| ABRUPTO |
semper idem Ano VI ...M'ESPANTO ÀS VEZES , OUTRAS M'AVERGONHO ... (Sá de Miranda) _________________ correio para jppereira@gmail.com _________________
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28.2.07
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: MONTAIGNE E OS JORNAIS DO FUTURO A propósito das suas reflexões sobre os jornais do futuro, gostava de lhe dar notícia de um exercício um pouco semelhante feito por Montaigne nos Essais (Cap. 35, excerto transcrito abaixo). Montaigne cita o pai e o seu desejo de que houvesse locais acessíveis onde se pudessem registar os pequenos "negócios" (affaires) de cada um. A ideia prenuncia os anúncios classificados da imprensa periódica, mas toma como ponto assente que a intervenção de um notário é indispensável. O pequeno anúncio teria portanto a forma de um registo notarial, consultável em estabelecimento público. A observação mais automática é a de que, em qualquer época, se dá uma importância gigantesca à estabilidade dos formatos e dos contextos de leitura dos suportes de escrita.(Rita Marquilhas) Feu mon pere, homme, pour n'estre aydé que de l'experience et du naturel, d'un jugement bien net, m'a dict autrefois qu'il avoit desiré mettre en train qu'il y eust és villes certain lieu designé, auquel ceux qui auroient besoin de quelque chose, se peussent rendre et faire enregistrer leur affaire à un officier estably pour cet effect, comme: Je cherche à vendre des perles, je cherche des perles à vendre. Tel veut compagnie pour aller à Paris; tel s'enquiert d'un serviteur de telle qualité; tel d'un maistre: tel demande un ouvrier; qui cecy, [Image 0094v Fonte: * Para mim Montaigne, (a avenida de seu nome em Paris é uma das minhas favoritas: hotel, teatro, bar e moda que mais pode pedir um homem!?) tanto pede umas páginas amarelas como pede um mercado onde se pode comprar e vender: uma bolsa de produtos e serviços - uma bolsa de produtos agricolas é algo que faz muita falta cá em Portugal! O que Montaigne não diz é como tal coisa deve ser feita, eu arrisco a dizer que ele se estava nas tintas para isso, mas calculo que ele também desejaria a melhor tecnologia disponivel. (url) Bokrea numa livraria Wettergrens, há uma hora. A fila para pagar era comprida, terei de lá voltar. (Madalena Ferreira Åhman) (url) SOFTWARE QUE SE PORTA MAL ![]() A um mês da sua instalação. Se o Vista se porta muito bem, já o mesmo não se pode dizer do Office 2007, ainda por cima na versão Ultimate. Já usava o Beta há vários meses por isso já estava habituado às inovações dos programas, em particular da sua "face". O Outlook sempre se portou mal, no Beta, e continua na mesma. Avaria várias vezes, é excessivamente lento. É verdade que eu nem sempre "arquivava" quando devia, tinha muitas "regras" para organizar a correspondência e trabalhava com pastas com muito correio, mas mesmo assim parece-me pouco "profissional" para um programa profissional. Mas a minha desilusão, pior ainda, o meu problema, que me surgiu pela primeira vez desde que trabalho com o Access foi o aparecimento de tabelas com campos corrompidos, apagando conteúdos de umas entradas e colocando-os em campos de outras entradas. Nunca me aconteceu isto com nenhuma base de dados até agora (nem sequer no Beta) e por isso interrompi de imediato o uso das bases de dados em Access 2007 até mais ver. É uma enorme complicação para o meu trabalho, mas a integridade das bases de dados é essencial.
(url) EARLY MORNING BLOGS ![]() 978 - Air has no Residence, no Neighbor Air has no Residence, no Neighbor, No Ear, no Door, No Apprehension of Another Oh, Happy Air! Ethereal Guest at e’en an Outcast’s Pillow— Essential Host, in Life’s faint, wailing Inn, Later than Light thy Consciousness accost me Till it depart, persuading Mine— (Emily Dickinson) * Bom dia! (url) 26.2.07
(url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: "BOKREA" Uma “tradição” sueca, que começou nos anos 20, é a “bokrea”, ou seja, os saldos dos livros. No fim de Fevereiro (por razões de fácil compreensão, depois do pagamento dos ordenados de Fevereiro...) as livrarias, pequenas e grandes, os alfarrabistas, as livrarias dos museus, as secções de livros dos supermercados e, nestes tempos modernos, até as livrarias on-line, saldam entre 3 e 5 mil títulos.Encontra-se de tudo: ficção e não-ficção, literatura infantil e juvenil, livros de bolso e “coffee table books”, enciclopédias, guias de viagem e mapas. A maior parte é, evidentemente, em sueco, mas há também bastantes livros em inglês (e em menor escala noutras línguas). Há edições especiais para os saldos de alguns autores mais antigos (obras que já estão no domínio público e não estão assim sujeitas a pagamento de direitos). O interesse costuma ser enorme. Com umas semanas de antecedência, as grandes livrarias publicam e distribuem catálogos dos livros que vão saldar, para que os leitores possam comparar os preços e fazer as suas listas. Os jornais e os blogues publicam críticas dos livros apresentados nos catálogos e sugerem as “boas compras”. Embora os saldos comecem “oficialmente” amanhã, muitas livrarias abrem as portas já esta noite, à meia-noite, aos bibliófilos mais entusiastas (ou mais noctívagos) que se vão acotovelar entre toneladas de "papéis pintados com tinta". Vou esperar pela relativa acalmia de quinta ou sexta-feira, e este ano vou levar um daqueles sacos de compras com rodas, porque já sei que vou acabar por comprar mais do que pensava... (Madalena Ferreira Åhman) (url) COISAS DA SÁBADO: LINHA DO TUA Poucos sítios mantêm a paisagem natural rude e agreste, bela ao modo do “terrível”, do que os vales dos afluentes do Douro, rio de montanha rodeado por rios de montanha, que fizeram o seu leito cavando rochas e não espraiando-se por terras baixas irrigadas. O vale do Tua é um desses casos de beleza, ignorado, perdido, numa parte de Portugal que a maioria dos portugueses nem sabe que existe.Mas, não tenhamos ilusões, a sua beleza selvagem só tem uma explicação, a de não ter havido até agora nenhum negócio rapace que tornasse o vale numa selva de empreendimentos e as cumedas em enxames de eólicas. É natural que este seja o desejo dos locais, que precisam de emprego, negócio, comércio e riqueza e que, como, uma vez, me disse um velho de um desses locais pristinos, “não percebo porque gosta disto, são só montes, estamos fartos de só ver montes, que interesse têm?”. A verdade é que se for assim, nem o pouco que têm em potência vai sobrar em acto. Gastar-se-á em meia dúzia de anos. .Porque o nosso problema é que passamos sempre do oito para o oitenta, do nada miserável do atraso, para o novo riquismo da combinação construção-turismo barato subsidiado-obras públicas. E no meio do caminho da sua vida, como Dante à entrada do Inferno, lá continuará o vale do Tua, com a sua linha de “metro” que transporta meia dúzia de pessoas ao dia, de lado nenhum para lado nenhum, num sítio tão remoto e deserdado de tudo menos da beleza, que nem um responsável dos comboios achou necessário ir lá para honrar os seus mortos, os mortos da empresa que “gere”. Retirado o último morto das águas, o silêncio voltará, se calhar também já sem o “metro” de Mirandela. * O seu post s/ o Tua e o Douro fez-me lembrar a velha anedota s/ a diferença entre o inferno p/ turistas e o inferno p/ residentes. O campo, a montanha, os vales, etc. são muito bonitos p/ quem não tem que tirar deles o seu sustento e está farto da correria (para ganhar o pão) da cidade. Para quem lá vive todos os dias (“viver todos os dias cansa”), tem que de lá tirar o seu sustento (muitas vezes c/ trabalhos fisicamente duros e de resultados muito dependentes das condições climatéricas), tem muito pouco p/ ver ou fazer ao nível do lazer / cultura / consumo (onde estão cinemas, teatros, livrarias, cafés- concerto, etc, etc.? e até os centros comerciais? Não sei se ainda há mas nos idos de 80/90 havia excursões da província p/ visitar os grandes centros comerciais) e difícil acesso a alguns serviços básicos (saúde, educação, (url) RETRATOS DO TRABALHO EM ISTAMBUL, TURQUIA (url) EARLY MORNING BLOGS ![]() 977 - Driving to Town Late to Mail a Letter It is a cold and snowy night. The main street is deserted. The only things moving are swirls of snow. As I lift the mailbox door, I feel its cold iron. There is a privacy I love in this snowy night. Driving around, I will waste more time. (Robert Bly) * Bom dia! (url) 25.2.07
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![]() 976 - L' Homme et la Mer Homme libre, toujours tu chériras la mer ! La mer est ton miroir, tu contemples ton âme Dans le déroulement infini de sa lame, Et ton esprit n'est pas un gouffre moins amer. Tu te plais à plonger au sein de ton image ; Tu l'embrasses des yeux et des bras, et ton coeur Se distrait quelquefois de sa propre rumeur, Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage. Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets : Homme, nul n'a sondé le fond de tes abîmes ; O mer, nul ne connaît tes richesses intimes, Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets ! Et cependant voilà des siècles innombrables Que vous vous combattez sans pitié, ni remords, Tellement vous aimez le carnage et la mort, O lutteurs éternels, ô frères implacables ! (Charles Baudelaire) * Bom dia! (url) PENSAR OS JORNAIS - 2 (Devido à sua extensão o artigo não pode ser publicado integralmente no jornal. As partes em vermelho foram cortadas e são aqui repostas.)1. O exercício que se fará a seguir é o de pensar num jornal ideal a partir do que é um jornal de hoje e das possibilidades tecnológicas que o podem moldar num período de cerca de uma década. Esse jornal do próximo futuro será reconhecível como um jornal, da mesma maneira que a Gazeta de Lisboa pode ser reconhecida ainda nos dias de hoje como um jornal. Não estou a falar de qualquer coisa exótica, nem sequer revolucionária, mas de um jornal, mantendo o núcleo de identidade de um órgão diário (ou semanário) assente no acto de ler, pelo qual se obtém informações, notícias, análises, comentários, críticas sobre a realidade do mundo à nossa volta. Dentro desta definição, muita coisa pode mudar, a ênfase pode ser colocada no político, no cultural, no social, o texto pode ser factual ou de creative non-fiction, privilegiar histórias ou estórias, ter mais ou menos opinião, dirigir-se a públicos eruditos ou populares, ter causas ou não ter, etc., etc., mas todas estas modalidades cabem numa concepção comum de jornalismo. Uma experiência deste tipo, ainda muito rudimentar, é a do jornal de negócios belga De Tijd usando um leitor chamado iLiad, tecnologia da Philips. Sobre e-paper ver E-paper et encre électronique : les habitudes de lecture commencent à changer.3. Um jornal deste tipo não é apenas um ecrã portátil, mas uma folha de papel electrónico com a qual se poderá fazer o mesmo que se faz hoje com o papel, menos deitá-lo fora no fim, ou usá-lo para embrulhar peixe, porque fica caro. Há apenas uma razão, para além do custo actual, para o papel electrónico não ter ainda substituído o papel: ainda há limitações técnicas na sua funcionalidade para se adaptar em pleno ao principal factor limitador das tecnologias, o corpo humano e os seus hábitos. Há certas coisas que não fazemos, ou que não é confortável fazer com os ecrãs actuais de computador e, enquanto não existir papel electrónico capaz e barato, a mutação do papel para o ecrã plástico não se fará. Quando houver, a mutação será muito rápida e o papel de impressão ficará um nicho de mercado de luxo como os relógios analógicos. O seu grafismo mudará, a partir do modelo clássico do jornal, mas incorporará o grafismo dos sítios em rede, como aliás já acontece com o grafismo da rede a influenciar o grafismo dos livros, jornais e revistas e publicidade. Posso partir do princípio de que esse jornal terá o mesmo tamanho do Público e do Diário de Notícias, cujas qualidades ergonómicas permitem que se possa ler nos mesmos sítios onde hoje se lê um jornal, no carro, na cama, numa cadeira, num autocarro. E que se possa levar debaixo do braço ou numa pasta. 5. Até aqui, o papel electrónico foi mais papel de plástico do que electrónico, mas a verdadeira revolução dos jornais virá do electrónico, ou seja, do conteúdo em linha e do hipertexto. Começa logo no facto de todas as vantagens do ecrã e da ligação em linha estarem presentes, tornando o papel vivo: os que lêem mal podem alterar o tipo de letra, os cegos podem ouvir o jornal, e nesse jornal não se lerá apenas, pode-se ouvir sons e ver filmes, pode-se procurar palavras-chave, ler artigos para que remete uma bibliografia, seguir ligações em linha na rede. O hipertexto acelera a integração de todos os fluxos digitais, numa só estrutura de "leitura". O papel vivo pode ser lido por contacto na página, como no iPhone, ou nos ecrãs sensíveis e por isso, desde a simples função de folhear as páginas, até ao acesso aos arquivos, à sequência de notícias, a canais em directo de televisão, tudo se poderá fazer a partir de uma estrutura que será essencialmente voltada para informar, analisar, debater, como é suposto serem os jornais. Todos os actos simples que se fazem com um jornal, preencher as palavras cruzadas, responder a um anúncio, escrever uma carta à redacção, marcar um artigo e recortá-lo, deitar fora um suplemento que não se deseja, estão presentes. 6. Este jornal ideal acabará com a distinção entre o jornal em papel e o jornal em linha, mas essa mudança não se fará apenas pela hegemonia do jornal em linha, mas pela valorização de um contínuo que incorpora o mecanismo fundamental que os distingue: o hipertexto. O que está a gerar a crise do jornal de papel é a sua impossibilidade de incorporar hipertexto, ou seja, de comunicar com todos os outros fluxos de informação que um jornal em linha pode utilizar: som, vídeo, arquivo, leitura em volume típica do hipertexto propriamente dito, tempo real. Um exemplo: um artigo sobre a actual campanha do aborto nesse jornal do futuro conterá a notícia da novidade que foi a utilização utilização dos vídeos no YouTube e conterá os vídeos de Marcelo Rebelo de Sousa e do Gato Fedorento. O leitor poderá ler sobre eles e ter de imediato disponível toda a informação em que se baseia o jornalista. Quando, ao lado, estiver um artigo de crítica ou um comentário, quem o escreve terá que o fazer com muito mais rigor e precisão, com valor acrescentado, porque o leitor que o lê dispõe da mesma informação em bruto que tem o jornalista ou o crítico. No final, os textos, as análises, as fontes, os números, as opiniões, fornecem o tipo-ideal da informação: matéria prima noticiosa, mediação e opinião plural. Isto hoje só é possível num orgão de informação com o hipertexto.
8. Há também algo que tem que mudar, mas também já se percebe de modo grosseiro como tal possa acontecer: o modelo económico dos jornais, quem paga os jornais e como, para estes sobreviverem como empresas que são. Deixo de lado o facto de a edição em papel ser por si só muito cara e para, uma outra ocasião, as mudanças na produção jornalística que a “vida” do papel electrónico trará a redacções e aos jornais como organização. A aparição de produtoras de textos, reportagens, análises, de material para os jornais, será uma consequência da desadaptação de redacções muito grandes, pouco flexíveis e muito caras ao modelo do jornal do futuro. Como já existe para o audiovisual, haverá um novo mercado de “textos” (e de imagens, vídeos, sons, etc.) dando uma outra dimensão ao jornalismo freelancer e será um caminho que pode mudar o tamanho gigantesco que atingiram as redacções, com os enormes custos associados. Um artigo do New York Times sobre o problema do "pay-per-view" a partir da situação do próprio jornal em que "the number of people who read the paper online now surpasses the number who buy the print edition." Esta mudança nos pagamentos, reflectir-se-á a prazo na publicidade e dependerá, como nas bancas, em última razão, das “vendas”, das “audiências” e dos públicos especializados. Na rede é possível fazer uma diferenciação de públicos muito mais certeira do que no jornal em papel e as formas de publicidade, que muito embrionariamente estão a surgir à volta do Google, mostram caminhos novos. 9. Será por aqui que os jornais irão e, se quiserem sobreviver, deverão pensar-se desde já no modelo do futuro mais próximo, para onde já estão, sem se aperceberem, a migrar. É por aqui que eu parto para analisar o presente, porque, utilizando-se este método de aproximação, verifica-se que muita coisa que se pode fazer desde já não está a ser feita. Ou seja, se eu tivesse de analisar como se devem mudar os jornais actuais, em particular os que pretendem manter o estatuto "de referência", eu pensava-os essencialmente a partir da pergunta: o que é que eu posso fazer desde já na combinação jornal de papel com versão em linha, para os fundir cada vez mais, aproveitando as vantagens de cada um dos meios e tentando minimizar as desvantagens que existem em cada um deles. Uma coisa eu não faria de certeza: era pensar os jornais em papel para "competir" com os meios electrónicos, jornais em linha, sítios e blogues, pela simples razão de que essa competição está perdida a prazo. Eles têm hipertexto, o papel não tem. Ponto final, por aí não há competição.(No artigo seguinte farei a aplicação deste modelo: como é que desde já os jornais em papel - em complemento com a versão em linha, que quase todos têm - podem evoluir para maximizar tudo o que os aproxima deste jornal do futuro. É muito mais do que se pensa, e mudará profundamente a organização, métodos de trabalho, preparação, o "tempo e o modo" dos jornalistas. Mas continuará a ser jornalismo.) (A partir da versão do Público de 24 de Fevereiro de 2007) * 1. Parece evidente que o futuro da imprensa escrita passará, inevitavelmente, pelas soluções electrónicas emergentes; Etiquetas: comunicação social, jornalismo (url) 24.2.07
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![]() 975 - A Clear Midnight This is thy hour O Soul, thy free flight into the wordless, Away from books, away from art, the day erased, the lesson done, Thee fully forth emerging, silent, gazing, pondering the themes thou lovest best, Night, sleep, death and the stars. (Walt Whitman) * Bom dia! (url) 23.2.07
Angra do Heroísmo . Vista a partir do monumento da Memória. (R. Castro) Ponta de Sagres. (Carlos Cunha) Mount S. Odile (Heloísa P. Silva) Castelo e ruínas da vila intra-muros de Montemor-o-Novo.(A.C. Silva) (url) Alcabideque, concelho de Condeixa-a-Nova, Coimbra. (André Guerra) Dôme de Puy Sallié (3421m), Les Deux Alpes, França. (José Paulo Andrade) Cova do Vapor. (Carlos Monteiro) Penacova (perto de Coimbra), numa manhã invulgarmente límpida já que, por esta altura, em 95% dos dias, o nevoeiro do Mondego toma conta do vale e do morro da vila. (António Luís) (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: VISTO DO LADO DE LÁ ![]() Escrever-lhe sobre o que penso... Não sei se concorda, mas é uma construção feita aqui do norte, por um professor, com um filho, com um empréstimo (um apenas) que gosta do que faz e que acredita que o que faz é realmente importante. Hoje discute-se qual o papel do estado nuns e outros jornais, por este ou aquele comentador. Está na moda pensar e repensar a função pública, a função do estado. São tempos de crise institucional. Ninguém sabe para que serve um estado, sobretudo quando serve mal. É geralmente aceite a ideia de que os serviços que o estado presta são maus e caros e portanto dispendiosos e ineficientes. As correntes mais em voga ditam um estado regulador e mínimo relegando para o sector privado todos os serviços que face a uma concorrência sempre à espreita se tornará eficiente e eficaz. São tempos em que o que é privado é tido como melhor que a coisa pública. Do estado diz-se que é pesado e torna-se por isso necessário agilizar, reduzir e emagrecer o "Monstro". Visto de fora Sócrates é um homem empenhado em reformar e tornar o país melhor preparado para o futuro. Para quem trabalha para o estado é um pesadelo, um mostrengo. É que os funcionários públicos além da má fama têm o pior dos patrões. É um patrão sem cara, irresponsável que ao longo dos anos foi tomando medidas que hoje dizem terem sido erradas mesmo absurdas. Hoje quem está a pagar as imbecilidades com que muitos dos pavões que migraram para terras mais temperadas é o funcionário público. Este patrão além de inconsequente faz as regras do jogo ao contrário dos outros. E Sócrates muda as regras do jogo a toda a hora e a meio do jogo. Altera cursos superiores retirando-lhes um estágio real e trocando-o por uma prática supervisionada sem quaisquer responsabilidades frustrando as expectativas de quem 4 anos antes se inscreveu no curso; altera regras da segurança social 5 anos depois (se não me engano) de ter afirmado que a reforma estava feita tornando as regras demasiados flexíveis e oferecendo um futuro incerto a quem dela dependerá; a carreira dos professores e funcionários públicos foram alteradas frustrando e violando o acordo estabelecido à data da entrada de cada funcionário para o estado; usa legislação aprovada pela direita e que chegou a criticar para agora deslocar e colocar no corredor dos despedimentos uns não sei quantos funcionários públicos; altera a lei das finanças locais a meio e bruscamente sem o respeito pelos compromissos assumidos pelos autarcas que foram eleitos numas condições e agora têm de governar noutras. O estado não se comporta como pessoa de bem, de palavra. Um governo assim "reformista" está a calcinar o estado tal como o conhecemos. E isto não foi objecto do programa eleitoral do PS. As reformas são demasiados profundas e o que o PS pensava do papel do estado antes das eleições era bem diferente do que hoje realiza sob uma capa de um pragmatismo reformista. Governar de forma déspota é fácil mas não gera confiança. A confiança é necessária para gerar mudança e semear o futuro. A única ilusão que Sócrates sabiamente vende é a de que está a trabalhar. Sócrates está enganado e posso afirma-lo com a mesma convicção com que Guterres disse adeus ao lamaçal e com a mesma obstinação com que Cavaco se deixou governar, no seu segundo mandato, pelo Monstro. Acredito que Sócrates pense que se livra do Monstro antes que ele lhe caia em cima. É isso que o leva a quebrar todos os vínculos que o estado assumiu perante os portugueses durante e ao longo de anos (na saúde, educação, justiça, segurança social, etc.). Mas está enganado, pois o estado somos todos nós, é o país que está a falhar com todos. As orientações espirituais vêm de Bruxelas e o governo trabalhador lá vai no bom caminho ainda à dias recebeu boa nota e mais umas orientações para os próximos tempos: a flexigurança. É um termo giro e ajuda ao marketing. Nós por cá sempre tivemos um fraquinho por estrangeirismos e nunca tivemos nem um pingo de vergonha, nem um horizonte que o diga Gil Vicente e Eça. Isto tudo para dizer que o principal papel do estado, para mim, é a capacidade de gerar confiança, segurança e estabilidade. Com Sócrates apenas vislumbro o último, o mais perigoso. (Carlos Brás) * Sabe-se que o nosso Estado-Providência é incipiente de algum modo porque nasceu já no fim dos "trinta gloriosos" quando se dá uma inversão das condições que levam a questionar a sua própria viabilidade nos moldes em que tinha sido pensado no pós-guerra. Reconheço a diversidade de qualidade e empenhamento dos "funcionários públicos" que, por isso, devem ter uma avaliação externa. Mas há outra coisa: a defesa incondicional dos "direitos adquiridos do funcionário público" reproduz uma sociedade pervertida em que é a própria administração pública que "faz as vezes" do "Estado-Providência". Para além de perverso, isto é profundamente injusto para aqueles que, por opção ou por falta dela, não são funcionários públicos. É que não ser funcionário público, por estranho que pareça, pode ser uma opção deliberada das pessoas que ambicionam construir de forma mais autónoma o seu próprio percurso profissional. (url) EARLY MORNING BLOGS ![]() 974 - Sonnet from a letter to Bernard Barton Who first invented work, and bound the free
And holyday-rejoicing spirit down To the ever-haunting importunity Of business in the green fields, and the town-- To plough, loom, anvil, spade--and oh! most sad To that dry drudgery at the desk's dead wood? Who but the Being unblest, alien from good, Sabbathless Satan! he who his unglad Task ever plies 'mid rotatory burnings, That round and round incalculably reel-- For wrath divine hath made him like a wheel-- In that red realm from which are no returnings: Where toiling, and turmoiling, ever and aye He, and his thoughts, keep pensive working-day. (Charles Lamb) * Bom dia! (url) 22.2.07
(url) RETRATOS DO TRABALHO NO PORTO, PORTUGAL (url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 22 de Fevereiro de 2007 Ler dicionários é uma tarefa ingrata. Eu disse ler dicionários, não consultar dicionários. Li o de Ana Barradas, na versão já não incompleta, editado pela Ela por Ela. É uma obra amadora, com todas as vantagens e inconvenientes que têm as obras amadoras. Mas não é isso que vem ao caso. Mais vale tê-lo do que não ter, e este acrescenta alguns dados à escassez das biografias portuguesas. O caso, é a mania que tem as feministas de organizarem as suas entradas por ordem do primeiro nome, para evitar o dilema do nome de solteira-nome de casada. Já não é o primeiro caso de dicionários de mulheres em que se tem que se andar à volta da nuvem de Marias à procura do segundo nome ou do terceiro da Maria certa. É verdade que o dicionário de Ana Barradas tem um índice final, mas este prurido ideológico prejudica, e muito, a consulta.
(url) EARLY MORNING BLOGS ![]() 973 - Non es mentitus hominibus, sed Deo ![]() O que disse foi: Non es mentitus hominibus, sed Deo:« sabe, Ananias, que no que encobriste não mentiste aos homens, senão a Deus.» Vede se se tratava como Deus quem assim falava.. O que fez foi ainda mais divino, mais admirável: e de maior terror. «Ouvindo aquelas palavras, caiu morto Ananias aos pés de Pedro»: Audiens autem hæc Ananias, expiravit. Descrevendo Isaías a justiça de Cristo, diz que só com o espírito de sua boca matará o impio: Et spiritu labiorum suorum interficiet impium. E nisto mostrou o Profeta que o mesmo que havia de ser o Redentor, era o Deus que tinha sido o Criador. O modo com que Deus, quando criou o primeiro homem, lhe deu vida, foi inspirar-lhe no rosto com o espírito de sua boca: Inspiravit in faciem ejus spiraculum vitæ , et factus est homo in animam viventem. Pois assim como só com o espírito de sua boca deu a primeira vida, assim com o mesmo espírito, sem outro instrumento, diz Isaías que Cristo dará a morte ao ímpio. Isto é, nem mais nem menos, o que fez S. Pedro. Nem mandou matar a Ananias, nem lhe disse que morresse, e só com lhe tocar nos ouvidos o espírito de sua boca, caiu morto. (Padre António Vieira) * Bom dia! (url) 21.2.07
(url) NUNCA É TARDE PARA APRENDER: UMA ESPÉCIE DE FIM ![]() David Nicolle, Acre 1291: Bloody Sunset of the Crusader States, Oxford, Osprey, 2005 Cento e cinquenta anos antes, parece um déja vu ao contrário: a queda de Acre, parece a queda de Bizâncio. O mesmo isolamento no meio de terras hostis, a mesma progressiva incapacidade de perceber o que estava a acontecer, seguida de um desesperado apelo aos outros cristãos, recebido com indiferença, protelamentos e intrigas de corte e poder, a mesma resistência final desesperada e solitária. E, depois do desastre, o mesmo choque na Europa cristã pelo que aconteceu, no caso de Acre, o verdadeiro toque de finados da aventura cristã das cruzadas e dos reinos latinos no Levante. (url) 20.2.07
(url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 20 de Fevereiro de 2007 Pack journalism diz o dicionário Merriam-Webster é "journalism that is practiced by reporters in a group and that is marked by uniformity of news coverage and lack of original thought or initiative." Os jornais estão cheios de pack journalism, sem acrescentar um átomo ao que circula: por exemplo, Marcelo proclamou a remodelação inevitável dos Ministros da Economia e da Saúde, logo "há certezas: alguns ministros - casos de Manuel Pinho ou Correia de Campos - dificilmente ultrapassarão o enorme desgaste de que padecem." (Diário de Notícias) Porquê? Alguém se dá ao trabalho de analisar, para além das gaffes e das controvérsias, se o seu trabalho é mesmo mau por outro critério que não seja o do eco no pack das gaffes e controvérsias? Se este tipo de comentários fosse feito há uns meses, sem a memória fresca (a única que pelos vistos existe) da viagem à China e dos incidentes em Valença, não estariam na lista também a Ministra da Educação ou da Cultura? Isto não é informação, mas opinião, aliás sem qualquer qualificação porque não acrescenta nada. Ninguém lê jornais para ler estes textos.* Interessante: no Público, na página cinco do suplemento P2, o jornal utiliza uma espécie de quadro de palavras-chave, ao modelo dos tags nos blogues. Embora ainda falte um sublinhado dentro de um sublinhado, dado pelo tamanho da palavra em função da sua importância, mesmo assim resulta em papel.Resulta tanto mais quanto acaba por ser revelador: as palavras (tags) que definem Sócrates acabam por mostrar o mecanismo de construção da personagem feita a partir dos depoimentos citados no artigo, Encaixa tudo demasiado bem, só destoa o "dissimulado". Para não ser tudo muito hagiográfico, seria interessante saber, no plano da política, o que é que "dissimula" o "dissimulado". (url) (url) EARLY MORNING BLOGS ![]() 972 - The Tale of Two Bad Mice Once upon a time there was a very beautiful doll's-house; it was red brick with white windows, and it had real muslin curtains and a front door and a chimney.It belonged to two Dolls called Lucinda and Jane; at least it belonged to Lucinda, but she never ordered meals. Jane was the Cook; but she never did any cooking, because the dinner had been bought ready-made, in a box full of shavings. There were two red lobsters and a ham, a fish, a pudding, and some pears and oranges. They would not come off the plates, but they were extremely beautiful. One morning Lucinda and Jane had gone out for a drive in the doll's perambulator. There was no one in the nursery, and it was very quiet. Presently there was a little scuffling, scratching noise in a corner near the fireplace, where there was a hole under the skirting-board. Tom Thumb put out his head for a moment, and then popped it in again. Tom Thumb was a mouse. A minute afterwards, Hunca Munca, his wife, put her head out, too; and when she saw that there was no one in the nursery, she ventured out on the oilcloth under the coal-box. The doll's-house stood at the other side of the fire-place. Tom Thumb and Hunca Munca went cautiously across the hearthrug. They pushed the front door--it was not fast. Tom Thumb and Hunca Munca went upstairs and peeped into the dining-room. Then they squeaked with joy! Such a lovely dinner was laid out upon the table! There were tin spoons, and lead knives and forks, and two dolly-chairs--all SO convenient! (Beatrix Potter) * Bom dia! (url) 19.2.07
(url) NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A MEMÓRIA DE BIN LADEN David Nicolle, The Third Crusade 1191: Richard the Lionheart, Saladin and the battle for Jerusalem,Oxford, Osprey, 2006 Os comunicados da Al Qaida utilizam correntemente a expressão "os cruzados" para designar os europeus e os americanos. Como nós já esquecemos a nossa história, eles lembram-nos à bomba. Sim, de facto, na origem da Europa. tal como a conhecemos, também estão as cruzadas, mostrando a antiquíssima relação que temos com essa parte do mundo a que chamávamos o Levante. É uma relação que continua, porque, a uma certa luz, o estado de Israel, produto do sionismo, uma ideia europeia, não deixa de ter uma continuidade com séculos de conflito em que o judaismo e o cristianismo defrontam o Islão. Verdade seja que não é só um conflito religioso, é também um conflito geopolítico, porque o Levante é a primeira linha de qualquer projecção do poder europeu. E não é um conflito entre "nós" e "eles", porque desde as próprias cruzadas que as potências europeias também ali se digladiam entre si, nalguns casos com estranhas alianças que incluiam muçulmanos contra muçulmanos. A terceira cruzada foi um exemplo típico, de um xadrez complexo que envolvia desde os bizantinos, aos reis e nobres do Sacro Império, aos Angevinos (os Plantagenetas ingleses), aos francos, aos monarcas dos reinos criados pelas cruzadas, e aos cavaleiros das ordens religiosas. A capa deste pequeno livro da série das "campanhas" da colecção de história militar da Osprey retrata aliás o momento em que partidários do Ricardo Coeur de Lion derrubam a bandeira do Duque Leopoldo da Aústria que achavam não ter o direito de ser hasteada em Acre. E depois há Saladino, o herói do Islão, que era de ascendência curda e que tinha tal fama que Dante o colocou no Limbo, entre os grandes homens não cristãos, e que domina não só a resistência às cruzadas como a ofensiva que alterará de forma decisiva a relação de forças e acabará, a prazo, com a presença europeia no Levante até à queda do império otomano. (url) EARLY MORNING BLOGS ![]() 971 -Lament of the Frontier Guard By the North Gate, the wind blows full of sand,
Lonely from the beginning of time until now! Trees fall, the grass goes yellow with autumn. I climb the towers and towers to watch out the barbarous land: Desolate castle, the sky, the wide desert. There is no wall left to this village. Bones white with a thousand frosts, High heaps, covered with trees and grass; Who brought this to pass? Who has brought the flaming imperial anger? Who has brought the army with drums and with kettle-drums? Barbarous kings. A gracious spring, turned to blood-ravenous autumn, A turmoil of wars-men, spread over the middle kingdom, Three hundred and sixty thousand, And sorrow, sorrow like rain. Sorrow to go, and sorrow, sorrow returning, Desolate, desolate fields, And no children of warfare upon them, No longer the men for offence and defence. Ah, how shall you know the dreary sorrow at the North Gate, With Rihoku's name forgotten, And we guardsmen fed to the tigers. (Ezra Pound a partir de Rihaku. [Li Po?]) * Bom dia! (url) 18.2.07
(url) ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR (url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 18 de Fevereiro de 2007 Um dos mais antigos media soa aqui ao lado: o sino da Igreja. Ontem anunciou um evento, tocando a finados; hoje anuncia hoje outro, tocando para a missa. O sino informa e, embora o seu toque já seja automatizado, carrega-se num botão e toca, continua a ser o velho sino de sempre. Alguns sinos têm o software inscito no hardware: Laudo Deum verum plebem voco congrego clerumAlguns media não morrem tão depressa como se julga. Este sobreviveu ao telex. Etiquetas: sinos (url) EARLY MORNING BLOGS ![]() 970 - Two Neighbors Faces of two eternities keep looking at me. One is Omar Khayam and the red stuff wherein men forget yesterday and to-morrow and remember only the voices and songs, the stories, newspapers and fights of today. One is Louis Cornaro and a slim trick of slow, short meals across slow, short years, letting Death open the door only in slow, short inches. I have a neighbor who swears by Omar. I have a neighbor who swears by Cornaro. Both are happy. Faces of two eternities keep looking at me. Let them look. (Carl Sandburg) * Bom dia! (url) PENSAR OS JORNAIS I À nossa frente, diante dos nossos olhos, vários objectos que tomamos por indissociáveis do "nosso mundo" desaparecem, uns lenta, outros rapidamente, de um dia para o outro. Já vi desaparecerem as máquinas de escrever, os copiógrafos, a tipografia a chumbo, os selos do correio, o rolo de fotografias, o gravador de fita, as disquetes, o telex, o fax, o vídeo, etc, etc. ![]() Olhando à nossa volta, outros objectos estão também a ir-se embora: que necessidade tenho eu de vir a esta estante de CD de música que gravei no iPod, podendo agora transportar toda a minha discoteca de aparelho para aparelho sem precisar de mais nada? Ao lado, os vídeos em VHS juntam-se aos discos em vinil e suponho que, a prazo, os DVD irão fazer-lhes companhia. Os selos, a mesma coisa, hoje já quase que não se usam no correio, para serem emitidos apenas para os coleccionadores. O dinheiro pouco a pouco é substituído pelos cartões e todos os cartões convergem para um só. A rápida mudança do tempo vivido dos objectos torna obsoleto qualquer filme de ficção científica que tenha mostradores analógicos em vez de digitais, porque nós sabemos que o futuro não substituiu apenas as alavancas por botões, mas acabou com os mostradores redondos em que um ponteiro podia indicar um drama quando se aproximava do vermelho. Hoje, só para os filmes de submarinos da Segunda Guerra Mundial.E será assim para estes objectos que tenho à minha frente, feitos de muitos hectares de floresta, esta pilha de jornais? Estão também a ir-se embora, pouco a pouco, sem nós vermos, nem nós querermos? Talvez em geral, sim, em particular para os jornais feitos ao modelo antigo, entre o jornal generalista e aquilo que se chama hoje "imprensa de referência". Vejamos o caso português, em que há várias coisas evidentes que os jornais "de referência" não quiseram ver nem entender. Uma delas é que hoje um leitor em papel pode ler a "imprensa popular", opção que não tinha no passado. Quando só havia jornais vergados ao peso de si próprios como instituições, protegidos por um mundo em que a institucionalização era garantida entre outras coisas pela censura - que eliminava o "popular" (sentimentos fortes, crime, inveja social, críticas aos poderosos, voyeurismo, violência em geral, medos, etc.) -, a "imprensa popular" não existia. ![]() Século, ou o Diário Popular, ou o Comércio do Porto, ou O Primeiro de Janeiro, mesmo com as suas nuances, mas podiam começar a comprar o Correio da Manhã e, mais tarde, a imprensa tablóide, que é uma outra variante de "imprensa popular". No Porto, sempre tiveram essa escolha porque tinham o Jornal de Notícias, de quem se dizia que, se se espremesse o jornal, escorria sangue, e talvez por isso é que a imprensa "de referência" de Lisboa nunca tivesse tido sucesso no Porto. (Deixo por agora de parte a concorrência com a televisão e rádio quanto à novidade noticiosa e à espectacularização).Afastada da sensibilidade "popular", logo do público de massas, era inevitável uma perda significativa de leitores, agravada pelo aparecimento dos gratuitos. Mas a imprensa "de referência", durante muito tempo, que era também imprensa do Estado porque pública ou semipública, continuou num caminho autista até que a privatização começou a abanar os bolsos dos "donos" da imprensa com os elevados custos de jornais que perdiam leitores e, ao perderem leitores, perdiam publicidade. Quer o Diário de Notícias, quer o Público, de modo diferente, começaram a sentir há muito esta perda e ensaiaram diferentes respostas para a contrariar, cujo sucesso depende da correcção da análise dos problemas. Uma observação sobre um reparo feito no Indústrias Culturais sobre "a colocação temporal do autismo dos media impressos. Primeiro, a imprensa de Estado (...) só existiu entre 1975 (...) e finais da década de 1980 (...). O Diário de Notícias foi desnacionalizado em Maio de 1991, ou seja, há 16 anos é propriedade privada. Entretanto, tinha surgido o Público (1990)." Tive em conta esta circunstância, mas penso que o Diário de Notícias só foi verdadeiramente des-nacionalizado quando foi comprado por Joaquim Oliveira e deixou a PT. ![]() No Bloguitica Paulo Gorjão insiste em três factores decisivos na decisão de compra de um jornal "de referência": "informação de qualidade; análise de qualidade; e, opinião de qualidade. Uma trilogia de 3Q." Tem razão em identificar estes factores em que uma cultura de exigência ainda está muito longe de chegar ás redacções. Só por si, se se fosse por aqui, obter-se-iam resultados, mas não se estancaria a crise da imprensa escrita ao modo tradicional. Penso que é preciso ir mais longe na análise da crise e pensar as questões de forma (as tecnologias, o grafismo, os meios) como questões de conteúdo e ir ainda mais longe entendendo que o "consumo" de informação está a mudar não só em exigência, mas num modo diferente de ler, procurar, analisar, aprender e divertir-se. Estas mudanças fazem migrar muita coisa que antes se fazia nos jornais para outros media e implicam um novo conceito de jornal, não apenas o antigo jornal melhorado. É sobre isso que escreverei para a semana.Perdendo os públicos antigos, que se deslocaram para a "imprensa popular", colocava-se saber por que razão não se conquistavam os novos públicos. Havia sempre duas estratégias possíveis: ou tentar tornar "popular" (e "popular" e tablóide" não são a mesma coisa, porque há imprensa "popular" de qualidade, como é o caso do Correio da Manhã) o produto, como agora se diz, ou tentar roubar novos públicos a outros media que começam a crescer, em particular na juventude, ligados a outra combinação de media. Basta ver a combinação de media que os jovens consomem - jornais desportivos, revistas de moda em papel e blogues e sítios, incluindo os jornais, gratuitos em rede - para se perceber que não era tão simples como isso lá chegar, com um produto em papel. É que as novas elites numa sociedade de massas, em particular as elites com elevada educação formal, são também elas próprias um resultado da sociedade de massas, espectacularizadas, com gostos "culturais" muito mais "populares", habituadas a uma informação mais curta, fragmentada e utilitária. Na verdade, a sociedade de consumo de massas encolheu as elites, como nós as conhecíamos do passado, e gerou elites que o são socialmente, mas que, entre outra coisas, lêem menos e lêem diferente. O retrato das elites do presente dificilmente seria considerado como sendo de elite no passado. A tradição já não é o que era. Reproduzo aqui uma nota que publiquei no Abrupto sobre a campanha publicitária do Público :Podemos não gostar deste mundo, mas é o que existe lá fora. Neste processo, para onde foram os leitores dos jornais? Fugiram porque os jornais não lhes interessavam, ou porque já não precisam deles e não estão dispostos a pagar caro por aquilo que tem para eles apenas um utilidade marginal. Quem sobra é uma elite de uma elite, que continua a precisar e está disposta a pagar jornais de "referência", com a condição de que estes lhes forneçam informação de muito maior qualidade, o que, por regra, não acontece hoje. Só há uma maneira de os jornais competirem com os novos consumos mediáticos gerados pela televisão e pela rede, é serem muito diferentes do que eram no passado e serem únicos, ou seja, o que está ali não está em lado nenhum. E, mais fundamental ainda: não poder estar em nenhum outro lado. (Continua) (No Público de 17/2/2007) * Basta abrir a página do NYTimes na net para perceber o que é que um jornal de referencia tem de fazer para continuar a sê-lo. Como diz muito bem, é ser único no que publica. Para tal é preciso gente de muita qualidade que esteve disposta a tarimbar e a sofrer pelos pequenos jornais até chegar ao NYTimes. Já viu alguem tarimbar em Portugal? Todos querem começar em Lisboa. Quando o DN exigir que os seus jornalistas sejam licenciados, que tenham trabalhado pelo menos 5 anos nos jornais de provincia, que produzam trabalho que seja absolutamente original, por salários que nunca os farão ricos e que a fama e o respeito de seus pares é a sua verdadeira compensação, então teremos jornais de referencia. (e terem uma página na net não afecta nada, antes pelo contrário, ajuda a ganhar receitas de anúncios e leitores da cópia em papel) Etiquetas: comunicação social, jornalismo (url) 17.2.07
ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR (url) ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR (url) EARLY MORNING BLOGS ![]() 969 - Paradise Lost Book 5: An Epitome Higgledy piggeldy Archangel Rafael, Speaking of Satan's re- Bellion from God: "Chap was decidedly Turgiversational, Given to lewdness and Rodomontade." (Anthony Hecht) * Bom dia! (url) 16.2.07
NATUREZA MORTA À esquerda uma pilha de papéis e livros. Oscar Masotta, Revolución en el Arte e uma edição conjunta da Gulbenkian e da Biblioteca Nacional Francesa sobre livros arménios. Na capa, um grifo antropomórfico. Em cima, um cartucho com um busto de Pombal, oferta do município de Pombal, ainda por desembrulhar. Parecia uma coisa de comer no seu embrulho. Um DVD, instruções para uma câmara de segurança, trinta e cinco folhas com um esboço da biografia de F.M.R., uma pen, um teclado que não está em uso. Um copo de estanho com lápis, um de um Four Seasons qualquer e outro de um Sofitel também qualquer, canetas, um desandador, duas facas de papel, uma com o formato de uma espada, um moleskine meio usado, um postal com o D. Quixote, uma caixa de pastilhas Valda, uma lupa, um disco duro vertical de 400 GB, backup de um backup de um backup. Um agrafador. Duas mãos, um rato à direita que diz Microsoft. O mesmo tapete de sempre que veio do Nagorno-Karabak, uma pilha de números antigos da Seara Nova.
(url) (url) COISAS DA SÁBADO - AUTOFAGIA: JUÍZES A FALAR DEMAIS Ou é impressão minha ou os juízes, andam a falar demais? É evidente que os juízes são cidadãos como outros quaisquer, mas haver juízes a criticar decisões de outros juízes em público, em processos que ainda estão em aberto, a não ser em casos de interesse público relevante, quase de crise das instituições, de ameaça à democracia, de obrigação moral excepcional, não me parece que tenha outro efeito senão dissolver a autoridade dos próprios juízes face aos cidadãos que deles esperam distância, prudência, sensatez e alguma reserva. A reserva do poder.Dito isto, não tenho qualquer dúvida que não vale a pena dizê-lo. A mediatização da vida toda não parará à porta dos tribunais nem da cabeça dos juízes. Eles querem, como toda a gente, participar na grande cacofonia universal e tornar-se como os outros. A ilusão está em que, tornando-se como os outros, pensam que poderão manter o estatuto e os poderes que hoje têm. Estão enganados, mas ninguém os vai convencer disso, porque também eles querem ser “protagonistas”. * Permite que lhe observe que, a propósito de "É evidente que os juízes são cidadãos como outros quaisquer ... ", juíz é um cargo (ou orgão de soberania) e não um cidadão. Creio que será deste "erro de paralaxe" que emanam todos os "protagonismos" que a sua entrada no blog tão bem descreve. Quando os cidadãos, que ocupam os respectivos cargos de juízes, se relembrarem da sua condição, a protagonista será a Justiça. Etiquetas: justiça (url) (url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 16 de Fevereiro de 2007 Há alturas em que se percebe muito bem por que razão a Igreja sobrevive no tempo. A análise que a Conferência Episcopal Portuguesa faz dos resultados do referendo é um excelente exemplo de ponderação e de atenção à realidade e à mudança. Contrariamente ao que faz toda uma escola de ressentidos do "não", muito representada nos blogues "de direita", a Igreja afirma haver significativas mudanças de mentalidade na sociedade portuguesa, identifica essas mudanças pela maior importância dada à autonomia individual (não usa este termo, mas quase), dá importância ao resultado, tenta compreender o "sim" sem anátemas nem minimizações. É por isso que vai continuar a ter um papel decisivo, diferente do passado, mas fundamental.* Concordo inteiramente com a sua opinião sobre a Conferência Episcopal Portuguesa, onde esta constata, a propósito do referendo, a mutação cultural existente. Aliás, não é nova: por exemplo, a Nota Pastoral de 2001 "Crise de Sociedade, Crise de Civilização" diz a abrir: "Tem-se verificado, na sociedade portuguesa, um conjunto de factos e de fenómenos que consideramos sintomas preocupantes de uma alteração cultural que anuncia uma crise de civilização. Sem excluir as tomadas de posição pontuais, ao ritmo dos acontecimentos, para esclarecer a consciência dos fiéis, queremos, com esta Nota Pastoral, alertar para um quadro civilizacional de valores culturais que possa constituir o pano de fundo a proporcionar aos católicos e a toda a sociedade um juízo dos factos e das situações, na perspectiva da doutrina da Igreja sobre a pessoa humana e sobre a sociedade." E a Carta Pastoral "Responsabilidade Solidária pelo Bem Comum" enumera os chamados "pecados sociais da nossa sociedade" (No. 4 ), tais como "egoísmos, consumismo, corrupção, desarmonia do sistema fiscal, irresponsabilidade na estrada, exagerada comercialização do fenómeno desportivo, exclusão social", e uma opinião quanto às suas origens (No. 5). * Eu sei que Portugal não é o Japão, mas não seria suposto que os responsáveis pela empresa pública que gere os comboios portugueses se deslocassem ao Tua, nem que seja para expressar solidariedade com as vítimas que são da casa, os trabalhadores que morreram, já para não falar das outras?Etiquetas: Conferência Episcopal, Igreja Católica, referendo do aborto (url) 15.2.07
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 15 de Fevereiro de 2007 A indiferença da opinião pública e publicada (a começar pela portuguesa) face ao julgamento de Madrid dos acusados do 11 de Março, revela bem a atitude de avestruz generalizada pela Europa em relação ao terrorismo fundamentalista islâmico. É num tribunal de Madrid, não em Washington, Nova Iorque ou Bagdad; não são os sempre suspeitos americanos a julgar; não são detidos de Guantanamo num "voo da CIA"; mas juízes espanhóis na vigência do Sr. Zapatero e, no entanto, ninguém liga nenhuma. Nem um átomo de indignação, nem uma atenção, nem uma curiosidade em saber como foi, com quem foi, porque foi. Já para não falar de algumas lições que se podem tirar sobre quem são os alvos dos terroristas: nós.Discordo de que os julgamentos de Madrid não tenham tido a atenção justa da comunicação social face à gravidade do caso. A diferença é que, neste caso, se trata da democracia e do estado de direito a funcionarem, e isso por si só não é notícia. Não aconteceram detenções ilegais, tortura de prisioneiros ou longos aprisionamentos de suspeitos em campos de concentração, sem culpa formada. Esperemos pois pelo resultado do julgamento, como é normal numa democracia normal. * O acesso dos lóbis aos deputados é a coisa mais normal do mundo na maioria dos parlamentos europeus, a começar pelo propriamento dito Parlamento Europeu. É uma prática típica das democracias, entendendo-se que, se os deputados decidem sobre interesses contraditórios, as partes interessadas podem fazer todo o trabalho de esclarecimento e propaganda necessário junto dos decisores, chamando-lhes a atenção para as vantagens e inconvenientes da sua decisão, em função dos clientes que representam. O Estado Português e as suas instituições contratam habitualmente empresas desta natureza nos EUA, quer para questões de natureza económica, quer para questões de natureza política (Timor, por exemplo).Como, em democracia, a mediação de interesses contraditórios é absolutamente normal, prefiro que ela se faça às claras do que às escondidas ou através da comunicação social de forma impossível de identificar por quem lê uma notícia de "agência". Só não percebo a razão de o alvo serem os deputados: estes não têm poder nenhum e dependem das direcções partidárias (sobre essas sim o lóbi tem sentido, como sobre os gabinetes ministeriais), mas se as agências querem gastar dinheiro inutilmente, façam favor. * Na TSF Online, li algo que sugere vagamente que Artur Marques tenha sido questionado sobre se pretende tomar alguma medida em relação à distribuição do panfleto (o itálico é meu): "O advogado, que não saber quem está por detrás deste documento, aproveitou para apelar a todos os felgueirenses «para que não dêem ouvidos ao que é feito através desta notícia e que se mantenham serenos»." Etiquetas: Assembleia da República, atentado de Madrid, Fátima Felgueiras, lóbis, terrorismo (url) ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR Povoação de Aveleira, no topo de uma serra com o mesmo nome, a 535 metros de altitude, no concelho de Penacova, numa foto que obtive hoje.(António Luís) (url) BIBLIOFILIA: ANOS SESSENTA NOS EUA Robert Pardun, Prairie Radical:: A Journey Through the Sixties, Los Gatos, Shire Press, 2001. Max Elbaum, Revolution in the Air: Sixties Radicals Turn to Lenin, Mao and Che, London/New York, Verso, 2002. David Gilbert, SDS/WUO, Students For A Democratic Society And The Weather Underground Organization, Arm the Spirit, s.d. (url) Foram feitos pequenos arranjos no Abrupto, resultado ainda da migração para o novo Blogger. Os arquivos foram recolocados em linha, com a colaboração de alguns leitores (saliento a ajuda de Daniel Marques, entre outros), e foi corrigido um erro na datação de uma nota para 1990 (erro do Blogger). Subsiste a falta de muitas imagens no arquivo, resultado do modo como o Blogger tentou erradicar o falso Abrupto o ano passado, mas pouco a pouco serão repostas. A chegar aos seis milhões de pageviews e aos quatro milhões e meio de visitas, o Abrupto continua de boa saúde e recomenda-se. Aos seus leitores o deve. Etiquetas: Abrupto (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: AVISOS DE RECEPÇÃO ![]() Fui alertado para isto por um jovem autor. Leia, por favor, este regulamento (está disponível, na íntegra, em PDF no site da FNAC.pt: PRÉMIO LITERÁRIO FNAC/TEOREMA 2007 Regulamento 1 - Âmbito e aplicação Ao Prémio Literário FNAC/Teorema 2007 podem concorrer todas as obras inéditas de autores que não possuam qualquer obra de ficção publicada, seja romance ou colectânea de contos. 2 - Formato dos trabalhos Cada trabalho deve ter entre 150 e 200 páginas em formato A4, 1800 caracteres por página, impressas a duplo espaço entre linhas e encadernadas. Devem ser entregues 5 exemplares do manuscrito, acompanhados do nome e contacto telefónico e, se possível, electrónico (não são aceites pseudónimos). 3 - Prémio O prémio consiste na publicação da obra vencedora pela Editorial Teorema, reservando-se, no entanto, o direito de o mesmo não ser atribuído, caso se conclua não existir o nível de qualidade mínima exigido pelo júri. O premiado aceita como condição a celebração de um contrato de utilização da obra nos termos do artigo 41o do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos. 4 - Entrega dos textos Os trabalhos devem ser enviados com aviso de recepção para a seguinte morada: Prémio Literário FNAC/Teorema Acção Cultural Fnac Amoreiras Plaza R. Prof. Carlos Alberto Mota Pinto, 9 1070-374 Lisboa Prazo limite para recepção dos trabalhos: dia 15 de Fevereiro de 2007. 5 - Composição do júri O júri é composto por 5 elementos: Nuno Júdice, poeta e professor universitário Rui Zink, escritor e professor universitário Isabel Coutinho, crítica literária Dóris Graça Dias, crítica literária Carlos da Veiga Ferreira, editorial Teorema (etc., etc., etc.) (os "bold" são meus) Vamos, então, imaginar um jovem autor que concorre: trabalhou o seu livro até à exaustão. Dirige-se com um mínimo de 150 páginas A4 à loja das fotocópias para mandar fazer 5 cópias encadernadas. Gasta perto de 100 € e sai de lá com 750 folhas A4. Dirige-se ao posto dos Correios para enviar REGISTADO COM AVISO DE RECEPÇÃO. O funcionário dos CTT responde-lhe, paulatinamente, que isso é impossível: registos com aviso de recepção só até 2 Kg. Estão ali mais de 5 Kg de papel. O nosso jovem autor fica na dúvida. Enviar sem aviso de recepção é atropelar o regulamento. Das duas uma: ou volta para casa com 750 folhas de A4 ou envia registado por EMS (cerca de mais 100 €). O clima surrealista adensa-se: o nosso jovem autor liga para a FNAC, esgotando praticamente o saldo do seu telemóvel. A menina arrogante que o atende diz que a FNAC não aceita o envio de manuscritos por EMS. Aconselha os jovens autores a enviarem os seus manuscritos repartidos por 5 envelopes. Isto, se cada manuscrito tiver 150 páginas e, portanto, com a encadernação não ultrapassar os 2 Kg. Mas se o manuscrito tiver 200 páginas ultrapassa os 2 Kg. e aí já ninguém sabe o que fazer. O jovem autor expedito com um manuscrito de 200 páginas fará um último, derradeiro e desesperado telefonema para a FNAC perguntando se pode enviar a sua obra dividida por capítulos. Ou terá que a imprimir em papel de bíblia? Coragem, portugueses. Só vos faltam as qualidades. (Paiva Raposo) Etiquetas: CTT (url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: QUE FAÇO EU COM OS MEUS CARTÕES? ![]() Eu, se tivesse oportunidade, gostaria de aproveitar o entusiasmo de José Sócrates com o lançamento do novo Cartão de Cidadão para lhe perguntar se ele conhece alguém que me diga o que sucedeu aos cartões Net-Post e Portamoedas-Multibanco de que tenho vários exemplares. Todos eles ainda têm algum saldo de que não consigo ver-me livre; por isso, para comemorar o lançamento deste novo cartão, ofereço-os com muito gosto à primeira pessoa que me indicar uma maquineta de venda de selos ou um quiosque Net-Post... que funcione. (C. Medina Ribeiro) * O texto do seu interessante leitor Medina Ribeiro trouxe-me à memória o Porta-moedas Multibanco. Ainda de me lembro do slogan da campanha de lançamento em 1994: «Passe um grande Verão sem um tostão!». Obtive um desses cartões e achei que era muito prático, mas em conversa com os comerciantes apercebi-me de que havia um problema: estes tinham que depositar no banco pelo menos uma vez por semana os pagamento que recebiam. Como era um novo meio de pagamento, os utentes ainda eram poucos e os pequenos comerciantes sentiam que o depósito semanal não compensava o trabalho envolvido. Já agora, para quem não saiba, o Etiquetas: CTT (url) EARLY MORNING BLOGS
![]() 968 - Tout le parfait dont le ciel nous honore Tout le parfait dont le ciel nous honore, Tout l'imparfait qui naît dessous les cieux, Tout ce qui paît nos esprits et nos yeux, Et tout cela qui nos plaisirs dévore : Tout le malheur qui notre âge dédore, Tout le bonheur des siècles les plus vieux, Rome du temps de ses premiers aïeux Le tenait clos, ainsi qu'une Pandore. Mais le destin, débrouillant ce chaos, Où tout le bien et le mal fut enclos, A fait depuis que les vertus divines Volant au ciel ont laissé les péchés, Qui jusqu'ici se sont tenus cachés Sous les monceaux de ces vieilles ruines. (Joachim du Bellay) * Bom dia! (url) 14.2.07
(url) 13.2.07
Que não é intendência: muito obrigado pelas muitas e muitas mensagens enviadas na noite do referendo e que não puderam ser publicadas. Apesar da rapidez da noite do referendo, o Abrupto atingiu cerca de sete mil visitas e dez mil pageviews, pelo contador mais conservador.
O correio continua com o problema crónico de não ser respondido a tempo e, nalguns casos, nunca ser respondido, o que é uma má educação da minha parte que só tem desculpa por ser muito, algumas mensagens exigindo uma resposta detalhada. Seja como for é todo lido e tido em consideração, sem excepção. Algum correio vai sem razão alguma para a junk mail do Outlook onde o recupero muitas vezes só uma semana depois. O Outlook do Office 2007 continua a ser o programa com maiores problemas na migraçaõ para a última versão, embora tenha observado alguma ligeira corrupção de dados no Access (deslocação do conteúdo de entradas de umas para as outras numa tabela), o que é muito mais preocupante e nunca aconteceu nas versões anteriores. A maioria das últimas notas publicadas foram actualizadas com contribuições dos leitores do Abrupto, pelo que não vale a pena estar a nomeá-las uma a uma. Etiquetas: Abrupto, Access 2007, Outlook 2007, referendo do aborto (url) (url) TEMORES DO TREMOR No dia 1 de Janeiro de 1980, às 15H40, eu descia a Rua da Miragaia, junto ao convento das Mónicas, em Angra do Heroísmo, Terceira, quando a terra tremeu a sério durante escassos segundos (grau 7). Morreram algumas dezenas de pessoas, poucas por sorte para o tamanho da catástrofe disseram os entendidos e foi verdade. Por grande sorte escapei. Sente-se o momento e este é muito estranho. Vi morrer algumas pessoas e a destruição foi o que se viu. A violência e o espectáculo são indescritíveis. O cérebro não tem tempo de ordenar ideias por muito que se tenha lido ou frequentado palestras. Cada um reage aleatoriamente sem se dar conta: correr para a morte, imobilizar e morrer ou simplesmente fazer o mesmo e escapar. Quando a terra resolve parar e os últimos edifícios caem este é que pode ser um grande momento de actuação. Se tudo estiver bem ensaiado e preparado podem salvar-se muitas vidas. Todos os minutos contam, porque as réplicas podem ser fatais e do mar tudo pode acontecer e ainda há vidas presas por um fio. Não quero assustar ninguém mas parece-me ridículo “os conjuntos de medidas em estudo”, comissões disto e daquilo e declarações do tipo “a situação está sob controlo”. Tenho pena que este assunto (a resposta organizada, Nacional, participada e discutida a uma catástrofe) não tenha feito parte da bandeira eleitoral e empenhamento deste (partido) governo. Talvez porque este Fado renda pouco para já. Salve-se quem puder!(Sérgio) * Não sabia o que fazer com esta informação e resolvi que este cesto era bom para a largar. Vivo no Algarve e hoje de manhã senti bem, foi mesmo bem de mais para o meu gosto, o tremor de terra. Comecei imediatamente à procura de informação. O site do INMG estava KO, como é habitual, e nas notícias ainda não havia nada. A primeira informação que encontrei foi no site acima. Na altura, quando lá cheguei, já tinham 3 ou 4 relatórios – feitos por visitantes do site e que estavam na área abrangida. Deixei mais um. Voltei novamente a esse site para tentar ver se havia mais informação. E foi agora que fiquei pasmada. Este tremor de terra, neste site, tem mais de 900 relatórios. Fiquei intrigada e fui meter um olho nos arquivos. Corri alguns e não encontro em mais lado nenhum, fora dos EUA, números sequer parecidos com este. E estamos a falar, também, de Canadá e Japão. Só nos Estados Unidos, e para alguns sismos, há um número tão elevado de relatórios. Que se passa connosco? Será que estamos mesmo todos ligados à net? Tanta informação enviada e partilhada? E logo hoje que com resultados de referendo tínhamos já muito para comentar por aqui? Pode ser normal mas que estou de boca aberta estou. Já agora. Tenho alguns tremores de terra no meu curriculum mas hoje, acho que já disse isto, assustei-me mesmo. Talvez por isso tenha reparado que no dia de hoje já foram registados em todo o mundo, até esta hora, 3 tremores de terra com amplitude superior a 5. Também não é normal… (Teresa) * Sentado em local onde, com grande ampliação, poderia ver o do epicentro, senti claramente o tremor… 1 minuto depois, ligou-me o meu filho, que estava em casa a dormir… viajando pelos meios da web, vi a primeira notícia, com pormenores e desenvolvimento, menos de 10 minutos depois… no El Pais… cada semana que passa me convenço que a melhor informação sobre os nossos assuntos domésticos, incluindo portos e economia, só pode ser lida em castelhano… (Manuel Piteira) * Ontem de manhã tive uma experiência que me faz pensar que a história do sismo não está completamente esclarecida. Vivo em Amarante. Por volta das 8,30h, estava sentado na beira da cama a calçar os sapatos, senti um abanão, e ocorreu-me de imediato que era um sismo. Quando, ao fim da manhã, percebi que o sismo foi registado às 10,30h, fiquei confundido. Até agora, não encontrei referência ao abanão das 8,30h. Posso estar enganado desta vez, mas de todas as outras vezes que se sentiram pequenos sismos aqui no norte, eu senti-os. Não haverá registos de um abalo cerca das 8,30h de ontem? Não pode um qualquer episódio tectónico às 8,30h, algures a norte, ter desencadeado repercussões que originaram o sismo a sul às 10,30h? A verificar-se, terá certamente algum interesse científico - e também interesse informativo: temos o direito de saber o que se passa debaixo dos nossos pés. (Joaquim Jordão) * A “queda” do site do INMG parace-me que aconteceu devido a avalanche de acessos num periodo limitado do tempo, ou seja,o seu servidor não está preparado para milhares de tentativas de acesso num espaço de tempo muito curto. (A Toscano ) * No noticiário das 20h da TSF ouvi a Directora Municipal da Protecçáo Civil da C.M. de Lisboa aconselhar para algumas medidas em caso de sismo, mas fiquei estupefacto quando apelou para que as pessoas se enfiem debaixo de mesas, de camas altas e de vãos de portas. Ora, eu também ouvi essa história na escola primária, mas hoje ninguém especializado na área de salvamentos de catástrofes sísmicas aconselha esse procedimento, pela simples razão de que as pernas das mesas e das camas que temos em casa não aguentam a queda do tecto e o resultado é uma armadilha onde se fica espalmado. Sei que há controvérsia acerca das teorias de Douglas Copp (incluíndo a Cruz Vermelha Americana que contesta certos aspectos das mesmas), mas poucos contestam a vertente do chamado "triângulo da vida", que mais não é do que ficarmos ao lado de algo bem resistente (um sofá, um móvel de cozinha ou a cama - ao lado e nunca debaixo!) que impeça o esmagamento provocado pela queda do tecto. (Nuno Baptista) Etiquetas: sismo de 12/2/2007 (url) EARLY MORNING BLOGS ![]() 967 -... a regular brute of a Bee! ![]() There was an Old Man in a tree, (Edward Lear)
* Bom dia! (url) 12.2.07
ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR (url) INTENDÊNCIA Na penúltima nota, estão em actualização os testemunhos do terramoto. Como há um factor subjectivo (como foi sentido o abalo) na classificação dos tremores de terra, os testemunhos são úteis.
(url) ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR (url)
COMO SE RESPONDE A UMA NOTÍCIA INESPERADA QUE PODIA TAMBÉM SER UMA CATÁSTROFE
O Instituto de Meteorologia continua em baixo e inacessível. Não se compreende que a instituição a que primeiro se deve aceder para obter informações nos momentos críticos (bem pouco críticos felizmente neste caso) , nada funciona.Nota: esta ligação funciona, embora com a informação reduzida. * E algo de inconcebivel, a letargia dos media televisivos no que diz respeito ao acompanhamento do sismo desta manha. Quando ligo a TV a primeira coisa que faço e acompanhar os canais noticiosos (RTPN e SIC Noticias). Entretanto recebo um telefonema de um familiar do Algarve a relatar o sucedido. Penso: "O que? e a televisao nao diz nada?" Curiosamente, fui de imediato ao mesmo site que visitou, o do US Geological Survey, para depois verificar que o site do INMG estava em baixo. Entretanto, na SIC Noticias nada e na RTPN o assunto tem direito a uma nota de rodape. (Ah, entretanto, ao mudar para a SIC generalista, ouço a primeira referencia explicita ao assunto atraves da Fatima Lopes e o Senhor Ventriloquo). E absolutamente absurdo, ridiculo, quase ultrajante, este desleixo, enquanto asuntos como o internamento de uma vedeta de telenovela ou o arresto de bens de um ou outro dirigente de futebol tem direito a interrupçao de emissoes e directos a porta das casas. Talvez mais grave do que os canais noticiosos, que se limitam ao cabo, a omissao do serviço publico de televisao que, perdoe-me se estiver enganado (nao acompanhei a "Praça da Alegria" na totalidade...), deveria ter interrompido a emissao regular no sentido de informar e esclarecer os portugueses. A certa altura, digo a minha mae "vamos mudar para a Sky News que talvez tenhamos mais sorte..." (Sem acentos) (Ricardo Carvalho) * O Correio da Manhã parece ter sido o primeiro a escrever sobre o assunto. 15 minutos depois. (Luis Caetano) * Aparentemente, a TSF , dez minutos depois do sismo. (RM) * Aquando do grande tsunami asiático de 2004, não houve português que não questionasse: «E se fosse cá? Será que estamos preparados para algo semelhante, tendo em conta que, nessa matéria, até temos várias páginas negras na nossa História?». Claro que não faltaram, na altura, responsáveis a garantir que o assunto ia ser estudado e tratado. Por isso, e perante o sismo de hoje, suponho que não será pedir demasiado que os "estudantes e tratadores" nos dêem conta do que fizerem nos últimos dois anos. (C. Medina Ribeiro) * As 10h38 envio uma mensagem a um amigo para saber se ele sentiu o mesmo que eu. Curiosamente ele estava a dormir e nada. Agora vi as noticias no seu blog e a hora indicada na TSF e outros, coincide com a minha. Por isso, também chegou ao porto… (Nuno Ribeiro) * Sem querer puxar a fita da meta, como tinha o editor do meu blogue aberto, foi em cima do acontecimento. Tenho vindo a actualizar o post inicial com informações do European-Mediterranean Seismological Centre , onde no mapa podemos verificar, entre outras curiosidades, se houve réplicas (de facto houve uma, cerca das 12H50). (J. Espinho) * Creio que desde o terramoto de Lisboa em 1969 que não tinha uma sensação tão desagradável. Sentado na secretária do meu escritório, comecei a sentir o candeeiro a tremer, depois o monitor do computador e por fim o chão. Por momentos senti que o chão ia ceder. Durante longos e intermináveis segundos fiquei sem reacção, sem perceber se havia obras no rés-do-chão e a casa velha acabaria por ceder ou se era um verdadeiro sismo. Quando me consegui levantar encontrei os colegas no meio do escritório e percebi que tinha de novo viajado até ao centro da terra. Em Faro foi tremendo. O epicentro não deveria estar longe. A natureza é insondável e não há maior sensação de pequenez, impotência e inutilidade do que aquela que nos atravessa durante um tremor de terra. Só espero que agora não venha aí uma dessas almas da campanha do "Não" dizer que este foi um primeiro sinal da ira divina por causa do resultado do referendo de ontem. Num país em o clero ainda ameaça excomunhões automáticas por delito de opinião tudo é possível, até terramotos por encomenda. (Sérgio de Almeida Correia) * Até agora parece que ninguém deu por isso mas aqui onde me encontro (6 Km de Aveiro) também senti o sismo. Estava calmamente a trabalhar quando o ecran do meu computador se pôs a dançar ligeiramente. Ao mesmo tempo, colegas meus que estavam em video conferência com Sevilha, embora não tivessem sentido o sismo como eu, assistiram ao mesmo através de video conferência devido às reacções dos colegas espanhóis que ficaram um pouco assustados. Quanto a obter notícias imediatas, tive os mesmos problemas que todas as outras pessoas. (Maria João) * Esta a dar uma aula quano a porta da sala começa a abanar de uma forma estranha (Os alunos começaram por dizer que alguém estava a bater à porta). Entretanto senti as mesas a abanar e mandei que todos os alunos se colocassem debaixo das mesas. Alguns segundos depois tocou a campainha e procedemos à evacuação para o exterior da Escola. Só posso dizer que foi uma sensação estranha, mas o treino de simulações foi bastante útil. (Adelino Afonso) * Hoje de manhã estava em casa, num r/ch em Alvalade (Lisboa), e não senti o sismo. Ainda bem pois teria ficado muito assustada. Por curiosidade, junto o link para umas páginas de divulgação do Núcleo de Engenharia Sísmica e Dinâmica de Estruturas do LNEC: Também sou investigadora do LNEC mas numa área bem diferente. (Lina Nunes Sequeira) * A juntar aos depoimentos dos seus leitores sobre a ausência de notícias, na hora, sobre o sismo de ontem refiro um interessante dado sociológico que deixo à sua consideração. Na RTP1, o programa "Praça da Alegria" deu a notícia, quase em directo, antes mesmo de "O Abrupto" e nenhum dos seus leitores, nem mesmo o dr. Pacheco Pereira, deram pelo facto preferindo registar, por vezes com alguma arrogância, o silêncio e/ou atraso dos media relativamente a este acontecimento específico. Nesse mesmo programa "Praça da Alegria" fez-se, inclusive, uma ligação ao Instituto de Meteorologia que se revelou de muita utilidade no sentido em que desdramatizou a situação. Do meu ponto de vista, creio que mergulhar demasiado a cabeça nos blogues pode ter este efeito algo perverso. (Luciano Gomes) Etiquetas: sismo de 12/2/2007 (url) (url) MAIS NOVAS DO SISMO Os jornais em linha já estão a acordar. A SICN continua como se nada houvesse. Não se justifica que as estações noticiosas que funcionam 24 horas se esqueçam que em momentos como estes as pessoas esperam notícias de imediato. * O site www.meteo.pt, já está em baixo a largos minutos, desde que se sentiu o terramoto...O choque tecnológico ainda aqui não chegou. Etiquetas: sismo de 12/2/2007 (url) FOI AQUI ![]() Earthquake Details Monday, February 12, 2007 at 10:35:21 (UTC) = Coordinated Universal Time Monday, February 12, 2007 at 10:35:21 AM = local time at epicenter Time of Earthquake in other Time Zones Location 35.843°N, 10.289°W Depth 10 km (6.2 miles) set by location program Region AZORES-CAPE ST. VINCENT RIDGE Distances 250 km (155 miles) WSW of Faro, Portugal 335 km (210 miles) SSW of LISBON, Portugal 340 km (210 miles) WSW of Huelva, Spain 345 km (215 miles) NW of Casablanca, Morocco Location Uncertainty horizontal +/- 5.2 km (3.2 miles); depth fixed by location program Parameters Nst=192, Nph=192, Dmin=373.9 km, Rmss=0.81 sec, Gp= 61°, M-type=moment magnitude (Mw), Version=6 Source USGS NEIC (WDCS-D) Event ID us2007ysam This event has been reviewed by a seismologist. * Um bom sítio na rede para seguir as movimentações da crusta terrestre. Etiquetas: sismo de 12/2/2007 (url) NÃO FOI IMPRESSÃO
Primeiro lá fora e cá nos blogues e finalmente no IM (e os sítios noticiosos estão a dormir?): "O Instituto de Meteorologia informa que no dia 12 / 02 / 2007 pelas 10:36 (hora local) foi registado nas estações da Rede Sísmica do Continente, um sismo de magnitude 6.0 (escala de Richter) e cujo epicentro se localizou a cerca de 160 km a SW de Cabo de S. Vicente. De acordo com a informação disponível, este sismo foi sentido, devendo em breve ser emitido novo comunicado com informação instrumental e macrossísmica actualizada." Etiquetas: sismo de 12/2/2007 (url) OU FOI IMPRESSÃO MINHA ![]() ou houve um pequeno sismo há minutos? * Garanto que aqui, no 11º andar, também tivemos essa impressão … só que o sismo não pareceu tão pequeno. De tal modo que, nos minutos seguintes, estávamos com uma espécie de sea-sickness … Etiquetas: sismo de 12/2/2007 (url)
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: OS LOUCOS QUE QUEREM SABER TUDO
Simon Winchester, The Professor and the Madman, HarperCollins, 1998Os autores de dicionários e enciclopédias tendem a enlouquecer com a tarefa. Esta é matéria que percebo muito bem, estando no ofício da referência. Cada entrada nova no meu dicionário-enciclopédia, a que dedico "o melhor dos meus dias", como se dizia antigamente, tem o hábito de se alargar por pelo menos mais três ou quatro entradas. Para cada entrada nova, parece haver mais dez à espreita. E quando se quer fichar tudo, registar tudo, o espaço por preencher tem tendência para aumentar à medida que campos e campos de palavras já enchem uma vastidão atrás. A regra é que atrás está sempre uma pequena vastidão e à frente uma gigantesca vastidão. Vejam lá como isto é pouco normal... Tudo isto exige um grão de loucura prévia, que tende a agravar-se. Mas o caso do Dr. W. C. Minor, médico, militar, erudito, flautista, pintor de aguarelas e "lunático criminoso" vai um pouco mais longe. Os eruditos têm loucuras habitualmente mansas, mas o Dr. Minor estava internado perpetuamente porque um dia saiu à rua de pistola em punho e matou um desgraçado que lhe apareceu numa esquina, convencido que assim eliminava os seus "inimigos". Estes "inimigos" entravam-lhe à noite no quarto pelo soalho (mandou depois colocar um chão de zinco) ou pelos interstícios do telhado, pegavam nele e levavam-no para um qualquer bordel de Istambul, onde o obrigavam a praticar "actos imorais" com rapazes e raparigas. Noite, após noite, após noite. Já muitos anos depois de internado, o Dr. Minor resolveu castrar-se para ver se os seus "inimigos" o deixavam em paz. Não deixaram. Pois este Dr. Minor, diagnosticado como tendo dementia praecox, agravada pelo traumatismo de ter assistido como médico militar a algumas selvajarias da Guerra Civil americana, preso num asilo inglês, durante décadas tornou-se o mais prolixo, preciso e rigoroso amador, entre os muitos que apoiavam a redacção de uma das mais gigantescas obras de erudição de sempre, o Oxford English Dictionary (OED). Durante anos, sem saber qual era a origem das ajudas preciosas que recebia - verbetes de palavras, apoiadas por citações quanto aos seus diferentes significados e primeiro uso conhecido por escrito - o outro doido, mas manso neste caso, o célebre editor do dicionário, James Murray, que se abalançou à tarefa de registar em papel uma língua, o inglês, cada vez tinha em maior consideração e utilidade as contribuições que recebia dum tal Dr. Minor que escrevia de Broadmoor. Mais tarde veio a descobrir que era um "lunático criminoso" que lhe enviava os verbetes cuidadosamente redigidos, apoiados em leituras de livros do século XVII e numa paixão pelas palavras sem paralelo. Murray encontrou em Minor alguém que percebia muito bem o objectivo do dicionário e se interessava não apenas pelos vocábulos raros e caídos em desuso, ou por regionalismos ignorados, como muito lexicógrafos amadores faziam, mas pelas palavras comuns e pelas finas gradações de significado que continham e que era suposto ficarem registadas nesse grande catálogo da língua.Quando Murray veio a conhecer o Dr. Minor, uma história que correu mundo na época (primeira década do século XX) numa versão tablóide, tornou-se seu amigo e ajudou-o como pode a suportar melhor a sua doença e internamento. Ambos se correspondiam e durante vários anos, os contributos do Dr. Minor para o dicionário chegavam diariamente ao Scriptorium de Oxford onde uma equipa diligente ia arrumando em cacifos as muitas contribuições voluntárias que chegavam pelo correio de todo o lado. Mais de uma dezena de milhar de citações enviadas de Broadmoor pelo Dr. Minor fazem parte ainda hoje do OED . * O OED teve como título inicial New English Dictionary on Historical Principles, Founded Mainly on the Materials Collected by the Philological Society, edited by James A.H.Murray LL.D. Sometime President of the Philological Society, with the Assistance of Many Scholars and Men of Science. Por aqui se vê o papel colectivo de muitas pessoas que voluntariamente contribuíram para o dicionário num processo que tem parecenças com a Wikipedia. A diferença essencial não estava na colaboração voluntária, mas na selecção e edição pela equipa de Murray e pelos lexicógrafos que trabalhavam no Scriptorium, dos materiais que recebiam. Estes eram cuidadosamente verificados através de uma hierarquia de responsáveis até chegar ao grupo final que redigia as entradas. * ![]() O livro de Simon Winchester faz também referência ao OED enquanto obra maior da história da tipografia. * Pois é... este livro é muito interessante. Por várias razões, aliás, sendo que a que mais me fascinou quando o li a paciência necessária para o monumental trabalho que foi desenvolvido quer na pesquisa quer na acreditação do vocabulário sicronica e diacronicamente. É um tipo de paciência que hoje já não temos: fazemos a busca na Net e não precisamos de esperar muito. Mas é pena. Porque era a paciência das grandes obras, trabalhadas ao pormenor... E ainda hoje o OED é uma fonte de referência insubstituível para quem trabalha com o inglês. Etiquetas: dicionário, James Murray, Oxford English Dictionary, W. C. Minor, Wikipedia (url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 12 de Fevereiro de 2007 ![]() Mais uma capa soberba do Diário de Notícias. E, ainda só vi em linha, mas o grafismo do novo Público parece-me muito, muito bom. * Na próxima quinta feira, dia 15, em Paris, será lida a sentença do julgamento de Phillipe Val, director do semanário humorístico Charlie Hebdo, acusado por organizações islâmicas francesas de racismo e injúria à religião porque o jornal publicou, no ano passado, algumas das caricaturas dinamarquesas de Maomé.O Charlie Hebdo, nascido do Hara Kiri onde tantas vezes Wollinsky e Reiser nos fizeram rir com os seus desenhos a gozar com tudo e todos, não deixou passar mais uma ocasião de voltar a gozar, agora com a fúria islâmica àquilo que para nós, ocidentais, é do mais sagrado que há - escrever, desenhar, rir, sobre que nos apetecer. Desde o 11 de Setembro que Philippe Val tem tido sempre uma postura firme e corajosa contra a "onda" politicamente correcta e revoltante que percorre a Europa, de desculpabilização dos actos terroristas perpetrados por islamitas radicais e de culpabilização do "Ocidente" e, sobretudo, da América, pela "raiva legítima" que levará a tais actos. Sempre se insurgiu contra a "esquerdalhada" que anda de braço dado com os seguidores da ideologia mais bárbara e reaccionária que hoje (como ontem, quando se davam tão bem com os nazis) que grassa pelo mundo. O seu julgamento é também o julgamento da nossa liberdade e civilização. Espero que a barbárie não vença! (I. Barata Silvério) (url) EARLY MORNING BLOGS
![]() 966 - The Leaves like Women interchange The Leaves like Women interchange Exclusive Confidence - Somewhat of nods and somewhat Portentous inference. The Parties in both cases Enjoining secrecy -- Inviolable compact To notoriety. (Emily Dickinson) * Sim, bom dia! (url) (url) 11.2.07
PORQUE É QUE A PROPOSTA DE "CRIME SEM PENA" PREJUDICOU O "NÃO"
Porque acentua o "crime" no acto do aborto, e acentua-o ainda mais porque o trata como acto subjectivo, de culpa, da mulher. Etiquetas: referendo do aborto (url)
PATETICES
Aqueles que começam o discurso dizendo: "a maioria do povo português não acha necessária alterar a lei..." Etiquetas: referendo do aborto (url)
BOM SENSO
Os partidários do "sim" foram para casa. Acabaram os festejos e bem. Etiquetas: referendo do aborto (url)
MAIS PATETICES
O clima de ajuste de contas e de negação ressentida da realidade em muitos blogues. É nestas alturas que se percebe que o ácido na blogosfera é péssimo para discussões como a do referendo. E o tribalismo também. Parecem claques. Etiquetas: referendo do aborto (url)
DOS LEITORES
Acho curiosos alguns extremos regionalistas: Sim - 83,90% Beja, 82,00% Setúbal, 78,39%, Évora, Não - Açores - 69,04% Madeira - 65,44% Vila Real - 62,86% O Sim é mais aceite no Sul e menos aceite no Norte e nas ilhas. Sociologicamente será interessante estudar as razões. Algumas diferenças significativas de opinião significativas: o sim aumentou de maneira particular aqui: Braga - de 22,60% (1998) para 41,20% (2007) e demograficamente, Braga é significativo. Bragança - de 22, 65 %(1998) para 41,00% (2007). (Ricardo Vilhena) * Etiquetas: referendo do aborto (url)
PATETICE
"Venceu a cultura da morte! 11 de Setembro, 11 de Março, 11 de Fevereiro. Datas manchadas pela morte!" Esta frase num blogue do "não" Etiquetas: referendo do aborto (url)
O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: BOA PERGUNTA
Já repararam que ninguém fala do poço-sem-fundo onde caíram todos os estudos já feitos para a introdução, em Portugal, do VOTO ELECTRÓNICO - essa arma tão eficaz no combate à abstenção e em uso em tantos países do mundo? C. Medina Ribeiro Etiquetas: referendo do aborto (url)
PONTO SEM RETORNO
Quem já está a falar de um novo referendo (com o objectivo de ganhar o "não") não percebeu nada do que está a acontecer. No caso do aborto, como no divórcio, não há retorno. É uma mudança com uma forte componente societal, mais do que um resultado de um opinião circunstancialmente maioritária ou de um confronto político. * Sem retorno? As mulheres que nos anos 70 andavam de mini saia em Kabul sabem tudo sobre esses "sem retorno". Nada é sem retorno... J. * Sobre o "retorno": na civilização Ocidental esses retornos não existem. É uma das diferenças. Não é por acaso que o exemplo escolhido vem de Kabul. RM * Após a II Guerra mundial era impensável que voltasse à Europa um genocídio (Guerra dos Balcãs). Após Darwin era impensável que a teoria do criacionismo renascesse (Desenho inteligente). Após a proibição de Touradas de morte em Portugal, tal seria irreversível (Barrancos). Miguel Etiquetas: referendo do aborto (url)
RAZOÁVEL E MODERADA
a intervenção do Primeiro-ministro. * Atitude inteligente esta de José Sócrates de não festejar discursivamente a vitória do Sim e de “fazer uma festa” na cabeça dos movimentos pelo não, ao abrir espaço para uma reflexão. Miguel Jerónimo * A intervenção do Primeiro-Ministro é muito típica dele: repete sempre o mesmo discurso, serena e pausadamente: "Até às 10 semanas. A pedido da mulher. Em estabelecimento autorizado." Repetiu duas vezes em dois momentos diferentes, sem sair da linha. Tudo treinado, sem deslizes. Perfeito. "Festejar discursivamente" não faz parte das técnicas do Primeiro Ministro. RM Etiquetas: referendo do aborto (url)
PORQUE É QUE OS PARTIDOS
que não tomaram posição como o PSD, entendem vir agora fazer declarações formais, ainda por cima na base da posição individual, presume-se de Marques Mendes ? Masoquismo. Etiquetas: referendo do aborto (url)
QUE LOUÇÃ FAÇA O QUE FAZ
tentar arrecadar uns votinhos, entende-se. Mas desiluda-se, não há votinhos para os partidos nos sins do referendo. Etiquetas: referendo do aborto (url)
PARA QUEM ESTÁ "EM CIMA DOS ACONTECIMENTOS"
a falta dos Frescos é enorme. A sua "substituição" é uma lástima, não serve para nada.Etiquetas: referendo do aborto (url)
O QUE TAMBÉM NÃO TEM SENTIDO
é desvalorizar o resultado do referendo.Não há só "mau ganhar" há também "mau perder". Etiquetas: referendo do aborto (url)
SE O PS
entende "capitalizar", como se diz, a "vitória" no referendo, não percebeu nada do que se passou.* É chocante ver as manifestações de alegria no quartel general do PS em Lx e no Porto, visto de repente parecia que tinha sido golo de um clube qualquer!! Não é relevante a minha opção de voto, mas aqui fica, votei NÃO. Filipe Freitas Etiquetas: referendo do aborto (url)
GRITAR VITÓRIA
é um absurdo.* votei sim e tb acho que é um absurdo terem gritado vitória. manuel couto * Vociferar derrota, absurdo também será. Telmo Martins * As pessoas que celebram a vitória por acaso recordar-se-ão (ou saberão) que a lei actualmente em vigor foi anunciada em 1984 como sendo uma lei que poria fim ao «flagelo do aborto clandestino»? José Carlos Santos * Votei sim e também não me agrada o júbilo, mas os que votaram não e agora criticam a euforia, convêm lembrar que em 98 a mesma coisa se passou com os adeptos do não. Nuno Mendes Etiquetas: referendo do aborto (url)
SIM
Parece que sim. * projecções da Televisões: RTP Sim - 57 - 61 Não - 39 - 43 Abstenção - 56 - 60 TVI Sim - 57,6 - 62,6 Não - 37,4 - 42,4 Abstenção -? (Ricardo Vilhena) Etiquetas: referendo do aborto (url)
NO MEIO DO SILÊNCIO FORÇADO 5
Diz quem sabe, aqui ao lado, que a abstenção é inflacionada por cerca de 7% de "abstenção técnica", de eleitores inexistentes mas que não são limpos dos cadernos. Problema, como é obvio, para todas as eleições mas maior num referendo.* Só espero que os níveis de abstenção não sirvam para fingir que não ocorreu nada hoje. A democracia, perdoe-se o plebeísmo, faz-se com quem está! Logo, se ganhar o SIM, venha legislação que expurgue o artº 140 (acho) do Código Penal; se ganhar o NÃO que as Deputadas Teresa Venda e Mario do Rosário insistam (querendo) no seu projecto. (Manuel Henrique Costa) Etiquetas: referendo do aborto (url)
NA SIC
![]() Aqui sentado, a escrever e a comentar, a ler o correio que entretanto chega, a ouvir o que se diz e o que acontece, pareço um daqueles deuses indianos com muitos braços. Pareço, só pareço. Através da caixa de correio do blogue todas as contribuições serão bem vindas, como de costume. Etiquetas: referendo do aborto (url) A campanha do referendo trouxe algumas novidades, mais sobre o campo comunicacional do que sobre a controvérsia do "sim" e do "não" ao aborto. Um exemplo: pela primeira vez, Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) existiu na blogosfera e mais amplamente na Rede. MRS, enquanto político que funciona como um mini-partido, teve um papel na Rede através da colocação de alguns vídeos no YouTube. Trata-se de uma intervenção profissionalizada, os vídeos não tem aquelas características granulares dos vídeo amadores, e geraram um efeito de novidade e sensação. MRS nunca o tinha conseguido na Rede, onde os seus comentários televisivos e os seus artigos não provocam praticamente reacções. O desejo de MRS de, também na Rede, ter um papel idêntico ao que tem na televisão e nalguns jornais é evidente. Ele tem um "blogue" chamado "Blogue" no Sol, em papel, e que não sobreviveria cinco segundos no ambiente ácido da blogosfera se fosse mesmo um blogue a sério. Agora, mais como político activo do que como comentador, conseguiu-o. Duvido que tenha continuidade, mas vai-se ver. A ambivalência da relação de MRS com a blogosfera foi patente no diferente sucesso do vídeo de MRS e na resposta dada pela circulação do contra-vídeo humorístico do Gato Fedorento. O vídeo e o contra-vídeo, não colocam frente a frente o vídeo original de MRS no YouTube com o programa do Gato Fedorento na RTP, mas sim com a circulação espontânea do extracto que lhe diz respeito no YouTube e a sua colocação em dezenas de blogues, quer do "sim", quer do "não". O fenómeno do Gato Fedorento é indissociável da circulação dos seus vídeos pirateados na Rede, muitas vezes colocados por vários utilizadores ao mesmo tempo e tendo depois uma circulação com regras próprias da influência na Rede que são diferentes das dos jornais e da televisão. Isto para dizer que, enquanto MRS não tem uma "cultura de blogue", o Gato Fedorento tem, logo os seus produtos "circulam" melhor. O principal efeito do vídeo de MRS foi fora da Rede, na imprensa, porque, passado um efeito inicial, fora dos sítios onde o vídeo era divulgado por razões de proselitismo do "não", foi a "resposta" do Gato Fedorento que se tornou eficaz. Note-se que o sketch do Gato Fedorento não era mais do que uma paródia humorística como muitas outras e foi o modo como circulou na Rede que o tornou numa "resposta", logo num elemento de campanha no referendo. Etiquetas: referendo do aborto (url)
NO MEIO DO SILÊNCIO FORÇADO 3
A questão do aborto era, à partida, uma questão "cansada". Ela permanece sempre sottovoce na agenda pública, como uma questão de baixa intensidade, um rumor que nunca se apaga. O primeiro referendo e as sucessivas votações na Assembleia deram-lhe momentos de alta intensidade, de muito ruído. A abstenção irá dizer até que ponto este "cansaço" foi agravado pela campanha do segundo referendo, e ,na análise da votação do "sim" e do "não", perceber-se-á até que ponto o mesmo "cansaço" condiciona uma ou outra resposta. Nota: À chegada, a abstenção também parece mostrar que continua "cansada". Etiquetas: referendo do aborto (url)
NO MEIO DO SILÊNCIO FORÇADO 2
A vitória do "sim" ou do "não" não é relevante em termos de política nacional. Mais do que uma medida do estado do país político, será uma medida, um retrato da sociedade que emergirá do voto. Será mais relevante retirar conclusões, hipóteses, sobre o grau de laicização da sociedade, o papel da Igreja, a influência das elites, os hábitos sociais, os mecanismos de conformidade e pertença, etc., etc., do que sobre se o PS, o PCP, o BE ou o PSD ficam bem ou mal com o resultado do referendo. Etiquetas: referendo do aborto (url)
NO MEIO DO SILÊNCIO FORÇADO 1
O absurdo deste "dia de reflexão", ainda por cima entendido por muitos de forma mais que restritiva, gera um silêncio incomodado, uma paragem da máquina da informação que não tem qualquer sentido. Induz censura e auto-censura, implica que notícias não possam ser dadas quando acontecem, enfim, um artificialismo sem sentido e sem função. Ainda se podia admitir que houvesse um silêncio das campanhas, que não fosse permitido haver actividades de campanha, comícios, sessões, proclamações e distribuição de panfletos nas ruas. Agora que não haja, sábado ou domingo, notícias de sexta-feira ou de sábado, não tem qualquer sentido.Etiquetas: referendo do aborto (url) 10.2.07
(url) EARLY MORNING BLOGS
![]() 965 - Soneto Fiel Vocábulos de sílica, aspereza, chuva nas dunas,tojos,animais caçados entre névoas matinais, a beleza que têm se é beleza. O trabalho da plaina portuguesa, as ondas de madeira artesanais deixando o seu fulgor nos areais, a solidão coalhada sobre a mesa. As sílabas de cedro, de papel, a espuma vegetal, o selo de água, caindo-me nas mãos desde o início. O abat-jour,o seu luar fiel, insinuando sem amor nem mágoa a noite que cercou o meu ofício. (Carlos de Oliveira) * Bom dia! (url) 9.2.07
(url) CUIDADO COM AS CITAÇÕES FORA DO CONTEXTO A tese de Cunhal sobre o aborto tem sido utilizada como argumento a favor quer do mérito de Cunhal (com um olho nos Grandes Portugueses), quer como argumentário a favor do "sim". Convinha maior prudência nestas utilizações, porque a posição de Cunhal (e do PCP) não era tão linear como se pensa. A razão é simples: a URSS proibia então o aborto. Nesta matéria, nem sequer se pode alegar desconhecimento dos difíceis materiais clandestinos, dado que os referi com detalhe na análise à tese de Cunhal e aos seus artigos sobre o "corpo", no primeiro volume da biografia que escrevi. Mas há quem prefira passar ao lado, fazer de conta. O artigo que reproduzo foi publicado no Avante! clandestino nº 60, da 4ª semana de Novembro de 1937 e é, muito provavelmente, do próprio Cunhal (a outra hipotese é Pável) que escrevia sobre temas dos jovens, da família, da sexualidade, da vida saudável e da sua incompatibilidade com a sociedade capitalista. Como se vê, as coisas são um pouco menos simples. Etiquetas: PCP, referendo do aborto, Álvaro Cunhal (url) (url) NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A CIVILIZAÇÃO QUE HOJE NÃO SERIA POLITICAMENTE CORRECTA Em 1965, o historiador de arte inglês Kenneth Clark realizou para a BBC uma série de filmes destinados a fornecer uma leitura da "civilização", a nossa, a ocidental, a europeia. A série foi um enorme sucesso quer na Europa, quer nos EUA, no final da década de sessenta, tendo passado em Portugal já há bastante tempo no segundo canal. Está hoje esquecida nos armazéns, embora muitos dos que a viram lhe permaneçam fiéis, de tal modo que a BBC a reeditou em DVD. Presumo que não seja fácil encontrá-lo por cá, mas pode ser encomendado, mas vale sempre a pena pedir à RTP que a passe sem ser no Canal Memória.Eu sou um desses fiéis à série, com uma memória viva de muitos episódios e da imagem de Kenneth Clark, a quatro anos de ser Sir, a andar muito composto pelos sítios da "civilização", desde as ilhas remotas da Irlanda céltica, à Bizâncio transformada em Istambul. Sempre falando um inglês perfeito, sem medo de usar palavras que hoje não caberiam no saber das audiências, como um "modicum" em latim no meio de uma frase, passando de um tom de conversação solta para um poema anglo-saxónico, ou uma frase de Virgílio (ele não diz apenas a frase de Virgílio, ele diz como "aquela frase muito conhecida de Virgílio", como se fosse suposto que a conhecessemos...). Revendo o episódio inicial, uma meditação sobre a civilização a partir da queda do império romano do Ocidente e dos anos "negros" da Idade Média, ou seja do momento em que a civilização se ia perdendo, Clark diz com a maior das naturalidades coisas hoje indíziveis na BBC. Como por exemplo, sobre a emergência do Islão, que retrata como uma religião simples, poderosa, cruel e bárbara, cuja derrota em Poitiers permitiu a sobrevivência da civilização, ou sobre a própria distinção entre civilização e barbarismo, a partir do cânone greco-latino, de modo muito pouco "multicultural". Toda a "personal view" de Clark sobre a crise da civilização nos séculos V ao X, aparece-nos hoje como vitalmente importante e actual: "It is lack of confidence, more than anything else, that kills a civilisation. We can destroy ourselves by cynicism and disillusion, just as effectively as by bombs." * A respeito da história das civilizações surgiu recentemente em Portugal uma obra que contesta a teoria comum acerca do período das invasões bárbaras e da queda do Império Romano. Esta obra afirma que a queda do Império Romano significou o colapso de uma civilização e a entrada numa "Era das Trevas". A ideia da transição suave entre a civilização romana e os povos bárbaros com o cristianismo como cimento é posta em causa com esta tese que afirma que em muitos aspectos (saneamento, arquitectura, educação, artes, literatura, etc) a Europa regrediu vários séculos nos seus indíces civilizacionais. (url) A Rede é excepcional para a procura utilitária: precisa-se de saber alguma coisa, lá se encontra. (Já é menos capaz para uma procura qualitativa, ou para se "aprender" pela procura, para se aprender pela errância.) As literacias da procura em Rede são conhecimentos vitais sem os quais se é analfabeto funcional, mas implicam conhecimentos que não são evidentes no acto da procura em linha. Implicam ter uma noção de como se devem "ler" os resultados de uma procura e uma noção de como é que esses resultados são produzidos por uma máquina. Por exemplo, é arriscado fazer uma procura sobre a ortografia de uma determinada palavra no Google, presumindo-se que os resultados validam uma grafia. Há sempre em Rede um número significativo de erros de ortografia, para a procura dar resultados aparentes que induzem a possibilidade de se escrever assim, errando. O que acontece é que as literacias que são necessárias para "ler" em Rede comunicam com as que são necessárias para procurar em papel ou noutros meios, umas implicam as outras, e uma aprendizagem de técnicas de procura e investigação é cada vez mais necessária no coração do sistema de ensino e não estão lá. Na "cultura de blogue" aparecem todos os efeitos perversos de "conhecimentos" obtidos em linha, sem qualquer mediação.(Continua) Etiquetas: blogosfera, Internet, Rede (url) ![]() ![]() (Continua) * A minha filha, que é uma vivaça espertalhona, faz um trabalho sobre qualquer coisa, todo bonito e enfeitado, quer em Word, quer em Power Point (geração Sócrates) cheio de efeitos especiais, cores, textos e youtubes só sentada ao computador. Muitos destes trabalhos são impressos, mas muitos vão na pen do MP3 para serem apresentados no computador da escola. Eu sinto-me impotente para controlar ou encarrilar tanta eficiência em frente de um ecrã. A minha memória de fazer trabalhos é certamente muito diferente e muito mais morosa do que a realidade de hoje. No outro dia insistiu que queria imprimir um mapa da Grécia antiga que tinha visto num site qualquer, para estudar para o teste de História. Eu disse que não, que em casa há excelentes Atlas Históricos e que deveria consultá-los pois tinha a certeza de que são bons e bem feitos. Ah, mas eu queria riscá-los, ok, então fazes uma cópia e riscas. Enfim foi um interessante diálogo em que tentei que os textos e os dados em linha não fossem as únicas fontes para os seus trabalhos. Etiquetas: blogosfera, Internet, Rede (url) É uma cultura de copy-paste mais do que de print, entre outras coisas porque imprimir é mais caro e esta cultura vive num mundo potencialmente gratuito. Para além disso, o texto impresso é suposto ser lido fora do ecrã, o que também viola os hábitos. Por fim, a maioria das impressoras é boa para texto e má para imagem, em particular imagem a cores.O uso dominante do copy-paste é para os trabalhos escolares. Muitos professores hoje marcam trabalhos "para serem feitos pela Internet". Um exemplo que já referi e a que assisti: escrever os números em inglês de 1 a 50. Com o copy-paste demorou meia dúzia de segundos, e, com o print, estava feito o trabalho de casa. A adolescente do 6º ano fez o trabalho, com proficiência no uso do copy-paste, no computador de uma biblioteca e ficou a saber rigorosamente o mesmo sobre como se escreviam os números em inglês. A escola e a biblioteca, as duas instituições que era suposto irem mais longe, do copy-paste para o acto de aprender, assistem como espectadoras ou porque não sabem, ou porque não querem, ou porque não podem. Outro uso frequente do copy-paste, mas criativo, é a utilização de imagens, músicas, videos, frases e textos alheios, tal como estão ou remisturados, em particular em blogues. A facilidade do copy-paste permite uma construção de identidade a partir da citação que é também uma apropriação. Aqui o copy-paste apenas dá uma nova instrumentação tecnológica a um mecanismo mais antigo - falar com as palavras dos outros, para dizer melhor aquilo que queremos dizer. (Continua) Etiquetas: blogosfera, Internet, Rede (url) EARLY MORNING BLOGS
![]() 964 - Against Winter The truth is dark under your eyelids. What are you going to do about it? The birds are silent; there's no one to ask. All day long you'll squint at the gray sky. When the wind blows you'll shiver like straw. A meek little lamb you grew your wool Till they came after you with huge shears. Flies hovered over open mouth, Then they, too, flew off like the leaves, The bare branches reached after them in vain. Winter coming. Like the last heroic soldier Of a defeated army, you'll stay at your post, Head bared to the first snow flake. Till a neighbor comes to yell at you, You're crazier than the weather, Charlie. (Charles Simic) * Bom dia! (url) 8.2.07
(url) ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR (url)
A "cultura de blogue" aplica-se a uma geração que segue os "assuntos correntes" pelos blogues, e que apenas a complementa por sítios na Rede que fornecem informação mais estruturada para interesses específicos (por exemplo, sobre futebol, sobre sexo).
![]() Etiquetas: blogosfera, Internet, Rede (url)
A actual campanha publicitária do Público é interessante porque parece voltada em parte para esse público da "cultura de blogue", apelando às suas referências culturais, para o trazer para a imprensa escrita em papel, o que é uma contradição nos seus termos. A contradição tem a ver com o facto dessa "cultura" ser estruturante e dos seus hábitos não serem "em papel". Não só os hábitos não são "em papel", mas sim no ecrã, como a forma de ler em volume e em profundidade (do hipertexto) é diferente da forma de ler em superfície e sequência (dos textos em papel, dos livros). Os hábitos são também mais de "ver" ( e de "ouvir") do que de "ler", o que explica o sucesso do YouTube como percursor de uma Rede em que se vai "ver" mais do que "ler".
Os que já foram moldados pelos hábitos da Rede, os que se habituaram (como muitos adolescentes a chegarem ou nos primeiros anos na universidade) a olhar para o mundo no modo pick and choose típico dos blogues, nunca mais lerão em papel como se lia antes e não há campanha publicitária que os agarre. Vamos ver. (Continua) Etiquetas: blogosfera, Internet, Rede (url) NOTAS SOBRE A "CULTURA DE BLOGUE" 1 Vão começar a chegar à universidade, os primeiros produtos daquilo que se pode chamar a "cultura de blogue", embora outras designações correntes como a da “geração YouTube” também sirvam. No caso português, até porque a banda larga é ainda recente e cara, o blogue é a referência mais estruturada, que se sobrepõe à "cultura prática Kazaa" e à "cultura copy-paste", que começa a dominar do ensino básico em diante. Já vi no passado chegarem à universidade outras variantes destas "culturas" formacionais, educativas, que moldam a relação com o saber, que são literacias, vindas quer da escola, quer do "meio" juvenil. Um exemplo, a "cultura da oralidade" no ensino, quando anos de pedagogias não-directivas e de "ensino sedutor" criaram gerações de alunos que estavam habituados a passar as aulas a falar com os professores. Estes era suposto organizarem as suas aulas para os "seduzir" a aprender (era isso que lhes era ensinado nos "estágios pedagógicos") e os alunos tinham imensa dificuldade em sair da conversa para ler e muito maior para escrever, tarefas forçadas, não-sedutoras.(Continua) * Diz a certa altura : "Vão começar a chegar à universidade, os primeiros produtos daquilo que se pode chamar a "cultura de blogue", embora outras designações correntes como a da "geração YouTube" também sirvam. " Etiquetas: blogosfera, Internet, Rede (url) ESPAÇOS ONDE SE PODE RESPIRAR Foto de uma estrada bucólica em Valencia de Alcántara, Cáceres, Espanha. Por aqui, respira-se ar puro e pode-se conjugar isso com brincadeiras de criança, como fazer balões de sabão. Ao lado, só vacas a amamentar os seus bezerros num ambiente de silêncio incrível.Luís Miguel Pinto (Valencia de Alcántara, Cáceres, Espanha) (url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 8 de Fevereiro de 2007 Já ninguém consegue escrever mais sobre o aborto, mas ninguém consegue deixar de escrever sobre o aborto. Há um cansaço e um vício, fica-se apanhado. Para além da fixação que nos impede de variar, parece que o debate público não suporta deixar de ser monotemático e obsessivo. Depois segue-se um síndroma de abstinência. * Hoje no primeiro noticiário da RTP 1 ás 06,30 assisti a mais um bom exemplo da (má) informação praticada pela televisão pública. (url) EARLY MORNING BLOGS ![]() 963 -At the California Institute of Technology I don't care how God-damn smart these guys are: I'm bored. It's been raining like hell all day long and there's nothing to do. (Richard Brautigan escreveu este poema em 24 de Janeiro de 1967 enquanto "poet-in-residence" no California Institute of Technology.) * Bom dia! (url) 7.2.07
(url)
É PROVÁVEL...
que não valha muito a pena protestar, mas estou há várias horas sem telefone nem Internet (eu e muita gente à minha volta), responsabilidade da Portugal Telecom, sem poder trabalhar como devia, mais uma vez com esta sensação de impunidade (deles) e impotência (minha), face a um serviço que, quando avaria, avaria sempre por muito mais tempo do que devia. Após uma semana com as habituais falhas de energia da EDP, microrupturas e rupturas menos micro, não custa avaliar o preço de tudo isto na produtividade do trabalho em linha, a umas poucas dezenas de quilómetros da capital.* “It is based on the conviction that where effective competition can be created, it is a better way of guiding individual efforts than any other. It does not deny, but even emphasises, that, in order that competition should work beneficially, a carefully thought-out legal framework is required, and that neither the existing nor the past legal rules are free from grave defects. Nor does it deny that where it is impossible to create the conditions necessary to make competition effective, we must resort to other methods of guiding economic activity.” (url) 6.2.07
BIBLIOFILIA: ENTRADAS PARA A LITERATURA Barry Miles, The Beat Hotel. Ginsberg, Burroughs, and Corso in Paris, 1958-1963 Paul L. Mariani, Dream Song: The Life of John Berryman John Berryman, John Berryman: Collected Poems 1937-1971 (url) (url) (url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 6 de Fevereiro de 2007 Cada vez mais a agenda mediática é a agenda do Ministério Público: nas notícias de hoje lá estão os voos da CIA (esta investigação vai ser muito interessante de seguir e de ver os resultados) e "as interferências de Alberto João Jardim no "Jornal da Madeira"". Algo me diz que esta tentativa de criar um Baltazar Garzón português não vai ser brilhante. Live by the press, die by the press.
(url) O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: O DESCONTOZITO... Nos tempos em que todo o comércio era aquilo a que hoje chamamos "tradicional" havia, na maioria dos estabelecimentos, uma curiosa praxe: Mediante a apresentação de um cartão qualquer - mesmo que fosse o de sócio de um clube de futebol! - o lojista fazia, de imediato e com o seu melhor sorriso, um desconto de 10%. E já não me lembraria dessa simpática tradição se não se desse o caso de ter assistido, um dia destes, aos festejos que o Governo promoveu para anunciar a recuperação de 1600 milhões de euros de impostos em atraso - importância que corresponde, precisamente, a 10% do valor estimado da fuga ao fisco em Portugal. Ora ainda bem que se recuperou a tradição de todos se contentarem com tão pouco - quer quem paga, quer quem recebe! (C. Medina Ribeiro) (url) (url) EARLY MORNING BLOGS ![]() 962 - Semântica Electrónica Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado Ordinalmente Ordenadamente Ordeiramente. Mas o desordeiro Quebrou o ordenador E eu já não dou ordens coordenadas Seja a quem for. Então resolvo tomar ordens Menores, maiores, E sou ordenado, Enfim --- o ordenado Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado. --- Mas --- diz-me a ordenança --- Você não pode ordenhar uma máquina: Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca. De mais a mais, você agora é padre, E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha Velhaca, mesmo uma ovelha velha, Quanto mais uma vaca! Pois uma máquina é vicária (você é vigário?): Vaca (em vacância) à vaca. São ordens... Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado, Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa (Para acabar a conversa Como aprendi na Infantaria), Ordenhado chorei meu triste fado. Mas tristeza ordenhada é nata de alegria: E chorei leite condensado, Leite em pó, leite céptico asséptico, Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético! (Vitorino Nemésio) * Bom dia! (url)
INTENDÊNCIA
Actualizada a nota LENDO / VENDO / OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 3 de Fevereiro de 2007. (url) 5.2.07
JARDINS DE INVERNO Hoje, no Polje de Mira-Minde, Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, com uma fria e persistente chuva. Junto ao leito quase seco de uma das exsurgências que alimenta de água o polje, as ruínas de um velho moínho movido pela água. Neste lugar de beleza insólita (um acentuado abatimento de origem tectónica) há registos de vindimas feitas de barco quando, em estações continuadamente chuvosas, o polje enche de água, transformando-se numa grande lagoa temporária. De vez em quando o polje enche. A actividade agrícola, embora se mantenha, não tem a expressão que teve no passado. (Vítor Xavier) (url) NUNCA É TARDE PARA APRENDER: JUSTIÇA DOS VENCEDORES? Justiça dos vencedores? Sem dúvida, mas não só. Li este pequeno livro de Andrew Walker à luz do julgamento de Saddam Hussein, para ver onde é que as diferenças eram evidentes. Não apenas para ver as diferenças, mas para perceber onde elas pesavam. A conclusão é obvia: o julgamento de Saddam teria sido o equivalente a colocar apenas os comunistas alemães ou os russos a julgar Göring e os outros réus. Quase tudo a que do império da lei e do direito (de alguma lei pelo menos), ou seja de "justo", se assistiu no julgamento de Nuremberga deveu-se aos juízes das democracias aliadas que não aceitaram todas as acusações, deram condições de trabalho à defesa, e decidiram inclusive absolvições. A grande diferença entre Nuremberga e Bagdad tem a ver com o facto de Saddam ter sido julgado por iraquianos em vez de o ser por juízes das forças de ocupação. É pouco provável que Saddam escapasse à pena de morte, como Keitel, Jodl, Rosemberg, Ribbentrop e outros também não escaparam, mas teria sido um julgamento mais sério. Claro que não serviria para nada a curto prazo, porque na guerra do Iraque há pouco "high moral ground", tal decisão seria sujeita a outro tipo de acusações, e, com a guerra civil em curso, pouco adiantaria. Mas serviria para o "moral ground" do futuro.* Um dos factos a que se aludiu no julgamento foi a queima por soldados e oficiais alemães da biblioteca de Tolstoy para se aquecerem. Quando alguém objectou, um oficial alemão respondeu que "gostava de se aquecer à luz da literatura russa". * Na defesa das SS, para efeito do veredicto sobre quais eram ou não as "organizações criminosas", uma das testemunhas aludiu às boas condições no campo de concentração de Buchenwald que, entre outras coisas, teria um bordel. Um dos juízes não percebeu a palavra e pediu que fosse repetida. Pela segunda vez não percebeu. O seu colega do lado, que já lhe estava a sussurrar que se tratava de bordel, chegou-se ainda mais e ligou o microfone inadvertidamente enquanto lhe diz "ó homem, bordello, bordel, casa de putas". Foi uma das raras ocasiões em que todos se riram. * Relativamente à comparação entre os julgamentos de Nuremberga e o de Saddam Hussein, estou de acordo consigo quando afirma que houve mais seriedade no primeiro do que no segundo. E, acrescento, também houve mais seriedade nas execuções. Mas convém não esquecer que Saddam Hussein foi apenas um de oito réus e que não foram todos condenados à morte. De facto, houve três condenações à morte, uma condenação a prisão perpétua, três penas de quinze anos de prisão e, inclusivamente, uma absolvição (por falta de provas). (url) EARLY MORNING BLOGS
![]() 961 - Comme le champ semé en verdure foisonne Comme le champ semé en verdure foisonne, De verdure se hausse en tuyau verdissant, Du tuyau se hérisse en épi florissant, D'épi jaunit en grain, que le chaud assaisonne : Et comme en la saison le rustique moissonne Les ondoyants cheveux du sillon blondissant, Les met d'ordre en javelle, et du blé jaunissant Sur le champ dépouillé mille gerbes façonne : Ainsi de peu à peu crût l'empire romain, Tant qu'il fut dépouillé par la barbare main, Qui ne laissa de lui que ces marques antiques Que chacun va pillant : connue on voit le glaneur Cheminant pas à pas recueillir les reliques De ce qui va tombant après le moissonneur. (Joachim du Bellay) * Bom dia! (url) 4.2.07
JARDINS DE INVERNO (url) SEM JARDIM ![]() O Jardim Botânico da Universidade de Coimbra manteve fechadas as portas ao público, pela primeira vez na sua história, por falta de verbas que suportem os custos de o manter aberto durante o fim-de-semana. Segundo o Diário de Coimbra, a direcção prevê mesmo vir a cobrar entrada durante os dias de semana e até se fala em desligar o aquecimento às estufas. Tão desoladas como as ginkgo bilobas que guardam a entrada principal do Jardim devem estar os espíritos guardiães dos Broteros, dos Quintanilhas, dos Fernandes, a assistir de longe enquanto se torna ainda mais inóspita e infértil a sua cidade (Teresa) (url)
DO WINDOWS XP PROFESSIONAL PARA O WINDOWS VISTA ULTIMATE
Mudança sem problemas, como nunca me acontecera, de um sistema operativo para outro. Tudo correu bem e à primeira, sem falhas. Fiquei sem scanner e impressora (ambos da HP), mas já sabia que corria esse risco. Não percebo porque razão a HP ainda só tem um tão pequeno número de drivers disponíveis para o Vista. Instalei também a versão Ultimate do Office 2007 e, embora seja ainda cedo para saber se tudo funciona bem, o Outlook continua a encerrar mal e a demorar muito a receber e a organizar o correio. Vamos ver como as coisas correm com o Word e o Access, os programas que mais utilizo.
(url) (url) EARLY MORNING BLOGS ![]() 960 - Au Démon secret Le peuple, sans perplexité, vénère. Il encense, invoque ou répudie. Il donne trois, ou six ou neuf prosternements. Il mesure son respect à la compétence, aux attributs, aux grâces qu'il escompte juste.Car il sait précisément les goûts du génie de l'âtre ; les dix-huit noms du singe qui donne la pluie ; la cuisson de l'or comestible et du bonheur. o De quelles cérémonies l'honorer ce démon que je loge en moi, qui m'entoure et me pénètre ? De quelles cérémonies bienfaisantes ou maléfiques ? Vais-je agiter mes manches en respect ou brûler des odeurs infectes pour qu'il fuie ? De quels mots d'injures ou glorieux le traiter dans ma vénération quotidienne : est-il le Conseiller, le Devin, le Persécuteur, le Mauvais ? Ou bien Père et grand Ami fidèle ? o J'ai tenté tout cela et il demeure, le même en sa diversité, Puisqu’il le faut, ô Sans-figure, ne t'en va point de moi que tu habites : Puisque je n'ai pu te chasser ni te haïr, reçois mes honneurs secrets. (Victor Segalen)
* Bom dia! (url) 3.2.07
(url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 3 de Fevereiro de 2007 ![]() Hoje no Diário de Notícias Sarsfield Cabral faz uma pergunta interessante, embora capciosa na forma como a desenvolve: "Ora, se a ética é afastada numa sociedade amoral, porque não, então, legalizar a poligamia (e também a poliandria, para ser politicamente correcto), onde ela ocorra com alguma frequência? Na Holanda foi recentemente tentada a criação de um partido pedófilo..."Duas precisões. Uma, a pergunta sobre a poligamia (mais do que sobre a poliandria, que não parece ter muitos exemplos no mundo, se exceptuarmos as muito controversas teses de Margaret Mead) não implica qualquer ilação de que só possa ser colocada quando " a ética é afastada numa sociedade amoral". Porquê? Tanto quanto se sabe a poligamia é legal em muitas partes do mundo, em particular em terras do Islão, e não me parece que tal se deva a qualquer "amoralidade" especial. Os bons, crentes e tementes a Deus, mórmons praticavam-na e praticam-na (às escondidas) sem que isso signifique que não pautem a sua vida por rigorosos e estritos padrões morais. Também não me parece que a poligamia implique qualquer instabilidade social própria, e o Utah é um estado particularmente pacífico e próspero. A pergunta sobre a legalização da poligamia (ou da poliandria) tem pois sentido e pode ser formulada sem qualquer quebra do tónus moral da sociedade. A segunda afirmação, sobre a "a criação de um partido pedófilo" na Holanda, é evidentemente capciosa, pois nada há que permita comparar a poligamia com a pedofilia. É que entre outras coisas (sem diminuir a complexidade da questão da pedofilia que não é tão simples como se pensa) um dos principais problemas morais da pedofilia prende-se com a violência do poder dos adultos e da sua sexualidade sobre as crianças e com a incapacidade destas de livre arbítrio e auto-determinação individual. Ora indo por aqui na questão do aborto, falando de livre arbítrio e auto-determinação individual talvez não se chegue onde Sarsfield Cabral queria chegar... * Também li o artigo de Sarsfield e permita-me discordar. Na minha opinião a questão da pedofilia está muito mais perto da questão do aborto que a questão da poligamia / poliandria. * Há um cuidado especial que deve ser tido com as edições em linha e que mesmo uma edição mais cuidada (como a do Público) não tem. Por exemplo, hoje,"PEDRO BACELAR DE VASCONCELOS Ordem dos Médicos e cultura da justiça não permitiram que isto se resolvesse * A propósito de cuidados que não se têm nas notícias, em particular nesta do Público, a Nova de Lisboa é uma Universidade pública! Etiquetas: poligamia, Público, referendo do aborto (url) (url) EARLY MORNING BLOGS
![]() 959 - Animula vagula blandula Animula vagula blandula Hospes comesque corporis Quae nunc abibis in loca Pallidula rigida nudula Nec ut soles, dabis iocos. (Adriano) * Bom dia! (url) 2.2.07
LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 2 de Fevereiro de 2007 (2) No noticiário da SIC das 20 horas uma peça muito pouco rigorosa sobre o aquecimento global, que incluía a afirmação de que os efeitos do aquecimento são idênticos aos de uma lareira numa sala fechada que "aquece tanto que até se pode morrer" (mais ou menos estas palavras). A não ser que a lareira pegue fogo à casa, morre-se é devido a envenenamento por monóxido de carbono e não pelo calor. Não pode ser...Etiquetas: aquecimento global, jornalismo, SIC (url) (url)
INTENDÊNCIA
Actualizada A VIDA E A "VIDA" com novas notas ao texto e contribuições dos leitores. (url) (url) LENDOVENDO OUVINDO ÁTOMOS E BITS de 2 de Fevereiro de 2007 Notícias da frente: Jimmy Wales fundador da Wikipedia fala do seu novo projecto Wikia. En passant, vendo esta pequena conferência, normalíssima, sem formalismos, dada numa aula de Evan Korth, num curso intitulado "Computer’s and Society" na NYU, percebe-se como funcionam as universidades americanas. Etiquetas: Jimmy Wales, Wikia, Wikipedia (url) OS NOVOS DESCOBRIMENTOS / NOVOS BOLETINS METEOROLÓGICOS ![]() Nuvens densas no Polo Norte de Titã. Não é boa altura para ir lá de férias, é melhor irem para Nova Brasil em Vénus, onde está calor. (url) EARLY MORNING BLOGS ![]() 958 - History History has to live with what was here, clutching and close to fumbling all we had-- it is so dull and gruesome how we die, unlike writing, life never finishes. Abel was finished; death is not remote, a flash-in-the-pan electrifies the skeptic, his cows crowding like skulls against high-voltage wire, his baby crying all night like a new machine. As in our Bibles, white-faced, predatory, the beautiful, mist-drunken hunter's moon ascends-- a child could give it a face: two holes, two holes, my eyes, my mouth, between them a skull's no-nose-- O there's a terrifying innocence in my face drenched with the silver salvage of the mornfrost. (Robert Lowell) * Bom dia! (url) 1.2.07
A VIDA E A "VIDA" ![]() Há um aspecto do debate sobre o aborto que está muito presente nas tomadas de posição do "sim" e, particularmente, no "não": a impregnação do debate por palavras com um sentido cultural, político e religioso determinado, apresentadas como se fossem universalmente aceites e semanticamente unívocas. Como se o significado que lhes damos fosse universal e estivéssemos todos de acordo. É o caso da "liberdade" no argumentário do "sim" e da "vida" no do "não". Ambas as palavras são utilizadas correntemente como se fossem neutras, como se uns e outros tivessem que as aceitar pelo seu valor facial, como se não quisessem dizer mais do que o dizem na linguagem corrente. Na verdade nenhum dos termos é "inocente", nenhum aponta para coisas que todos reconheçam, mas, pelo contrário, remetem para uma longa história cultural, política, filosófica e religiosa, que numas vezes é comum, noutras se distingue e se diferencia. Como num debate político ganha quem consegue impor um léxico que controla, na imposição e na aceitação de um ou de outro significado da palavra enganadoramente comum está também presente uma questão de poder. É muito nítido este problema quando se fala de "vida", quando numa manifestação se grita "viva a vida", o que por si só deveria levar de imediato a pensar que a "vida" que se vitoria é uma determinada interpretação da vida e não a vida tout court. No vocabulário do "sim", a palavra "liberdade" é normalmente caracterizada, ou de "liberdade de escolha", ou de "liberdade do corpo", ou de "liberdade de consciência", remetendo para uma tradição derivada de uma ética laica, civil, jurídica e societal, que é a típica das sociedades ocidentais europeias e americanas dos últimos duzentos anos. Remete para a "felicidade terrestre" de que falava Saint-Just, e para toda uma história do pensamento que nos acompanha desde a Grécia clássica e que se tornou a ética civil dominante, como resultado de um complexo processo que nos deu os direitos humanos, a condenação da pena de morte e da tortura, o casamento civil e o divórcio, o "registo civil", a democracia política, a separação do Estado e da Igreja, a tolerância entre posições políticas, credos e culturas. Por muito que isso custe a muitos católicos, a Igreja não teve um papel central em nenhum destes adquiridos, que hoje aceita como natural ou mesmo civilizacional. Bem pelo contrário, combateu-os com veemência e foi só nas últimas décadas que abandonou a posição "antimoderna" de muitos dos seus papas entre meados do século XIX e XX. Foi em bom rigor só depois da Segunda Guerra Mundial, devido aos esforços de muitos teólogos e hierarcas da Igreja, incluindo o presente Papa, que se aceitou a modernidade como não sendo hostil ao munus religioso, que se aceitou a modernidade como benéfica, mesmo que problemática.Este adquirido civilizacional de uma sociedade civil, de que fazem parte as Igrejas, mas que não é dominado pelas Igrejas, resultou de um processo em que participaram correntes contraditórias, jacobinas e liberais, nuns casos resultado da fundamentação da liberdade política no direito à dissidência religiosa (EUA), noutros das ideias da Revolução Francesa. Em ambos os casos, mesmo com tradições muito distintas, o resultado foi o mesmo: a predominância do "terrestre" na "felicidade" e na criação de sociedades que não têm nenhuma teleologia comummente aceite. Dentro dessas sociedades as religiões e as Igrejas tem um papel decisivo, em particular as grandes Igrejas matriciais do Ocidente, a católica apostólica romana, a ortodoxa grega, a reformada, a anglicana, mas esse papel varia não só em função do peso da instituição na "Igreja" como também pela laicização das sociedades civis, que no fundo aplicou a afirmação cristã de que se deve dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Dentro desse princípio, que molda o mundo em que vivemos, deve a vida (a vida e não a "vida") pertencer a César ou a Deus? Esta é a questão que está em causa neste referendo e está longe de ser simples a não ser para aqueles que consideram que existe na vida uma presença divina, uma "alma", um "sopro divino", que permanece intangível desde a fecundação, porque é "em potência" um ser humano. Muitos católicos envolvidos neste debate e a própria Igreja têm esta posição hoje. Mas só para se perceber que não é simples esta definição de "vida" há que lembrar que, por exemplo para alguns budistas e hindus, o mesmo "sopro divino" não se limita aos humanos, mas também está presente nos animais, que nós matamos sem respeito pela "vida" e eles não.Mesmo para a Igreja esta interpretação da vida é relativamente recente. O Catecismo da Igreja Católica admitiu na sua primeira edição a pena de morte, e mesmo na aprovação das excepções previstas para o aborto na actual lei, aceites por muitos católicos, já há uma cedência à intangibilidade da "vida" como princípio. Na verdade, esta posição sobre a "vida" tem muitos pressupostos que são intrinsecamente religiosos e de fé, e que ou são aceites ou não, mas não podem ser considerados auto-evidentes para quem não tem fé. Implica, por exemplo, a ideia de que existe uma "alma" - chamemos-lhe o que quisermos vai sempre dar aí -, uma presença espiritual que está para além do corpo, um Logos de natureza radicalmente alheia à mecânica do corpo, que não se reduz a ele, que está para além dele, que é imortal. A "vida" a que se bate palmas nas manifestações é mais do que a do corpo, é a da criação divina, e compreende-se que, sendo entendida como pertencendo a Deus, não se queira dá-la a César, ao Estado moderno. A forma como se discute a questão do aborto obscurece o facto de que o aborto não é um problema de fundo nas sociedades actuais. O que é um problema de fundo é o planeamento "familiar". Não custa admitir que, a prazo, com a evolução das técnicas anti-conceptivas, com a possibilidade da interrupção da gravidez quando estas falharem, com uma melhor educação sexual, com melhores serviços de planeamento "familiar", com uma melhor educação, acesso aos medicamentos e melhores condições de vida, o aborto se torne residual, se torne excepcional, deixe de ser um problema social para se tornar uma patologia individual. Pelo contrário, o controlo pela mulher, pelo casal, da maternidade permanecerá uma questão central da possibilidade de se garantir a cada um viver a vida que deseja. A ilicitude, com a carga de humilhação. dificuldade e preço que comporta, mantém o problema como sendo social, logo impede a sua mera assunção pelo Estado como sendo um problema individual, como sendo um problema de consciência no qual imperam apenas convicções próprias, ou uma moralidade assente na fé. E se eu não acreditar que há uma "alma" e me basta o código genético, e se eu for materialista e entender o corpo como uma máquina aperfeiçoada apenas pela evolução natural e resumir o Logos a um produto dessa mesma máquina, e se eu entender que verdadeiramente tudo tem a ver com o "egoísmo" dos genes e for sociobiológico, será que tenho que aceitar esta visão da "vida" mesmo sem fé? E se eu considerar que não há "vida" passível de ser descrita pela ciência a não ser como excepção temporária e precária à segunda lei da termodinâmica e entender que para perceber essa violação da entropia que é o metabolismo, a que chamamos vida, não preciso de qualquer princípio vital? E se eu no meu laboratório não encontrar nem Deus nem a "vida", mesmo desejando encontrá-los, será que me coloco fora dos valores civilizacionais? E se eu considerar que uma coisa é esta "vida" divina e outra é a vida, mais modesta, menos programática, mais humilde, menos pretensiosa, mais "terrestre", que inclui não apenas a criação mas o desejo da criação, que implica mais do que o código genético, ou o acto da fecundação, mas a vontade de a criar, exigindo um "programa" que inclua a vontade dos seus progenitores, coloco-me à margem dos nossos valores civilizacionais? A "vida" a que se bate palmas é apenas uma das muitas interpretações da vida como valor, que assenta numa fé de carácter religioso e numa interpretação que depois extravasa para a aceitação selectiva de determinadas doutrinas éticas e "científicas" que estão longe de ser as únicas e de serem incontroversas.A construção de uma ética social aceitável como um adquirido comum é obviamente muito complexa e implica contribuições de muitas origens com relevo para as tradições culturais com origem na religiosidade, que moldam muito uma sensibilidade profunda "popular", mas inclui sempre "práticas" que lhe escapam porque envolvem "problemas" que, sendo societais, são resolvidos em conflito com a norma religiosa ou civil. O aborto é claramente um desses casos. Reduzi-lo na lei a uma norma puramente religiosa-filosófica será sempre inaceitável ou porque redutor da realidade "vivida", ou porque colide com outras tradições culturais, políticas ou religiosas cujo estatuto ético não pode ser considerado menor.Assim não nos entendemos porque me pedem que acredite, e acreditar não está ao alcance de todos. O que é que sobra? Um terreno comum entre a sociedade civil laica e a tradição cristã: a consideração da pessoa humana (também um conceito construído), um personalismo mínimo, que abrange realidades metapolíticas e metassociais mas não é metafísico, esse sim, produto comum da nossa história civilizacional que une laicos e crentes. É isto uma defesa do relativismo? Bem pelo contrário: nenhum relativismo vale quando se trata de pôr em causa a pessoa humana, mas a pessoa humana, cuja noção de "dignidade" une muito dos que defendem o "sim" e o "não", é uma coisa bem diferente da "vida" a que se bate palmas nas manifestações. Ah! e admite o aborto, sem lhe retirar todos os dilemas morais e religiosos, tal como está legislado na maioria dos países europeus e nos EUA, que foram feitos pela nossa civilização. Somos nós a excepção, não eles. É, por isso, necessária muita prudência ao usar as palavras como valores civilizacionais comuns, quando o que é civilizacional é a convivência de diferentes entendimentos das mesmas palavras e não tanto uma determinada interpretação, muito menos imposta por lei, muito menos pretendendo o monopólio da moral e da civilização. (No Público de 1 de Fevereiro de 2007) * Quando no seu texto refere que o Catecismo da Igreja Católica admitiu a pena de morte, não deve esquecer-se – aliás, cita-o no passo seguinte – que o fez num conflito de valores, entre o valor da vida e o da justiça («culpado», «agressor injusto»). Nunca, pelo menos nos tempos modernos, a Igreja aprovou a morte como meio legítimo, especialmente a morte intra-uterina, mesmo em situações extremas. Etiquetas: Igreja Católica, referendo do aborto, vida, ética (url) RETRATOS DO TRABALHO EM DILI, TIMOR (Amilcar A.) Etiquetas: trabalho - retratos (url) (url)
NUNCA É TARDE PARA APRENDER: A "CULPA" É MESMO DE LEO STRAUSS?
Duvido, duvido muito e depois de ler este livro ainda duvido mais. A "culpa", esclareça-se, é a "culpa" do "império", de Bagdad, da hostilidade anti-árabe, de responsabilidade dos "neo-cons", essas personificações modernas do Dr. Strangelove.Este é um daqueles livros que numa ou noutra página, conseguem mostrar uma grande qualidade analítica e depois falhar o ponto essencial: mostrar até que ponto existe uma relação entre os ensinamentos de Leo Strauss, o seu grupo de discípulos e o chamado neo-conservadorismo que teria dominado a presidência "imperial" de Bush filho. É um livro muito bem escrito, fluente, rápido, cheio de insights e pequenas histórias académicas típicas do mundo das grandes universidades americanas, mas está longe de corresponder à tese do título. Não é que não haja relações e influências entre Leo Strauss e os seus alunos "imperialistas", como aliás acontece com outros autores e académicos europeus e americanos, só que nunca é clara no livro a relação de causa. O ponto é tanto mais falhado quanto sempre que Anne Norton vai mais fundo no pensamento de Strauss (por exemplo na importância que atribuía a autores como Maimónides ou al-Farabi na construção de uma ciência política) mais distante este aparece do neo-conservadorismo dos seus alunos. Strauss, um judeu fugitivo da Europa, como Hannah Arendt, sempre se preocupou com a difícil junção entre a Atenas racional e a Jerusalém da revelação, com o estado totalitário nazi e comunista, e isso foram antídotos contra tomar à letra a dicotomia "amigo/inimigo" como fundadora da política, que importara de Schmitt. Talvez seja por isso que o livro é mais sobre os "straussians", descritos quase como uma seita maçónica, do que sobre Strauss. Sobre os "straussians", Anne Norton, ela própria aluna de Joseph Cropsey, autor com Strauss da History of Political Philosophy, consegue uma leitura que oscila entre uma atracção que não consegue evitar, tal o brilhantismo e a seriedade intelectual e académica de muitos deles, e a recusa da sua política, ou do que interpreta como sendo a sua política. É nessa contradição que se encontram as melhores páginas deste livro, como quando escreve sobre o papel da guerra "Strauss saw, as Nietszche had before him, hazards in the softness and civility of modern life.(...) Such a life, as Nietszche, Schmitt. Strauss and Kojève feared, was a life of small pleasures and small ambition, few risks and few achievements, few dangers and little greatness of soul. The old virtues of courage and daring would be lost. people bred to so quiet life would be as cats are to tigers, tamed and diminished."e, logo em seguida, em resposta, Norton escreve uma apologia do "Last Man" da democracia, "ordinary people who will take on the burdens of greatness at need (...) Democracy has thaught them that honour is greater than glory". Analisando o conservadorismo americano das últimas décadas, Norton revela bem algumas das suas contradições e algumas das suas peculiaridades especificamente americanas - o seu "revolucionarismo", por exemplo, muito pouco conservador, e que chocaria os seus congéneres europeus se os houvesse - mas não escapa à amálgama e à facilidade como quando compara alguns autores como Perle, Kristol e Wolfovitz ao pensamento da Al-Qaida e ao fundamentalismo muçulmano. (E no entanto quando fala da jihad, quase que acerta porque o conceito islâmico é bem menos simples do que se pensa e aplica-se como uma luva a alguns textos neo-conservadores...) Etiquetas: Leo Strauss, Neo-conservadores (url) (url)
© José Pacheco Pereira
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