona, para uma solução do tipo da "Plastic Logic", pode ser uma entre muitas soluções, embora os timings que propôs me parecem muito apertados. De facto dentro de cinco anos não me parece que aquela tecnologia possa estar suficientemente testada, evoluída e disseminada pelo mercado, com capacidade para substituir os actuais suportes impressos. Além disso, a emergência dessas tecnologias fará com que o número de leitores ainda diminua mais, tendo em conta que a capacidade económica será um factor de selecção, aliada ao acesso e manuseamento da tecnologia. Nesse contexto, dificilmente teríamos o jornal no café, um dos locais onde, hoje em dia, é mais lido.

3. A própria filosofia do jornal teria que mudar muito. Depois do jornal que morre e nasce a cada dia que passa, teríamos o jornal que nunca morre mas que se transforma a cada minuto; o sistema de venda da informação também seria radicalmente alterado, eventualmente para o sistema de assinatura on-line.

4. Para um futuro próximo, crieio que a melhor solução para a imprensa escrita, que está a ser fortemente condicionada pelos media on-line, poderia ser uma maior articulação e complementaridade escrito/on-line, com jornais em papel mais leves e sintéticos, ao nível das necessidades e tempo de leitura actuais, complementado com a informação no digital, com desenvolvimentos, dossiers, disponibilização de links utilizados como fontes, multimedia (imagem, audio e filme), ou seja, tornar o impresso e o digital um pacote que contém um produto informativo. Á grande novidade poderia residir no modo de acesso ao on-line, que deveria ser codificado, apenas disponível durante 24 horas para os utilizadores que tenham adquirido a versão impressa, onde seria fornecido um código de duração limitada.

(João Carlos Gonçalves)

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O seu artigo é bastante interessante, mas parece-me que peca por um vício de raciocínio - tenho para mim que uma boa parte das pessoas que compram um Jornal o fazem por uma questão sentimental, e não por um motivo meramente informativo.
O ritual, o cheiro, o dividir em várias partes com diferentes utilizadores e utilizações.
Claro está que, sendo uma questão sentimental, se pode mudar alterando os sentimentos - mas não me parece que tal aconteça em grande escala.
E, neste sentido, a versão papel e a versão "electrónica" serão concorrentes.

Eu continuarei a ler os jornais electrónicos no meu computador, e a comprar na minha tabacaria de bairro a versão papel. Que lerei num café ou esplanada; e que, terminado, oferecerei amavelmente ao anónimo vizinho da mesa ao lado, não sem antes ter rasgado uma indicação de um restaurante onde nunca irei, e que transportarei na minha carteira por várias semanas, até ir parar ao lixo na "limpeza" mensal da mesma.

A versão electrónica será mais funcional, mas felizmente já vivemos num estágio de desenvolvimento tal que, em muitas situações, podemos dar-nos ao luxo de por o emotivo à frente do racional! E haverá mercado para ambos - a não ser que o electrónico acabe por abafar o outro - o que não seria desejável.

(Pedro Pereira)

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24.2.07


ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Cascata grande, Ilha das Flores.

(Ana Monteiro)

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EARLY MORNING BLOGS

975 - A Clear Midnight


This is thy hour O Soul, thy free flight into the wordless,
Away from books, away from art, the day erased, the lesson done,
Thee fully forth emerging, silent, gazing, pondering the themes thou lovest best,
Night, sleep, death and the stars.

(Walt Whitman)

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Bom dia!

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23.2.07


ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR




Angra do Heroísmo . Vista a partir do monumento da Memória. (R. Castro)

Ponta de Sagres. (Carlos Cunha)

Mount S. Odile (Heloísa P. Silva)

Castelo e ruínas da vila intra-muros de Montemor-o-Novo.(A.C. Silva)

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ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR




Alcabideque, concelho de Condeixa-a-Nova, Coimbra. (André Guerra)

Dôme de Puy Sallié (3421m), Les Deux Alpes, França. (José Paulo Andrade)

Cova do Vapor. (Carlos Monteiro)

Penacova (perto de Coimbra), numa manhã invulgarmente límpida já que, por esta altura, em 95% dos dias, o nevoeiro do Mondego toma conta do vale e do morro da vila. (António Luís)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: VISTO DO LADO DE LÁ



Escrever-lhe sobre o que penso... Não sei se concorda, mas é uma construção feita aqui do norte, por um professor, com um filho, com um empréstimo (um apenas) que gosta do que faz e que acredita que o que faz é realmente importante.

Hoje discute-se qual o papel do estado nuns e outros jornais, por este ou aquele comentador. Está na moda pensar e repensar a função pública, a função do estado. São tempos de crise institucional. Ninguém sabe para que serve um estado, sobretudo quando serve mal. É geralmente aceite a ideia de que os serviços que o estado presta são maus e caros e portanto dispendiosos e ineficientes. As correntes mais em voga ditam um estado regulador e mínimo relegando para o sector privado todos os serviços que face a uma concorrência sempre à espreita se tornará eficiente e eficaz. São tempos em que o que é privado é tido como melhor que a coisa pública. Do estado diz-se que é pesado e torna-se por isso necessário agilizar, reduzir e emagrecer o "Monstro".

Visto de fora Sócrates é um homem empenhado em reformar e tornar o país melhor preparado para o futuro. Para quem trabalha para o estado é um pesadelo, um mostrengo. É que os funcionários públicos além da má fama têm o pior dos patrões. É um patrão sem cara, irresponsável que ao longo dos anos foi tomando medidas que hoje dizem terem sido erradas mesmo absurdas. Hoje quem está a pagar as imbecilidades com que muitos dos pavões que migraram para terras mais temperadas é o funcionário público.

Este patrão além de inconsequente faz as regras do jogo ao contrário dos outros. E Sócrates muda as regras do jogo a toda a hora e a meio do jogo. Altera cursos superiores retirando-lhes um estágio real e trocando-o por uma prática supervisionada sem quaisquer responsabilidades frustrando as expectativas de quem 4 anos antes se inscreveu no curso; altera regras da segurança social 5 anos depois (se não me engano) de ter afirmado que a reforma estava feita tornando as regras demasiados flexíveis e oferecendo um futuro incerto a quem dela dependerá; a carreira dos professores e funcionários públicos foram alteradas frustrando e violando o acordo estabelecido à data da entrada de cada funcionário para o estado; usa legislação aprovada pela direita e que chegou a criticar para agora deslocar e colocar no corredor dos despedimentos uns não sei quantos funcionários públicos; altera a lei das finanças locais a meio e bruscamente sem o respeito pelos compromissos assumidos pelos autarcas que foram eleitos numas condições e agora têm de governar noutras.

O estado não se comporta como pessoa de bem, de palavra. Um governo assim "reformista" está a calcinar o estado tal como o conhecemos. E isto não foi objecto do programa eleitoral do PS. As reformas são demasiados profundas e o que o PS pensava do papel do estado antes das eleições era bem diferente do que hoje realiza sob uma capa de um pragmatismo reformista. Governar de forma déspota é fácil mas não gera confiança. A confiança é necessária para gerar mudança e semear o futuro. A única ilusão que Sócrates sabiamente vende é a de que está a trabalhar.

Sócrates está enganado e posso afirma-lo com a mesma convicção com que Guterres disse adeus ao lamaçal e com a mesma obstinação com que Cavaco se deixou governar, no seu segundo mandato, pelo Monstro. Acredito que Sócrates pense que se livra do Monstro antes que ele lhe caia em cima. É isso que o leva a quebrar todos os vínculos que o estado assumiu perante os portugueses durante e ao longo de anos (na saúde, educação, justiça, segurança social, etc.). Mas está enganado, pois o estado somos todos nós, é o país que está a falhar com todos.

As orientações espirituais vêm de Bruxelas e o governo trabalhador lá vai no bom caminho ainda à dias recebeu boa nota e mais umas orientações para os próximos tempos: a flexigurança. É um termo giro e ajuda ao marketing. Nós por cá sempre tivemos um fraquinho por estrangeirismos e nunca tivemos nem um pingo de vergonha, nem um horizonte que o diga Gil Vicente e Eça.

Isto tudo para dizer que o principal papel do estado, para mim, é a capacidade de gerar confiança, segurança e estabilidade. Com Sócrates apenas vislumbro o último, o mais perigoso.

(Carlos Brás)

*
Sabe-se que o nosso Estado-Providência é incipiente de algum modo porque nasceu já no fim dos "trinta gloriosos" quando se dá uma inversão das condições que levam a questionar a sua própria viabilidade nos moldes em que tinha sido pensado no pós-guerra. Reconheço a diversidade de qualidade e empenhamento dos "funcionários públicos" que, por isso, devem ter uma avaliação externa. Mas há outra coisa: a defesa incondicional dos "direitos adquiridos do funcionário público" reproduz uma sociedade pervertida em que é a própria administração pública que "faz as vezes" do "Estado-Providência". Para além de perverso, isto é profundamente injusto para aqueles que, por opção ou por falta dela, não são funcionários públicos. É que não ser funcionário público, por estranho que pareça, pode ser uma opção deliberada das pessoas que ambicionam construir de forma mais autónoma o seu próprio percurso profissional.

(Sandra Marques Pereira)

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EARLY MORNING BLOGS

974 - Sonnet from a letter to Bernard Barton

Who first invented work, and bound the free
And holyday-rejoicing spirit down
To the ever-haunting importunity
Of business in the green fields, and the town--
To plough, loom, anvil, spade--and oh! most sad
To that dry drudgery at the desk's dead wood?
Who but the Being unblest, alien from good,
Sabbathless Satan! he who his unglad
Task ever plies 'mid rotatory burnings,
That round and round incalculably reel--
For wrath divine hath made him like a wheel--
In that red realm from which are no returnings:
Where toiling, and turmoiling, ever and aye
He, and his thoughts, keep pensive working-day.

(Charles Lamb)

*

Bom dia!

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22.2.07


ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Serra da Peneda

(Alcides Strecht Monteiro)

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RETRATOS DO TRABALHO NO PORTO, PORTUGAL

Fotografia de publicidade. Foz do Douro, Porto. Ontem.

(Gil Coelho)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 22 de Fevereiro de 2007


The image “http://seara.seara.com/intranet/nos/pacheco/azul/antigona/capas/89.gif” cannot be displayed, because it contains errors.Ler dicionários é uma tarefa ingrata. Eu disse ler dicionários, não consultar dicionários. Li o de Ana Barradas, na versão já não incompleta, editado pela Ela por Ela. É uma obra amadora, com todas as vantagens e inconvenientes que têm as obras amadoras. Mas não é isso que vem ao caso. Mais vale tê-lo do que não ter, e este acrescenta alguns dados à escassez das biografias portuguesas. O caso, é a mania que tem as feministas de organizarem as suas entradas por ordem do primeiro nome, para evitar o dilema do nome de solteira-nome de casada. Já não é o primeiro caso de dicionários de mulheres em que se tem que se andar à volta da nuvem de Marias à procura do segundo nome ou do terceiro da Maria certa. É verdade que o dicionário de Ana Barradas tem um índice final, mas este prurido ideológico prejudica, e muito, a consulta.

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EARLY MORNING BLOGS

973 - Non es mentitus hominibus, sed Deo

http://www.wga.hu/art/r/raphael/6tapestr/5ananias.jpg
O primeiro acto judicial que exercitou S. Pedro, foi no caso de Ananias. Eram naquele tempo da primitiva Igreja as fazendas e bens temporais dos cristãos comuns a todos: e contra esta Lei ou voto, vendeu Ananias uma herdade e ocultou parte do preço; manda-o chamar à sua presença S. Pedro; e que é o que fez e o que disse? O que só podia dizer e fazer Deus.

O que disse foi: Non es mentitus hominibus, sed Deo:« sabe, Ananias, que no que encobriste não mentiste aos homens, senão a Deus.» Vede se se tratava como Deus quem assim falava.. O que fez foi ainda mais divino, mais admirável: e de maior terror. «Ouvindo aquelas palavras, caiu morto Ananias aos pés de Pedro»: Audiens autem hæc Ananias, expiravit.

Descrevendo Isaías a justiça de Cristo, diz que só com o espírito de sua boca matará o impio:
Et spiritu labiorum suorum interficiet impium. E nisto mostrou o Profeta que o mesmo que havia de ser o Redentor, era o Deus que tinha sido o Criador. O modo com que Deus, quando criou o primeiro homem, lhe deu vida, foi inspirar-lhe no rosto com o espírito de sua boca: Inspiravit in faciem ejus spiraculum vitæ , et factus est homo in animam viventem. Pois assim como só com o espírito de sua boca deu a primeira vida, assim com o mesmo espírito, sem outro instrumento, diz Isaías que Cristo dará a morte ao ímpio. Isto é, nem mais nem menos, o que fez S. Pedro. Nem mandou matar a Ananias, nem lhe disse que morresse, e só com lhe tocar nos ouvidos o espírito de sua boca, caiu morto.

Mas tal execução como esta, posto que de poder tão divino, nunca a fez Cristo. Como diz logo o Profeta que com o espírito de sua boca havia de matar o ímpio? É profecia que ainda está por cumprir, e diz S. Paulo que se cumprirá quando Cristo, no fim do Mundo, com o espírito só de sua boca matará o Anticristo. Tunc revelabitur ille iniquus, quem Dominus Jesus interficiet spiritu oris sui et destruet illustratione adventus sui. Esta será a última execução de justiça de Cristo e tal foi a primeira de Pedro.

(Padre António Vieira)

*

Bom dia!

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21.2.07


ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Serra da Peneda

(Alcides Strecht Monteiro)

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NUNCA É TARDE PARA APRENDER: UMA ESPÉCIE DE FIM

http://www.pienoismalli.com/cam154.jpg



David Nicolle, Acre 1291: Bloody Sunset of the Crusader States, Oxford, Osprey, 2005

Cento e cinquenta anos antes, parece um déja vu ao contrário: a queda de Acre, parece a queda de Bizâncio. O mesmo isolamento no meio de terras hostis, a mesma progressiva incapacidade de perceber o que estava a acontecer, seguida de um desesperado apelo aos outros cristãos, recebido com indiferença, protelamentos e intrigas de corte e poder, a mesma resistência final desesperada e solitária. E, depois do desastre, o mesmo choque na Europa cristã pelo que aconteceu, no caso de Acre, o verdadeiro toque de finados da aventura cristã das cruzadas e dos reinos latinos no Levante.

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20.2.07


JARDINS DE INVERNO

Jardim do mosteiro de Tibães, Braga. Hoje.

(Gil Coelho)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 20 de Fevereiro de 2007



Pack journalism diz o dicionário Merriam-Webster é "journalism that is practiced by reporters in a group and that is marked by uniformity of news coverage and lack of original thought or initiative." Os jornais estão cheios de pack journalism, sem acrescentar um átomo ao que circula: por exemplo, Marcelo proclamou a remodelação inevitável dos Ministros da Economia e da Saúde, logo "há certezas: alguns ministros - casos de Manuel Pinho ou Correia de Campos - dificilmente ultrapassarão o enorme desgaste de que padecem." (Diário de Notícias) Porquê? Alguém se dá ao trabalho de analisar, para além das gaffes e das controvérsias, se o seu trabalho é mesmo mau por outro critério que não seja o do eco no pack das gaffes e controvérsias? Se este tipo de comentários fosse feito há uns meses, sem a memória fresca (a única que pelos vistos existe) da viagem à China e dos incidentes em Valença, não estariam na lista também a Ministra da Educação ou da Cultura? Isto não é informação, mas opinião, aliás sem qualquer qualificação porque não acrescenta nada. Ninguém lê jornais para ler estes textos.

*

Interessante: no Público, na página cinco do suplemento P2, o jornal utiliza uma espécie de quadro de palavras-chave, ao modelo dos tags nos blogues. Embora ainda falte um sublinhado dentro de um sublinhado, dado pelo tamanho da palavra em função da sua importância, mesmo assim resulta em papel.

Resulta tanto mais quanto acaba por ser revelador: as palavras (tags) que definem Sócrates acabam por mostrar o mecanismo de construção da personagem feita a partir dos depoimentos citados no artigo, Encaixa tudo demasiado bem, só destoa o "dissimulado". Para não ser tudo muito hagiográfico, seria interessante saber, no plano da política, o que é que "dissimula" o "dissimulado".

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ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Campus da Princeton University.

(Bruno Ribeiro)

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EARLY MORNING BLOGS

972 - The Tale of Two Bad Mice

illustration from 'The Tale of Two Bad Mice', The mice smash the food - Copyright Frederick Warne & Co, 2004 Once upon a time there was a very beautiful doll's-house; it was red brick with white windows, and it had real muslin curtains and a front door and a chimney.

It belonged to two Dolls called Lucinda and Jane; at least it belonged to Lucinda, but she never ordered meals.

Jane was the Cook; but she never did any cooking, because the dinner had been bought ready-made, in a box full of shavings.

There were two red lobsters and a ham, a fish, a pudding, and some pears and oranges.

They would not come off the plates, but they were extremely beautiful.

One morning Lucinda and Jane had gone out for a drive in the doll's perambulator. There was no one in the nursery, and it was very quiet. Presently there was a little scuffling, scratching noise in a corner near the fireplace, where there was a hole under the skirting-board.

Tom Thumb put out his head for a moment, and then popped it in again. Tom Thumb was a mouse.

A minute afterwards, Hunca Munca, his wife, put her head out, too; and when she saw that there was no one in the nursery, she ventured out on the oilcloth under the coal-box.

The doll's-house stood at the other side of the fire-place. Tom Thumb and Hunca Munca went cautiously across the hearthrug. They pushed the front door--it was not fast.

Tom Thumb and Hunca Munca went upstairs and peeped into the dining-room. Then they squeaked with joy!

Such a lovely dinner was laid out upon the table! There were tin spoons, and lead knives and forks, and two dolly-chairs--all SO convenient!

(Beatrix Potter)

*

Bom dia!

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19.2.07


ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Ilha do Pico - Açores

(Maria José Silva)

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NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A MEMÓRIA DE BIN LADEN

http://www.principlesofwar.com/miva/graphics/00000001/Osprey/1841768685.jpgDavid Nicolle, The Third Crusade 1191: Richard the Lionheart, Saladin and the battle for Jerusalem,
Oxford, Osprey, 2006

Os comunicados da Al Qaida utilizam correntemente a expressão "os cruzados" para designar os europeus e os americanos. Como nós já esquecemos a nossa história, eles lembram-nos à bomba. Sim, de facto, na origem da Europa. tal como a conhecemos, também estão as cruzadas, mostrando a antiquíssima relação que temos com essa parte do mundo a que chamávamos o Levante. É uma relação que continua, porque, a uma certa luz, o estado de Israel, produto do sionismo, uma ideia europeia, não deixa de ter uma continuidade com séculos de conflito em que o judaismo e o cristianismo defrontam o Islão. Verdade seja que não é só um conflito religioso, é também um conflito geopolítico, porque o Levante é a primeira linha de qualquer projecção do poder europeu. E não é um conflito entre "nós" e "eles", porque desde as próprias cruzadas que as potências europeias também ali se digladiam entre si, nalguns casos com estranhas alianças que incluiam muçulmanos contra muçulmanos. A terceira cruzada foi um exemplo típico, de um xadrez complexo que envolvia desde os bizantinos, aos reis e nobres do Sacro Império, aos Angevinos (os Plantagenetas ingleses), aos francos, aos monarcas dos reinos criados pelas cruzadas, e aos cavaleiros das ordens religiosas. A capa deste pequeno livro da série das "campanhas" da colecção de história militar da Osprey retrata aliás o momento em que partidários do Ricardo Coeur de Lion derrubam a bandeira do Duque Leopoldo da Aústria que achavam não ter o direito de ser hasteada em Acre. E depois há Saladino, o herói do Islão, que era de ascendência curda e que tinha tal fama que Dante o colocou no Limbo, entre os grandes homens não cristãos, e que domina não só a resistência às cruzadas como a ofensiva que alterará de forma decisiva a relação de forças e acabará, a prazo, com a presença europeia no Levante até à queda do império otomano.

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EARLY MORNING BLOGS

971 -Lament of the Frontier Guard

By the North Gate, the wind blows full of sand,
Lonely from the beginning of time until now!
Trees fall, the grass goes yellow with autumn.
I climb the towers and towers
to watch out the barbarous land:
Desolate castle, the sky, the wide desert.
There is no wall left to this village.
Bones white with a thousand frosts,
High heaps, covered with trees and grass;
Who brought this to pass?
Who has brought the flaming imperial anger?
Who has brought the army with drums and with kettle-drums?
Barbarous kings.
A gracious spring, turned to blood-ravenous autumn,
A turmoil of wars-men, spread over the middle kingdom,
Three hundred and sixty thousand,
And sorrow, sorrow like rain.
Sorrow to go, and sorrow, sorrow returning,
Desolate, desolate fields,
And no children of warfare upon them,
No longer the men for offence and defence.
Ah, how shall you know the dreary sorrow at the North Gate,
With Rihoku's name forgotten,
And we guardsmen fed to the tigers.

(Ezra Pound a partir de Rihaku. [Li Po?])

*

Bom dia!

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18.2.07


ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR


Almeida.

(Nuno Campos)

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ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Grifo ( Gyps fulvus ) voando nas arribas do rio Águeda afluente do Douro Internacional

(Joaquim Peixoto)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 18 de Fevereiro de 2007


http://upload.wikimedia.org/wikipedia/pt/thumb/6/62/Catedral-016.jpg/250px-Catedral-016.jpg
Um dos mais antigos media soa aqui ao lado: o sino da Igreja. Ontem anunciou um evento, tocando a finados; hoje anuncia hoje outro, tocando para a missa. O sino informa e, embora o seu toque já seja automatizado, carrega-se num botão e toca, continua a ser o velho sino de sempre. Alguns sinos têm o software inscito no hardware:
Laudo Deum verum plebem voco congrego clerum
Defunctos ploro, nimbum fugo, festa decoro.
Alguns media não morrem tão depressa como se julga. Este sobreviveu ao telex.

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EARLY MORNING BLOGS

970 - Two Neighbors

Faces of two eternities keep looking at me.
One is Omar Khayam and the red stuff
wherein men forget yesterday and to-morrow
and remember only the voices and songs,
the stories, newspapers and fights of today.
One is Louis Cornaro and a slim trick
of slow, short meals across slow, short years,
letting Death open the door only in slow, short inches.
I have a neighbor who swears by Omar.
I have a neighbor who swears by Cornaro.
Both are happy.
Faces of two eternities keep looking at me.
Let them look.

(Carl Sandburg)

*

Bom dia!

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PENSAR OS JORNAIS I

À nossa frente, diante dos nossos olhos, vários objectos que tomamos por indissociáveis do "nosso mundo" desaparecem, uns lenta, outros rapidamente, de um dia para o outro. Já vi desaparecerem as máquinas de escrever, os copiógrafos, a tipografia a chumbo, os selos do correio, o rolo de fotografias, o gravador de fita, as disquetes, o telex, o fax, o vídeo, etc, etc.

http://www.maths.bris.ac.uk/~mazjmh/Stamps/machin.jpg http://docushare.unisa.edu.au/docushare/dsweb/Get/Document-2522/ENC1-19+retirement+telex.jpg http://www.rockymountainfilm.com/images/e4.jpg http://retrothing.typepad.com/photos/uncategorized/brother.jpg

Olhando à nossa volta, outros objectos estão também a ir-se embora: que necessidade tenho eu de vir a esta estante de CD de música que gravei no iPod, podendo agora transportar toda a minha discoteca de aparelho para aparelho sem precisar de mais nada? Ao lado, os vídeos em VHS juntam-se aos discos em vinil e suponho que, a prazo, os DVD irão fazer-lhes companhia. Os selos, a mesma coisa, hoje já quase que não se usam no correio, para serem emitidos apenas para os coleccionadores. O dinheiro pouco a pouco é substituído pelos cartões e todos os cartões convergem para um só. http://static.flickr.com/78/156602769_bbb73553ab_m.jpgA rápida mudança do tempo vivido dos objectos torna obsoleto qualquer filme de ficção científica que tenha mostradores analógicos em vez de digitais, porque nós sabemos que o futuro não substituiu apenas as alavancas por botões, mas acabou com os mostradores redondos em que um ponteiro podia indicar um drama quando se aproximava do vermelho. Hoje, só para os filmes de submarinos da Segunda Guerra Mundial.

E será assim para estes objectos que tenho à minha frente, feitos de muitos hectares de floresta, esta pilha de jornais? Estão também a ir-se embora, pouco a pouco, sem nós vermos, nem nós querermos? Talvez em geral, sim, em particular para os jornais feitos ao modelo antigo, entre o jornal generalista e aquilo que se chama hoje "imprensa de referência". Vejamos o caso português, em que há várias coisas evidentes que os jornais "de referência" não quiseram ver nem entender. Uma delas é que hoje um leitor em papel pode ler a "imprensa popular", opção que não tinha no passado.

Quando só havia jornais vergados ao peso de si próprios como instituições, protegidos por um mundo em que a institucionalização era garantida entre outras coisas pela censura - que eliminava o "popular" (sentimentos fortes, crime, inveja social, críticas aos poderosos, voyeurismo, violência em geral, medos, etc.) -, a "imprensa popular" não existia.
Acabada a censura e envelhecidos os modelos dos jornais "de referência" numa sociedade em mutação, em que a ascensão das massas aos consumos "culturais" se dava pela primeira vez, era natural que uma parte dos públicos forçados até então pela ausência de alternativa escolhessem. Já não tinham apenas o Diário de Notícias, ou o Diário de Lisboa, ou o The image “http://www.mni.pt/images/conteudo/jn.gif” cannot be displayed, because it contains errors.Século, ou o Diário Popular, ou o Comércio do Porto, ou O Primeiro de Janeiro, mesmo com as suas nuances, mas podiam começar a comprar o Correio da Manhã e, mais tarde, a imprensa tablóide, que é uma outra variante de "imprensa popular". No Porto, sempre tiveram essa escolha porque tinham o Jornal de Notícias, de quem se dizia que, se se espremesse o jornal, escorria sangue, e talvez por isso é que a imprensa "de referência" de Lisboa nunca tivesse tido sucesso no Porto. (Deixo por agora de parte a concorrência com a televisão e rádio quanto à novidade noticiosa e à espectacularização).
Afastada da sensibilidade "popular", logo do público de massas, era inevitável uma perda significativa de leitores, agravada pelo aparecimento dos gratuitos. Mas a imprensa "de referência", durante muito tempo, que era também imprensa do Estado porque pública ou semipública, continuou num caminho autista até que a privatização começou a abanar os bolsos dos "donos" da imprensa com os elevados custos de jornais que perdiam leitores e, ao perderem leitores, perdiam publicidade. Quer o Diário de Notícias, quer o Público, de modo diferente, começaram a sentir há muito esta perda e ensaiaram diferentes respostas para a contrariar, cujo sucesso depende da correcção da análise dos problemas.
Uma observação sobre um reparo feito no Indústrias Culturais sobre "a colocação temporal do autismo dos media impressos. Primeiro, a imprensa de Estado (...) só existiu entre 1975 (...) e finais da década de 1980 (...). O Diário de Notícias foi desnacionalizado em Maio de 1991, ou seja, há 16 anos é propriedade privada. Entretanto, tinha surgido o Público (1990)." Tive em conta esta circunstância, mas penso que o Diário de Notícias só foi verdadeiramente des-nacionalizado quando foi comprado por Joaquim Oliveira e deixou a PT.

The image “http://dn.sapo.pt//2007/02/12//capa.gif” cannot be displayed, because it contains errors.[publico2007.JPG]O Diário de Notícias tentou tornar-se num jornal forte na economia, investindo num suplemento diário, o Público tenta conquistar os novos leitores que estão a fugir para a rede. Quer um, quer outro valorizaram o desporto e outros temas "populares" mesmo antes das reformulações realizadas, num caso e noutro muito distintas nos seus alvos. O Diário de Notícias parece ter falhado, o Público ainda é cedo para ver.
No Bloguitica Paulo Gorjão insiste em três factores decisivos na decisão de compra de um jornal "de referência": "informação de qualidade; análise de qualidade; e, opinião de qualidade. Uma trilogia de 3Q." Tem razão em identificar estes factores em que uma cultura de exigência ainda está muito longe de chegar ás redacções. Só por si, se se fosse por aqui, obter-se-iam resultados, mas não se estancaria a crise da imprensa escrita ao modo tradicional. Penso que é preciso ir mais longe na análise da crise e pensar as questões de forma (as tecnologias, o grafismo, os meios) como questões de conteúdo e ir ainda mais longe entendendo que o "consumo" de informação está a mudar não só em exigência, mas num modo diferente de ler, procurar, analisar, aprender e divertir-se. Estas mudanças fazem migrar muita coisa que antes se fazia nos jornais para outros media e implicam um novo conceito de jornal, não apenas o antigo jornal melhorado. É sobre isso que escreverei para a semana.
Perdendo os públicos antigos, que se deslocaram para a "imprensa popular", colocava-se saber por que razão não se conquistavam os novos públicos. Havia sempre duas estratégias possíveis: ou tentar tornar "popular" (e "popular" e tablóide" não são a mesma coisa, porque há imprensa "popular" de qualidade, como é o caso do Correio da Manhã) o produto, como agora se diz, ou tentar roubar novos públicos a outros media que começam a crescer, em particular na juventude, ligados a outra combinação de media. Basta ver a combinação de media que os jovens consomem - jornais desportivos, revistas de moda em papel e blogues e sítios, incluindo os jornais, gratuitos em rede - para se perceber que não era tão simples como isso lá chegar, com um produto em papel. É que as novas elites numa sociedade de massas, em particular as elites com elevada educação formal, são também elas próprias um resultado da sociedade de massas, espectacularizadas, com gostos "culturais" muito mais "populares", habituadas a uma informação mais curta, fragmentada e utilitária. Na verdade, a sociedade de consumo de massas encolheu as elites, como nós as conhecíamos do passado, e gerou elites que o são socialmente, mas que, entre outra coisas, lêem menos e lêem diferente. O retrato das elites do presente dificilmente seria considerado como sendo de elite no passado. A tradição já não é o que era.
Reproduzo aqui uma nota que publiquei no Abrupto sobre a campanha publicitária do Público :

...parece voltada em parte para esse público da "cultura de blogue", apelando às suas referências
culturais, para o trazer para a imprensa escrita em papel, o que é uma contradição nos seus termos. A contradição tem a ver com o facto dessa "cultura" ser estruturante e dos seus hábitos não serem "em papel". Não só os hábitos não são "em papel", mas sim no ecrã, como a forma de ler em volume e em profundidade (do hipertexto) é diferente da forma de ler em superfície e sequência (dos textos em papel, dos livros). Os hábitos são também mais de "ver" ( e de "ouvir") do que de "ler", o que explica o sucesso do YouTube como percursor de uma Rede em que se vai "ver" mais do que "ler".

Por isso, a campanha de publicidade resultará mais naqueles que chegaram a uma "cultura da Rede" mais do que a uma "cultura de blogue", ou seja, que não foram feitos "dentro" da "cultura de blogue", mas que ajudaram a fazê-la. Gente mais velha, com os pés em ambas as literacias, as do livro e jornal clássicos e as da Rede. Se foram estas as pessoas que deixaram de ler jornais pela décalage de interesses mais do que pelo facto de serem em papel, a campanha (e presumo que o jornal) terá sucesso, porque fará um produto mais próximo da sua agenda de interesses.

Os que já foram moldados pelos hábitos da Rede, os que se habituaram (como muitos adolescentes a chegarem ou nos primeiros anos na universidade) a olhar para o mundo no modo pick and choose típico dos blogues, nunca mais lerão em papel como se lia antes e não há campanha publicitária que os agarre. Vamos ver.
Podemos não gostar deste mundo, mas é o que existe lá fora. Neste processo, para onde foram os leitores dos jornais? Fugiram porque os jornais não lhes interessavam, ou porque já não precisam deles e não estão dispostos a pagar caro por aquilo que tem para eles apenas um utilidade marginal. Quem sobra é uma elite de uma elite, que continua a precisar e está disposta a pagar jornais de "referência", com a condição de que estes lhes forneçam informação de muito maior qualidade, o que, por regra, não acontece hoje. Só há uma maneira de os jornais competirem com os novos consumos mediáticos gerados pela televisão e pela rede, é serem muito diferentes do que eram no passado e serem únicos, ou seja, o que está ali não está em lado nenhum. E, mais fundamental ainda: não poder estar em nenhum outro lado.

(Continua)

(No Público de 17/2/2007)

*
Basta abrir a página do NYTimes na net para perceber o que é que um jornal de referencia tem de fazer para continuar a sê-lo. Como diz muito bem, é ser único no que publica. Para tal é preciso gente de muita qualidade que esteve disposta a tarimbar e a sofrer pelos pequenos jornais até chegar ao NYTimes. Já viu alguem tarimbar em Portugal? Todos querem começar em Lisboa. Quando o DN exigir que os seus jornalistas sejam licenciados, que tenham trabalhado pelo menos 5 anos nos jornais de provincia, que produzam trabalho que seja absolutamente original, por salários que nunca os farão ricos e que a fama e o respeito de seus pares é a sua verdadeira compensação, então teremos jornais de referencia. (e terem uma página na net não afecta nada, antes pelo contrário, ajuda a ganhar receitas de anúncios e leitores da cópia em papel)

(DG)

*

(...) os pontos que assinala na sua crónica no Público são sem dúvida pertinentes, e imagino que seja uma discussão que diariamente as direcções dos jornais portugueses (bom, em todo o Mundo...) se debatam. Como aumentar as vendas, como aumentar as vendas, como aumentar as vendas? Ah, e sem perder qualidade (referência vs popular/tablóide).

Todavia, julgo que se esqueceu de um caso que eu julgo que já se pode considerar de sucesso em Portugal (não é necessário irmos ao NYTimes): o Expresso.
Se há jornal de referência que conseguiu ultrapassar o processo de renovação, melhorando imensamente a qualidade e melhorando as vendas (além de resistir à nova concorrência), foi o Expresso.

E não foi só o produto em papel que melhorou. O seu sítio na Internet está, neste momento, fabuloso. Junta a simplicidade/usabilidade a uma diversidade de secções, que nenhum outro jornal tem. O Público, apesar de tudo, também tem agora um excelente site, mas não está ainda ao nível do que o Expresso conseguiu construir nos últimos meses.

Qual o sucesso do Expresso, no binómio papel/internet? Interactividade. Conseguiu com sucesso fazer com que os seus leitores interajam não só com as notícias em si, mas com os seus jornalistas, com os seus cronistas, com os seus entrevistados, com todos aqueles que fazem realmente um jornal, e com quem os leitores querem interagir.

Não basta lançar fóruns, podcasts, blogs, para pensar que se vai ter sucesso. Tem de se mobilizar aqueles que compõem o jornal a interagir realmente com os leitores, dando-lhes feed-back ao que estes dizem e escrevem, fazendo contacto directo. Os leitores não querem ser um elemento passivo, mesmo quando já há um certo grau de envolvimento com os novos meios digitais. Os leitores neste momento querem fazer parte do jornal, querem que os jornais lhes dêem importância (e não o contrário), querem que a sua opinião pessoal seja valorizada.

Pessoalmente julgo que o passo seguinte dos órgãos de imprensa, no futuro, será a sua redacção pelos próprios leitores, na linha do Wikipédia. Poderá não ser a melhor evolução, mas os jornais que não quiserem ver este passo lógico, terão certamente dificuldades...

(José Manuel Iglesias)

*

Considero que a tendência na evolução dos media em Portugal é claramente negativa. Tive esperança de que a entrada do arrojo do grupo Prisa (não vejo nenhum fantasma na pertença castelhana do capital) introduzisse qualidade, competência e competição. Mas o que o Rádio Clube até agora deu a ouvir está longe de preencher o vazio deixado pelo abandono que a TSF mostra do jornalismo de investigação e reportagem. No Rádio Clube falam, falam, mas há muito que nem sequer fale minimamente bem e ouço opiniões e comentários a mais e reportagens a menos.

Encontro o mesmo vício na imprensa portuguesa que leio (Público, DN, CM e Metro em papel, JN na net). Tornei-me leitora do DN quando há alguns meses a imagem do jornal foi refrescada e essa curiosidade me permitiu encontrar alguns textos jornalísticos interessantes, com bom equilíbrio entre notícias, reportagens e opinião e na atenção ao local e ao mundo. Apreciei a qualidade que José Pacheco Pereira refere do investimento no suplemento Economia. O DN não me satisfaz mas discordo de si (e parece que também da Administração do DN) quando afirma que o DN parece ter falhado. Pode falhar como negócio, mas deu passos firmes no jornalismo de qualidade. Aqui entra uma minha preocupação e vejo-me, eu, profundamente liberal, a interrogar-me sobre os riscos de toda a imprensa nas mãos de homens de negócios sem tradição de família de imprensa. A imprensa é um negócio, eu sei. Mas quando o “entorno” do país é rebaixado (desde o Big Show Sic e Big Brother) para o mais tablóide, quando a Escola não assume a dimensão crítica dos media, a qualidade da ambição dos consumidores de media baixa para níveis que confrangem quem tem mínimos de curiosidade sobre o mundo e sobre as boas ideias e negócios. Para acompanhar o mundo preciso de recorrer ao El Pais de que me tornei assinante, compro no fim de semana o IHT e o FT e, às vezes o Sunday Times e desfruto das indicações do excelente guia da actualidade oferecido na net pelo serviço público que é o Sena Santos Podcast (que substitui a falta de mundo dos noticiários radiofónicos). O que sabemos na imprensa portuguesa sobre o que se passa no mesmo Timor que há menos de dez anos tomou com exagero avassalador os media de Portugal? (abro excepção para uma rica short story de Pedro Rosa Mendes no Expresso de 2007-02-17). E o que sabemos de Angola e de Moçambique onde também deveríamos ser o primeiro dos observadores e transmissores da realidade? Também de S.Tomé, de Cabo Verde e da Guiné-Bissau? E da Europa a que aderimos? E do Brasil?

Temos o Público que tanto me entusiasmou quando apareceu mas que nos últimos anos passou a reflectir a realidade de um país em que os ricos recorrem à imprensa estrangeira e os pobres são alimentados pela imprensa que temos ou com os escândalos quotidianos ou com páginas e páginas de opinião. Falta a análise profunda e falta o testemunho presencial da reportagem. Senti um frémito de entusiasmo ao olhar a renovação do Público iniciada na última segunda-feira, o jornal ficou muito atraente à vista. Mas, em primeira impressão, não encontro nenhum enriquecimento de leitura, talvez até pelo contrário, e não gosto do desaparecimento de secções como Educação, Saúde ou Media. Vou esperar para ver mais e ver se me habituo.
É assim que cada vez mais me transfiro para a internet à qual estou a dedicar uma média de duas horas por dia. É na internet que encontro o fundo sonoro e é também na internet que encontro leituras que me satisfazem, mas conservo o gosto (mal correspondido) da leitura matutina de jornais em papel.

(Ana Costa)

*

Sinceramente tenho quase a certeza que muitos (a maioria?) dos leitores / espectadores / consumidores de informação (mesmo os mais atentos) não se interrogam sobre estes assuntos e estas mudanças, simplesmente adaptam-se a elas fazendo as suas opções pelas várias ofertas mediáticas em função do que gostam / necessitam / valorizam. Há uns anos dei por mim a passar do papel p/ a Internet s/ dramas, quase s/ dar por ela. Hoje consumo dos 2 consoante as oportunidades que surgem (leio jornais quando viajo, uso a Internet no escritório). Esta ultima permite s/ custos uma infinidade de escolhas (site dos jornais em papel, jornais on-line, blogs, etc) no momento em que der mais jeito (pode-se ir lendo enquanto se trabalha) e por isso a prefiro. Além disso quanto menos papel se consumir mais ecológico se está a ser. Julgo que a tentativa do jornal-papel a competir c/ as multiformas informativas / opinativas da Internet é o mesmo que a carroça a tentar competir c/ o automóvel no inicio do Sec. XX, o prognóstico já era mais que certo quando o “jogo” começou. A lista de suportes de informação que apareceu e desapareceu (ou está em vias de extinção) nos últimos 100 anos é extensa e só prova a velocidade das mudanças. Ainda me lembro há pouco mais de 20 anos da guerra VHS / Beta ganha pelo 1º. Hoje já ninguém o quer. Lembro-me das enormes (no tamanho, não na capacidade) disquetes de 5 e ¼ (polegadas) serem derrotadas pelas de 3,5 (hoje CDs RW riem-se da irrisória capacidade de 1,4 MB). Foi para tudo isto que trabalhamos, para termos mais e melhores meios de suporte da informação, para termos mais e melhor acesso à informação, para sabermos mais. Como usamos as ferramentas que as melhores capacidades técnicas da humanidade puseram à nossa disposição, só depende de nós e das nossas sociedades, tal como a TV, a rádio, os jornais são aquilo que a sociedade fez deles. Não são as capacidades técnicas e características específicas dos meios de suporte / transmissão de informação que fazem deles bons ou maus, é o uso que lhes damos, a exemplo da dinamite de Nobel. Se usamos os meios que temos para trabalhos “pacíficos” ou para “bombas” a culpa será sempre das opções que as sociedades tomaram e que resultam da “soma” das opções individuais de cada um. Não foi preciso Internet p/ as revistas cor-de-rosa terem o sucesso que têm e promoverem as “figuras” que promovem e que muitos consomem, alimentando um negócio de milhões. Se numa sociedade se dá mais importância ao enésimo romance da Xáxá Carlota Joaquina do que à educação, saúde, etc, a culpa não é dos media, nem dos seus donos, é de quem compra / consome Xáxá Carlota Joaquina e se borrifa p/ a saúde e a educação. Numa sociedade democrática e c/ mercado livre o consumidor é que manda. Por muito que lhe seja mais confortável culpar os outros (os médias, os donos dos médias, os que produzem conteúdos, etc, etc) o consumidor num mercado livre é o único responsável pelo que aparece e pelo que desaparece do mercado, são as suas decisões de compra que definem o que tem e o que não tem êxito. O resto é conversa

(Miguel Sebastião)

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17.2.07


ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Freguesia de Penhas Juntas, Concelho de Vinhais, Distrito Bragança.

(Ovidio Linhas)

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ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Freguesia de Penhas Juntas, Concelho de Vinhais, Distrito Bragança.

(Ovidio Linhas)

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EARLY MORNING BLOGS

969 - Paradise Lost Book 5: An Epitome

Higgledy piggeldy
Archangel Rafael,
Speaking of Satan's re-
Bellion from God:

"Chap was decidedly
Turgiversational,
Given to lewdness and
Rodomontade."

(Anthony Hecht)

*

Bom dia!

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16.2.07


NATUREZA MORTA

À esquerda uma pilha de papéis e livros. Oscar Masotta, Revolución en el Arte e uma edição conjunta da Gulbenkian e da Biblioteca Nacional Francesa sobre livros arménios. Na capa, um grifo antropomórfico. Em cima, um cartucho com um busto de Pombal, oferta do município de Pombal, ainda por desembrulhar. Parecia uma coisa de comer no seu embrulho. Um DVD, instruções para uma câmara de segurança, trinta e cinco folhas com um esboço da biografia de F.M.R., uma pen, um teclado que não está em uso. Um copo de estanho com lápis, um de um Four Seasons qualquer e outro de um Sofitel também qualquer, canetas, um desandador, duas facas de papel, uma com o formato de uma espada, um moleskine meio usado, um postal com o D. Quixote, uma caixa de pastilhas Valda, uma lupa, um disco duro vertical de 400 GB, backup de um backup de um backup. Um agrafador. Duas mãos, um rato à direita que diz Microsoft. O mesmo tapete de sempre que veio do Nagorno-Karabak, uma pilha de números antigos da Seara Nova.

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ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

(José Manuel Fernandes)

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COISAS DA SÁBADO - AUTOFAGIA: JUÍZES A FALAR DEMAIS

Ou é impressão minha ou os juízes, andam a falar demais? É evidente que os juízes são cidadãos como outros quaisquer, mas haver juízes a criticar decisões de outros juízes em público, em processos que ainda estão em aberto, a não ser em casos de interesse público relevante, quase de crise das instituições, de ameaça à democracia, de obrigação moral excepcional, não me parece que tenha outro efeito senão dissolver a autoridade dos próprios juízes face aos cidadãos que deles esperam distância, prudência, sensatez e alguma reserva. A reserva do poder.

Dito isto, não tenho qualquer dúvida que não vale a pena dizê-lo. A mediatização da vida toda não parará à porta dos tribunais nem da cabeça dos juízes. Eles querem, como toda a gente, participar na grande cacofonia universal e tornar-se como os outros. A ilusão está em que, tornando-se como os outros, pensam que poderão manter o estatuto e os poderes que hoje têm. Estão enganados, mas ninguém os vai convencer disso, porque também eles querem ser “protagonistas”.

*
Permite que lhe observe que, a propósito de "É evidente que os juízes são cidadãos como outros quaisquer ... ", juíz é um cargo (ou orgão de soberania) e não um cidadão. Creio que será deste "erro de paralaxe" que emanam todos os "protagonismos" que a sua entrada no blog tão bem descreve. Quando os cidadãos, que ocupam os respectivos cargos de juízes, se relembrarem da sua condição, a protagonista será a Justiça.

(Luís Casanova)

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ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR


(José Manuel Fernandes)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 16 de Fevereiro de 2007



Há alturas em que se percebe muito bem por que razão a Igreja sobrevive no tempo. A análise que a Conferência Episcopal Portuguesa faz dos resultados do referendo é um excelente exemplo de ponderação e de atenção à realidade e à mudança. Contrariamente ao que faz toda uma escola de ressentidos do "não", muito representada nos blogues "de direita", a Igreja afirma haver significativas mudanças de mentalidade na sociedade portuguesa, identifica essas mudanças pela maior importância dada à autonomia individual (não usa este termo, mas quase), dá importância ao resultado, tenta compreender o "sim" sem anátemas nem minimizações. É por isso que vai continuar a ter um papel decisivo, diferente do passado, mas fundamental.

*
Concordo inteiramente com a sua opinião sobre a Conferência Episcopal Portuguesa, onde esta constata, a propósito do referendo, a mutação cultural existente. Aliás, não é nova: por exemplo, a Nota Pastoral de 2001 "Crise de Sociedade, Crise de Civilização" diz a abrir: "Tem-se verificado, na sociedade portuguesa, um conjunto de factos e de fenómenos que consideramos sintomas preocupantes de uma alteração cultural que anuncia uma crise de civilização. Sem excluir as tomadas de posição pontuais, ao ritmo dos acontecimentos, para esclarecer a consciência dos fiéis, queremos, com esta Nota Pastoral, alertar para um quadro civilizacional de valores culturais que possa constituir o pano de fundo a proporcionar aos católicos e a toda a sociedade um juízo dos factos e das situações, na perspectiva da doutrina da Igreja sobre a pessoa humana e sobre a sociedade." E a Carta Pastoral "Responsabilidade Solidária pelo Bem Comum" enumera os chamados "pecados sociais da nossa sociedade" (No. 4 ), tais como "egoísmos, consumismo, corrupção, desarmonia do sistema fiscal, irresponsabilidade na estrada, exagerada comercialização do fenómeno desportivo, exclusão social", e uma opinião quanto às suas origens (No. 5).

(Américo Carlos Tavares)
*

Eu sei que Portugal não é o Japão, mas não seria suposto que os responsáveis pela empresa pública que gere os comboios portugueses se deslocassem ao Tua, nem que seja para expressar solidariedade com as vítimas que são da casa, os trabalhadores que morreram, já para não falar das outras?

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15.2.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 15 de Fevereiro de 2007


A indiferença da opinião pública e publicada (a começar pela portuguesa) face ao julgamento de Madrid dos acusados do 11 de Março, revela bem a atitude de avestruz generalizada pela Europa em relação ao terrorismo fundamentalista islâmico. É num tribunal de Madrid, não em Washington, Nova Iorque ou Bagdad; não são os sempre suspeitos americanos a julgar; não são detidos de Guantanamo num "voo da CIA"; mas juízes espanhóis na vigência do Sr. Zapatero e, no entanto, ninguém liga nenhuma. Nem um átomo de indignação, nem uma atenção, nem uma curiosidade em saber como foi, com quem foi, porque foi. Já para não falar de algumas lições que se podem tirar sobre quem são os alvos dos terroristas: nós.
Discordo de que os julgamentos de Madrid não tenham tido a atenção justa da comunicação social face à gravidade do caso. A diferença é que, neste caso, se trata da democracia e do estado de direito a funcionarem, e isso por si só não é notícia. Não aconteceram detenções ilegais, tortura de prisioneiros ou longos aprisionamentos de suspeitos em campos de concentração, sem culpa formada. Esperemos pois pelo resultado do julgamento, como é normal numa democracia normal.

(João Paulo Telo)



*

O acesso dos lóbis aos deputados é a coisa mais normal do mundo na maioria dos parlamentos europeus, a começar pelo propriamento dito Parlamento Europeu. É uma prática típica das democracias, entendendo-se que, se os deputados decidem sobre interesses contraditórios, as partes interessadas podem fazer todo o trabalho de esclarecimento e propaganda necessário junto dos decisores, chamando-lhes a atenção para as vantagens e inconvenientes da sua decisão, em função dos clientes que representam. O Estado Português e as suas instituições contratam habitualmente empresas desta natureza nos EUA, quer para questões de natureza económica, quer para questões de natureza política (Timor, por exemplo).

Como, em democracia, a mediação de interesses contraditórios é absolutamente normal, prefiro que ela se faça às claras do que às escondidas ou através da comunicação social de forma impossível de identificar por quem lê uma notícia de "agência". Só não percebo a razão de o alvo serem os deputados: estes não têm poder nenhum e dependem das direcções partidárias (sobre essas sim o lóbi tem sentido, como sobre os gabinetes ministeriais), mas se as agências querem gastar dinheiro inutilmente, façam favor.

*


Panfleto posto a circular em Felgueiras apela a manifestações pacíficas a favor da autarca Numa amável conversa com um amigo meu jornalista, falávamos do panfleto que foi distribuído em Felgueiras apelando a manifestações à porta do Tribunal e cuja autoria foi veementemente negada pelo advogado da autarca, que o classificou de " uma velhacaria inqualificável". A primeira pergunta que me vinha à cabeça se fosse jornalista, dizia ao meu amigo, era perguntar ao advogado ou a Fátima Felgueiras se iam fazer queixa à polícia pela usurpação da assinatura e pela falsificação, o que seria normal face à "velhacaria". Depois, seria interessante saber de onde vinha o panfleto e a polícia não teria dificuldade em sabê-lo, tendo em conta a amplitude da sua distribuição. E acrescentei, "mas se calhar os jornalistas não se lembram de perguntar", ao que ele me disse "perguntam de certeza". Não li, ouvi ou vi, tudo que a comunicação social narrou sobre o julgamento, mas alguém me pode dizer se a pergunta foi efectivamente feita? É que é tudo tão óbvio.
Na TSF Online, li algo que sugere vagamente que Artur Marques tenha sido questionado sobre se pretende tomar alguma medida em relação à distribuição do panfleto (o itálico é meu): "O advogado, que não saber quem está por detrás deste documento, aproveitou para apelar a todos os felgueirenses «para que não dêem ouvidos ao que é feito através desta notícia e que se mantenham serenos»."

(Pedro Gomes)

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ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Povoação de Aveleira, no topo de uma serra com o mesmo nome, a 535 metros de altitude, no concelho de Penacova, numa foto que obtive hoje.

(António Luís)

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BIBLIOFILIA: ANOS SESSENTA NOS EUA

Prairie Radical A Journey Through the Sixties Revolution in the Air. Sixties Radicals Turn to Lenin, Mao and Che

Robert Pardun, Prairie Radical:: A Journey Through the Sixties, Los Gatos, Shire Press, 2001.

Max Elbaum, Revolution in the Air: Sixties Radicals Turn to Lenin, Mao and Che, London/New York, Verso, 2002.

David Gilbert, SDS/WUO, Students For A Democratic Society And The Weather Underground Organization, Arm the Spirit, s.d.

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INTENDÊNCIA


Foram feitos pequenos arranjos no Abrupto, resultado ainda da migração para o novo Blogger. Os arquivos foram recolocados em linha, com a colaboração de alguns leitores (saliento a ajuda de Daniel Marques, entre outros), e foi corrigido um erro na datação de uma nota para 1990 (erro do Blogger). Subsiste a falta de muitas imagens no arquivo, resultado do modo como o Blogger tentou erradicar o falso Abrupto o ano passado, mas pouco a pouco serão repostas.

A chegar aos seis milhões de pageviews e aos quatro milhões e meio de visitas, o Abrupto continua de boa saúde e recomenda-se. Aos seus leitores o deve.

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: AVISOS DE RECEPÇÃO


Fui alertado para isto por um jovem autor. Leia, por favor, este regulamento (está disponível, na íntegra, em PDF no site da FNAC.pt:

PRÉMIO LITERÁRIO FNAC/TEOREMA 2007
Regulamento
1 - Âmbito e aplicação
Ao Prémio Literário FNAC/Teorema 2007 podem concorrer todas as obras inéditas de autores que não possuam qualquer obra de ficção publicada, seja romance ou colectânea de contos.
2 - Formato dos trabalhos
Cada trabalho deve ter entre 150 e 200 páginas em formato A4, 1800 caracteres por página, impressas a duplo espaço entre linhas e encadernadas. Devem ser entregues 5 exemplares do manuscrito, acompanhados do nome e contacto telefónico e, se possível, electrónico (não são aceites pseudónimos).
3 - Prémio
O prémio consiste na publicação da obra vencedora pela Editorial Teorema, reservando-se, no entanto, o direito de o mesmo não ser atribuído, caso se conclua não existir o nível de qualidade mínima exigido pelo júri. O premiado aceita como condição a celebração de um contrato de utilização da obra nos termos do artigo 41o do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos.
4 - Entrega dos textos
Os trabalhos devem ser enviados com aviso de recepção para a seguinte morada: Prémio Literário FNAC/Teorema Acção Cultural Fnac Amoreiras Plaza R. Prof. Carlos Alberto Mota Pinto, 9 1070-374 Lisboa
Prazo limite para recepção dos trabalhos: dia 15 de Fevereiro de 2007.
5 - Composição do júri
O júri é composto por 5 elementos:
Nuno Júdice, poeta e professor universitário
Rui Zink, escritor e professor universitário
Isabel Coutinho, crítica literária
Dóris Graça Dias, crítica literária
Carlos da Veiga Ferreira, editorial Teorema
(etc., etc., etc.) (os "bold" são meus)

Vamos, então, imaginar um jovem autor que concorre: trabalhou o seu livro até à exaustão. Dirige-se com um mínimo de 150 páginas A4 à loja das fotocópias para mandar fazer 5 cópias encadernadas. Gasta perto de 100 € e sai de lá com 750 folhas A4. Dirige-se ao posto dos Correios para enviar REGISTADO COM AVISO DE RECEPÇÃO. O funcionário dos CTT responde-lhe, paulatinamente, que isso é impossível: registos com aviso de recepção só até 2 Kg. Estão ali mais de 5 Kg de papel. O nosso jovem autor fica na dúvida. Enviar sem aviso de recepção é atropelar o regulamento. Das duas uma: ou volta para casa com 750 folhas de A4 ou envia registado por EMS (cerca de mais 100 €).

O clima surrealista adensa-se: o nosso jovem autor liga para a FNAC, esgotando praticamente o saldo do seu telemóvel. A menina arrogante que o atende diz que a FNAC não aceita o envio de manuscritos por EMS. Aconselha os jovens autores a enviarem os seus manuscritos repartidos por 5 envelopes. Isto, se cada manuscrito tiver 150 páginas e, portanto, com a encadernação não ultrapassar os 2 Kg. Mas se o manuscrito tiver 200 páginas ultrapassa os 2 Kg. e aí já ninguém sabe o que fazer. O jovem autor expedito com um manuscrito de 200 páginas fará um último, derradeiro e desesperado telefonema para a FNAC perguntando se pode enviar a sua obra dividida por capítulos. Ou terá que a imprimir em papel de bíblia?

Coragem, portugueses. Só vos faltam as qualidades.

(Paiva Raposo)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
QUE FAÇO EU COM OS MEUS CARTÕES?


Eu, se tivesse oportunidade, gostaria de aproveitar o entusiasmo de José Sócrates com o lançamento do novo Cartão de Cidadão para lhe perguntar se ele conhece alguém que me diga o que sucedeu aos cartões Net-Post e Portamoedas-Multibanco de que tenho vários exemplares.

Todos eles ainda têm algum saldo de que não consigo ver-me livre; por isso, para comemorar o lançamento deste novo cartão, ofereço-os com muito gosto à primeira pessoa que me indicar uma maquineta de venda de selos ou um quiosque Net-Post... que funcione.

(C. Medina Ribeiro)

*
O texto do seu interessante leitor Medina Ribeiro trouxe-me à memória o Porta-moedas Multibanco. Ainda de me lembro do slogan da campanha de lançamento em 1994: «Passe um grande Verão sem um tostão!». Obtive um desses cartões e achei que era muito prático, mas em conversa com os comerciantes apercebi-me de que havia um problema: estes tinham que depositar no banco pelo menos uma vez por semana os pagamento que recebiam. Como era um novo meio de pagamento, os utentes ainda eram poucos e os pequenos comerciantes sentiam que o depósito semanal não compensava o trabalho envolvido. Já agora, para quem não saiba, o
Porta-moedas Multibanco já não está a uso.

Quanto ao facto de Medina Ribeiro ainda ter vários exemplares, sugiro que faça como eu: devolva-os ao banco. Fiz isso e, ao fim de algumas semanas, o respectivo saldo foi-me depositado na conta.

(José Carlos Santos)

*

Como achega à abordagem aqui feita a propósito dos "flops" dos cartões «Porta-moedas Multibanco» e «Net-Post», gostaria de esclarecer que a sugestão dada pelo leitor José Carlos Santos (devolvê-los aos bancos) só é válida para os primeiros, dado que os outros foram emitidos pelos Correios.
Por sinal, numa altura em que tanto se fala em reciclagem, não seria mau que os CTT retirassem as inúmeras maquinetas Net-Post que ainda decoram as suas estações pois, não funcionado uma única (que eu saiba), são um confrangedor monumento à incúria e à incompetência, além de uma mostra eloquente de como, demasiadas vezes, é gasto o nosso dinheiro.

(Eduardo Rivera)

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EARLY MORNING BLOGS

968 - Tout le parfait dont le ciel nous honore

Tout le parfait dont le ciel nous honore,
Tout l'imparfait qui naît dessous les cieux,
Tout ce qui paît nos esprits et nos yeux,
Et tout cela qui nos plaisirs dévore :

Tout le malheur qui notre âge dédore,
Tout le bonheur des siècles les plus vieux,
Rome du temps de ses premiers aïeux
Le tenait clos, ainsi qu'une Pandore.

Mais le destin, débrouillant ce chaos,
Où tout le bien et le mal fut enclos,
A fait depuis que les vertus divines

Volant au ciel ont laissé les péchés,
Qui jusqu'ici se sont tenus cachés
Sous les monceaux de ces vieilles ruines.

(Joachim du Bellay)

*

Bom dia!

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14.2.07


ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Cais de Gaia.

(Sérgio Ferreira)

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13.2.07


INTENDÊNCIA

Que não é intendência: muito obrigado pelas muitas e muitas mensagens enviadas na noite do referendo e que não puderam ser publicadas. Apesar da rapidez da noite do referendo, o Abrupto atingiu cerca de sete mil visitas e dez mil pageviews, pelo contador mais conservador.

O correio continua com o problema crónico de não ser respondido a tempo e, nalguns casos, nunca ser respondido, o que é uma má educação da minha parte que só tem desculpa por ser muito, algumas mensagens exigindo uma resposta detalhada. Seja como for é todo lido e tido em consideração, sem excepção.

Algum correio vai sem razão alguma para a junk mail do Outlook onde o recupero muitas vezes só uma semana depois. O Outlook do Office 2007 continua a ser o programa com maiores problemas na migraçaõ para a última versão, embora tenha observado alguma ligeira corrupção de dados no Access (deslocação do conteúdo de entradas de umas para as outras numa tabela), o que é muito mais preocupante e nunca aconteceu nas versões anteriores.

A maioria das últimas notas publicadas foram actualizadas com contribuições dos leitores do Abrupto, pelo que não vale a pena estar a nomeá-las uma a uma.

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ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Foz do Douro. (Clicar para aumentar)

(Gil Coelho)

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TEMORES DO TREMOR


No dia 1 de Janeiro de 1980, às 15H40, eu descia a Rua da Miragaia, junto ao convento das Mónicas, em Angra do Heroísmo, Terceira, quando a terra tremeu a sério durante escassos segundos (grau 7). Morreram algumas dezenas de pessoas, poucas por sorte para o tamanho da catástrofe disseram os entendidos e foi verdade. Por grande sorte escapei. Sente-se o momento e este é muito estranho. Vi morrer algumas pessoas e a destruição foi o que se viu. A violência e o espectáculo são indescritíveis. O cérebro não tem tempo de ordenar ideias por muito que se tenha lido ou frequentado palestras. Cada um reage aleatoriamente sem se dar conta: correr para a morte, imobilizar e morrer ou simplesmente fazer o mesmo e escapar. Quando a terra resolve parar e os últimos edifícios caem este é que pode ser um grande momento de actuação. Se tudo estiver bem ensaiado e preparado podem salvar-se muitas vidas. Todos os minutos contam, porque as réplicas podem ser fatais e do mar tudo pode acontecer e ainda há vidas presas por um fio. Não quero assustar ninguém mas parece-me ridículo “os conjuntos de medidas em estudo”, comissões disto e daquilo e declarações do tipo “a situação está sob controlo”. Tenho pena que este assunto (a resposta organizada, Nacional, participada e discutida a uma catástrofe) não tenha feito parte da bandeira eleitoral e empenhamento deste (partido) governo. Talvez porque este Fado renda pouco para já. Salve-se quem puder!

(Sérgio)

*

Não sabia o que fazer com esta informação e resolvi que este cesto era bom para a largar. Vivo no Algarve e hoje de manhã senti bem, foi mesmo bem de mais para o meu gosto, o tremor de terra. Comecei imediatamente à procura de informação. O site do INMG estava KO, como é habitual, e nas notícias ainda não havia nada. A primeira informação que encontrei foi no site acima. Na altura, quando lá cheguei, já tinham 3 ou 4 relatórios – feitos por visitantes do site e que estavam na área abrangida. Deixei mais um. Voltei novamente a esse site para tentar ver se havia mais informação. E foi agora que fiquei pasmada. Este tremor de terra, neste site, tem mais de 900 relatórios. Fiquei intrigada e fui meter um olho nos arquivos. Corri alguns e não encontro em mais lado nenhum, fora dos EUA, números sequer parecidos com este. E estamos a falar, também, de Canadá e Japão. Só nos Estados Unidos, e para alguns sismos, há um número tão elevado de relatórios.


Que se passa connosco? Será que estamos mesmo todos ligados à net? Tanta informação enviada e partilhada? E logo hoje que com resultados de referendo tínhamos já muito para comentar por aqui? Pode ser normal mas que estou de boca aberta estou.

Já agora. Tenho alguns tremores de terra no meu curriculum mas hoje, acho que já disse isto, assustei-me mesmo. Talvez por isso tenha reparado que no dia de hoje já foram registados em todo o mundo, até esta hora, 3 tremores de terra com amplitude superior a 5. Também não é normal…

(Teresa)

*

Sentado em local onde, com grande ampliação, poderia ver o do epicentro, senti claramente o tremor… 1 minuto depois, ligou-me o meu filho, que estava em casa a dormir… viajando pelos meios da web, vi a primeira notícia, com pormenores e desenvolvimento, menos de 10 minutos depois… no El Pais… cada semana que passa me convenço que a melhor informação sobre os nossos assuntos domésticos, incluindo portos e economia, só pode ser lida em castelhano…

(Manuel Piteira)

*

Ontem de manhã tive uma experiência que me faz pensar que a história do sismo não está completamente esclarecida. Vivo em Amarante. Por volta das 8,30h, estava sentado na beira da cama a calçar os sapatos, senti um abanão, e ocorreu-me de imediato que era um sismo.
Quando, ao fim da manhã, percebi que o sismo foi registado às 10,30h, fiquei confundido.
Até agora, não encontrei referência ao abanão das 8,30h.
Posso estar enganado desta vez, mas de todas as outras vezes que se sentiram pequenos sismos aqui no norte, eu senti-os.
Não haverá registos de um abalo cerca das 8,30h de ontem?
Não pode um qualquer episódio tectónico às 8,30h, algures a norte, ter desencadeado repercussões que originaram o sismo a sul às 10,30h?
A verificar-se, terá certamente algum interesse científico - e também interesse informativo: temos o direito de saber o que se passa debaixo dos nossos pés.

(Joaquim Jordão)

*

A “queda” do site do INMG parace-me que aconteceu devido a avalanche de acessos num periodo limitado do tempo, ou seja,o seu servidor não está preparado para milhares de tentativas de acesso num espaço de tempo muito curto.

(A Toscano )

*

No noticiário das 20h da TSF ouvi a Directora Municipal da Protecçáo Civil da C.M. de Lisboa aconselhar para algumas medidas em caso de sismo, mas fiquei estupefacto quando apelou para que as pessoas se enfiem debaixo de mesas, de camas altas e de vãos de portas. Ora, eu também ouvi essa história na escola primária, mas hoje ninguém especializado na área de salvamentos de catástrofes sísmicas aconselha esse procedimento, pela simples razão de que as pernas das mesas e das camas que temos em casa não aguentam a queda do tecto e o resultado é uma armadilha onde se fica espalmado.

Sei que há controvérsia acerca das teorias de Douglas Copp (incluíndo a Cruz Vermelha Americana que contesta certos aspectos das mesmas), mas poucos contestam a vertente do chamado "triângulo da vida", que mais não é do que ficarmos ao lado de algo bem resistente (um sofá, um móvel de cozinha ou a cama - ao lado e nunca debaixo!) que impeça o esmagamento provocado pela queda do tecto.

(Nuno Baptista)

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EARLY MORNING BLOGS

967 -... a regular brute of a Bee!


There was an Old Man in a tree,
Who was horribly bored by a Bee;
When they said, 'Does it buzz?'
He replied, 'Yes, it does!'
'It's a regular brute of a Bee!'

(Edward Lear)

*

Bom dia!

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12.2.07


ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Mourísia na Serra do Açor, concelho de Arganil.

(António Pereira Lopes Pedro)

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INTENDÊNCIA


Na penúltima nota, estão em actualização os testemunhos do terramoto. Como há um factor subjectivo (como foi sentido o abalo) na classificação dos tremores de terra, os testemunhos são úteis.

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ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Olhando do epicentro do sismo para a costa, via-se isto. Com os olhos do Superhomem, claro.

(MJ)

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COMO SE RESPONDE A UMA NOTÍCIA INESPERADA QUE PODIA TAMBÉM SER UMA CATÁSTROFE

O Instituto de Meteorologia continua em baixo e inacessível. Não se compreende que a instituição a que primeiro se deve aceder para obter informações nos momentos críticos (bem pouco críticos felizmente neste caso) , nada funciona.

Nota: esta ligação funciona, embora com a informação reduzida.

*

E algo de inconcebivel, a letargia dos media televisivos no que diz respeito ao acompanhamento do sismo desta manha. Quando ligo a TV a primeira coisa que faço e acompanhar os canais noticiosos (RTPN e SIC Noticias). Entretanto recebo um telefonema de um familiar do Algarve a relatar o sucedido. Penso: "O que? e a televisao nao diz nada?" Curiosamente, fui de imediato ao mesmo site que visitou, o do US Geological Survey, para depois verificar que o site do INMG estava em baixo. Entretanto, na SIC Noticias nada e na RTPN o assunto tem direito a uma nota de rodape. (Ah, entretanto, ao mudar para a SIC generalista, ouço a primeira referencia explicita ao assunto atraves da Fatima Lopes e o Senhor Ventriloquo). E absolutamente absurdo, ridiculo, quase ultrajante, este desleixo, enquanto asuntos como o internamento de uma vedeta de telenovela ou o arresto de bens de um ou outro dirigente de futebol tem direito a interrupçao de emissoes e directos a porta das casas. Talvez mais grave do que os canais noticiosos, que se limitam ao cabo, a omissao do serviço publico de televisao que, perdoe-me se estiver enganado (nao acompanhei a "Praça da Alegria" na totalidade...), deveria ter interrompido a emissao regular no sentido de informar e esclarecer os portugueses. A certa altura, digo a minha mae "vamos mudar para a Sky News que talvez tenhamos mais sorte..."

(Sem acentos)

(Ricardo Carvalho)

*

O Correio da Manhã parece ter sido o primeiro
a escrever sobre o assunto. 15 minutos depois.

(Luis Caetano)

*

Aparentemente, a TSF , dez minutos depois do sismo.

(RM)

*

Aquando do grande tsunami asiático de 2004, não houve português que não questionasse: «E se fosse cá? Será que estamos preparados para algo semelhante, tendo em conta que, nessa matéria, até temos várias páginas negras na nossa História?».

Claro que não faltaram, na altura, responsáveis a garantir que o assunto ia ser estudado e tratado. Por isso, e perante o sismo de hoje, suponho que não será pedir demasiado que os "estudantes e tratadores" nos dêem conta do que fizerem nos últimos dois anos.

(C. Medina Ribeiro)

*

As 10h38 envio uma mensagem a um amigo para saber se ele sentiu o mesmo que eu. Curiosamente ele estava a dormir e nada. Agora vi as noticias no seu blog e a hora indicada na TSF e outros, coincide com a minha.
Por isso, também chegou ao porto…

(Nuno Ribeiro)

*

Sem querer puxar a fita da meta, como tinha o editor do meu blogue aberto, foi em cima do acontecimento. Tenho vindo a actualizar o post inicial com informações do European-Mediterranean Seismological Centre , onde no mapa podemos verificar, entre outras curiosidades, se houve réplicas (de facto houve uma, cerca das 12H50).

(J. Espinho)

*

Creio que desde o terramoto de Lisboa em 1969 que não tinha uma sensação tão desagradável. Sentado na secretária do meu escritório, comecei a sentir o candeeiro a tremer, depois o monitor do computador e por fim o chão. Por momentos senti que o chão ia ceder. Durante longos e intermináveis segundos fiquei sem reacção, sem perceber se havia obras no rés-do-chão e a casa velha acabaria por ceder ou se era um verdadeiro sismo. Quando me consegui levantar encontrei os colegas no meio do escritório e percebi que tinha de novo viajado até ao centro da terra. Em Faro foi tremendo. O epicentro não deveria estar longe. A natureza é insondável e não há maior sensação de pequenez, impotência e inutilidade do que aquela que nos atravessa durante um tremor de terra. Só espero que agora não venha aí uma dessas almas da campanha do "Não" dizer que este foi um primeiro sinal da ira divina por causa do resultado do referendo de ontem. Num país em o clero ainda ameaça excomunhões automáticas por delito de opinião tudo é possível, até terramotos por encomenda.

(Sérgio de Almeida Correia)

*

Até agora parece que ninguém deu por isso mas aqui onde me encontro (6 Km de Aveiro) também senti o sismo. Estava calmamente a trabalhar quando o ecran do meu computador se pôs a dançar ligeiramente. Ao mesmo tempo, colegas meus que estavam em video conferência com Sevilha, embora não tivessem sentido o sismo como eu, assistiram ao mesmo através de video conferência devido às reacções dos colegas espanhóis que ficaram um pouco assustados.
Quanto a obter notícias imediatas, tive os mesmos problemas que todas as outras pessoas.

(Maria João)

*

Esta a dar uma aula quano a porta da sala começa a abanar de uma forma estranha (Os alunos começaram por dizer que alguém estava a bater à porta). Entretanto senti as mesas a abanar e mandei que todos os alunos se colocassem debaixo das mesas. Alguns segundos depois tocou a campainha e procedemos à evacuação para o exterior da Escola. Só posso dizer que foi uma sensação estranha, mas o treino de simulações foi bastante útil.

(Adelino Afonso)

*

Hoje de manhã estava em casa, num r/ch em Alvalade (Lisboa), e não senti o
sismo. Ainda bem pois teria ficado muito assustada. Por curiosidade, junto o link para umas páginas de divulgação do Núcleo de Engenharia Sísmica e Dinâmica de Estruturas do LNEC:
Também sou investigadora do LNEC mas numa área bem diferente.

(Lina Nunes Sequeira)

*

A juntar aos depoimentos dos seus leitores sobre a ausência de notícias, na hora, sobre o sismo de ontem refiro um interessante dado sociológico que deixo à sua consideração. Na RTP1, o programa "Praça da Alegria" deu a notícia, quase em directo, antes mesmo de "O Abrupto" e nenhum dos seus leitores, nem mesmo o dr. Pacheco Pereira, deram pelo facto preferindo registar, por vezes com alguma arrogância, o silêncio e/ou atraso dos media relativamente a este acontecimento específico. Nesse mesmo programa "Praça da Alegria" fez-se, inclusive, uma ligação ao Instituto de Meteorologia que se revelou de muita utilidade no sentido em que desdramatizou a situação. Do meu ponto de vista, creio que mergulhar demasiado a cabeça nos blogues pode ter este efeito algo perverso.

(Luciano Gomes)

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FOI POR AQUI


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MAIS NOVAS DO SISMO

Escala de Richter

Os jornais em linha já estão a acordar.

A SICN continua como se nada houvesse. Não se justifica que as estações noticiosas que funcionam 24 horas se esqueçam que em momentos como estes as pessoas esperam notícias de imediato.

*
O site www.meteo.pt, já está em baixo a largos minutos, desde que se sentiu o terramoto...O choque tecnológico ainda aqui não chegou.

(Nuno Mendes)

*

Estava em Faro sentado à minha secretária no escritório em minha casa... foi muito breve, mas nítido. Não cheguei a ver nada a abanar, só o ruído do ranger das estantes. Levantei-me imediatamente e fui até à porta do apartamento esprando alguma réplica, mas não se sentiu mais nada.

(Jose' Farinha)

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FOI AQUI

10-degree map showing recent earthquakes

Earthquake Details
Monday, February 12, 2007 at 10:35:21 (UTC)
= Coordinated Universal Time Monday, February 12, 2007 at 10:35:21 AM
= local time at epicenter Time of Earthquake in other Time Zones Location 35.843°N, 10.289°W Depth 10 km (6.2 miles) set by location program Region AZORES-CAPE ST. VINCENT RIDGE Distances 250 km (155 miles) WSW of Faro, Portugal
335 km (210 miles) SSW of LISBON, Portugal
340 km (210 miles) WSW of Huelva, Spain
345 km (215 miles) NW of Casablanca, Morocco
Location Uncertainty horizontal +/- 5.2 km (3.2 miles); depth fixed by location program Parameters Nst=192, Nph=192, Dmin=373.9 km, Rmss=0.81 sec, Gp= 61°,
M-type=moment magnitude (Mw), Version=6 Source USGS NEIC (WDCS-D)
Event ID us2007ysam This event has been reviewed by a seismologist.

*
Um bom sítio na rede para seguir as movimentações da crusta terrestre.
Este sismo, mesmo com magnitude de 6, mas à distância a que ocorreu, não chegou a fazer cócegas ao edificado.
Se tivesse origem mais perto ou fosse mais intenso, poderia ter ocorrido uma catástrofe.
O sítio da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica faz um pouco de luz sobre esta matéria:

(Rui Gomes)

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NÃO FOI IMPRESSÃO

Map showing earthquakes



Primeiro lá fora e cá nos blogues e finalmente no IM (e os sítios noticiosos estão a dormir?): "O Instituto de Meteorologia informa que no dia 12 / 02 / 2007 pelas 10:36 (hora local) foi registado nas estações da Rede Sísmica do Continente, um sismo de magnitude 6.0 (escala de Richter) e cujo epicentro se localizou a cerca de 160 km a SW de Cabo de S. Vicente. De acordo com a informação disponível, este sismo foi sentido, devendo em breve ser emitido novo comunicado com informação instrumental e macrossísmica actualizada."

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OU FOI IMPRESSÃO MINHA
http://www.blog.speculist.com/archives/earthquake.jpg
ou houve um pequeno sismo há minutos?

*
Garanto que aqui, no 11º andar, também tivemos essa impressão … só que o sismo não pareceu tão pequeno. De tal modo que, nos minutos seguintes, estávamos com uma espécie de sea-sickness …

(R.)

*

Sisminho. Pois houve. Vivo em Cascais e senti-o muito bem...

(M. João Afonso)

*

O que se está a passar com a internet após o sismo de há momentos deve ser um alerta para um caso de crise grave. Não só é practicamente impossível aceder a sites de media como, e registe-se, é impossível aceder a sites institucionais, como o INMG ou a Protecção Civil. Indicações de segurança, nada. Para se ter alguma informação sobre o sucedido, há que aceder a fontes como esta. Num momento em que a net é a referência em termos de informação para uma franja crescente de cidadãos, a situação é preocupante.

(Luis Reis)

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NUNCA É TARDE PARA APRENDER: OS LOUCOS QUE QUEREM SABER TUDO

http://www.beyondbooks.com/law81/images/00015895.jpgSimon Winchester, The Professor and the Madman, HarperCollins, 1998

Os autores de dicionários e enciclopédias tendem a enlouquecer com a tarefa. Esta é matéria que percebo muito bem, estando no ofício da referência. Cada entrada nova no meu dicionário-enciclopédia, a que dedico "o melhor dos meus dias", como se dizia antigamente, tem o hábito de se alargar por pelo menos mais três ou quatro entradas. Para cada entrada nova, parece haver mais dez à espreita. E quando se quer fichar tudo, registar tudo, o espaço por preencher tem tendência para aumentar à medida que campos e campos de palavras já enchem uma vastidão atrás. A regra é que atrás está sempre uma pequena vastidão e à frente uma gigantesca vastidão. Vejam lá como isto é pouco normal... Tudo isto exige um grão de loucura prévia, que tende a agravar-se.

Mas o caso do Dr. W. C. Minor, médico, militar, erudito, flautista, pintor de aguarelas e "lunático criminoso" vai um pouco mais longe. Os eruditos têm loucuras habitualmente mansas, mas o Dr. Minor estava internado perpetuamente porque um dia saiu à rua de pistola em punho e matou um desgraçado que lhe apareceu numa esquina, convencido que assim eliminava os seus "inimigos". Estes "inimigos" entravam-lhe à noite no quarto pelo soalho (mandou depois colocar um chão de zinco) ou pelos interstícios do telhado, pegavam nele e levavam-no para um qualquer bordel de Istambul, onde o obrigavam a praticar "actos imorais" com rapazes e raparigas. Noite, após noite, após noite. Já muitos anos depois de internado, o Dr. Minor resolveu castrar-se para ver se os seus "inimigos" o deixavam em paz. Não deixaram.

The image “http://www.vauxhallsociety.org.uk/Minor%20-%20OUP.jpg” cannot be displayed, because it contains errors.Pois este Dr. Minor, diagnosticado como tendo dementia praecox, agravada pelo traumatismo de ter assistido como médico militar a algumas selvajarias da Guerra Civil americana, preso num asilo inglês, durante décadas tornou-se o mais prolixo, preciso e rigoroso amador, entre os muitos que apoiavam a redacção de uma das mais gigantescas obras de erudição de sempre, o Oxford English Dictionary (OED). Durante anos, sem saber qual era a origem das ajudas preciosas que recebia - verbetes de palavras, apoiadas por citações quanto aos seus diferentes significados e primeiro uso conhecido por escrito - o outro doido, mas manso neste caso, o célebre editor do dicionário, James Murray, que se abalançou à tarefa de registar em papel uma língua, o inglês, cada vez tinha em maior consideração e utilidade as contribuições que recebia dum tal Dr. Minor que escrevia de Broadmoor. Mais tarde veio a descobrir que era um "lunático criminoso" que lhe enviava os verbetes cuidadosamente redigidos, apoiados em leituras de livros do século XVII e numa paixão pelas palavras sem paralelo. Murray encontrou em Minor alguém que percebia muito bem o objectivo do dicionário e se interessava não apenas pelos vocábulos raros e caídos em desuso, ou por regionalismos ignorados, como muito lexicógrafos amadores faziam, mas pelas palavras comuns e pelas finas gradações de significado que continham e que era suposto ficarem registadas nesse grande catálogo da língua.

Quando Murray veio a conhecer o Dr. Minor, uma história que correu mundo na época (primeira década do século XX) numa versão tablóide, tornou-se seu amigo e ajudou-o como pode a suportar melhor a sua doença e internamento. Ambos se correspondiam e durante vários anos, os contributos do Dr. Minor para o dicionário chegavam diariamente ao Scriptorium de Oxford onde uma equipa diligente ia arrumando em cacifos as muitas contribuições voluntárias que chegavam pelo correio de todo o lado. Mais de uma dezena de milhar de citações enviadas de Broadmoor pelo Dr. Minor fazem parte ainda hoje do OED .

*

O OED teve como título inicial New English Dictionary on Historical Principles, Founded Mainly on the Materials Collected by the Philological Society, edited by James A.H.Murray LL.D. Sometime President of the Philological Society, with the Assistance of Many Scholars and Men of Science. Por aqui se vê o papel colectivo de muitas pessoas que voluntariamente contribuíram para o dicionário num processo que tem parecenças com a Wikipedia. A diferença essencial não estava na colaboração voluntária, mas na selecção e edição pela equipa de Murray e pelos lexicógrafos que trabalhavam no Scriptorium, dos materiais que recebiam. Estes eram cuidadosamente verificados através de uma hierarquia de responsáveis até chegar ao grupo final que redigia as entradas.

*
http://www.whileseated.org/photo/img/sf/IMG_1290.jpg

O livro de Simon Winchester faz também referência ao OED enquanto obra maior da história da tipografia.

*
Pois é... este livro é muito interessante. Por várias razões, aliás, sendo que a que mais me fascinou quando o li a paciência necessária para o monumental trabalho que foi desenvolvido quer na pesquisa quer na acreditação do vocabulário sicronica e diacronicamente. É um tipo de paciência que hoje já não temos: fazemos a busca na Net e não precisamos de esperar muito. Mas é pena. Porque era a paciência das grandes obras, trabalhadas ao pormenor... E ainda hoje o OED é uma fonte de referência insubstituível para quem trabalha com o inglês.

(M. João Afonso)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 12 de Fevereiro de 2007


[publico2007.JPG]The image “http://dn.sapo.pt//2007/02/12//capa.gif” cannot be displayed, because it contains errors.

Mais uma capa soberba do Diário de Notícias. E, ainda só vi em linha, mas o grafismo do novo Público parece-me muito, muito bom.
*

http://www.agoravox.fr/IMG/CharlieHebdonunef.jpgNa próxima quinta feira, dia 15, em Paris, será lida a sentença do julgamento de Phillipe Val, director do semanário humorístico Charlie Hebdo, acusado por organizações islâmicas francesas de racismo e injúria à religião porque o jornal publicou, no ano passado, algumas das caricaturas dinamarquesas de Maomé.

O Charlie Hebdo, nascido do Hara Kiri onde tantas vezes Wollinsky e Reiser nos fizeram rir com os seus desenhos a gozar com tudo e todos, não deixou passar mais uma ocasião de voltar a gozar, agora com a fúria islâmica àquilo que para nós, ocidentais, é do mais sagrado que há - escrever, desenhar, rir, sobre que nos apetecer.

Desde o 11 de Setembro que Philippe Val tem tido sempre uma postura firme e corajosa contra a "onda" politicamente correcta e revoltante que percorre a Europa, de desculpabilização dos actos terroristas perpetrados por islamitas radicais e de culpabilização do "Ocidente" e, sobretudo, da América, pela "raiva legítima" que levará a tais actos. Sempre se insurgiu contra a "esquerdalhada" que anda de braço dado com os seguidores da ideologia mais bárbara e reaccionária que hoje (como ontem, quando se davam tão bem com os nazis) que grassa pelo mundo. O seu julgamento é também o julgamento da nossa liberdade e civilização. Espero que a barbárie não vença!

(I. Barata Silvério)

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EARLY MORNING BLOGS

966 - The Leaves like Women interchange

The Leaves like Women interchange
Exclusive Confidence -
Somewhat of nods and somewhat
Portentous inference.

The Parties in both cases
Enjoining secrecy --
Inviolable compact
To notoriety.

(Emily Dickinson)

*

Sim, bom dia!

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ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Zermatt, no dia 6 de Fevereiro.

(Hugo F. Santos Azinheira)

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11.2.07


PORQUE É QUE A PROPOSTA DE "CRIME SEM PENA" PREJUDICOU O "NÃO"

Porque acentua o "crime" no acto do aborto, e acentua-o ainda mais porque o trata como acto subjectivo, de culpa, da mulher.

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PATETICES

Aqueles que começam o discurso dizendo: "a maioria do povo português não acha necessária alterar a lei..."

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BOM SENSO

Os partidários do "sim" foram para casa. Acabaram os festejos e bem.

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MAIS PATETICES

O clima de ajuste de contas e de negação ressentida da realidade em muitos blogues. É nestas alturas que se percebe que o ácido na blogosfera é péssimo para discussões como a do referendo. E o tribalismo também. Parecem claques.

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DOS LEITORES

Acho curiosos alguns extremos regionalistas:

Sim -

83,90% Beja,
82,00% Setúbal,
78,39%, Évora,

Não -

Açores - 69,04%
Madeira - 65,44%
Vila Real - 62,86%


O Sim é mais aceite no Sul e menos aceite no Norte e nas ilhas.
Sociologicamente será interessante estudar as razões.

Algumas diferenças significativas de opinião significativas:

o sim aumentou de maneira particular aqui:

Braga - de 22,60% (1998) para 41,20% (2007) e demograficamente, Braga é significativo.
Bragança - de 22, 65 %(1998) para 41,00% (2007).

(Ricardo Vilhena)

*

Seguindo o mesmo raciocínio do leitor Ricardo Vilhena, os resultados do referendo fornecem muito material de estudo. A assimetria Norte-Ilhas vs Sul salta à vista, mas não só. Vale a pena dar mais atenção aos resultados noutros distritos, nomeadamente no do Porto.

Analisando os dados disponíveis, constata-se que apenas o Porto e os seus concelhos limítrofes, à excepção de Valongo e Vila do Conde, votaram maioritariamente 'Sim'. Todos os restantes 11 votaram 'Não', e em alguns casos com expressão bastante significativa. Ou seja: os concelhos plenamente urbanizados, ou próximos disso, foram favoráveis à alteração da lei, enquanto que os rurais e urbano-rurais foram contrários.

O país pode ser pequeno, mas é bastante diverso...

(Artur Vieira)

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PATETICE

"Venceu a cultura da morte! 11 de Setembro, 11 de Março, 11 de Fevereiro. Datas manchadas pela morte!"

Esta frase num blogue do "não"

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: BOA PERGUNTA

Já repararam que ninguém fala do poço-sem-fundo onde caíram todos os estudos já feitos para a introdução, em Portugal, do VOTO ELECTRÓNICO - essa arma tão eficaz no combate à abstenção e em uso em tantos países do mundo?

C. Medina Ribeiro

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PONTO SEM RETORNO

Quem já está a falar de um novo referendo (com o objectivo de ganhar o "não") não percebeu nada do que está a acontecer. No caso do aborto, como no divórcio, não há retorno. É uma mudança com uma forte componente societal, mais do que um resultado de um opinião circunstancialmente maioritária ou de um confronto político.

*

Sem retorno? As mulheres que nos anos 70 andavam de mini saia em Kabul sabem tudo sobre esses "sem retorno". Nada é sem retorno...

J.

*


Sobre o "retorno": na civilização Ocidental esses retornos não existem. É uma das diferenças. Não é por acaso que o exemplo escolhido vem de Kabul.

RM

*

Após a II Guerra mundial era impensável que voltasse à Europa um genocídio (Guerra dos Balcãs). Após Darwin era impensável que a teoria do criacionismo renascesse (Desenho inteligente). Após a proibição de Touradas de morte em Portugal, tal seria irreversível (Barrancos).

Miguel

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RAZOÁVEL E MODERADA

a intervenção do Primeiro-ministro.

*

Atitude inteligente esta de José Sócrates de não festejar discursivamente a
vitória do Sim e de “fazer uma festa” na cabeça dos movimentos pelo não, ao
abrir espaço para uma reflexão.

Miguel Jerónimo

*

A intervenção do Primeiro-Ministro é muito típica dele: repete sempre o mesmo discurso, serena e pausadamente: "Até às 10 semanas. A pedido da mulher. Em estabelecimento autorizado." Repetiu duas vezes em dois momentos diferentes, sem sair da linha. Tudo treinado, sem deslizes. Perfeito. "Festejar discursivamente" não faz parte das técnicas do Primeiro Ministro.

RM

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PORQUE É QUE OS PARTIDOS

que não tomaram posição como o PSD, entendem vir agora fazer declarações formais, ainda por cima na base da posição individual, presume-se de Marques Mendes ? Masoquismo.

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QUE LOUÇÃ FAÇA O QUE FAZ

tentar arrecadar uns votinhos, entende-se. Mas desiluda-se, não há votinhos para os partidos nos sins do referendo.

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PARA QUEM ESTÁ "EM CIMA DOS ACONTECIMENTOS"

a falta dos Frescos é enorme. A sua "substituição" é uma lástima, não serve para nada.

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O QUE TAMBÉM NÃO TEM SENTIDO

é desvalorizar o resultado do referendo.

Não há só "mau ganhar" há também "mau perder".

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SE O PS

entende "capitalizar", como se diz, a "vitória" no referendo, não percebeu nada do que se passou.

*

É chocante ver as manifestações de alegria no quartel general do PS em Lx e no Porto, visto de repente parecia que tinha sido golo de um clube qualquer!!

Não é relevante a minha opção de voto, mas aqui fica, votei NÃO.

Filipe Freitas

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GRITAR VITÓRIA

é um absurdo.

*

votei sim e tb acho que é um absurdo terem gritado vitória.

manuel couto

*

Vociferar derrota, absurdo também será.

Telmo Martins

*

As pessoas que celebram a vitória por acaso recordar-se-ão (ou saberão)
que a lei actualmente em vigor foi anunciada em 1984 como sendo uma lei
que poria fim ao «flagelo do aborto clandestino»?

José Carlos Santos

*

Votei sim e também não me agrada o júbilo, mas os que votaram não e agora criticam a euforia, convêm lembrar que em 98 a mesma coisa se passou com os adeptos do não.

Nuno Mendes

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SIM

Parece que sim.

*

projecções da Televisões:

RTP
Sim - 57 - 61
Não - 39 - 43
Abstenção - 56 - 60


TVI
Sim - 57,6 - 62,6
Não - 37,4 - 42,4
Abstenção -?


(Ricardo Vilhena)

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NO MEIO DO SILÊNCIO FORÇADO 5

Diz quem sabe, aqui ao lado, que a abstenção é inflacionada por cerca de 7% de "abstenção técnica", de eleitores inexistentes mas que não são limpos dos cadernos. Problema, como é obvio, para todas as eleições mas maior num referendo.

*

Só espero que os níveis de abstenção não sirvam para fingir que não ocorreu nada hoje. A democracia, perdoe-se o plebeísmo, faz-se com quem está! Logo, se ganhar o SIM, venha legislação que expurgue o artº 140 (acho) do Código Penal; se ganhar o NÃO que as Deputadas Teresa Venda e Mario do Rosário insistam (querendo) no seu projecto.

(Manuel Henrique Costa)

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NA SIC

Aqui sentado, a escrever e a comentar, a ler o correio que entretanto chega, a ouvir o que se diz e o que acontece, pareço um daqueles deuses indianos com muitos braços. Pareço, só pareço.

Através da caixa de correio do blogue todas as contribuições serão bem vindas, como de costume.

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NO MEIO DO SILÊNCIO FORÇADO 4



A campanha do referendo trouxe algumas novidades, mais sobre o campo comunicacional do que sobre a controvérsia do "sim" e do "não" ao aborto. Um exemplo: pela primeira vez, Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) existiu na blogosfera e mais amplamente na Rede. MRS, enquanto político que funciona como um mini-partido, teve um papel na Rede através da colocação de alguns vídeos no YouTube. Trata-se de uma intervenção profissionalizada, os vídeos não tem aquelas características granulares dos vídeo amadores, e geraram um efeito de novidade e sensação. MRS nunca o tinha conseguido na Rede, onde os seus comentários televisivos e os seus artigos não provocam praticamente reacções. O desejo de MRS de, também na Rede, ter um papel idêntico ao que tem na televisão e nalguns jornais é evidente. Ele tem um "blogue" chamado "Blogue" no Sol, em papel, e que não sobreviveria cinco segundos no ambiente ácido da blogosfera se fosse mesmo um blogue a sério. Agora, mais como político activo do que como comentador, conseguiu-o.

Duvido que tenha continuidade, mas vai-se ver. A ambivalência da relação de MRS com a blogosfera foi patente no diferente sucesso do vídeo de MRS e na resposta dada pela circulação do contra-vídeo humorístico do Gato Fedorento. O vídeo e o contra-vídeo, não colocam frente a frente o vídeo original de MRS no YouTube com o programa do Gato Fedorento na RTP, mas sim com a circulação espontânea do extracto que lhe diz respeito no YouTube e a sua colocação em dezenas de blogues, quer do "sim", quer do "não". O fenómeno do Gato Fedorento é indissociável da circulação dos seus vídeos pirateados na Rede, muitas vezes colocados por vários utilizadores ao mesmo tempo e tendo depois uma circulação com regras próprias da influência na Rede que são diferentes das dos jornais e da televisão. Isto para dizer que, enquanto MRS não tem uma "cultura de blogue", o Gato Fedorento tem, logo os seus produtos "circulam" melhor. O principal efeito do vídeo de MRS foi fora da Rede, na imprensa, porque, passado um efeito inicial, fora dos sítios onde o vídeo era divulgado por razões de proselitismo do "não", foi a "resposta" do Gato Fedorento que se tornou eficaz. Note-se que o sketch do Gato Fedorento não era mais do que uma paródia humorística como muitas outras e foi o modo como circulou na Rede que o tornou numa "resposta", logo num elemento de campanha no referendo.

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NO MEIO DO SILÊNCIO FORÇADO 3

A questão do aborto era, à partida, uma questão "cansada". Ela permanece sempre sottovoce na agenda pública, como uma questão de baixa intensidade, um rumor que nunca se apaga. O primeiro referendo e as sucessivas votações na Assembleia deram-lhe momentos de alta intensidade, de muito ruído. A abstenção irá dizer até que ponto este "cansaço" foi agravado pela campanha do segundo referendo, e ,na análise da votação do "sim" e do "não", perceber-se-á até que ponto o mesmo "cansaço" condiciona uma ou outra resposta.

Nota: À chegada, a abstenção também parece mostrar que continua "cansada".

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NO MEIO DO SILÊNCIO FORÇADO 2

A vitória do "sim" ou do "não" não é relevante em termos de política nacional. Mais do que uma medida do estado do país político, será uma medida, um retrato da sociedade que emergirá do voto. Será mais relevante retirar conclusões, hipóteses, sobre o grau de laicização da sociedade, o papel da Igreja, a influência das elites, os hábitos sociais, os mecanismos de conformidade e pertença, etc., etc., do que sobre se o PS, o PCP, o BE ou o PSD ficam bem ou mal com o resultado do referendo.

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NO MEIO DO SILÊNCIO FORÇADO 1

O absurdo deste "dia de reflexão", ainda por cima entendido por muitos de forma mais que restritiva, gera um silêncio incomodado, uma paragem da máquina da informação que não tem qualquer sentido. Induz censura e auto-censura, implica que notícias não possam ser dadas quando acontecem, enfim, um artificialismo sem sentido e sem função. Ainda se podia admitir que houvesse um silêncio das campanhas, que não fosse permitido haver actividades de campanha, comícios, sessões, proclamações e distribuição de panfletos nas ruas. Agora que não haja, sábado ou domingo, notícias de sexta-feira ou de sábado, não tem qualquer sentido.

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10.2.07


ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Berlenga vista de Peniche.

(Pedro Cirne)

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EARLY MORNING BLOGS

965 - Soneto Fiel

Vocábulos de sílica, aspereza,
chuva nas dunas,tojos,animais
caçados entre névoas matinais,
a beleza que têm se é beleza.

O trabalho da plaina portuguesa,
as ondas de madeira artesanais
deixando o seu fulgor nos areais,
a solidão coalhada sobre a mesa.

As sílabas de cedro, de papel,
a espuma vegetal, o selo de água,
caindo-me nas mãos desde o início.

O abat-jour,o seu luar fiel,
insinuando sem amor nem mágoa
a noite que cercou o meu ofício.

(Carlos de Oliveira)

*

Bom dia!

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9.2.07


ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Cais do porto de Lagos.

(José Santos)

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CUIDADO COM AS CITAÇÕES FORA DO CONTEXTO

A tese de Cunhal sobre o aborto tem sido utilizada como argumento a favor quer do mérito de Cunhal (com um olho nos Grandes Portugueses), quer como argumentário a favor do "sim". Convinha maior prudência nestas utilizações, porque a posição de Cunhal (e do PCP) não era tão linear como se pensa. A razão é simples: a URSS proibia então o aborto. Nesta matéria, nem sequer se pode alegar desconhecimento dos difíceis materiais clandestinos, dado que os referi com detalhe na análise à tese de Cunhal e aos seus artigos sobre o "corpo", no primeiro volume da biografia que escrevi. Mas há quem prefira passar ao lado, fazer de conta.

O artigo que reproduzo foi publicado no Avante! clandestino nº 60, da 4ª semana de Novembro de 1937 e é, muito provavelmente, do próprio Cunhal (a outra hipotese é Pável) que escrevia sobre temas dos jovens, da família, da sexualidade, da vida saudável e da sua incompatibilidade com a sociedade capitalista. Como se vê, as coisas são um pouco menos simples.


(Clicando por cima das imagens obtém-se uma versão maior e mais legível.)

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ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Manteigas dia 30 de Janeiro.

(José Farinha)

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NUNCA É TARDE PARA APRENDER:
A CIVILIZAÇÃO QUE HOJE NÃO SERIA POLITICAMENTE CORRECTA

Civilisation Em 1965, o historiador de arte inglês Kenneth Clark realizou para a BBC uma série de filmes destinados a fornecer uma leitura da "civilização", a nossa, a ocidental, a europeia. A série foi um enorme sucesso quer na Europa, quer nos EUA, no final da década de sessenta, tendo passado em Portugal já há bastante tempo no segundo canal. Está hoje esquecida nos armazéns, embora muitos dos que a viram lhe permaneçam fiéis, de tal modo que a BBC a reeditou em DVD. Presumo que não seja fácil encontrá-lo por cá, mas pode ser encomendado, mas vale sempre a pena pedir à RTP que a passe sem ser no Canal Memória.

Eu sou um desses fiéis à série, com uma memória viva de muitos episódios e da imagem de Kenneth Clark, a quatro anos de ser Sir, a andar muito composto pelos sítios da "civilização", desde as ilhas remotas da Irlanda céltica, à Bizâncio transformada em Istambul. Sempre falando um inglês perfeito, sem medo de usar palavras que hoje não caberiam no saber das audiências, como um "modicum" em latim no meio de uma frase, passando de um tom de conversação solta para um poema anglo-saxónico, ou uma frase de Virgílio (ele não diz apenas a frase de Virgílio, ele diz como "aquela frase muito conhecida de Virgílio", como se fosse suposto que a conhecessemos...).

Revendo o episódio inicial, uma meditação sobre a civilização a partir da queda do império romano do Ocidente e dos anos "negros" da Idade Média, ou seja do momento em que a civilização se ia perdendo, Clark diz com a maior das naturalidades coisas hoje indíziveis na BBC. Como por exemplo, sobre a emergência do Islão, que retrata como uma religião simples, poderosa, cruel e bárbara, cuja derrota em Poitiers permitiu a sobrevivência da civilização, ou sobre a própria distinção entre civilização e barbarismo, a partir do cânone greco-latino, de modo muito pouco "multicultural".

Toda a "personal view" de Clark sobre a crise da civilização nos séculos V ao X, aparece-nos hoje como vitalmente importante e actual: "It is lack of confidence, more than anything else, that kills a civilisation. We can destroy ourselves by cynicism and disillusion, just as effectively as by bombs."

*
A respeito da história das civilizações surgiu recentemente em Portugal uma obra que contesta a teoria comum acerca do período das invasões bárbaras e da queda do Império Romano. Esta obra afirma que a queda do Império Romano significou o colapso de uma civilização e a entrada numa "Era das Trevas". A ideia da transição suave entre a civilização romana e os povos bárbaros com o cristianismo como cimento é posta em causa com esta tese que afirma que em muitos aspectos (saneamento, arquitectura, educação, artes, literatura, etc) a Europa regrediu vários séculos nos seus indíces civilizacionais.

Edição Inglesa: The fall of Rome and the end of civilization / Bryan-Ward Perkins . - Oxford, 2005

(Jorge Lopes)

*

Neste caso não posso ser frio, lógico e coloquial. Há algo aqui que me corta fundo e que doi o que nos faz reagir. Kenneth Clarck é um "ethnocentric pompous ass" e infelizmente não sei dizer isto em português. A série em causa deve mais à produção e ao que mostra, ou seja à excelencia televisiva da produção BBC do que ao conteudo do KC.

Há relativamente pouco tempo (3 meses) estive hospitalizado por um período longo e tive a oportunidade de terminar "Civilizations" do colombiano Felipe Fernández-Armesto. Apesar do Fernández-Armesto ser um galego complexado, envergonhado das conquistas civilizacionais europeias e dividido entre as suas origens e o seu local de nacionalidade, um problema que ocorre muito frequentemente nas comunidades emigrantes especialmente se de culturas diferentes mas igualmente importantes i.e.latina vs anglo-saxónica, este livro marca fundo e na realidade é o ADN da civilização europeia que o FF-A tanto tenta deitar abaixo. Com Soul Mountain, de Gao Xingjian, forma a minha maior e mais recente influencia humana e culturalque se resume nas raizes do Virgilio Ferreira no liceu e agora estes dois livros passando por De la Democracie en Amerique, de Alexis de Tocqueville.

Por favor não elogie o KC só porque ele é um snob, e showoff com uma cultura pretensiosa e vasia de faceta socio-politico-económica, hoje politicamente incorrecto sòmente entre as classes média-média e média-baixa, e muito admirado entre as classes média-alta e alta e completamente desconhecido e indiferente entre e para os operários.

(David Estêvão Gouvêa)

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NOTAS SOBRE A "CULTURA DE BLOGUE" 6

http://www2.sims.berkeley.edu/academics/courses/is243/s06/lectures/figures/OED-Entry.gifA Rede é excepcional para a procura utilitária: precisa-se de saber alguma coisa, lá se encontra. (Já é menos capaz para uma procura qualitativa, ou para se "aprender" pela procura, para se aprender pela errância.) As literacias da procura em Rede são conhecimentos vitais sem os quais se é analfabeto funcional, mas implicam conhecimentos que não são evidentes no acto da procura em linha. Implicam ter uma noção de como se devem "ler" os resultados de uma procura e uma noção de como é que esses resultados são produzidos por uma máquina. Por exemplo, é arriscado fazer uma procura sobre a ortografia de uma determinada palavra no Google, presumindo-se que os resultados validam uma grafia. Há sempre em Rede um número significativo de erros de ortografia, para a procura dar resultados aparentes que induzem a possibilidade de se escrever assim, errando. O que acontece é que as literacias que são necessárias para "ler" em Rede comunicam com as que são necessárias para procurar em papel ou noutros meios, umas implicam as outras, e uma aprendizagem de técnicas de procura e investigação é cada vez mais necessária no coração do sistema de ensino e não estão lá. Na "cultura de blogue" aparecem todos os efeitos perversos de "conhecimentos" obtidos em linha, sem qualquer mediação.

(Continua)

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NOTAS SOBRE A "CULTURA DE BLOGUE" 5

http://gatorlog.com/images/googlebrowsing.jpgStudents using wireless laptop facilities in the Library
No copy-paste a facilidade de o fazer pode tornar-se num empobrecimento, associando-se como é comum, o copy-paste ao browsing. Quase que não é preciso ler, ou não é preciso ler até ao fim. O excesso de facilidade, que se alia à rapidez e ao número gigantesco de possibilidades, impede uma hierarquização e uma escolha forte. Quod abundant nocet. A hierarquização é feita pelos motores de busca, e raras vezes se procura depois da primeira página, ou do artigo da Wikipedia, que a abre. A procura própria é muito pouca, não se caminha nunca no labirinto da informação, como se faz numa biblioteca na estante de referência, ou browsing na estante da poesia, abrindo um livro ou outro. Perde-se a experiência do caminho, a procura espacial, a imersão no meio, o dilema entre escolhas sedutoras, que só tempo lento (ou menos rápido) dá. A escolha tende a acompanhar a facilidade da procura e é por isso mais débil, menos resultado de um pensamento ou de uma leitura e mais da primeira coisa que se encontra e que "serve".

(Continua)

*
A minha filha, que é uma vivaça espertalhona, faz um trabalho sobre qualquer coisa, todo bonito e enfeitado, quer em Word, quer em Power Point (geração Sócrates) cheio de efeitos especiais, cores, textos e youtubes só sentada ao computador. Muitos destes trabalhos são impressos, mas muitos vão na pen do MP3 para serem apresentados no computador da escola. Eu sinto-me impotente para controlar ou encarrilar tanta eficiência em frente de um ecrã. A minha memória de fazer trabalhos é certamente muito diferente e muito mais morosa do que a realidade de hoje. No outro dia insistiu que queria imprimir um mapa da Grécia antiga que tinha visto num site qualquer, para estudar para o teste de História. Eu disse que não, que em casa há excelentes Atlas Históricos e que deveria consultá-los pois tinha a certeza de que são bons e bem feitos. Ah, mas eu queria riscá-los, ok, então fazes uma cópia e riscas. Enfim foi um interessante diálogo em que tentei que os textos e os dados em linha não fossem as únicas fontes para os seus trabalhos.

(J.)

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NOTAS SOBRE A "CULTURA DE BLOGUE" 4

É uma cultura de copy-paste mais do que de print, entre outras coisas porque imprimir é mais caro e esta cultura vive num mundo potencialmente gratuito. Para além disso, o texto impresso é suposto ser lido fora do ecrã, o que também viola os hábitos. Por fim, a maioria das impressoras é boa para texto e má para imagem, em particular imagem a cores.

O uso dominante do copy-paste é para os trabalhos escolares. Muitos professores hoje marcam trabalhos "para serem feitos pela Internet". Um exemplo que já referi e a que assisti: escrever os números em inglês de 1 a 50. Com o copy-paste demorou meia dúzia de segundos, e, com o print, estava feito o trabalho de casa. A adolescente do 6º ano fez o trabalho, com proficiência no uso do copy-paste, no computador de uma biblioteca e ficou a saber rigorosamente o mesmo sobre como se escreviam os números em inglês. A escola e a biblioteca, as duas instituições que era suposto irem mais longe, do copy-paste para o acto de aprender, assistem como espectadoras ou porque não sabem, ou porque não querem, ou porque não podem.

Outro uso frequente do copy-paste, mas criativo, é a utilização de imagens, músicas, videos, frases e textos alheios, tal como estão ou remisturados, em particular em blogues. A facilidade do copy-paste permite uma construção de identidade a partir da citação que é também uma apropriação. Aqui o copy-paste apenas dá uma nova instrumentação tecnológica a um mecanismo mais antigo - falar com as palavras dos outros, para dizer melhor aquilo que queremos dizer.

(Continua)

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EARLY MORNING BLOGS

964 - Against Winter

The truth is dark under your eyelids.
What are you going to do about it?
The birds are silent; there's no one to ask.
All day long you'll squint at the gray sky.
When the wind blows you'll shiver like straw.

A meek little lamb you grew your wool
Till they came after you with huge shears.
Flies hovered over open mouth,
Then they, too, flew off like the leaves,
The bare branches reached after them in vain.

Winter coming. Like the last heroic soldier
Of a defeated army, you'll stay at your post,
Head bared to the first snow flake.
Till a neighbor comes to yell at you,
You're crazier than the weather, Charlie.

(Charles Simic)

*

Bom dia!

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8.2.07


OS TEMPOS MUDAM

Voltaram as andorinhas. Trabalha-se imenso pelos ares.

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ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Margem esquerda do Rio Douro, entre a Régua e o Pinhão.

(Gil Regueiro)

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NOTAS SOBRE A "CULTURA DE BLOGUE" 3

A "cultura de blogue" aplica-se a uma geração que segue os "assuntos correntes" pelos blogues, e que apenas a complementa por sítios na Rede que fornecem informação mais estruturada para interesses específicos (por exemplo, sobre futebol, sobre sexo).
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/thumb/7/75/NYTimes-Page1-11-11-1918.jpg/260px-NYTimes-Page1-11-11-1918.jpg http://babel.massart.edu/~kb/thesis/CaseStudy-11.21.01/TimeWebGallery/images/CNN.9.21-americasnewwar.jpg http://i78.photobucket.com/albums/j89/randymorin/blogosphere.jpg
Seguindo os "assuntos correntes" pelos blogues, secundariamente pela televisão, e só depois e nalguns casos, pelos jornais, a agenda resulta muito diferente: é mais conflitual, e tende a criar um mecanismo de arregimentação e pertença, nem que seja a grupos de blogues "amigos". A tribalização da blogosfera é prévia à dos seus leitores, mas fomenta militantismo e causas e é mais eficaz para posições mais extremas do que para o "meio" moderado. Lendo o actual debate sobre o aborto na blogosfera ele é frontalmente adversarial, um contínuo Prós e Contras, mais agressivo do que os debates televisivos e não tendo zona neutra. Quem se forma numa "cultura de blogues" tende a achar normal a radicalização dos debates e a acentuar paixões tribais e clubísticas, mas também tende a ser mais mobilizado por causas públicas. Este sentimento de envolvimento é tanto maior quanto certos mecanismos (como as caixas de comentários) geram uma ilusão de participação igualitária.

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NOTAS SOBRE A "CULTURA DE BLOGUE" 2

A actual campanha publicitária do Público é interessante porque parece voltada em parte para esse público da "cultura de blogue", apelando às suas referências culturais, para o trazer para a imprensa escrita em papel, o que é uma contradição nos seus termos. A contradição tem a ver com o facto dessa "cultura" ser estruturante e dos seus hábitos não serem "em papel". Não só os hábitos não são "em papel", mas sim no ecrã, como a forma de ler em volume e em profundidade (do hipertexto) é diferente da forma de ler em superfície e sequência (dos textos em papel, dos livros). Os hábitos são também mais de "ver" ( e de "ouvir") do que de "ler", o que explica o sucesso do YouTube como percursor de uma Rede em que se vai "ver" mais do que "ler".

Por isso, a campanha de publicidade resultará mais naqueles que chegaram a uma "cultura da Rede" mais do que a uma "cultura de blogue", ou seja, que não foram feitos "dentro" da "cultura de blogue", mas que ajudaram a fazê-la. Gente mais velha, com os pés em ambas as literacias, as do livro e jornal clássicos e as da Rede. Se foram estas as pessoas que deixaram de ler jornais pela décalage de interesses mais do que pelo facto de serem em papel, a campanha (e presumo que o jornal) terá sucesso, porque fará um produto mais próximo da sua agenda de interesses.

Os que já foram moldados pelos hábitos da Rede, os que se habituaram (como muitos adolescentes a chegarem ou nos primeiros anos na universidade) a olhar para o mundo no modo pick and choose típico dos blogues, nunca mais lerão em papel como se lia antes e não há campanha publicitária que os agarre. Vamos ver.

(Continua)

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NOTAS SOBRE A "CULTURA DE BLOGUE" 1

Vão começar a chegar à universidade, os primeiros produtos daquilo que se pode chamar a "cultura de blogue", embora outras designações correntes como a da “geração YouTube” também sirvam. No caso português, até porque a banda larga é ainda recente e cara, o blogue é a referência mais estruturada, que se sobrepõe à "cultura prática Kazaa" e à "cultura copy-paste", que começa a dominar do ensino básico em diante. Já vi no passado chegarem à universidade outras variantes destas "culturas" formacionais, educativas, que moldam a relação com o saber, que são literacias, vindas quer da escola, quer do "meio" juvenil. Um exemplo, a "cultura da oralidade" no ensino, quando anos de pedagogias não-directivas e de "ensino sedutor" criaram gerações de alunos que estavam habituados a passar as aulas a falar com os professores. Estes era suposto organizarem as suas aulas para os "seduzir" a aprender (era isso que lhes era ensinado nos "estágios pedagógicos") e os alunos tinham imensa dificuldade em sair da conversa para ler e muito maior para escrever, tarefas forçadas, não-sedutoras.

(Continua)

*
Diz a certa altura : "Vão começar a chegar à universidade, os primeiros produtos daquilo que se pode chamar a "cultura de blogue", embora outras designações correntes como a da "geração YouTube" também sirvam. "

Permita-me discordar, com a minha experiência pessoal. A dita geração que diz que vai chegar às universidades, já lá está. Pelo menos pela experiência que tenho. Quase todos os colegas que tenho têm um blogue, ou mais. Mas esse não é o ponto mais curioso, é a forma como usam a blogosfera na prática universitária. Blogues criados especialmente para as sub-turmas para partilhas de informação para as diferentes disciplinas, para troca de casos práticos, para avisos dos professores aos restantes colegas, etc.

Professores que criam blogues para colocar trabahos para os alunos fazerem, apontamentos, casos para resolverem em casa, exemplos de testes para treino em casa, onde colocam as notas de avaliação contínua, dos testes.

Blogues criados para se fazer campanhas para as associções de estudantes, para se criticar o que de mal se passa na faculdade e o que de bom por lá se faz.
Posso dar muitos exemplos, mas acho que estes chegam para provar que a cultura do Blogue já está enraizada na vida universitária.

(Eduardo Pinto Bernardo, Aluno da Faculdade de Direito de Lisboa)

*

Eu, que aprendi a ler com o velhinho Diário Popular - recebido diariamente e gratuito (bons tempos) pelo meu pai, correspondente de aldeia, sou um dependente de jornais e no entanto, nos últimos tempos, tornei-me um viajante da blogosfera. Sem encontrar incompatibilidades entre estas duas formas de ligação, sinto, no entanto, que a dependências por blogues nunca será igual à que tenho por jornais. A minha convivência, já longa, com os segundos e a dificuldade (incapacidade?) de me embrenhar em textos longos nos primeiros, será sem dúvida, a razão de tal diversa aditividade. Os dois mundos (para simplificar: jornais/blogues) assentam em plataformas comunicacionais tão diversas que se torna bastante difícil compará-los. A interactividade, no universo da blogosfera, entre "eu"/ "mundo" e "blogue/blogue", constituem uma realidade nova que não tem equivalência no "velho" mundo da comunicação social.

A sua reflexão (no Público?) há uns tempos atrás entre a variedade de órgãos de comunicação social que podemos encontrar numa "banca de jornais" e a paleta blogosférica, parece-me muito mais interessante. A seriedade, o ecletismo, a temática, a estética, a objectividade e o objectivo ou os interesses, aqui sim comparáveis, serão sem dúvida um dos grandes temas da comunicação social dos próximos tempos. A Antropologia ( como não podia deixar de ser!) se encarregará de o mostrar.

(VGC)

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ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR

Foto de uma estrada bucólica em Valencia de Alcántara, Cáceres, Espanha. Por aqui, respira-se ar puro e pode-se conjugar isso com brincadeiras de criança, como fazer balões de sabão. Ao lado, só vacas a amamentar os seus bezerros num ambiente de silêncio incrível.

Luís Miguel Pinto (Valencia de Alcántara, Cáceres, Espanha)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 8 de Fevereiro de 2007


Já ninguém consegue escrever mais sobre o aborto, mas ninguém consegue deixar de escrever sobre o aborto. Há um cansaço e um vício, fica-se apanhado. Para além da fixação que nos impede de variar, parece que o debate público não suporta deixar de ser monotemático e obsessivo. Depois segue-se um síndroma de abstinência.

*
Hoje no primeiro noticiário da RTP 1 ás 06,30 assisti a mais um bom exemplo da (má) informação praticada pela televisão pública.

A propósito da notícia do Jornal de Notícias que o Governo, a pedido do P.R. iria produzir um novo relatório sobre a OTA, passa de imediato uma reportagem no Aeroporto de Lisboa a noticiar o inicio de obras avaliadas em 50 M de euros e com uma entrevista com um “responsável” que afirma (sem se rir) que o aeroporto está saturado e que com o atraso da construção da OTA em 4 a 5 anos obriga a estes gastos neste aeroporto.

A propaganda do Governo no seu pior.

(António Lamas)

*

Às vezes, uma passagem sem importância de uma notícia, uma abertura, um
remate explicam mais do que explicaria um compêndio sobre os abismos de
mediocridade e parcialidade a que desceu a informação em Portugal. Ontem,
no telejornal da SIC, Rodrigo Guedes de Carvalho abriu uma notícia sobre o
aumento dos lucros da banca com esta pérola. «Esse montante daria para
construir meia Ota». Quase vejo o autor do texto a julgar-se insuportavelmente sagaz por "inculcar" que os bancos lucram demais, ou o Estado devia cobrar ainda mais impostos, ou que a Ota é boa e se fazia bem se não fossem os ricos.

(José Cruz)

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EARLY MORNING BLOGS

963 -At the California Institute of Technology


I don't care how God-damn smart
these guys are: I'm bored.

It's been raining like hell all day long
and there's nothing to do.


(Richard Brautigan escreveu este poema em 24 de Janeiro de 1967 enquanto "poet-in-residence" no California Institute of Technology.)

*

Bom dia!

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7.2.07


ESPAÇOS EM QUE SE PODE RESPIRAR

Tirada de um avião perto de Benguela.

(Carlos Costa)

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É PROVÁVEL...

que não valha muito a pena protestar, mas estou há várias horas sem telefone nem Internet (eu e muita gente à minha volta), responsabilidade da Portugal Telecom, sem poder trabalhar como devia, mais uma vez com esta sensação de impunidade (deles) e impotência (minha), face a um serviço que, quando avaria, avaria sempre por muito mais tempo do que devia. Após uma semana com as habituais falhas de energia da EDP, microrupturas e rupturas menos micro, não custa avaliar o preço de tudo isto na produtividade do trabalho em linha, a umas poucas dezenas de quilómetros da capital.

*
“It is based on the conviction that where effective competition can be created, it is a better way of guiding individual efforts than any other. It does not deny, but even emphasises, that, in order that competition should work beneficially, a carefully thought-out legal framework is required, and that neither the existing nor the past legal rules are free from grave defects. Nor does it deny that where it is impossible to create the conditions necessary to make competition effective, we must resort to other methods of guiding economic activity.”



“The functioning of competition not only requires adequate organisation of certain institutions like money, markets, and channels of information-some of which can never be adequately provided by private enterprise-but it depends above all on the existence of an appropriate legal system, a legal system designed both to preserve competition and to make it operate as beneficially as possible.”

Friedrich August von Hayek dixit.

(DG)

*

Mesmo sendo da responsabilidade dos prestadores de serviço assegurar a sua continuidade, acaba por ser dos clientes ou utilizadores a iniciativa de tomar medidas no sentido de se precaver contra falhas alheias. Sobre esta questão, nem vale a pena alongar-me, mas deixo duas sugestões.

Para evitar interrupções no acesso à Internet, sugiro um sistema redundante, que utilize primariamente a actual banda larga e possa, em caso de necessidade, usar os serviços de um operador móvel. Se algum dos operadores oferecer uma velocidade/preço aceitáveis, talvez seja de equacionar esta possibilidade

Um "router" com possibilidade de usar uma conexão Ethernet a um modem (ADSL ou Cabo) e com "slot" para uma placa de dados de um operador móvel pode ser uma solução.

Relativamente à EDP, mesmo em Lisboa, já me vi forçado a instalar uma unidade de alimentação ininterrupta devido, sobretudo, às sobretensões e variações de corrente. Infelizmente, aquilo a que a EDP chama flutuações provocou a avaria de equipamentos não protegidos, tendo a empresa, após dar instruções via email e telemóvel para proceder à reparação, recusado o mesmo em carta enviada posteriormente.

(Nuno M. Cabeçadas)

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6.2.07


BIBLIOFILIA: ENTRADAS PARA A LITERATURA


Barry Miles, The Beat Hotel. Ginsberg, Burroughs, and Corso in Paris, 1958-1963

Paul L. Mariani, Dream Song: The Life of John Berryman

John Berryman, John Berryman: Collected Poems 1937-1971

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ESPAÇOS EM QUE SE PODE RESPIRAR

Alvão.

(Gil Coelho)

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ESPAÇOS EM QUE SE PODE RESPIRAR

Atlântico, Cabo Espichel.

(MJ)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 6 de Fevereiro de 2007


Cada vez mais a agenda mediática é a agenda do Ministério Público: nas notícias de hoje lá estão os voos da CIA (esta investigação vai ser muito interessante de seguir e de ver os resultados) e "as interferências de Alberto João Jardim no "Jornal da Madeira"". Algo me diz que esta tentativa de criar um Baltazar Garzón português não vai ser brilhante. Live by the press, die by the press.

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O DESCONTOZITO...

Nos tempos em que todo o comércio era aquilo a que hoje chamamos "tradicional" havia, na maioria dos estabelecimentos, uma curiosa praxe:
Mediante a apresentação de um cartão qualquer - mesmo que fosse o de sócio de um clube de futebol! - o lojista fazia, de imediato e com o seu melhor sorriso, um desconto de 10%.
E já não me lembraria dessa simpática tradição se não se desse o caso de ter assistido, um dia destes, aos festejos que o Governo promoveu para anunciar a recuperação de 1600 milhões de euros de impostos em atraso - importância que corresponde, precisamente, a 10% do valor estimado da fuga ao fisco em Portugal. Ora ainda bem que se recuperou a tradição de todos se contentarem com tão pouco - quer quem paga, quer quem recebe!

(C. Medina Ribeiro)

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ESPAÇOS EM QUE SE PODE RESPIRAR

Amanhecer no Porto. Cais da Alfândega. Hoje.

(Gil Coelho)

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EARLY MORNING BLOGS

962 - Semântica Electrónica

Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

(Vitorino Nemésio)

*

Bom dia!

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INTENDÊNCIA

Actualizada a nota LENDO / VENDO / OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 3 de Fevereiro de 2007.

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5.2.07


JARDINS DE INVERNO

Hoje, no Polje de Mira-Minde, Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, com uma fria e persistente chuva. Junto ao leito quase seco de uma das exsurgências que alimenta de água o polje, as ruínas de um velho moínho movido pela água. Neste lugar de beleza insólita (um acentuado abatimento de origem tectónica) há registos de vindimas feitas de barco quando, em estações continuadamente chuvosas, o polje enche de água, transformando-se numa grande lagoa temporária. De vez em quando o polje enche. A actividade agrícola, embora se mantenha, não tem a expressão que teve no passado.

(Vítor Xavier)

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NUNCA É TARDE PARA APRENDER: JUSTIÇA DOS VENCEDORES?

http://www.pocketessentials.co.uk/images/large/1903047501large.jpgJustiça dos vencedores? Sem dúvida, mas não só. Li este pequeno livro de Andrew Walker à luz do julgamento de Saddam Hussein, para ver onde é que as diferenças eram evidentes. Não apenas para ver as diferenças, mas para perceber onde elas pesavam. A conclusão é obvia: o julgamento de Saddam teria sido o equivalente a colocar apenas os comunistas alemães ou os russos a julgar Göring e os outros réus. Quase tudo a que do império da lei e do direito (de alguma lei pelo menos), ou seja de "justo", se assistiu no julgamento de Nuremberga deveu-se aos juízes das democracias aliadas que não aceitaram todas as acusações, deram condições de trabalho à defesa, e decidiram inclusive absolvições. A grande diferença entre Nuremberga e Bagdad tem a ver com o facto de Saddam ter sido julgado por iraquianos em vez de o ser por juízes das forças de ocupação. É pouco provável que Saddam escapasse à pena de morte, como Keitel, Jodl, Rosemberg, Ribbentrop e outros também não escaparam, mas teria sido um julgamento mais sério. Claro que não serviria para nada a curto prazo, porque na guerra do Iraque há pouco "high moral ground", tal decisão seria sujeita a outro tipo de acusações, e, com a guerra civil em curso, pouco adiantaria. Mas serviria para o "moral ground" do futuro.

*

Um dos factos a que se aludiu no julgamento foi a queima por soldados e oficiais alemães da biblioteca de Tolstoy para se aquecerem. Quando alguém objectou, um oficial alemão respondeu que "gostava de se aquecer à luz da literatura russa".

*

Na defesa das SS, para efeito do veredicto sobre quais eram ou não as "organizações criminosas", uma das testemunhas aludiu às boas condições no campo de concentração de Buchenwald que, entre outras coisas, teria um bordel. Um dos juízes não percebeu a palavra e pediu que fosse repetida. Pela segunda vez não percebeu. O seu colega do lado, que já lhe estava a sussurrar que se tratava de bordel, chegou-se ainda mais e ligou o microfone inadvertidamente enquanto lhe diz "ó homem, bordello, bordel, casa de putas". Foi uma das raras ocasiões em que todos se riram.

*
Relativamente à comparação entre os julgamentos de Nuremberga e o de Saddam Hussein, estou de acordo consigo quando afirma que houve mais seriedade no primeiro do que no segundo. E, acrescento, também houve mais seriedade nas execuções. Mas convém não esquecer que Saddam Hussein foi apenas um de oito réus e que não foram todos condenados à morte. De facto, houve três condenações à morte, uma condenação a prisão perpétua, três penas de quinze anos de prisão e, inclusivamente, uma absolvição (por falta de provas).

(José Carlos Santos)

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EARLY MORNING BLOGS

961 - Comme le champ semé en verdure foisonne

Comme le champ semé en verdure foisonne,
De verdure se hausse en tuyau verdissant,
Du tuyau se hérisse en épi florissant,
D'épi jaunit en grain, que le chaud assaisonne :

Et comme en la saison le rustique moissonne
Les ondoyants cheveux du sillon blondissant,
Les met d'ordre en javelle, et du blé jaunissant
Sur le champ dépouillé mille gerbes façonne :

Ainsi de peu à peu crût l'empire romain,
Tant qu'il fut dépouillé par la barbare main,
Qui ne laissa de lui que ces marques antiques

Que chacun va pillant : connue on voit le glaneur
Cheminant pas à pas recueillir les reliques
De ce qui va tombant après le moissonneur.

(Joachim du Bellay)

*

Bom dia!

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4.2.07


JARDINS DE INVERNO

Sexta-feira passada, 2/2/2007, na Guarda, as árvores cobertas de sincelo até às duas da tarde.

(Alexandrina Pinto)

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SEM JARDIM


O Jardim Botânico da Universidade de Coimbra manteve fechadas as portas ao público, pela primeira vez na sua história, por falta de verbas que suportem os custos de o manter aberto durante o fim-de-semana. Segundo o Diário de Coimbra, a direcção prevê mesmo vir a cobrar entrada durante os dias de semana e até se fala em desligar o aquecimento às estufas. Tão desoladas como as ginkgo bilobas que guardam a entrada principal do Jardim devem estar os espíritos guardiães dos Broteros, dos Quintanilhas, dos Fernandes, a assistir de longe enquanto se torna ainda mais inóspita e infértil a sua cidade

(Teresa)

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DO WINDOWS XP PROFESSIONAL PARA O WINDOWS VISTA ULTIMATE

Mudança sem problemas, como nunca me acontecera, de um sistema operativo para outro. Tudo correu bem e à primeira, sem falhas. Fiquei sem scanner e impressora (ambos da HP), mas já sabia que corria esse risco. Não percebo porque razão a HP ainda só tem um tão pequeno número de drivers disponíveis para o Vista. Instalei também a versão Ultimate do Office 2007 e, embora seja ainda cedo para saber se tudo funciona bem, o Outlook continua a encerrar mal e a demorar muito a receber e a organizar o correio. Vamos ver como as coisas correm com o Word e o Access, os programas que mais utilizo.

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JARDINS DE INVERNO

Com o mar ao fundo.

(RM)

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EARLY MORNING BLOGS

960 - Au Démon secret

Le peuple, sans perplexité, vénère. Il encense, invoque ou répudie. Il donne trois, ou six ou neuf prosternements. Il mesure son respect à la compétence, aux attributs, aux grâces qu'il escompte juste.

Car il sait précisément les goûts du génie de l'âtre ; les dix-huit noms du singe qui donne la pluie ; la cuisson de l'or comestible et du bonheur.

o

De quelles cérémonies l'honorer ce démon que je loge en moi, qui m'entoure et me pénètre ? De quelles cérémonies bienfaisantes ou maléfiques ?

Vais-je agiter mes manches en respect ou brûler des odeurs infectes pour qu'il fuie ?

De quels mots d'injures ou glorieux le traiter dans ma vénération quotidienne : est-il le Conseiller, le Devin, le Persécuteur, le Mauvais ?

Ou bien Père et grand Ami fidèle ?

o

J'ai tenté tout cela et il demeure, le même en sa diversité,

Puisqu’il le faut, ô Sans-figure, ne t'en va point de moi que tu habites :

Puisque je n'ai pu te chasser ni te haïr, reçois mes honneurs secrets.

(Victor Segalen)

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Bom dia!

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3.2.07


IMAGENS / IDEAS POLITICAMENTE INCORRECTAS


(Enviada por Vieira Pinto)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 3 de Fevereiro de 2007




Hoje no Diário de Notícias Sarsfield Cabral faz uma pergunta interessante, embora capciosa na forma como a desenvolve:
"Ora, se a ética é afastada numa sociedade amoral, porque não, então, legalizar a poligamia (e também a poliandria, para ser politicamente correcto), onde ela ocorra com alguma frequência? Na Holanda foi recentemente tentada a criação de um partido pedófilo..."
Duas precisões. Uma, a pergunta sobre a poligamia (mais do que sobre a poliandria, que não parece ter muitos exemplos no mundo, se exceptuarmos as muito controversas teses de Margaret Mead) não implica qualquer ilação de que só possa ser colocada quando " a ética é afastada numa sociedade amoral". Porquê? Tanto quanto se sabe a poligamia é legal em muitas partes do mundo, em particular em terras do Islão, e não me parece que tal se deva a qualquer "amoralidade" especial. Os bons, crentes e tementes a Deus, mórmons praticavam-na e praticam-na (às escondidas) sem que isso signifique que não pautem a sua vida por rigorosos e estritos padrões morais. Também não me parece que a poligamia implique qualquer instabilidade social própria, e o Utah é um estado particularmente pacífico e próspero. A pergunta sobre a legalização da poligamia (ou da poliandria) tem pois sentido e pode ser formulada sem qualquer quebra do tónus moral da sociedade.

A segunda afirmação, sobre a "a criação de um partido pedófilo" na Holanda, é evidentemente capciosa, pois nada há que permita comparar a poligamia com a pedofilia. É que entre outras coisas (sem diminuir a complexidade da questão da pedofilia que não é tão simples como se pensa) um dos principais problemas morais da pedofilia prende-se com a violência do poder dos adultos e da sua sexualidade sobre as crianças e com a incapacidade destas de livre arbítrio e auto-determinação individual. Ora indo por aqui na questão do aborto, falando de livre arbítrio e auto-determinação individual talvez não se chegue onde Sarsfield Cabral queria chegar...


*
Também li o artigo de Sarsfield e permita-me discordar. Na minha opinião a questão da pedofilia está muito mais perto da questão do aborto que a questão da poligamia / poliandria.

Quer no aborto quer na pedofilia está em causa o poder de quem já atingiu a maturidade (ou pelo menos uma fase mais andiantada de maturidade) sobre um Ser (reforço o S grande) que ainda não a atingiu (ou pelo menos está numa fase mais atrasada). Aqui os valores morais de cada sociedade reflectidos nas respectivas leis e práticas regulam esta diferença de poderes.

A poligamia / poliandria entre adultos nas sociedades democráticas é livre. Se é reconhecida socialmente e dispõe de mecanismos de protecção, é outra questão. Ninguém está proibido de viver e/ou fazer sexo c/ mais do que um parceiro do sexo oposto. Que eu saiba não há nenhuma disposição legal em Portugal que o proíba. Se é aceite socialmente (ou deveria ser) que alguém chegue a um evento social e apresente 2 companheiras(os) / namoradas(os) aos restantes convivas é outra questão. Se, a exemplo do casamento heterosexual, há (ou deveria haver) mecanismos legais para a sua oficialização, respectiva protecção jurídica e eventuais apoios sociais, isso é outra questão.

Há que separar o que são proibições e respectivas penalizações a certas acções individuais do que são protecções jurídicas e aceitação social a certas opções individuais de vida.

(Miguel Sebastião)

*

Pelo contrario, acho que Sarsfield Cabral chega perfeitamente onde quer chegar e que a comparacao aborto/pedifilia e muito apropriada, porque em ambos os casos, como bem diz, existe "a violência do poder dos adultos e da sua sexualidade sobre as crianças e com a incapacidade destas de livre arbítrio e auto-determinação individual."

A unica questao aqui e saber se o embriao/feto deve gozar dos mesmos direitos do que a crianca.

(Pedro Domingos)

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Não sei se a pergunta de F S Cabral é assim tão pertinente. O casamento é um contrato civil a que só adere quem concorda com as suas cláusulas. Aliás, é um bom exemplo de separação entre lei (que permite uma sucessão ilimitada de casamentos e divórcios) e moral cristã (que só permite casar uma vez e para sempre). Fora do contrato civil casamento, a “poligamia”, o ter múltiplos namorados, parceiros, engates, em simultâneo, é perfeitamente legal e, inclusive, aceite por alguns dos seus intervenientes.

(Mónica Granja)

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Há um cuidado especial que deve ser tido com as edições em linha e que mesmo uma edição mais cuidada (como a do Público) não tem. Por exemplo, hoje,
"PEDRO BACELAR DE VASCONCELOS Ordem dos Médicos e cultura da justiça não permitiram que isto se resolvesse
Cruzaram-se em Timor-Leste - uma das causas de Pedro Bernardo de Vasconcelos. Juntou-os o Direito, de que ela é hoje professora na Nova de Lisboa (privado) e ele professor na Universidade de Minho (público). Sobre o referendo as visões não podiam estar mais distantes. Por Adelino Gomes"
Quem é "ela"? "Ele" está identificado, "ela" não se consegue saber no texto que está em linha qual é a sua identidade. (Depois há um "Bernardo" onde devia haver um "Bacelar", mas isso é o menos...)

*
A propósito de cuidados que não se têm nas notícias, em particular nesta do Público, a Nova de Lisboa é uma Universidade pública!

(Maria Helena Cabral)

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Na notícia do Pedro Bacelar de Vasconcelos diz-se também que ele foi Governador Civil do Porto aquando da questão da comunidade cigana, quando na verdade era Governador Civil de Braga.

(Filipe Pinto da Silva)

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RETRATOS DO TRABALHO EM S. MIGUEL - AÇORES, PORTUGAL

Portas do Mar, ilha de S.Miguel - Açores

(Ana Luísa Monteiro)

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EARLY MORNING BLOGS

959 - Animula vagula blandula

Animula vagula blandula
Hospes comesque corporis
Quae nunc abibis in loca
Pallidula rigida nudula
Nec ut soles, dabis iocos.

(Adriano)

*

Bom dia!

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2.2.07


LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 2 de Fevereiro de 2007 (2)


No noticiário da SIC das 20 horas uma peça muito pouco rigorosa sobre o aquecimento global, que incluía a afirmação de que os efeitos do aquecimento são idênticos aos de uma lareira numa sala fechada que "aquece tanto que até se pode morrer" (mais ou menos estas palavras). A não ser que a lareira pegue fogo à casa, morre-se é devido a envenenamento por monóxido de carbono e não pelo calor. Não pode ser...

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JARDINS DE INVERNO

Serralves, Porto.

(Gil Coelho)

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INTENDÊNCIA

Actualizada A VIDA E A "VIDA" com novas notas ao texto e contribuições dos leitores.

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GRANDES CAPAS HISTÓRICAS


(Enviada por Vieira Pinto)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 2 de Fevereiro de 2007


Notícias da frente: Jimmy Wales fundador da Wikipedia fala do seu novo projecto Wikia. En passant, vendo esta pequena conferência, normalíssima, sem formalismos, dada numa aula de Evan Korth, num curso intitulado "Computer’s and Society" na NYU, percebe-se como funcionam as universidades americanas.

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS / NOVOS BOLETINS METEOROLÓGICOS

A huge cloud system covering the north pole of Titan

Nuvens densas no Polo Norte de Titã.

Não é boa altura para ir lá de férias, é melhor irem para Nova Brasil em Vénus, onde está calor.


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EARLY MORNING BLOGS

958 - History

History has to live with what was here,
clutching and close to fumbling all we had--
it is so dull and gruesome how we die,
unlike writing, life never finishes.
Abel was finished; death is not remote,
a flash-in-the-pan electrifies the skeptic,
his cows crowding like skulls against high-voltage wire,
his baby crying all night like a new machine.
As in our Bibles, white-faced, predatory,
the beautiful, mist-drunken hunter's moon ascends--
a child could give it a face: two holes, two holes,
my eyes, my mouth, between them a skull's no-nose--
O there's a terrifying innocence in my face
drenched with the silver salvage of the mornfrost.

(Robert Lowell)

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Bom dia!

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1.2.07


A VIDA E A "VIDA"



Há um aspecto do debate sobre o aborto que está muito presente nas tomadas de posição do "sim" e, particularmente, no "não": a impregnação do debate por palavras com um sentido cultural, político e religioso determinado, apresentadas como se fossem universalmente aceites e semanticamente unívocas. Como se o significado que lhes damos fosse universal e estivéssemos todos de acordo. É o caso da "liberdade" no argumentário do "sim" e da "vida" no do "não". Ambas as palavras são utilizadas correntemente como se fossem neutras, como se uns e outros tivessem que as aceitar pelo seu valor facial, como se não quisessem dizer mais do que o dizem na linguagem corrente.

[Caminhada.bmp]Na verdade nenhum dos termos é "inocente", nenhum aponta para coisas que todos reconheçam, mas, pelo contrário, remetem para uma longa história cultural, política, filosófica e religiosa, que numas vezes é comum, noutras se distingue e se diferencia. Como num debate político ganha quem consegue impor um léxico que controla, na imposição e na aceitação de um ou de outro significado da palavra enganadoramente comum está também presente uma questão de poder. É muito nítido este problema quando se fala de "vida", quando numa manifestação se grita "viva a vida", o que por si só deveria levar de imediato a pensar que a "vida" que se vitoria é uma determinada interpretação da vida e não a vida tout court.

Pela escolhaNo vocabulário do "sim", a palavra "liberdade" é normalmente caracterizada, ou de "liberdade de escolha", ou de "liberdade do corpo", ou de "liberdade de consciência", remetendo para uma tradição derivada de uma ética laica, civil, jurídica e societal, que é a típica das sociedades ocidentais europeias e americanas dos últimos duzentos anos. Remete para a "felicidade terrestre" de que falava Saint-Just, e para toda uma história do pensamento que nos acompanha desde a Grécia clássica e que se tornou a ética civil dominante, como resultado de um complexo processo que nos deu os direitos humanos, a condenação da pena de morte e da tortura, o casamento civil e o divórcio, o "registo civil", a democracia política, a separação do Estado e da Igreja, a tolerância entre posições políticas, credos e culturas. Por muito que isso custe a muitos católicos, a Igreja não teve um papel central em nenhum destes adquiridos, que hoje aceita como natural ou mesmo civilizacional. Bem pelo contrário, combateu-os com veemência e foi só nas últimas décadas que abandonou a posição "antimoderna" de muitos dos seus papas entre meados do século XIX e XX. Foi em bom rigor só depois da Segunda Guerra Mundial, devido aos esforços de muitos teólogos e hierarcas da Igreja, incluindo o presente Papa, que se aceitou a modernidade como não sendo hostil ao munus religioso, que se aceitou a modernidade como benéfica, mesmo que problemática.

Este adquirido civilizacional de uma sociedade civil, de que fazem parte as Igrejas, mas que não é dominado pelas Igrejas, resultou de um processo em que participaram correntes contraditórias, jacobinas e liberais, nuns casos resultado da fundamentação da liberdade política no direito à dissidência religiosa (EUA), noutros das ideias da Revolução Francesa. Em ambos os casos, mesmo com tradições muito distintas, o resultado foi o mesmo: a predominância do "terrestre" na "felicidade" e na criação de sociedades que não têm nenhuma teleologia comummente aceite.
Dentro dessas sociedades as religiões e as Igrejas tem um papel decisivo, em particular as grandes Igrejas matriciais do Ocidente, a católica apostólica romana, a ortodoxa grega, a reformada, a anglicana, mas esse papel varia não só em função do peso da instituição na "Igreja" como também pela laicização das sociedades civis, que no fundo aplicou a afirmação cristã de que se deve dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

Dentro desse princípio, que molda o mundo em que vivemos, deve a vida (a vida e não a "vida") pertencer a César ou a Deus? Esta é a questão que está em causa neste referendo e está longe de ser simples a não ser para aqueles que consideram que existe na vida uma presença divina, uma "alma", um "sopro divino", que permanece intangível desde a fecundação, porque é "em potência" um ser humano. Muitos católicos envolvidos neste debate e a própria Igreja têm esta posição hoje. Mas só para se perceber que não é simples esta definição de "vida" há que lembrar que, por exemplo para alguns budistas e hindus, o mesmo "sopro divino" não se limita aos humanos, mas também está presente nos animais, que nós matamos sem respeito pela "vida" e eles não.

Mesmo para a Igreja esta interpretação da vida é relativamente recente. O Catecismo da Igreja Católica admitiu na sua primeira edição a pena de morte, e mesmo na aprovação das excepções previstas para o aborto na actual lei, aceites por muitos católicos, já há uma cedência à intangibilidade da "vida" como princípio.
http://www.conferenciaepiscopal.es/general/catecismo.jpgO ensino tradicional da Igreja não exclui, depois de comprovadas cabalmente a identidade e a responsabilidade de culpado, o recurso à pena de morte, se essa for a única via praticável para defender eficazmente a vida humana contra o agressor injusto.

Se os meios incruentos bastarem para defender as vidas humanas contra o agressor e para proteger a ordem pública e a segurança das pessoas, a autoridade se limitará a esses meios, porque correspondem melhor às condições concretas do bem comum e estão mais conformes à dignidade da pessoa humana. (Catecismo da Igreja Católica)
Na verdade, esta posição sobre a "vida" tem muitos pressupostos que são intrinsecamente religiosos e de fé, e que ou são aceites ou não, mas não podem ser considerados auto-evidentes para quem não tem fé. Implica, por exemplo, a ideia de que existe uma "alma" - chamemos-lhe o que quisermos vai sempre dar aí -, uma presença espiritual que está para além do corpo, um Logos de natureza radicalmente alheia à mecânica do corpo, que não se reduz a ele, que está para além dele, que é imortal. A "vida" a que se bate palmas nas manifestações é mais do que a do corpo, é a da criação divina, e compreende-se que, sendo entendida como pertencendo a Deus, não se queira dá-la a César, ao Estado moderno.
A forma como se discute a questão do aborto obscurece o facto de que o aborto não é um problema de fundo nas sociedades actuais. O que é um problema de fundo é o planeamento "familiar". Não custa admitir que, a prazo, com a evolução das técnicas anti-conceptivas, com a possibilidade da interrupção da gravidez quando estas falharem, com uma melhor educação sexual, com melhores serviços de planeamento "familiar", com uma melhor educação, acesso aos medicamentos e melhores condições de vida, o aborto se torne residual, se torne excepcional, deixe de ser um problema social para se tornar uma patologia individual. Pelo contrário, o controlo pela mulher, pelo casal, da maternidade permanecerá uma questão central da possibilidade de se garantir a cada um viver a vida que deseja. A ilicitude, com a carga de humilhação. dificuldade e preço que comporta, mantém o problema como sendo social, logo impede a sua mera assunção pelo Estado como sendo um problema individual, como sendo um problema de consciência no qual imperam apenas convicções próprias, ou uma moralidade assente na fé.

E se eu não acreditar que há uma "alma" e me basta o código genético, e se eu for materialista e entender o corpo como uma máquina aperfeiçoada apenas pela evolução natural e resumir o Logos a um produto dessa mesma máquina, e se eu entender que verdadeiramente tudo tem a ver com o "egoísmo" dos genes e for sociobiológico, será que tenho que aceitar esta visão da "vida" mesmo sem fé? E se eu considerar que não há "vida" passível de ser descrita pela ciência a não ser como excepção temporária e precária à segunda lei da termodinâmica e entender que para perceber essa violação da entropia que é o metabolismo, a que chamamos vida, não preciso de qualquer princípio vital? E se eu no meu laboratório não encontrar nem Deus nem a "vida", mesmo desejando encontrá-los, será que me coloco fora dos valores civilizacionais? E se eu considerar que uma coisa é esta "vida" divina e outra é a vida, mais modesta, menos programática, mais humilde, menos pretensiosa, mais "terrestre", que inclui não apenas a criação mas o desejo da criação, que implica mais do que o código genético, ou o acto da fecundação, mas a vontade de a criar, exigindo um "programa" que inclua a vontade dos seus progenitores, coloco-me à margem dos nossos valores civilizacionais? A "vida" a que se bate palmas é apenas uma das muitas interpretações da vida como valor, que assenta numa fé de carácter religioso e numa interpretação que depois extravasa para a aceitação selectiva de determinadas doutrinas éticas e "científicas" que estão longe de ser as únicas e de serem incontroversas.
A construção de uma ética social aceitável como um adquirido comum é obviamente muito complexa e implica contribuições de muitas origens com relevo para as tradições culturais com origem na religiosidade, que moldam muito uma sensibilidade profunda "popular", mas inclui sempre "práticas" que lhe escapam porque envolvem "problemas" que, sendo societais, são resolvidos em conflito com a norma religiosa ou civil. O aborto é claramente um desses casos. Reduzi-lo na lei a uma norma puramente religiosa-filosófica será sempre inaceitável ou porque redutor da realidade "vivida", ou porque colide com outras tradições culturais, políticas ou religiosas cujo estatuto ético não pode ser considerado menor.

Um outro problema consiste em querer fundar uma ética social monista reflectida na lei, como se fosse possível traduzir uma interpretação da "vida" num sistema de ilícitos e de penas. Essa interpretação está presente - aceito que um dos dilemas do acto de abortar tem a ver com um sentimento de mutilação, com um acto "vivido" também como de morte, por isso a questão da "vida" não pode ser afastada da discussão do aborto - mas não pode pretender dominar solitariamente a legislação. A tradição do cristianismo na convivência com as sociedades modernas do Ocidente implicou o abandono de algo parecido com a sharia, uma das dificuldades do Islão se adaptar à modernidade, pela dificuldade de conceber um Estado que seja de César, mesmo com Deus presente.

Mais: fundar uma ética social aceitável como reflexo de uma interpretação "espiritual" da vida, não seria muito distinto de querer fundar uma ética baseada na selecção natural, um darwinismo social, uma posição igualmente ancorada na tradição da nossa cultura ocidental.
Assim não nos entendemos porque me pedem que acredite, e acreditar não está ao alcance de todos. O que é que sobra? Um terreno comum entre a sociedade civil laica e a tradição cristã: a consideração da pessoa humana (também um conceito construído), um personalismo mínimo, que abrange realidades metapolíticas e metassociais mas não é metafísico, esse sim, produto comum da nossa história civilizacional que une laicos e crentes. É isto uma defesa do relativismo? Bem pelo contrário: nenhum relativismo vale quando se trata de pôr em causa a pessoa humana, mas a pessoa humana, cuja noção de "dignidade" une muito dos que defendem o "sim" e o "não", é uma coisa bem diferente da "vida" a que se bate palmas nas manifestações. Ah! e admite o aborto, sem lhe retirar todos os dilemas morais e religiosos, tal como está legislado na maioria dos países europeus e nos EUA, que foram feitos pela nossa civilização. Somos nós a excepção, não eles.

É, por isso, necessária muita prudência ao usar as palavras como valores civilizacionais comuns, quando o que é civilizacional é a convivência de diferentes entendimentos das mesmas palavras e não tanto uma determinada interpretação, muito menos imposta por lei, muito menos pretendendo o monopólio da moral e da civilização.

(No Público de 1 de Fevereiro de 2007)

*
Quando no seu texto refere que o Catecismo da Igreja Católica admitiu a pena de morte, não deve esquecer-se – aliás, cita-o no passo seguinte – que o fez num conflito de valores, entre o valor da vida e o da justiça («culpado», «agressor injusto»). Nunca, pelo menos nos tempos modernos, a Igreja aprovou a morte como meio legítimo, especialmente a morte intra-uterina, mesmo em situações extremas.

Aliás, quanto diz que muitos católicos aprovaram e concordam com a actual lei – a qual, diga-se, é um dado adquirido e poucas ou nenhumas vezes foi e tem sido sequer discutida como uma concessão à morte – tem razão ao sublinhar que isso corresponde a uma cedência à intangibilidade da vida como princípio, constituindo algo com o qual os católicos convivem mal e com algum desconforto. Uma das características da Igreja é o radicalismo dos seus princípios. Não se trata de radicalismo no sentido “mau” e obtuso do termo, mas sim no de que existem valores relativamente aos quais não se pode transigir. A Vida, com ou sem aspas, é um desses valores. Eu sei que choca ouvir que mesmo em caso de violação a mulher deve levar a gravidez até ao fim, mas numa análise crua e desprovida de emoção, é, na verdade, a única posição consentânea com a tradição da Igreja e os valores por si defendidos. O que me incomoda no debate acerca do tema é a falta de tolerância que existe – de parte a parte – embora francamente me pareça existir mais da parte do “sim” do que do “não” (apesar dos primeiros dizerem precisamente o contrário), relativamente às posições contrárias. Dizer a um católico convicto que, ao defender “a outrance” a ilegitimidade do aborto está a ter uma posição bárbara face aos direitos das mulheres e da sua condição social, para além de ser retrógrado, não alinhado com os países (que, não por acaso, são nestes casos sempre chamados de democracias) avançados, etc., é estar a ofendê-lo e descentrar o debate do que verdadeiramente interessa.

As convicções de cada um neste debate não estão em causa, nem são referendáveis. O que deve ser referendável são as implicações e consequências que têm uma e outra posição. Parece-me que, com pequenas excepções, isso tem sido afastado, resta saber se deliberadamente.

(Rui Esperança)

Concordo com os cuidados a ter no debate sobre o aborto.
Mas não podemos fugir aos limites da comunicação quando queremos debater temas como o aborto. Não podemos fugir aos significados assimétricos que as facções em debate atribuem aos conceitos de ‘vida’ e ‘liberdade’ e a outros que frequentemente são lançados na tentativa de demarcar a fronteira entre o certo e o errado, entre o bom e o mau, por qualquer uma das partes, o ‘sim’ e o ‘não’ (que são eles próprios os demarcantes mais ineficazes e imprecisos de todos!, afinal sim ou não a quê?, à vida?, à ‘liberdade’?).

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O que pretendemos deste debate?

Queremos de facto encerrar a demarcação definitiva do que é a ‘vida’, a ‘felicidade’, a ‘liberdade’ ou a ‘alma’? Depois do referendo, estes conceitos continuarão a ser interpretados de forma diferente e continuaram a ser âncoras da opinião, armas de arremesso ou trincheiras morais. Serão sempre instrumentos da comunicação e sempre que necessário. Por isso, quando o referendo se realizar, os cinzentos continuarão a ser cinzentos, não se terão desenlaçado em preto e branco.

Depois do referendo, num contexto legal que as penaliza ou não, as mulheres que decidirem interromper por sua vontade uma gravidez não desejada continuarão a fazê-lo. Continuaremos a tomar as suas decisões como certas ou erradas, boas ou más. Continuaremos a julgá-las ou não, a compreendê-las ou não e a ajudá-las ou não. Porque as leis não encerram a capacidade de mudar definitivamente os homens e as mulheres. Nem demarcam definitivamente o que é de César do que é de Deus.

(Dinis Martins)

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(...) quanto à questão que agora nos ocupa, a do SIM ou NÃO, quereria dar a minha achega:

Tanto os dum lado como os do outro declaram, por um lado, que o que querem é o bem e, por outro, que o aborto é um mal. Mas, se queremos ser coerentes até ao fim, pergunto: poderemos enveredar pelo caminho do mal com o objectivo de dele tirar um bem, sem termos de assumir as últimas consequências da aplicação deste princípio? Será que os fins justificam os meios, tout court?

A verdade é que, antes disto, está a questão de avaliar o que é o mal. Mas esta questão, pergunto: poderá reduzir-se a um mero problema de cultura e de civilização? Esqueçamos por agora as religiões; não estamos antes perante um problema filosófico?

Poderemos nós resolver o problema básico de saber o que é o homem, se nos limitamos a nadar em filosofias de cariz idealista ou meramente existencialista? Não precisaremos de dar o salto que dê firmeza ao valor da razão em ordem a chegarmos a uma verdade objectiva? Ou teremos, pelo contrário, de nos resignar com ficar no campo do cepticismo, não importa sob que formas mais ou menos ilustradas?

(Geraldo Morujão)

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RETRATOS DO TRABALHO EM DILI, TIMOR

Ampliação do muro no bairro dos cooperantes portugueses. Bairro Colmera, Dili. (Jan.2007)

(Amilcar A.)

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RETRATOS DO TRABALHO EM MATOSINHOS, PORTUGAL

Amolador.

(Gil Regueiro)

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NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A "CULPA" É MESMO DE LEO STRAUSS?

http://yalepress.yale.edu/YupBooks/images/full/0300109733.jpg Duvido, duvido muito e depois de ler este livro ainda duvido mais. A "culpa", esclareça-se, é a "culpa" do "império", de Bagdad, da hostilidade anti-árabe, de responsabilidade dos "neo-cons", essas personificações modernas do Dr. Strangelove.

Este é um daqueles livros que numa ou noutra página, conseguem mostrar uma grande qualidade analítica e depois falhar o ponto essencial: mostrar até que ponto existe uma relação entre os ensinamentos de Leo Strauss, o seu grupo de discípulos e o chamado neo-conservadorismo que teria dominado a presidência "imperial" de Bush filho. É um livro muito bem escrito, fluente, rápido, cheio de insights e pequenas histórias académicas típicas do mundo das grandes universidades americanas, mas está longe de corresponder à tese do título.

Não é que não haja relações e influências entre Leo Strauss e os seus alunos "imperialistas", como aliás acontece com outros autores e académicos europeus e americanos, só que nunca é clara no livro a relação de causa. O ponto é tanto mais falhado quanto sempre que Anne Norton vai mais fundo no pensamento de Strauss (por exemplo na importância que atribuía a autores como Maimónides ou al-Farabi na construção de uma ciência política) mais distante este aparece do neo-conservadorismo dos seus alunos. Strauss, um judeu fugitivo da Europa, como Hannah Arendt, sempre se preocupou com a difícil junção entre a Atenas racional e a Jerusalém da revelação, com o estado totalitário nazi e comunista, e isso foram antídotos contra tomar à letra a dicotomia "amigo/inimigo" como fundadora da política, que importara de Schmitt. Talvez seja por isso que o livro é mais sobre os "straussians", descritos quase como uma seita maçónica, do que sobre Strauss.

Sobre os "straussians", Anne Norton, ela própria aluna de Joseph Cropsey, autor com Strauss da History of Political Philosophy, consegue uma leitura que oscila entre uma atracção que não consegue evitar, tal o brilhantismo e a seriedade intelectual e académica de muitos deles, e a recusa da sua política, ou do que interpreta como sendo a sua política. É nessa contradição que se encontram as melhores páginas deste livro, como quando escreve sobre o papel da guerra
"Strauss saw, as Nietszche had before him, hazards in the softness and civility of modern life.(...) Such a life, as Nietszche, Schmitt. Strauss and Kojève feared, was a life of small pleasures and small ambition, few risks and few achievements, few dangers and little greatness of soul. The old virtues of courage and daring would be lost. people bred to so quiet life would be as cats are to tigers, tamed and diminished."
e, logo em seguida, em resposta, Norton escreve uma apologia do "Last Man" da democracia, "ordinary people who will take on the burdens of greatness at need (...) Democracy has thaught them that honour is greater than glory". Analisando o conservadorismo americano das últimas décadas, Norton revela bem algumas das suas contradições e algumas das suas peculiaridades especificamente americanas - o seu "revolucionarismo", por exemplo, muito pouco conservador, e que chocaria os seus congéneres europeus se os houvesse - mas não escapa à amálgama e à facilidade como quando compara alguns autores como Perle, Kristol e Wolfovitz ao pensamento da Al-Qaida e ao fundamentalismo muçulmano. (E no entanto quando fala da jihad, quase que acerta porque o conceito islâmico é bem menos simples do que se pensa e aplica-se como uma luva a alguns textos neo-conservadores...)

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O ABRUPTO VOLTA

em breve.

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© José Pacheco Pereira
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