ABRUPTO

31.12.06


JARDINS DE INVERNO


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JARDINS DE INVERNO

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JARDINS DE INVERNO

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 31 de Dezembro de 2006

Em breve, como de costume,

BOAS / PÉSSIMAS COISAS NA COMUNICAÇÃO SOCIAL PORTUGUESA EM 2006, VISTAS POR UM GRANDE (EM QUANTIDADE) CONSUMIDOR.

*

Fui apanhado de surpresa pelas reacções ao enforcamento de Saddam Hussein. Será que isto revela somente que ainda sou muito ingénuo? Quero dizer desde já que estou de acordo com quem defende que seria preferível que a execução só tivesse lugar depois de os americanos terem abandonado o Iraque, que também acho que me pareceu haver uma pressa estranha em
todo o processo e, finalmente, que me inclino a ser da opinião de que ele também deveria também ter sido julgado pelos restantes crimes de que é acusado. Mas toda esta atitude de se considerar bárbara a sua execução e mesmo um retrocesso civilizacional é algo que não compreendo. Em primeiro lugar porque a pena de morte está em vigor em vários países
considerados civilizados (nos Estados Unidos e no Japão, por exemplo), em segundo lugar porque está em vigor na generalidade dos países da região e, em terceiro lugar, porque, obviamente, a pena de morte estava em vigor no Iraque no tempo de Saddam Hussein. Sendo assim, como é que integrar a pena de morte no código civil iraquiano pode ser um retrocesso civilizacional?

Por outro lado, porque é que os crimes cometidos por Saddam Hussein não provocaram a mesma comoção? Cada vez me parece mais que foi Estaline quem melhor captou a maneira de pensar subjacente a esta atitude com a célebre frase «Uma morte é uma tragédia, milhões de mortes é somente um dado estatístico.» Para além de se ver aqui mais uma vez uma perturbante dualidade de critérios. Por exemplo, Ana Gomes escreveu aqui a propósito da morte de Pinochet que «[d]urante anos viajou, na casa que levei às costas, de país para país, uma garrafa de champanhe. Para abrir no dia em que Pinochet morresse ou fosse preso.» Não consta que a senhora deputada tenha aberto uma pela morte de Saddam, ou que tenha declarado que não abriria a destinada a Pinochet caso este fosse executado. Porque será?

(José Carlos Santos)
*

Como seria de esperar num país onde não se aprende a discutir e onde os
sound-bytes são encaradas pela generalidade da população como a forma
suprema de argumentação, o texto que lhe enviei relativo à execução de
Saddam Hussein desencadeou reacções pavlovianas. Quem lesse as respostas
que publicou pensaria que o meu texto defendia a execução, quando em
nenhuma passagem mencionei a minha concordância ou discordância com esta
e fui ao ponto de criticar o facto de ter tido lugar nas circunstâncias
em que teve lugar. De facto, o meu texto não foi, obviamente, um texto a
favor nem contra a pena de morte. Aquilo que afirmei (e que mantenho) é
somente que a expressão «retrocesso civilizacional» não pode, pelas
razões que expus, ser empregue neste caso. De facto, sou da opinião de
que constituiu mesmo um avanço civilizacional, pelo facto de Saddam ter
sido somente executado mas não torturado.

Quanto à longa lista de irregularidades (estou a ser eufemístico)
exposta pelo seu leitor António Cardoso da Conceição relativamente ao
julgamento, agradeço-lhe o trabalho. Só reforçou a minha opinião de que
o julgamento já tinha o desfecho condicionado à partida. Por acaso terá
extraído ele do meu texto que eu pensaria outra coisa?

(José Carlos Santos)

*

Com efeito, aquela perspectiva assenta num raciocínio lógico e disciplinar, apontando para as regras pré-estabelecidas - de acordo - que fazem juz ao conhecido ditado de que "quem com ferros mata, com ferros morre". Ora, parece-me que o que devemos por em causa são essas regras, aqui e lá, em qualquer parte do mundo dito civilizado.


Não me bastará, assim, invocar o meu desacordo com qualquer pena de morte, nem por um princípio religioso, nem por qualquer convicção "fundamentalista". O que coloco em causa, se quisermos até, apenas numa perspectiva das tais regras que uma sociedade deve possuir, é se este método é o mais eficaz não para o condenado mas para a "sociedade" punidora.

Sabemos que, dentro de algum tempo, este facto acaba por esquecer. E não servirá mais como exemplo, como medida preventiva para outras atitudes desumanas como as cometidas por aquele condenado. Defendo, isso sim, castigos severos em vida porque aí sofre o prevaricador e sofrem as pessoas em geral na comunidade.

Todos condenámos as atitudes daquele ditador; todos condenamos as atitudes de guerra seja ela onde e quando for.

Não se trata, apenas, de uma questão de direito á vida; trata-se, isso sim, de uma questão de dignidade colectiva que a sociedade, a breve prazo, terá que resolver. Esta e muitas outras sob pena de, a não inverter este rumo, ela própria ficar condenada à sua própria execução.

(Francisco Teixeira)

*

Leio as palavras de José Carlos Santos sobre o enforcamento de Saddam Hussein e não as compreendo. Não está em causa, a morte de Saddam, nem estão em causa os modos bárbaros e desumanos como o mundo árabe executa os seus criminosos. Isso é outro tema. Não está sequer em causa a pena de morte, cuja abolição secular faz de nós portugueses, com todo os nossos outros infinitos defeitos, um povo superior.
O que está em causa é a farsa intolerável que foi o julgamento de Saddam. O que está em causa é, essencialmente, o regozijo expresso e infame de Georges W. Bush com o desenlace dessa farsa. Indigna de um líder ocidental e, sobretudo, indigna do presidente da que já foi a pátria da liberdade.

Num Iraque em guerra, todos compreendedríamos que, no momento da sua captura, as tropas americanas tivessem simulado um acto de resistência do antigo ditador iraquiano e o tivessem imediatamente liquidado no acto. Não tendo escolhido essa via, optando por proceder à sua captura, tinham os americanos, como imperativo moral absolutamente categórico, a obrigação de assegurar que esse julgamento fosse justo. Não asseguraram. Desonraram-se e desonraram o povo que representam.
Porque José Carlos Santos Santos não se lembra, porque muitos outros José Carlos Santos não se lembram, valerá a pena recordar aqui que:

• Três advogados de Saddam foram assassinados durante o processo;
• Houve pressões públicas de membros do governo iraquiano, para que o Tribunal produzisse uma rápida condenação;
• O comité de dabaasificação removeu e substituiu, pelo menos, um juiz que se empenhou demasiado em ouvir os arguidos no processo e que, com essa substituição, perdeu o direito de viver na segura zona verde de Bagdad;
• Os arguidos nunca tiveram o direito de conhecer indvidual e especificadamente aquilo de que eram acusados, havendo apenas uma acusação genérica sobre os acontecimentos do processo Dujail?;
• O tribunal não aceitou a junção ao processo de quaisquer provas que pudessem indiciar a inocência dos arguidos;
• As provas da apresentadas pela acusação foram frequentemente ocultadas à defesa e, quando lhe era dado conhecimento das mesmas, não lhe era dado o tempo adequado para preparar o contraditório;
• Houve muitos documentos atribuídos ao governo de Saddam, que fundamentaram a acusação, mas que nunca foram devidamente autenticados, como documentos oficiais do governo de Saddam;
• O julgamento ocorreu no país e na cidade mais inseguros do mundo, sem que às testemunhas de defesa dos arguidos fosse assegurada qualquer protecção.

Podemos nós, os herdeiros da cultura, da civilização e dos valores do ocidente, aceitar a validade deste julgamento? Não, não podemos! Não podemos, de maneira nenhuma, aceitar que Saddam tenha sido julgado da mesma maneira que ele nos teria julgado a nós.

- Tal como um cão!
E era como se a vergonha devesse sobreviver-lhe.
As palavras são de Kafka, a encerrar O processo. Lembrei-me delas ao ver as imagens do enforcamento da Saddam Hussein.

(António Cardoso da Conceição)

*

Que "a pena de morte está em vigor em vários países considerados civilizados", que "está em vigor na generalidade dos países da região" e que "estava em vigor no Iraque no tempo de Saddam Hussein", é a melhor colecção de argumentos que já li a favor da pena de morte. Que não está na maior parte dos países considerados civilizados, que os exemplos que da região vêm não têm sido últimamente os melhores e que o que estava em vigor no tempo de Saddam é precisamente o contrário daquilo a que vulgarmente se chama civilização, parece não ser argumento para alguns. Fez bem, desta vez, a generalidade dos países europeus em condenar a execução. Pela mesma razão por que me indigno quando o poder se verga perante as exigências descabidas (reais ou não) de algum grupo de fundamentalistas, me devo orgulhar quando o mesmo faz ouvir os valores de que me orgulho na civilização a que pertenço.

E depois há o argumento a preto e branco, claro! Quem não ficou no mínimo triste por não ver o homem pendurardo (esperem que há-de vir...) é um esquerdista perigoso que ignora as atrocidades de Estaline e deita foguetes quando morre um fascista. É sempre assim e, pior, há-de ainda por muito tempo continuar a ser; esperem uns dias pela campanha do próximo referendo e verão...

(João Tinoco)

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EARLY MORNING BLOGS

938 - The Visionary

Silent is the house: all are laid asleep:
One alone looks out o’er the snow-wreaths deep,
Watching every cloud, dreading every breeze
That whirls the wildering drift, and bends the groaning trees.

Cheerful is the hearth, soft the matted floor;
Not one shivering gust creeps through pane or door;
The little lamp burns straight, its rays shoot strong and far:
I trim it well, to be the wanderer’s guiding-star.

Frown, my haughty sire! chide, my angry dame!
Set your slaves to spy; threaten me with shame:
But neither sire nor dame nor prying serf shall know,
What angel nightly tracks that waste of frozen snow.

What I love shall come like visitant of air,
Safe in secret power from lurking human snare;
What loves me, no word of mine shall e’er betray,
Though for faith unstained my life must forfeit pay.

Burn, then, little lamp; glimmer straight and clear—
Hush! a rustling wing stirs, methinks, the air:
He for whom I wait, thus ever comes to me;
Strange Power! I trust thy might; trust thou my constancy.


(Emily Brontë)

*

Bom dia e bom ano!

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30.12.06


JARDINS DE INVERNO

Foto que fiz há três horas atrás numa praia perto de minha casa em Tenerife
(mais um sinal da aceleração do tempo).


(António Marques)

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EARLY MORNING BLOGS

937 - Bien qu'il y ait plusieurs épithètes pour l'esprit ...

Un esprit fin et un esprit de finesse sont très différents. Le premier plaît toujours; il est délié, il pense des choses délicates et voit les plus imperceptibles. Un esprit de finesse ne va jamais droit, il cherche des biais et des détours pour faire réussir ses desseins; cette conduite est bientôt découverte, elle se fait toujours craindre et ne mène presque jamais aux grandes choses.

Il y a quelque différence entre un esprit de feu et un esprit brillant. Un esprit de feu va plus loin et avec plus de rapidité; un esprit brillant a de la vivacité, de l'agrément et de la justesse.

La douceur de l'esprit, c'est un air facile et accommodant, qui plaît toujours quand il n'est point fade.

Un esprit de détail s'applique avec de l'ordre et de la règle à toutes les particularités des sujets qu'on lui présente. Cette application le renferme d'ordinaire à de petites choses; elle n'est pas néanmoins toujours incompatible avec de grandes vues, et quand ces deux qualités se trouvent ensemble dans un même esprit, elles l'élèvent infiniment au-dessus des autres.

On a abusé du terme de bel esprit, et bien que tout ce qu'on vient de dire des différentes qualités de l'esprit puisse convenir à un bel esprit, néanmoins, comme ce titre a été donné à un nombre infini de mauvais poètes et d'auteurs ennuyeux, on s'en sert plus souvent pour tourner les gens en ridicule que pour les louer.

Bien qu'il y ait plusieurs épithètes pour l'esprit qui paraissent une même chose, le ton et la manière de les prononcer y mettent de la différence; mais comme les tons et les manières ne se peuvent écrire, je n'entrerai point dans un détail qu'il serait impossible de bien expliquer.

(La Rochefoucauld)

*

Bom dia!

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29.12.06


RETRATOS DO TRABALHO NA GUARDA, PORTUGAL

Construção de uma ponte pedonal na Guarda ( freguesia de S. Miguel) , esta tarde.

(Alexandrina Pinto)

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COISAS DA SÁBADO: OS MITOS SOBRE O YOU TUBE

http://media3.washingtonpost.com/wp-dyn/content/photo/2006/12/16/PH2006121601061.jpg
O You Tube ajudou-nos a “nós” a ficar na imagem do espelho da “pessoa do ano” na revista Time. Os milhões de visionamentos de vídeos do You Tube suscitaram de novo as glórias utópicas da Rede, feita por todos para todos, gratuita e desinteressadamente. Mas o You Tube é um sinal de outras coisas: de uma Rede que cada vez mais vai deixar de ser “escrita” e “lida”, para passar a ser “vista”. É natural que assim seja, é a vista, o sentido da visão que mais em nós manda, quanto mais nós somos “nós”. Já foi assim cá fora com a televisão, será assim lá dentro: a imagem será mais importante que a palavra, quanto maior for o número de pessoas que constitua o “nós” da Rede. No fundo, o You Tube é só um sinal percursor.

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JARDINS DE INVERNO

Margens do Tâmega.
(Clique sobre a foto para a ver em todo o seu esplendor.)

(Gil Coelho)

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UM INTELECTUAL ORGÂNICO EUROPEU: JOSEPH RATZINGER (BENTO XVI)

Olhando para 2006 com os olhos do fim do ano, pequena convenção do tempo, há uma figura intelectual que emerge da Europa, onde hoje elas não abundam: Joseph Ratzinger, o actual Papa Bento XVI. Não é tanto o Papa que me interessa em primeiro lugar, nem são motivos religiosos que me levam a destacar Ratzinger, mas sim o seu papel como intelectual na feitura da Europa como nós a conhecemos e do "Ocidente" como nós já não o conhecemos. Este tipo de aproximação a Ratzinger é provavelmente uma das que mais lhe desagradará, após uma vida a combater uma visão que considerará relativista e positivista e que acaba inevitavelmente por minimizar, na sua análise, o homem de fé que o padre, bispo, cardeal e agora Papa é sem dúvida. Ele próprio resumiu algumas das suas recusas em tomar determinadas posições com a afirmação definitiva: "Se o fizesse, não seria capaz de afirmar o Credo." Neste sítio, onde eu paro, começa Ratzinger.

http://ec3.images-amazon.com/images/P/0826417868.01._AA240_SCLZZZZZZZ_.jpg
Pope Benedict XVI: A Biography of Joseph Ratzinger. A biografia de Ratzinger de John L. Allen, um jornalista do National Catholic Reporter e "especialista do Vaticano" na CNN, é um excepcional trabalho jornalístico. Escrita ainda sobre Ratzinger e não sobre Bento XVI, mostra o papel crucial que teve em moldar a Igreja católica no pontificado de João Paulo II e o vigor das suas polémicas com outros teólogos, assim como a controvérsia contínua, na Igreja e fora dela, sobre as suas posições. Sendo um livro de jornalista, interessado mais pelo confronto de posições e opiniões, do que pela obra doutrinária de Ratzinger, mostra um profundo e rigoroso conhecimento dos pontos de teologia, doutrina e tradição envolvidos. É o livro obrigatório sobre este aspecto da personalidade e carreira de Ratzinger, central na sua vida pessoal e espiritual.
Como intelectual, Ratzinger tem um percurso que pode ser comparado com outros intelectuais europeus do seu tempo e há nele, descontada a vertente mais estritamente teológica, uma comunidade de temas muito próxima, por exemplo, da de George Steiner. O facto de Ratzinger ter desenvolvido a sua actuação essencialmente dentro de um nicho ecológico muito particular, a Igreja católica, obscureceu o seu papel de intelectual propriamente dito, sem por isso deixar de ter na história recente uma importância pouco comparável, porque maior, com a de muitos outros intelectuais com uma "cobertura" mais laica, mais mediática, logo mais próxima do "século". A razão pela qual Ratzinger se tornou mais importante nos dias de hoje, embora a sua influência tenha sido já muita nas últimas duas décadas, tem a ver com um efeito de procura de identidade, que o actual conflito cultural e civilizacional reforçou na Europa. Os textos de Ratzinger, os seus temas e o seu posicionamento, tornaram-se mais centrais nas preocupações culturais, intelectuais e políticas dos dias de hoje, concorde-se ou não com eles.
O discurso proferido em Ratisbona foi distinguido com o prémio "Discurso do ano" pelo Departamento de Retórica da Universidade de Tubingen, um dos mais prestigiados da Alemanha. (Informação de Miguel Alves.)
Bento XVI não é um Papa como os outros, não chegou ao lugar de Pedro apenas pela sua actuação pastoral, nem sequer pela ascensão dentro da Cúria romana, mas através do seu papel como teólogo, autor de múltiplos livros e artigos académicos na sua área de especialidade, discursos, entrevistas e debates. No mundo cultural do centro da Europa e nos EUA os seus trabalhos são muito conhecidos, partilhando com outros teólogos como Urs von Balthasar, Kung e Barth o lugar cimeiro de uma disciplina não só religiosa, quando o é, mas também académica, ligada em particular à filosofia.

Para além disso, Ratzinger exerceu durante um período crucial da história recente da Igreja uma outra função típica de um intelectual, a de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a instituição sucessora na Igreja católica, do Santo Ofício, da Inquisição. Como defensor da ortodoxia, o que significa também construtor da ortodoxia, Ratzinger oferece um exemplo de uma tradição puramente intelectual, mais próxima do intelectual "orgânico" gramsciano do que do intelectual ao modelo do Zola do J'Accuse, mais conforme com a nossa tradição afrancesada. A formulação da ortodoxia doutrinária é uma tarefa que contém elementos punitivos, mesmos nos nossos dias, a começar pela retirada da autorização a um teólogo da missio canonica que o impede de ensinar nas cátedras universitárias que dependem da aprovação da Igreja, como acontece com muitas universidades alemãs onde os departamentos de Teologia católica exigem essa autorização. Hans Kung foi uma das vítimas desta situação.

http://images.amazon.com/images/P/0679640924.01._AA240_SCLZZZZZZZ_.jpgA obra de Kung sobre a Igreja católica fornece uma visão alternativa em muitos pontos às posições de Ratzinger, revelando como a interpretação doutrinária seguindo diferentes tradições filosóficas, entre Agostinho e Tomás de Aquino, pode conduzir a resultados muito distintos no entendimento da Igreja, e da sua relação com a sociedade. Kung insiste no carácter da Igreja como construção temporal, em que muitas das opções - os mecanismos de autoridade e hierarquia, o afastamento das mulheres do sacerdócio, a natureza do "apostolado", a infalibilidade papal, etc. - resultam não da Revelação, mas sim da história. Kung lamenta
a posteriori o papel do helenismo em que mergulhou o cristianismo primitivo, enquanto muitas das concepções de Ratzinger valorizam uma "prioridade ontologógica" da Igreja sobre a "igreja" tal como ela é. Ver sobre este aspecto um artigo de Ratzinger (em inglês) The Ecclesiology of the Constitution on the Church, Vatican II, "Lumen Gentium" e o texto "platónico" da Congregação da Doutrina da Fé, dirigido aos bispos "sobre alguns aspectos da Igreja entendida como comunhão".
O mesmo aconteceu com outras formas de punição, como a obrigação de silêncio, a retratação pública, a retirada do imprimatur a livros publicados e outras. Ratzinger foi o inquisidor, mas não foi o grande inquisidor com que muitos hoje o classificam. Na verdade, a maioria das posições doutrinais que teve que defender eram há 50 anos consideradas tão fundamentais para a fé católica que ninguém pensaria contestá-las e permanecer católico.

Neste duplo sentido da sua acção intelectual, Ratzinger acompanha muito proximamente os tempos, mesmo que a partir de uma dada altura o faça em contraciclo, contra as tendências do "século". É exactamente este contraciclo que o torna interessante na procura de identidade europeia que começou com a crise do comunismo e depois da União Europeia e se acentuou face ao crescente número de conflitos com o islão fundamentalista e a aparição de uma Europa na qual religiões não cristãs e uma alteridade cultural mais agressiva começam a assumir um peso significativo. A Igreja católica foi uma das construtoras da Europa e do "Ocidente", e, mesmo com todas as ambiguidades da sua história e sem pôr em causa as sociedades "descrentes" dos nossos dias, é natural que aquilo que era um pensamento fora do mainstream europeu começasse a migrar de novo para um centro onde sempre esteve. O interesse por Ratzinger vem daí, mesmo pelo Ratzinger inquisidor.
Uma anedota corrente sobre Ratzinger, o "Cardeal Panzer", como lhe chamam alguns dos seus críticos, envolve os três teólogos: Ratzinger, Hans Kung e Karl Barth. Viajavam no mesmo avião para a o Vaticano. O avião caiu e todos apareceram diante de S. Pedro (há uma versão com Cristo no lugar de S. Pedro). S. Pedro sai do seu gabinete e chama Karl Barth; "vem aqui...". Durante uma hora, ouvem-se gritos e barulho e depois Barth sai a chorar dizendo: "Ó, como é que eu pude cometer tal erro de doutrina!". A seguir vai Kung e durante cinco horas ouvem-se gritos e coisas a partirem-se, até que sai dizendo: "Ó, como é que eu pude ser tão tonto!". Chega a vez de Ratzinger. Oito horas de reunião, silêncio. Então a porta abre-se e sai S. Pedro a chorar como um bebé, dizendo: "Como é que eu pude ter sido tão enganado!"
No início da sua carreira, como peritus dos cardeais alemães no Vaticano II, Ratzinger distinguiu-se como um progressista que apoiou muitas das medidas inovadoras do Concílio. Nos seus comentários aos documentos do Concílio, alguns dos quais ajudou a escrever nos bastidores, foi claro na defesa de uma renovação da Igreja, mas rapidamente foi aumentando as reservas sobre os efeitos que as inovações conciliares traziam ao catolicismo e passou de reformador a conservador. Os eventos de Maio de 1968, que viveu directamente na universidade alemã, assim como o crescimento da "teologia da libertação" na América Latina, levaram-no para um caminho de muito maior prudência e acabaram por o tornar no principal opositor dentro da Igreja à multiplicidade de inovações teológicas, litúrgicas e eclesiais que pulularam a partir da década de 70. Aumentando a sua influência no pontificado de João Paulo II, de que era o alter ego doutrinário, Ratzinger acabou por ser a voz da ortodoxia em todas as questões "fracturantes" da Igreja: papel da mulher no sacerdócio, moral sexual, "democracia" ao modelo oriental dos sínodos versus autoridade da Cúria Romana, infalibilidade papal, diálogo inter-religioso, relações com as sociedades laicas do Ocidente.

Ao pensar sobre todas estas matérias, Ratzinger deixou escritos sobre questões morais, religiosas, teológicas, filosóficas, culturais, que, independentemente da crença religiosa de cada um, suscitam problemas muito actuais da acção política, ancoradas em velhas tradições intelectuais europeias. Por exemplo, na sua condenação da "teologia da libertação", nos seus textos contra Leonardo Boff e outros teólogos sul-americanos, Ratzinger travou a dissolução de um acervo doutrinal mais vasto do que a instituição da Igreja em si, que na realidade punha em causa a dignidade da pessoa humana, e a correlativa responsabilidade individual, substituindo-a por uma culpabilidade social baseada numa versão abastardada do marxismo e na apologia da violência. Ratzinger, que achava que os teólogos da libertação tinham "lido teologia alemã a mais", referindo-se a colegas e discípulos seus cujas posições tinham influenciado os latino-americanos, atacou doutrinariamente com veemência os seus defensores não só em pontos de política, como de filosofia e teologia.

Ao se lerem esses textos hoje, à luz do fim do comunismo e do que se sabe das experiências latino-americanas, percebe-se a razão de Ratzinger e a solidez do seu corpo doutrinário.
O Público a 24 de Dezembro publicou uma entrevsita de António Marujo a Johann Baptist Metz, um dos teólogos alemães que influenciaram a "teologia da libertação" que refere o papel da sua experiência da guerra e do Holocausto como fonte para a sua teologia política:

A questão da teodiceia e a sensibilidade da teologia para esse aspecto tornaram-se importantes para mim. Quando o cristianismo se torna teologia, mudamos esta questão sobre a teodiceia, que era a pergunta principal - acerca da justiça de Deus perante os seres humanos que sofrem injustamente. O que define a tradição bíblica, desde o início, é a justiça para os que sofrem injustamente - que foi transformada na reconciliação dos pecadores. (...) O que sempre enfatizei na minha teologia foi: não esqueçamos este grito por justiça. Não apenas um grito político, mas o grito bíblico, já do Antigo Testamento, que regressa com experiências de catástrofes como a de Auschwitz. Este foi um dos temas que nunca abandonei na minha teologia.

Escreve que o olhar de Jesus é para os sofredores e não para os pecadores...

É também para os pecadores, mas a primeira perspectiva messiânica foi sempre a dos sofredores. Esta era a primeira visão de Cristo. Nós mudámos o cristianismo de uma religião basicamente sensível ao sofrimento dos outros para uma religião sensível aos culpados e aos pecadores.

Os cristãos esqueceram o sofrimento dos outros?

Sim. Melhor: claro que nunca esquecemos essa ideia, mas o cristianismo concreto e a sua história, pelo menos como o entendo, atiraram essa dimensão para as traseiras. Eu pretendo trazê-la de novo [ao de cima], precisamente no confronto da actual situação do cristianismo com o mundo globalizado.
(Continua.)

(No Público de 28 de dezembro de 2006)

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EARLY MORNING BLOGS

936 - ... a very proud Farmer at Rye-gate...

Said a very proud Farmer at Rye-gate,
When the Squire rode up to his high gate,
With your horse and your hound,
You had better go round,
For, I say, you shan't jump over my gate.

(Anecdotes and Adventures of Fifteen Gentlemen, atribuído a Richard Scrafton Sharpe, e os desenhos a Robert Cruikshank.)

*

Bom dia!

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28.12.06


JARDINS DE INVERNO




(José Carlos Santos)

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INTENDÊNCIA

Actualizadas as notas LENDO, VENDO, OUVINDO , ÁTOMOS E BITS de 26 de Dezembro de 2006 e PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 8

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JARDINS DE INVERNO

Capelinhos, Faial

(MJ)

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RETRATOS DO TRABALHO NA PRAIA DE SANTA CRUZ - TORRES VEDRAS, PORTUGAL


(Frederico Fonseca)

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EARLY MORNING BLOGS

935 - Romance del Prisionero

Que por mayo era por mayo,
cuando hace la calor,
cuando los trigos encañan
y están los campos en flor,
cuando canta la calandria
y responde el ruiseñor,
cuando los enamorados
van a servir al amor;
sino yo, triste, cuitado,
que vivo en esta prisión;
que ni sé cuando es de día
ni cuando las noches son,
sino por una avecilla
que me cantaba al albor.
Matómela un ballestero;
déle Dios mal galardón.

*

Bom dia!

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27.12.06


GRANDES CAPAS


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26.12.06


JARDINS DE INVERNO




Reserva Natural das Dunas de S.Jacinto.

(Angelina Barbosa)

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PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 8
(Actualizadas)

Texto em movimento, V. 1

8. A pergunta do Coelho Branco na Alice no País das Maravilhas (Continuação)

Marcadores do tempo no espaço / ciberespaço.

O tempo no ciberespaço é "biológico" e catastrófico. O quadro em baixo é o do número de blogues seguidos pelo Technorati e a ponta da linha ainda não descansou em qualquer planalto. O mesmo acontece com o gráfico do crescimento da Internet. Gráficos assim retratam normalmente actividade biológica, infecções, epidemias, momentos que precedem catástrofes, a queda de um avião, o colapso de uma ponte, a ruptura de uma estrutura.

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O ciclo de desenvolvimento do ciberespaço é muito parecido com o da infestação do escaravelho do pinheiro (Dendroctonus ponderosae), um exemplo, entre muitos, de um ciclo biológico rápido.


Haverá também nesta aceleração um momento de colapso? Certamente. A nossa percepção da "rapidez" vem do cada vez maior confronto entre o tempo biológico e o modo como o "lemos" psicologicamente face ao tempo do mundo. Quanto mais rápido é o tempo, menos o controlamos e de mais máquinas precisamos para o controlar (mais à frente voltamos a este ponto). Haverá um momento de ruptura quando o tempo do mundo (do espaço e do ciberespaço) for impossível de acompanhar pelos sentidos. Já não o acompanhamos pela Razão - não há tempo para pensar, não se pára para pensar num mundo afectivamente envolvente e apressado - mas ainda o fazemos pelo Pathos. Até breve. Até já. Já.
De há duzentos anos para cá, vivemos assim no mundo ocidental, o que traz os relógios mais acelerados. De há uns dez anos para cá, vivemos ainda mais depressa dentro da Rede, onde tudo muda muito rapidamente. Quando se está no meio da curva ascendente o tempo é sempre rápido, tudo se transforma à nossa volta, a memória encurta-se, falta-nos tempo como ao Coelho Branco da Alice no País das Maravilhas. Para se parar o tempo, é preciso uma grande violência e só se consegue por breves momentos, antes de ele começar a correr como o Coelho, fugindo-nos. Lembramo-nos? Quase nada. Arquivamos, mais do que recordamos, e depois não vamos aos arquivos.

Tudo é rápido: a Moda.

No espaço, e ainda mais depressa no ciberespaço, as imagens retratam a velocidade da mudança. Para vermos a rapidez do tempo nos nossos dias, a Moda pode servir de marcador. Identificamos um filme no tempo, por década, com facilidade, pelo modo como se vestem as personagens, pelos toucados das senhoras, pelo cabelo dos homens, pelas cores dominantes, pela quantidade de pele à vista. A Moda também existia no passado, mas era muito lenta, arrastava-se por centenas de anos sem grandes novidades.

Trinta anos separam este vestido de Schiaparelli das roupas de Mary Quant, mas nós somos capazes de perceber que o primeiro entra, usando a classificação do correio do GMail, no "Mais Antigas" e o segundo no "Antigas". Ambas são imagens do século passado.

Elsa Schiaparelli, 1937: lamé dihabille. © Bettmann/CORBIS. Mary Quant (right) with three of her designs, 1968. © AP/Wide World Photos.

Na categoria GMail de "Recentes", a fotografia de Margarida Rebelo Pinto que ilustra a sua crónica do Sol é muito representativa. Como todo o presente, está muito cheia de significado: cheia de Moda. Densa, intensa, falando por todos os poros da roupa. Aquela roupa não se usava há dois anos (há dois anos Margarida Rebelo Pinto far-se-ia fotografar numa saia de folhos e não nuns calções de ganga), e está a começar a deixar de se usar. Está por isso cheia de presente e a escoar-se para o passado, ou seja, a ficar fora de Moda. Quanto mais presente, quanto mais na Moda, quanto mais rapidamente fora de Moda. Num ano, a fotografia acabará por ter que ser mudada ou ficará retro.
São as mulheres portadoras de um tempo da Moda mais rápido do que o dos homens? Tudo indica que sim, pelo menos nos últimos cinquenta anos. A roupa das mulheres envelhece mais depressa, precisa de mudar mais vezes, marca com os seus sinais um tempo mais curto. É um dado cultural que pode vir, ou estar a, mudar, mas que para já é um facto.

Trabalho de Casa: na Rede, que blogues envelhecem mais rapidamente, os que têm género ou os que não têm? Ou, o que é quase a mesma coisa, os de homens (sem género) ou os de mulheres (que se classificam como tendo muito género)?
*
Os gráficos que apresentou o que têm em comum é a mesma função matemática, neste caso uma exponencial crescente. A função exponencial é a que descreve o tipo de fenómenos em que a taxa de crescimento de uma quantidade, num dado momento, é proporcional à própria quantidade já existente nesse momento. Matematicamente isso representa-se por uma (assim chamada) “equação diferencial de 1ª ordem”.

Só uma nota, que deve considerar curiosa, e suscitada pelo leitor José Carlos:
Muitas vezes estes processos, além de se caracterizarem por uma taxa de crescimento proporcional ao próprio valor da grandeza em si, têm uma segunda característica: uma outra taxa, de decrescimento, proporcional à taxa de crescimento anterior. Matematicamente isto define uma “equação diferencial de 2ª ordem”.
Aplica-se ao processo de crescimento de muitas espécies de seres vivos, em que a tal segunda taxa de decrescimento exprime o efeito dos predadores. Assim, por exemplo como sucede com certas espécies de peixes, eles inicialmente reproduzem-se exponencialmente, mas com isso também proliferam os predadores que os comem, até haver tantos que a população inicial dos peixes comestíveis deixa de crescer e depois começa a diminuir. Com isto, por sua vez, os predadores passam a ter escassez relativa, e a sua população também diminui, o que vai permitir novo ciclo de crescimento dos peixes iniciais.
Traduz isto o facto de uma equação diferencial de 2ª ordem ter muitas vezes uma solução sinusoidal... ?
Claro que em matéria de blogues o provável é a curva em S característica dos produtos tecnológicos, e não a sinusoidal.
Os especialistas sabem que é fácil investir em negócios tecnológicos que estão na fase ascendente do S, como foi a informática há algum tempo. Convém no entanto ter a noção que um crescimento de negócios numa tecnologia em ascensão pode não significar nenhuma capacidade duradoura de lá se manter quando se atingir o ponto de viragem do S, como mais uma vez o exemplo nacional na informática é exemplo infeliz. Sucede isto por que também aqui há uma taxa de decrescimento proporcional à taxa de crescimento, resultante do efeito da concorrência. Matematicamente isto traduz o facto de uma outra solução possível da equação diferencial de 2ª ordem ser uma função que inicialmente cresce, para depois decrescer definitivamente. O processo limita-se a um “overshoot”, ou sobressalto, e também há muitos exemplos disso nas questões sociais. O exemplo que melhor me ocorre é o do INESC, que cresceu esplendidamente nos anos 80, para depois ser desgastado quase até à extinção pelo conservadorismo nacional, quando se acabaram os fundos da UE...
Para conseguir sobreviver na fase estabilizante do S, é preciso ser mais forte que a concorrência, como sucede entre os predadores dos peixes.

(Pinto de Sá)

*

Além dos exemplos que apresentou, referiria que em geral essa lei se aplica a todos os processos de crescimento de populações de seres vivos e a muitos outros, como o da aprendizagem ou o do aperfeiçoamento de um novo produto e sua implantação no mercado. Compreenderá, portanto, o prazer que dá o poder da matemática!

Porém, mesmo matematicamente, os fenómenos são mais complexos e o crescimento exponencial só os pode caracterizar por algum tempo limitado. O escaravelho do pinheiro, por exemplo, só pode crescer até matar o pinheiro. O mesmo se pode extrapolar relativamente ao consumo dos recursos petrolíferos do planeta. Em muitos casos, entretanto, a função evolui a partir de certo valor para uma redução da taxa de crescimento até à estabilização, evolução representável por uma curva em S. É o que acontece com a generalidade dos produtos baseados em novas tecnologias e é certamente o que acontecerá com a proliferação de blogues. Normalmente quando um produto entra na fase amortecida do S, um novo produto aparece que inicia a sua fase de crescimento exponencial.

(Pinto de Sá)

*

Escreveu no seu texto «A pergunta do Coelho Branco na Alice no País das Maravilhas (Continuação)» que «[g]ráficos assim retratam normalmente actividade biológica, infecções, epidemias, momentos que precedem catástrofes, a queda de um avião, o colapso de uma ponte, a ruptura de uma estrutura.» A linguagem empregue parece-me ser a de alguém que já esteve exposto à Teoria das Catástrofes, de René Thom, o qual a divulgou precisamente num livro sobre Biologia (chamado «Estabilidade Estrutural e Morfogénese»). Devo observar que crescimento exponencial é algo que se manifesta também em fenómenos não biológicos; caso contrário, não teríamos energia nuclear, que depende de reacções em cadeia. Por outro lado, e regressando ao âmbito dos fenómenos biológicos, um tipo de crescimento que começa por parecer exponencial é o do crescimento de uma população num ambiente livre de predadores. Inicialmente o crescimento é exponencial, mas estabiliza numa fase posterior, quando a alimentação começa a escassear. Veja os gráficos que lhe envio. O primeiro tem todo o aspecto de um crescimento exponencial, mas o segundo (que contém o primeiro do seu lado esquerdo) mostra uma fase posterior de estabilização. Este tipo de crescimento tende para um ponto de equilíbrio, que corresponde à situação na qual a alimentação disponível é suficiente para sustentar a população já existente mas sem permitir que esta aumente.

Questão: quando é que se chegará a uma situação análoga no caso da Internet?

(José Carlos Santos)

*

A moda avança aos saltos. Se assim não fosse (se se actualizasse em cadeia deslizando em vertente suave) ninguém se aperceberia que a moda tinha passado e que estava fora de moda. É por isso que a moda é cíclica. À boca-de-sino segue a calça-à-campino, ao umbigo à mostra segue a "camisa-longa". Como na área, ao contrário do que parece, a criatividade e a imaginação não são infinitas, vão-se buscar ideias novas a velhas modas e maquilha-se com pós-do-tempo. Temos assim a nova moda e podemos ver gente moderna a usar uns trapinhos romanos ou góticos.
Por isso, quem está na moda está mais longe de vir a estar na moda. O tempo que vem é o mergulho nos tempos de antanho. Quando a moda passa, fruto da autofagia dos aderentes, os fazedores da moda, para baralhar e fazer pairar no tempo os carentes, atiram-nos para longínquos, aleatórios e anacrónicos buracos negros que os sugam até a densidade interior (a moda) se aproxime do exterior amodal da multidão.

(vgcardeira)
ANEXOS E COMENTÁRIOS

6. A pergunta de Clausewitz

Ver http://www.potomacbooksinc.com/images/covers/1574889842_cf150.jpg

C.E. Wood, Mud. A Military History sobre o "General Lama", uma variante do "General Inverno".

7. A pergunta do Coelho Branco na Alice no País das Maravilhas
Conversar s/ o tempo em tempo de Natal, não deixa de ser curioso, até porque as iconografia de Natal é se calhar também um bom marcador da aceleração do tempo. E pessoalmente dou-me mal com a “orgia” em que o Natal se tornou. Já não há tempo p/ o gozar. Quando o seu leitor diz que estamos mais libertos do relógio (e de facto há gente que já não usa relógio de pulso, ou seja já não usa um aparelho cuja exclusiva utilidade é medir o tempo) está a esquecer o factor “acelerador” que a dita liberdade traz. E por consequência uma nova forma de dependência. Já não há horas. As noticias são cada vez mais instantâneas, não só no sentido temporal como no sentido mousses Alsa. Basta ver alguns erros de Português nas noticias on-line ou de rodapé televisivo p/ perceber que o instantâneo ganhou ao produzido. Deixamos de ser escravos do relógio mas, qual atleta de uma qualquer corrida, mas passámos a ser escravos do cronometro. Antigamente éramos escravos das horas dos telejornais e das edições do jornais, hoje somos escravos permanentes dos cronómetros dos alertas de noticias on-line. Isto se quisermos estar a par do mundo. E no mundo do trabalho em geral esta “liberdade” está a destruir as fronteiras do tempo pessoal e do tempo profissional. E é este ultimo que está claramente a ganhar terreno. Claro que também existem vantagens ao nível pessoal, mas o resultado global não está a ser favorável à vida pessoal. Pegando no exemplo do seu leitor, “quando terá o professor tempo p/ a sua vida pessoal?”.

Durante quanto tempo aguentaremos este cerco e este ritmo é uma incógnita.
Basta lembrar que nenhum atleta vive toda a vida contra o cronometro. Em dada idade muda devida. Por isso estes tempos orgíacos (excesso de nformação, excesso de bens, excesso de coisas p/ serem vividas, etc.) terão de terminar, isso é uma certeza, e que não será uma “softlanding”, poucas duvidas restam, tirando alguns ingénuos que ainda acreditam no Pai Natal. Exceptuado a componente tecnológica dos dias que correm, o império romano caiu de forma idêntica. Pelos excesso internos que a riqueza arrasta e não pelos inimigos externos. Claro que o tempo na época era bem mais lento e o dito império durou 1000 anos, nestes tempos mais acelerados, o império tecnológico que estamos a viver iniciado na revolução industrial durará muito menos tempo...o que se lhe seguirá? Se alguém tiver alguma hipótese de resposta ficaria muito agradecido?

Mas o que se seguiu ao fim do império romano não augura nada de bom...ou pelo menos de soft...que tempos virão atrás do tempo que corre...

(Miguel Sebastião)

*

Vinha um dia destes de Manhattan para New Jersey no PATH quando constatei ser cada vez menor o número de pessoas com relógio no pulso. Descobriu-o porque há anos que também no meu pulso não se vê relógio e nos túneis do PATH o telemóvel perde o sinal de rede.

A solução mais expediente nessas alturas é ver em volta se há alguém que ainda usa relógio e confirmar com uma espreitadela que estamos de facto atrasados. O relógio-objecto migrou para outros objectos (telemoveis, PDAs, computadores, etc). Segundo uma reportagem que vi na CNN sobre o futuro próximo, parece ser também esse o destino dos computadores: desaparecerem da vista e migrarem para outros objectos, como já estão nos automóveis pasarem a estar na roupa, nas paredes, nos passeios...

Se o tempo está sempre presente nas nossas vidas, o facto é que cada vez menos as escraviza. Já não é obrigatório os Telejornais terem que ser vistos religiosamente às 20 horas. Já ninguém está para isso... Todas as estações generalistas têm páginas na Internet, onde as imagens podem ser vistas antes de serem transmitidas nos Telejornais. As estações por cabo, como a CNN e a Fox, têm noticiários contínuos, que podem ser também vistos na Internet. Os próprios jornais têm reportagens de vídeo que podem ser vistas online sobre os principais acontecimentos.

As séries mais populares podem ser vistas a qualquer hora nos computadores e até nos iPod. É o espectador que decide a que horas vai ver o quê. O mesmo se passa já com o ensino. A aula está sempre disponível online, bem como o acesso ao professor, que por e-mail esclarece as dúvidas dos alunos e os avalia.

O tempo continua a reger as nossas vidas, mas somos cada vez menos escravos do relógio.

(Manuel Ricardo Ferreira)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 26 de Dezembro de 2006


Dois "You" mais parecidos do que se pensa. Voltarei aqui.

http://media3.washingtonpost.com/wp-dyn/content/photo/2006/12/16/PH2006121601061.jpg http://www.firstworldwar.com/posters/images/pp_uk_31.jpg

*

O outro lado das livrarias no Natal nesta nota do Indústrias Culturais:
"Na semana passada, quando apresentava o livro Televisão: das audiências aos públicos aos meus alunos, descobri que o livro ainda não estava nas livrarias. Manifestei o meu espanto, pois o livro tivera apresentação pública a 14 de Novembro. Inquiri editora e distribuidora. E conclui o seguinte: em Novembro e Dezembro as livrarias não querem livros deste tipo. Ou seja: a cadeia de valor do livro fica emperrada no final do ciclo, junto aos leitores. É que as livrarias reservam o seu espaço para livros-álbum ou romances de "sucesso", à espera das vendas de Natal. O que contrai ainda mais o ciclo de um livro de ciências sociais. Janeiro, Julho, Agosto, Novembro e Dezembro são meses para esquecer. Por o público não afluir às livrarias por férias (Julho e Agosto), ou esgotamento dos plafonds para a cultura (Janeiro) ou, ainda, por má vontade dos livreiros. "

*
Mais "You":



(Enviados por José Carlos Santos e Nuno Cabeçadas.)

*

O “delay” entre o anuncio da publicação de um livro, as respectivas criticas em publicações especializadas e a disponibilidade do mesmo nas livrarias é, não raro, de cerca de um mês. Por exemplo entre o anuncio de publicação do Animal Moribundo do Philip Roth e a colocação nos escaparates decorreram no mínimo três semanas.

(Fernando Frazão )

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(José Manuel Fernandes)

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934 - Discurso ao Príncipe de Epaminondas, mancebo de grande futuro

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral rasgando-nos os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem

(Mário Cesariny)

*

Bom dia!

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25.12.06


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933 - De la confiance

Bien que la sincérité et la confiance aient du rapport, elles sont néanmoins différentes en plusieurs choses: la sincérité est une ouverture de coeur, qui nous montre tels que nous sommes; c'est un amour de la vérité, une répugnance à se déguiser, un désir de se dédommager de ses défauts, et de les diminuer même par le mérite de les avouer. La confiance ne nous laisse pas tant de liberté, ses règles sont plus étroites, elle demande plus de prudence et de retenue, et nous ne sommes pas toujours libres d'en disposer: il ne s'agit pas de nous uniquement, et nos intérêts sont mêlés d'ordinaire avec les intérêts des autres. Elle a besoin d'une grande justesse pour ne livrer pas nos amis en nous livrant nous-mêmes, et pour ne faire pas des présents de leur bien dans la vue d'augmenter le prix de ce que nous donnons.

La confiance plaît toujours à celui qui la reçoit: c'est un tribut que nous payons à son mérite; c'est un dépôt que l'on commet à sa foi; ce sont des gages qui lui donnent un droit sur nous, et une sorte de dépendance où nous nous assujettissons volontairement. Je ne prétends pas détruire par ce que je dis la confiance, si nécessaire entre les hommes puisqu'elle est le lien de la société et de l'amitié; je prétends seulement y mettre des bornes, et la rendre honnête et fidèle. Je veux qu'elle soit toujours vraie et toujours prudente, et qu'elle n'ait ni faiblesse ni intérêt; je sais bien qu'il est malaisé de donner de justes limites à la manière de recevoir toute sorte de confiance de nos amis, et de leur faire part de la nôtre.

(La Rochefoucault)

*

Bom dia!

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24.12.06


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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
VIOLÊNCIA É VIOLÊNCIA É VIOLÊNCIA


Fico perplexo com a polémica acerca da violência doméstica/casais homossexuais/aplicação da Lei. A que propósito vem a discussão que envolve hetero, homo, gordos ou magros, cães ou gatos? Violência não é apenas e só VIOLÊNCIA, seja a que título fôr? E não é sempre condenável pela Lei?
Entendo que se divulgue mais a violência doméstica, normalmente abafada e sofrida em silêncio, e se incentive as/os agredidos a sairem do seu sofrimento. Mas quanto à Lei, ela é clara: a violência é crime, e deve ser punida sem excepções!

(Vieira Pinto)

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932 - Les passions ont une injustice et un propre intérêt...

La durée de nos passions ne dépend pas plus de nous que la durée de notre vie.

La passion fait souvent un fou du plus habile homme, et rend souvent les plus sots habiles.

Ces grandes et éclatantes actions qui éblouissent les yeux sont représentées par les politiques comme les effets des grands desseins, au lieu que ce sont d'ordinaire les effets de l'humeur et des passions. Ainsi la guerre d'Auguste et d'Antoine, qu'on rapporte à l'ambition qu'ils avaient de se rendre maîtres du monde, n'était peut-être qu'un effet de jalousie.

Les passions sont les seuls orateurs qui persuadent toujours. Elles sont comme un art de la nature dont les règles sont infaillibles; et l'homme le plus simple qui a de la passion persuade mieux que le plus éloquent qui n'en a point.

Les passions ont une injustice et un propre intérêt qui fait qu'il est dangereux de les suivre, et qu'on s'en doit défier lors même qu'elles paraissent les plus raisonnables.

Il y a dans le coeur humain une génération perpétuelle de passions, en sorte que la ruine de l'une est presque toujours l'établissement d'une autre.

Les passions en engendrent souvent qui leur sont contraires. L'avarice produit quelquefois la prodigalité, et la prodigalité l'avarice; on est souvent ferme par faiblesse, et audacieux par timidité.

Quelque soin que l'on prenne de couvrir ses passions par des apparences de piété et d'honneur, elles paraissent toujours au travers de ces voiles.

Notre amour-propre souffre plus impatiemment la condamnation de nos goûts que de nos opinions.

(La Rochefoucault)

*

Bom dia!

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23.12.06


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22.12.06


RETRATOS DO TRABALHO MATINAL NUMA ALDEIA, PORTUGAL



Hoje de manhã: venda ambulante, distribuindo o correio, entrega de café a um restaurante.

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RETRATOS DO TRABALHO NA NAZARÉ, PORTUGAL


(Miguel Leal)

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RETRATOS DO TRABALHO EM EGER, HUNGRIA


(Luís Reino)

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COISAS DA SÁBADO: RESSUSCITAR UM MORTO

Parece que há um plano de, a prazo, ressuscitar a dita Constituição Europeia. Parece que os europeus nestas matérias só tem um voto considerado válido: o “sim”. Se dizem “não”, esse “não” tem sempre que ser provisório. A Constituição na sua primeira tentativa era suposto ser votada por todos os países da União. Não o foi em dois países e não seria em mais se o processo tivesse continuado. Esses países são a Holanda e a França, dois países nucleares do projecto europeu. Em vez de concluir que o modo como a fizerem, o seu conteúdo e o processo foi rejeitado, logo a Constituição está morta, mesmo à luz da legalidade europeia, volta-se a insistir. Vai ser brilhante o resultado.

Também em Portugal regressaram as manobras de condicionamento para o “sim”, entre as quais mais um fabuloso Eurobarómetro que diz que o “sim” à Constituição Europeia “cresce” uns espantosos 17 pontos, certamente resultado do grande debate sobre a dita Constituição que domina a nossa vida pública. Os resultados são globalmente fabulosos:
“ 60 por cento dos portugueses apoiam a Constituição europeia numa média de 53 por cento de europeus. O número de respostas favoráveis em Portugal aumentou 17 pontos percentuais em relação a um inquérito realizado na Primavera e o país apenas é agora ultrapassado pela Polónia (63 por cento). Em todos os Estados-membros, uma maioria de cidadãos apoia a Constituição europeia, com uma percentagem de respostas positivas menor dadas no Reino-Unido (40 por cento), República Checa (50) e Suécia (50).”
Foi com ilusões como esta que se chegou ao actual impasse europeu. A tentativa de ressuscitar a Constituição Europeia é das mais fúteis e pouco imaginativas maneiras de agravar a crise da Europa, e como tal é perigosa. Os cadáveres enterram-se ou cremam-se, não se ressuscitam para que não tenhamos um mundo à Stephen King, ou problemas de saúde pública.

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931 - Nos vertus ne sont, le plus souvent, que de vices déguisés.

1

Ce que nous prenons pour des vertus n'est souvent qu'un assemblage de diverses actions et de divers intérêts, que la fortune ou notre industrie savent arranger; et ce n'est pas toujours par valeur et par chasteté que les hommes sont vaillants, et que les femmes sont chastes.

2

L'amour-propre est le plus grand de tous les flatteurs.

3

Quelque découverte que l'on ait faite dans le pays de l'amour-propre, il y reste encore bien des terres inconnues.

4

L'amour-propre est plus habile que le plus habile homme du monde.

(La Rochefoucault)

*

Bom dia!

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21.12.06


GRANDES CAPAS


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PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 7

Texto em movimento, V. 1

7. A pergunta do Coelho Branco na Alice no País das Maravilhas

.
.. suddenly a White Rabbit with pink eyes ran close by her.

There was nothing so very remarkable in that; nor did Alice think it so very much out of the way to hear the Rabbit say to itself "Oh dear! Oh dear! I shall be too late!" (when she thought it over afterwards it occurred to her that she ought to have wondered at this, but at the time it all seemed quite natural); but, when the Rabbit actually took a watch out of its waistcoat-pocket, and looked at it, and then hurried on...

Por que é que o tempo passa tão depressa? Por que é que eu estou sempre atrasado? Por que é que no ciberespaço todo o tempo é rápido, todo o tempo é novo, todo o tempo é pouco? Por que razão no ciberespaço o rio de Heraclito corre tão depressa?

[e ao contrário: por que razão o tempo no ciberespaço não é o do Chapeleiro Louco, o de Parménides?

It's always six o'clock now.'

A bright idea came into Alice's head. `Is that the reason so many tea-things are put out here?' she asked.

`Yes, that's it,' said the Hatter with a sigh: `it's always tea-time, and we've no time to wash the things between whiles.'

`Then you keep moving round, I suppose?' said Alice.

`Exactly so,' said the Hatter: `as the things get used up.'

`But what happens when you come to the beginning again?' Alice ventured to ask.

`Suppose we change the subject.' ]
Antes de chegar lá dentro (ao ciberespaço) o tempo rápido já existia cá fora há pelo menos 200 anos, desde a Revolução Industrial.

[Nessa altura interpelo a sala, o anfiteatro, as pessoas sentadas nas cadeiras: no vosso corpo, o primeiro instrumento da "sociedade de informação" que lhe está colado é o relógio. Nesta sala quase todos têm na sua roupa, no seu corpo, pelo menos três instrumentos que têm a ver com a informação: uma caneta ou qualquer outra coisa para escrever, um relógio e um telemóvel. O iPod, ou outro leitor de MP3, também pode estar num casaco ou numa mochila, e o telemóvel pode agrupar funcionalidades de vários instrumentos: GPS, televisão, computador. Mas o primeiro instrumento da "sociedade de informação" que todos têm, que "manda" mais em nós, é o relógio. ]



(Projecto arquitectónico para uma fábrica centrada na torre do relógio.)

O relógio, o instrumento número um da modernidade. Começou no topo das fábricas para "mandar" numa população arrancada aos campos e que só conhecia o sol a sol. Os historiadores do movimento operário sabem como foi conflitual a imposição do tempo, de horários de entrada e saída, uma das mudanças coercivas mais difíceis de fazer no início da Revolução Industrial. Significava mudar de vida, mudar de "tempo". Depois nunca mais parou, o tempo nunca mais se atrasou. O tempo começou a acelerar-se quando cada um o pode medir no seu relógio e, desde essa altura, um minuto, um segundo - que são, bem vistas as coisas, tão pouco tempo - , contam.

(Por exemplo:

Às 19 horas e 59 minutos anunciam-se as 20 horas nos telejornais, um minuto separa os dois mundos. Este minuto foi negociado entre as estações emissoras para impedir a antecipação caótica dos noticiários na competição pela fixação das audiências no primeiro noticiário que aparecesse no ecrã.)

(Continua, em breve, devagar.)

*
Quando se dá uma aula, um relógio é fundamental. Por boas razões há salas com relógio na parede. Um professor sabe que tem um determinado tempo (uma hora, duas, três, para "dar" uma determinada quantidade de matéria). É preciso saber fazer a gestão do tempo, e controlar o ritmo. Geralmente tenho as aulas preparadas em folhas A4, e sei que um determinado numero de folhas (1 em computador a 1 espaço, 2 a dois espaços ou meia duzia escritas à mão) correspondem a uma hora de aula, por isso, é possível modular o andamento de quarto em quarto de hora, pelo menos.

Por outro lado, no que respeita à gestão do tempo, o conceito de intervalo também é muito importante. Eu nunca dou aulas de mais de 50 minutos. Já cheguei a fazer dois intervalos em aulas de três horas. E controlo, com o relógio. Mas nesses casos, o olhar também conta: os alunos cansam-se, de hora a hora. Quando me conhecem melhor, e estão mais à vontade, são eles a pedir intervalo. E o meu descernimento também é um bom indice: eu também me canso, de hora a hora e quando começo a ver que o pensamento se turva, paro. Por isso relógios há vários: os de parede, os de bolso, os faciais (nos outros), e os do nosso corpo e mente (em nós).

(Eduardo Tomé)

*

“Estou atrasado, sempre atrasado” faz parte de nós. Felizmente a pressa e a
perseverança convivem lado a lado, sem interferências. Quatro anos para
aprender francês, três anos até aprender a forma do Tai Chi Taoista…
Dizem-me que pessoas que fazem Tai Chi há 20 anos afirmam que ainda estão a
evoluir e (pasme-se) sentem que ainda têm muito para aprender. Curioso é uma
principiante ouvir isto e em vez de desmotivação ou angústia sentir um
conforto inexplicável.

Admirável globalização que nos trazes a sabedoria oriental (sushi incluído).

(Ana Luísa Mouta)

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20.12.06


JARDINS DE INVERNO





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930 - ...je ne trouve point beaucoup de différence...

Assis sur un fagot, une pipe à la main,
Tristement accoudé contre une cheminée,
Les yeux fixés vers terre, et l'âme mutinée,
Je songe aux cruautés de mon sort inhumain.

L'espoir qui me remet du jour au lendemain,
Essaie à gagner temps sur ma peine obstinée,
Et me venant promettre une autre destinée,
Me fait monter plus haut qu'un empereur romain.

Mais à peine cette herbe est-elle mise en cendre,
Qu'en mon premier état il me convient descendre
Et passer mes ennuis à redire souvent :

Non, je ne trouve point beaucoup de différence
De prendre du tabac à vivre d'espérance,
Car l'un n'est que fumée, et l'autre n'est que vent.

(Antoine Gérard de Saint-Amant, 1629)

*

Bom dia!

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19.12.06


PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 7 /
RETRATOS DO TRABALHO EM LISBOA, PORTUGAL

Lawrence Lessig fazendo a sua conferência em Lisboa na UCP, 15 de Dezembro de 2006.

(Diário Tecnológico, enviada por Pedro Oliveira.)

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PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 6

Texto em movimento, V. 1

6. A pergunta de Clausewitz


http://www.acmi.net.au/AIC/EDISON_PHONO_s.GIFLessig vai começar por John Philip de Sousa, um dos seus exemplos favoritos (Lessig fala desta questão no cap. IV de Free Culture. How the Big Media Uses Technology and the Law to Lock Down Culture and Control Creativity, e noutros textos seus que foram citados no artigo da Wikipedia sobre Sousa). A petição de Sousa ao Congresso em 1906 falava na necessidade de colocar em ordem “essas máquinas infernais”, os fonógrafos do senhor Edison, que iriam fazer com que os "rapazes" deixassem de cantar em conjunto as "velhas canções":
"These talking machines are going to ruin the artistic development of music in this country. When I was a boy...in front of every house in the summer evenings, you would find young people together singing the songs of the day or old songs. Today you hear these infernal machines going night and day. We will not have a vocal cord left. The vocal cord will be eliminated by a process of evolution, as was the tail of man when he came from the ape."
Sousa tem razão, diz Lessig. Estava aqui em génese uma mutação cultural que de facto iria acabar de certa forma com as canções em coro na rua mas que, como se verificou, esteve longe de acabar com as cordas vocais. Verdade também que Sousa dizia que, se alguém iria ganhar dinheiro com a sua música, ele queria uma parte para ele e recusou-se a deixar que gravassem a sua banda. Hum... e o outro lado? O outro lado da mesma história. Sem a tenebrosa "recording industry", quantos "rapazes" nunca ouviriam uma única marcha de Sousa, quanto mais uma área de Caruso, ou um concerto de Toscanini, só para ir aos hits das primeiras décadas do fonógrafo? Eis-me um optimista do capitalismo. Não diria o exacto oposto de Lessig, mas perto.

Hum... o outro lado. Se vou por aqui, fico eu do lado errado àquele onde me quero colocar. Armadilhas destas coisas. Verdade seja que é sempre assim, nada corre inteiramente mal, nada corre inteiramente bem. Mas o meu ponto, a pergunta de Clausewitz, é outra: para me aproximar de uma coisa que é nova, - o ciberespaço é em muitos aspectos radicalmente novo - devo ser optimista ou pessimista? Grosso modo, é isto. Como me "aproximo" melhor, sendo "apocalíptico" ou "integrado", para usar os termos de Eco? (A plateia para que falo é certamente "integrada"...) Eu sei que não é só uma questão de "puro saber", onde A vê branco, B vê preto. Quando ouvi a palestra de Eben Moglen ele diz que os livros foram o primeiro produto produzido em massa. "Asneira" pensei. Foram as armas. Ele diz "os livros" e eu digo "as armas". Bom Moglen, de boas intenções está o Inferno cheio...

[image] tank drivingComeço pois com Clausewitz, o da arte da guerra. Formulo assim a pergunta: como deve um General proceder quando tem que atravessar com o seu exército de tanques um lago salgado, a superfície ideal para os tanques atravessarem, num sítio onde não chove há cem anos? Resposta minha ( e de Clausewitz): o bom General colocará seriamente a possibilidade de poder haver uma chuvada torrencial e os seus tanques ficarem atolados. Em matéria de guerra não se podem correr riscos que não se antecipam, até certo ponto. É a Lei de Murphy: se uma coisa pode correr mal, correrá necessariamente mal.

"Necessariamente" ou provavelmente? A fórmula inicial parece ter sido "things will go wrong in any given situation, if you give them a chance", até se chegar a variantes de "everything that can possibly go wrong will go wrong". A fórmula que uso acima, ela própria uma aplicação da Lei de Murphy à Lei de Murphy, cortando o "if you give them a chance" é a pior. Mas o bom General... Aproximar-nos do ciberespaço usando a Lei de Murphy parece-me uma vantagem heurística, pode-se ficar a saber mais e mais prevenido e as surpresas tenderão a ser boas. Claro que os prognósticos sólidos, só no fim do jogo. Comecemos.

(Continua.)

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RETRATOS DO TRABALHO NO ESPAÇO


(Lembrança de Albano Ferreira.)

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45 DIAS DEPOIS - CORES À VOLTA



Figueira, damasqueiro, tília, camélia, árvores perdendo-se das cores antigas.




45 dias depois.

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EARLY MORNING BLOGS

929 - Barca bela

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!

(Almeida Garrett)

*

Bom dia!

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GRANDES CAPAS


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18.12.06


PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 5

Texto em movimento, V. 1

5. A fábrica das conferências - o texto

Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais

O programa inclui, antes de mim, a keynote de Lawrence Lessig, CC today, CC tomorrow, e intervenções de Catharina Maracke (CCi - The International Project of Creative Commons), John Wilbanks (Science Commons) e Shigeru Miyagawa (MIT OpenCourseWare: Unlocking Knowledge, Empowering Minds), moderados por José Vitor Malheiros. Comigo falam dois professores de Direito, Alexandre Dias Pereira e Dário Moura Vicente, especialistas em propriedade intelectual, moderados por outro professor, José Moutinho. A ecologia é esta: os "americanos" (embora nem todos sejam americanos) e os especialistas de Direito. Lessig faz a ponte entre o Direito, o "código", o ciberespaço e as licenças Creative Commons, a razão do encontro.

http://www.unomaha.edu/constitution/img/constitution.jpgFalamos todos a mesma linguagem? Nós pensamos que os americanos falam a mesma linguagem que nós, mas não falam, falam ligeiramente diferente embora com as mesmas palavras. We the People. Há ali um gap: os americanos vivem numa sociedade em que a pulsão democrática é maior e diferente da europeia, tem mais mobilidade vertical, mais "oportunidades", as "massas" lá já estão em todos os mercados há muito mais tempo. No eleitoral, no político, no cultural, nos consumos de bens e ideias, logo a perturbação das elites é menor do que na Europa. Cá ainda não estão habituadas, lá sempre foi assim no século XX. O tumulto com a "canalha" é europeu. Nos EUA, Hollywood, os gangsters, a Grande Depressão, a Disneylandia, os GIs, o baby boom, já amaciaram a coisa, já colocaram na ordem o que tinham que colocar. Vê-se, lendo o Code de Lessig: aquela normalidade democrática permite dizer frases e pensar coisas que pareceriam terrívelmente ingénuas na Europa. Há uma liberdade que vem de outros lados, não vem das Luzes, vem do dissent, é popular e não intelectual, federalista e não jacobina. Há questões que pura e simplesmente os americanos não entendem e, num certo sentido, ainda bem para eles. Lessig pode gozar com a sala pomposa da Ordem dos Advogados americana e compará-la às salas dos Congressos do PCUS, mas só um americano acharia normal essa comparação. Tiveram Macarthysmo mas não sabem o que é um Partido Comunista, nem o socialismo.

OCW Consortium logo.

Depois são doers, não são teóricos nem dreamers. Estão sempre a um mílimetro de fazer as coisas, como se vê. Estão ali: a "coisa" Creative Commons, a "coisa" OpenCourseWare. Era por isso que Lenine gostava dos americanos, tinham "espírito prático". Os europeus deram a Lenine os "sovietes", que seriam impossíveis de imaginar na América, os americanos deram-lhe a electrificação e o Sistema Taylor. Gap, diferenças. Lessig, no meio delas, comenta ironicamente que para alguns dos seus compatriotas é comunista. Um velho europeu que leu Proudhon poderia assentir: nem tu sabes quanto, no sentido antigo da palavra. Antes de haver comunistas. Gap.

É outro mundo, logo procuro uma fala comum, mais velha do que os dois lados do "Ocidente" separados pela viagem do Mayflower. Vou reformular, "reciclar" no sentido Jerry-Seinfeldiano, a intervenção que fiz uma semana antes para o I Congresso de Internet e Propriedade Intelectual organizado pela Associação Portuguesa de Direito Intelectual na Faculdade de Direito. Dez perguntas, dez problemas entre o espaço e o ciberespaço, para me colocar de pé atrás diante do ciberoptimismo, sem ser injusto com o imenso mérito destes homens. De pé atrás, curiosa expressão.

A primeira pergunta que anotei no meu texto é metodológica e tem como patrono Clausewitz, o da guerra.

(Continua)

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PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 4

Texto em movimento, V. 1

4. A fábrica das conferências - preparação.

Continua a Promenade

Será que o sinal analógico deseja ser digital? Talvez. Durante anos, os meus papéis desejavam ser digitais e continuavam desesperadamente analógicos. Flutuavam é claro, no seu desejo. Havia fichas, milhares e milhares de fichas, a guarda avançada do Futuro. Em 1969, a sede eleitoral da Oposição no Porto era uma garagem perto do mercado do Bom Sucesso, antes da passagem por baixo dos prédios. A feitura das listas era de responsabilidade da própria Oposição que tinha que pagar os custos e conseguir ultrapassar o medo de as tipografias ficarem "marcadas" e de obter um papel que impedisse que se percebesse que o voto não era na União Nacional. Coisas que hoje parecem absurdas, mas que eram do dia a dia da ditadura. No dia seguinte às eleições, toda a gente sabia que a sede iria ser encerrada a qualquer momento pela PIDE. Fui lá, encontrei maços e maços de boletins de voto por distribuir e trouxe-os. Era um papel excelente e mais grosso que o normal. Cortado em quatro fazia umas fichas razoáveis, e inteiro dava para escrever no verso (ao lado, a ficha de O Barbeiro na Literatura Portuguesa e na Vida Social de Bermontan, nom de plume de António Bernardo Monteiro) . Eu tinha uma compulsão para poupar papel que nunca perdi e, durante dez anos, os restos da pobre candidatura da CDE serviram para trabalhar... no verso.

Quando a PIDE me assaltou a casa, apreendeu vários milhares dessas fichas que nunca recuperei, com o corpo do delito oposicionista nas costas e coisas que agora ninguém "sabe" ler, como a profissão deste candidato, um velho professor comunista que, como não podia exercer a sua profissão no ensino oficial, tinha que ir para o "ensino livre", colégios particulares e explicações.



Os cadernos de argolas, com as suas possibilidades combinatórias, melhoraram a organização "livre". O desejo digital nos cadernos de argolas é maior e deu cabo deles como não podia deixar de ser. Este, que não foi desmembrado na Grande Ruptura, está também escrito no verso das listas de 1969. Do outro lado estão notas de leitura do livro de Armando Silva Pais, O Barreiro Contemporâneo, onde se fala, entre outras coisas, na Loja Maçónica "Esperança no Porvir", e na terra em que as procissões estavam proibidas ainda no final dos anos trinta.



Depois, imediatamente antes da Grande Ruptura, acabaram-se as fichas de 1969 e comecei a comprar este modelo, produzido pela grande papelaria do Porto, a Araújo e Sobrinho. Eram muito caras e o abastecimento era irregular, mas o meu arquivo-espólio-biblioteca estava a subir na vida. As fichas registam tudo.



A "Esperança no Porvir" acabaria por dar resultados, trazendo consigo a destruição criadora. A Grande Ruptura foi quando peguei nestes cadernos e os cortei para os reduzir a fichas, tentando encontrar essa Ordem mais minúscula, mais dos dedos, mais minute, mais pars minuta prima, a caminho da recolha perfeita, a que não perde nem um átomo de informação, antes de tentar não perder um bit. Estava preparado para a Revolução, o improvável Spectrum, o milagre do processador de texto, o Word Perfect e a perfeição do Dbase III, sonho dos sonhos. Ainda dizem que não há progresso...

(Continua).

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RETRATOS DO TRABALHO NA PRAIA, CABO VERDE


Ontem. Repavimentação dos passeios na cidade da Praia (Plateau).

(sérgio alves)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 18 de Dezembro de 2006



De há cerca de dois meses para cá tenho utilizado o MS Office 2007 Beta com resultados contraditórios. O Outlook é o que se porta pior e falha muitas vezes, em particular quando tem de passar uma mensagem com imagens de uma pasta para outra. Os emoticons gráficos que aparecem no fim de muito correio, bloqueiam sempre a arrumação. A sorrir, ou a piscar o olho, ou a fazer malfeitorias, e lá se vai o Outlook. O Word 2007, depois da última actualização do Beta, demora séculos a responder ao botão direito do rato para qualquer operação de cópia ou correcção pelo dicionário. Como já esperava, o Word 2007 soçobrou como o seu irmão mais velho quando o texto do meu projecto de dicionário / enciclopédia atingiu as 1200 páginas. Passava mais tempo a fazer operações de salvamento que a escrever. Passei tudo para o Access 2007 que esse, mesmo em Beta, parece muito estável e tem a vantagem, entre outras, de ter campos de Memo com RTF, o que me permite escrever quase tudo o que preciso nesse projecto na base de dados e depois passar a texto sem grandes problemas. A nova organização dos comandos em fita é boa e eficaz em todos os programas que uso (não uso o Excel e o PowerPoint).

Vamos ver como será com o Vista e quando se passar do Beta para o produto final.

*

O insuportável machismo de muita da nossa comunicação social tem tido dois momentos altos nas últimas semanas: Ségolène Royal e Carolina Salgado. E não é só machismo, é também arrogância social, pedantice, clubismo disfarçado de crítica. A ler Uma mulher do Mal: Carolina Salgado na Natureza do Mal.

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RETRATOS DO TRABALHO EM WELLINGTON, NOVA ZELÂNDIA


(Sílvia Mota)

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EARLY MORNING BLOGS

928 - Le Lièvre




Ne sois pas lascif et peureux
Comme le lièvre et l'amoureux.
Mais que toujours ton cerveau soit
La hase pleine qui conçoit.

(Apollinaire)

*

Bom dia!

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17.12.06


RETRATOS DO TRABALHO NO PORTO, PORTUGAL


(Gil Coelho)

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PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 3

Texto em movimento, V. 1

3. A fábrica das conferências - preparação.

Promenade

O mal destas coisas é que andam umas atrás das outras. Eu que vou ser o Pessimista de serviço (vou-me intitular de Apocalíptico de serviço porque soa melhor, faz um upgrade para o simples e vulgar Pessimista) percebo como tudo melhorou entre o espaço e o ciberespaço. Olho os meus instrumentos de hoje e os antigos e estou quase disposto a assinar por baixo do optimismo internetiano e ciberespacial.

Caneta e papel mudaram pouco. São melhores. Uso normalmente uma Staedtler Liquid Ball, corre melhor do que as Bic, mas as Bic já foram as minhas segundas canetas porque comecei com canetas de tinta permanente, ou seja, a uma dada altura houve uma troca entre a qualidade e a facilidade. Vidas.

Staedtler 416 Liquid Point Red [Pack 10] Normalmente as canetas são de tinta preta, uma sobrevivência da necessidade de tirar fotocópias. Aí está uma diferença abissal. O primeiro documento de que tirei fotocópias foi uma publicação da antiga CGT, e as fotocópias, pesadas, cinzentas, e que cheiravam intensamente a químico, estão hoje quase ilegíveis. Eram caríssimas. E colocavam um problema complicado: só havia duas ou três lojas de fotocópias no Porto e era perigoso chamar a atenção para os documentos "subversivos" que eu queria fotocopiar, apesar dos seus mais de cinquenta anos adormecidos na memória de quase todos. Por detrás de cada fotocopiadora podia estar a PIDE e, em muitos casos, estava.

Em vez de fotocópias, passava-se tudo à mão. Cadernos e cadernos e cadernos estão guardados com longas transcrições de A Batalha, da Aurora, da Sementeira, do Comunista, da Bandeira Vermelha, que usei para escrever o meu primeiro livro. Tinha uma vantagem: seleccionava-se melhor, decorava-se mais, mas demorava um tempo infinito. Comecei por escrever nuns cadernos reciclados que a minha mãe trazia dos Correios, que eram feitos com um papel creme em cujo verso estava uma cópia a químico de umas contas quaisquer com o carimbo do "Exactor". Parecem ser o reverso de contabilidade, um livro de recibos, em terceiro ou quarto uso de papel químico ( Ainda haverá papel químico, uma coisa sinistra?). Alguém que trabalhava nos Correios reparou que havia pilhas de papel que iriam para o lixo e começou a utilizar a outra face para escrever e eu beneficiava de cadernos abundantes. Eram feios, rudimentares, com as folhas presas com um forte agrafo e uma fita de tecido colada na dobra, mas serviam. Este que se vê aqui é sobre Herberto Helder, data de Esmoriz de 1967 e é o número 17 de uma série.

Os cadernos dos Correios tinham uma enorme vantagem: só se podia escrever de um lado. Em Lisboa usava os cadernos da Faculdade de Direito, exactamente iguais aos do Liceu, e escrevia na frente e verso das folhas (uma vez um aluno em Boticas perguntou-me ""senhor professor posso escrever na coroa da página?". "Podes" - demorei uns segundos a pensar no que seria isso da "coroa" da página - disse eu, admirado por um mundo onde a Ordem continuava tão viva que ainda havia quem pedisse autorização para virar a folha e escrever no cimo da página). Com o frente e verso, o caos instalou-se . Os horrores do mundo analógico obrigavam a uma sucessão de correcções, acrescentos, notas, cortes e cola. Num dos meus cadernos de Direito, está um "ensaio" sobre Nietzsche intitulado Dysangelium onde tudo está torto: o texto não se vê coberto de recortes, folhas, uma ficha da Biblioteca Pública Municipal do Porto a servir de nota, fita gomada. Nunca acabei o texto.


Nietzsche e Althusser davam isto:



(O passeio continua, mas chegarei, a seu tempo, ao anfiteatro Cardeal Medeiros. Speak, Memory.)

*
Escreveu que as canetas de tinta preta são «uma sobrevivência da necessidade de tirar fotocópias». Uma antiga colega de curso minha fazia excelentes apontamentos das aulas, que eram fotocopiados por muitos colegas. Certa vez ofereceram-lhe de presente... uma caneta de tinta preta! A ideia era, é claro, que as fotocópias ficassem mais legíveis. Quanto ao papel químico, ainda tenho umas folhas de reserva. Guardei-as propositadamente, por pensar que seria divertido mostrá-las a crianças, mas ainda não o fiz.

(José Carlos Santos)

*

A sua análise é interessante. De facto havia um enorme preço a pagar quando se copiava ‘à mão’ com caneta ou lápis. Era um processo moroso, imperfeito, e os erros pagavam-se caros (principalmente quando escreviamos a caneta). Esse preço passou a ser substancialmente menor com os tecnologias de reprodução rápida (do papel químico à fotocopiadora). Mas continuava a haver um preço, pois, para além do custo de fotocopiar, à medida que tirávamos fotocópias eramos penalizados pelas perdas de qualidade em relação ao original (por exemplo a côr).

Com os conteúdos digitais tudo é diferente. É hoje fácil reproduzir, copiar, multiplicar conteúdos digitais quantas vezes quisermos, de forma quase instantânea, e praticamente sem perdas de qualidade e sem custos (ou com custos comparativamente muito baixos). Hoje os alunos pedem-nos os slides, não em papel, mas em formato digital para poderem tirar notas usando os ‘laptops’ e anotando directamente os ficheiros.

Estas mudanças (impostas pelas novas tecnologias) ajudam a perceber a necessidade de desenvolver novos mecanismos de protecção da propriedade intelectual. No que respeita a conteúdos disponibilizados ‘online’, careciamos de mecanismos simples e flexiveis de sinalização. Não havia uma maneira fácil e eficaz de um autor sinalizar os termos em que permite, ou não, que os seus conteúdos sejam utilizados. Felizmente hoje temos esse mecanismo.

(adiantei-me no seu ‘passeio’...)

(Pedro Oliveira)

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DEZ NATUREZAS MORTAS NA FOTOGRAFIA 2


(André Kertesz)

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EARLY MORNING BLOGS

927 - Further Instructions

Come, my songs, let us express our baser passions.
Let us express our envy for the man with a steady job and no worry about the future.
You are very idle, my songs,
I fear you will come to a bad end.
You stand about the streets, You loiter at the corners and bus-stops,
You do next to nothing at all.

You do not even express our inner nobilitys,
You will come to a very bad end.

And I? I have gone half-cracked.
I have talked to you so much that I almost see you about me,
Insolent little beasts! Shameless! Devoid of clothing!

But you, newest song of the lot,
You are not old enough to have done much mischief.
I will get you a green coat out of China
With dragons worked upon it.
I will get you the scarlet silk trousers
From the statue of the infant Christ at Santa Maria Novella;
Lest they say we are lacking in taste,
Or that there is no caste in this family.

(Ezra Pound)

*

Bom dia!

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16.12.06


PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 2

Texto em movimento, V. 1

2. A fábrica das conferências - que tecnologia do "comunicar" devo usar?

Preparo a intervenção de forma diferente. Vou ver o site de Lawrence Lessig. Há uma nova edição do livro Code and Other Laws of Cyberspace agora chamada apenas de Code v.2 que se pode descarregar em PDF. Tem cerca de 400 páginas, não o vou poder ler todo. Leio o prefácio (os dois) e os primeiros capítulos e depois escolho os que preciso de ler. Parte II, III, V.
Prof. Lessig describes permitted activities
Pelas outras partes, passo nalguns subcapítulos. Vejo uns videos no You Tube com gravações de fragmentos das conferências de Lessig. Fiz bem, Lessig repetiu quase ipsis verbis uma das conferências, adaptando apenas alguns dados a Portugal. É, como muitos académicos americanos, um profissional que tem uma apresentação estandartizada, mas muito eficaz, dos seus pontos de vista. Como Lawrence Lessig é também um militante das suas causas, a começar pelas licenças Creative Commons, a eficácia do discurso é decisiva.

Lessig fala com uma nova forma muito plástica de interacção entre o que diz, sem papel nem texto e o que passa no écrã do fundo. O Diogo Vasconcelos disse-me qual era o programa, mas não fixei. O resultado é muito diferente do PowerPoint, a integração fala-écrã valoriza as palavras, joga com as palavras, como se fosse um sublinhado visual. Vendo aquilo, o velho método de fazer apresentações está mais que morto. A conferência que era a Conferência dependia da qualidade do texto, era o texto que valia mais que tudo. C. S. Lewis, T. S. Eliot não "interagiam" com o público, que sentado muito direito e silencioso, ouvia como lia. Lessig, como a maioria dos conferencistas anglo-saxónicos, em particular nestas áreas, fala, solto do púlpito, sem uma palavra a mais e sem uma imagem a menos. Não dá, não dá para competir, tem que ser doutra maneira.

Leio o blogue de Lessig e lá está a salvação, uma salvação: "People are often very kind (at least to me) about my speeches. But the truly inspired rhetorician of our age is Eben Moglen." Moglen é outro militante como Lessig, de causas muito próximas, e lá está um video de uma conferência sua em Seattle, há muito pouco tempo (Software and Community in the Early 21st Century) . Moglen fala passeando-se pelo palco com o microfone, também sem papel, fora do púlpito. É um discurso de tipo clássico que vive da empatia e da retórica, fluente, ao mesmo tempo convincente e expositivo, que se percebe já ter sido feito mais vezes, ou pelo menos ter "partes do código" já experimentadas. É assim que vou tentar fazer.

E tento. No tecnológico anfiteatro da Universidade Católica existem microfones daqueles que usam na televisão os locutores. Uma caixinha com um interruptor e uma luz que se prende ao cinto e um fio que termina num microfone pouco maior do que uma cabeça de fósforo. No intervalo coloco a caixa e o técnico verifica que está tudo a funcionar. Estou pronto para competir com o Eben Moglen, já que para o Lessig sou um primitivo actual. Quando chega a minha vez, avanço para o púlpito, para partir dali para passear no palco, corpo e mãos a explicar a fala à falta de melhor. O microfone recusa-se a funcionar. Adeus, tecnologias de "comunicar".

(Continua)
*
O microfone recusa-se a funcionar. E desatei-me a rir !

Já me aconteceu este ano, em Novembro e Dezembro.
Para mim, a melhor tecnologia, e unica em que confio, é a voz.
Eu tenho uma voz forte, dá para 70 pessoas. O Manuel Alegre, teria uma para 150. O Pavarotti para 500 (Digamos assim).

Fico à espera de saber como resolveu o problema !

(Eduardo Tomé)

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PERGUNTAS ENTRE O ESPAÇO E O CIBERESPAÇO 1

Texto em movimento, V. 1

[Notas, fragmentos, observações no (e sobre o) debate "Creative Commons na Sociedade do Conhecimento" na Faculdade de Ciências Económicas e Empresarias, Universidade Católica Portuguesa, 15/12/2006]

1. A fábrica das conferências - palcos

(Como deve o conferencista keynote falar? Keynote, que chave é esta? Lá voltaremos.)

No último mês defronto-me com três palcos diferentes. (Iguais as conferências e os debates numa coisa: todos começaram atrasados, entre quinze minutos e uma hora).

Em Alpiarça, na Casa dos Patudos, o tradicional que já quase nunca se encontra: uma mesa e uma cadeira solitárias no palco, mesa adornada de flores, microfone, jarra e copo de água. O Lugar da Autoridade, quando a conferência era a Conferência.

Uns dias depois, no Porto, num hotel, o debate sobre o Programa do PSD. Um misto entre o tradicional e o "moderno": mesa para os presidentes e os oradores, há sempre muitos presidentes nas mesas partidárias, no elenco dos discursos partidários: Presidente do Partido, Presidente da Comissão para a Revisão do Programa do Partido. Presidente da Distrital e por aí abaixo, conforme os eventos. Debate transmitido em directo na Rede. Perguntas em e-mail antes, durante e depois. As perguntas confrontam-se depois com a escassez do tempo, uma tecnologia contra outra, a do palco pouco compatível com a velocidade das perguntas electrónicas, a que se somam as da sala.

Terceiro palco, o anfiteatro Cardeal Medeiros da Universidade Católica: mesa tradicional dos oradores e do moderador do lado esquerdo, púlpito do lado direito com ligação video e internet, écrã no fundo, cadeiras confortáveis na sala (as cadeiras mais duras nos Patudos e o Hotel a meio caminho). Em Alpiarça, o saber é único; no Porto, o poder é hierarquicamente fixado com rigidez; em Lisboa, o saber é cooperativo, complementar e só hierarquizado pela keynote e pelo púlpito.



2. A fábrica das conferências - que tecnologia do "comunicar" devo usar?

(Continua)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 16 de Dezembro de 2006


Looney Tunes Cartoon Classics




Desenhos animados no iPod. Looney Tunes. Os desenhos animados não envelhecem, os filmes envelhecem.

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DEZ NATUREZAS MORTAS NA FOTOGRAFIA 1


(Henri Le Secq)

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EARLY MORNING BLOGS

926 - Poppy

It builds like unseen fire deep in a mine,
This igneous, molten wrath,
The smelting torture that rises with the decline
Of reason, signifying death.

As when, fueled with suspicion, the coal-black
Othello is wrought forge-hot
Or when pouting Achilles lashes back
At the whole Trojan lot.

For the death of Patroclus: the one prepared to die
In fury, to pit his life
Against a well-armed equal, the other to slay
An innocent young wife;

Both, curiously, heroes. It is like that seething
Pit, pitch-black, as whose lip
A petaled flame spreads crimsonly, bequeathing
One or another sleep.

(Anthony Hecht)

*

Bom dia!

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15.12.06


NADA DE NOVO SOBRE A TERRA

Durante dias arrumei velhos papéis dos últimos anos do século XIX e primeiros do século XX, que popularizavam duas correntes político-ideológicas, próximas, mas distintas: o anarquismo e o sindicalismo revolucionário. Junto com esta colheita vem sempre outra por proximidade, dos tempos e das pessoas, propaganda republicana e panfletos anticlericais.



Estes papéis são facilmente reconhecíveis para quem tenha treino de livros velhos e de alfarrabistas. Pequenos, muitas vezes mais pequenos do que um bolso, raras vezes chegando às trinta páginas, num papel mau, com capas tão finas que se rasgam com muita facilidade. Tinham que ser baratos e eram feitos para pessoas que não estavam muito habituadas a ler e quase não tinham cultura formal. As ilustrações são escassas e rudimentares, mas a iconologia é típica. Retratos dos mestres, gravuras ou zincogravuras, com Tolstoi, Bakunine, Reclus, Hamon, e várias figurações que têm como centro ou o horizonte o Sol.



Eram fiéis a séculos de imaginário bíblico, mesmo sem o perceberem. Eles não sabiam que o Sol que lá aparecia era o mesmo Sol que ilustrava as capas dos livros de catecismo, e onde no catecismo ocupava o lugar de Deus, para eles estava o Futuro. Aquele Sol era o Futuro, ou seja, o sentido inscrito na História, e as personagens que o rodeavam, o apontavam, para ele caminhavam eram figuras masculinas - os homens sempre mais altos do que as mulheres, os homens levando atrás de si a família, a mulher e os filhos, mas sempre os homens como actores - que caminhavam do mundo de miséria quotidiana para a Jerusalém Libertada, para a Nova Jerusalém. De Babilónia para Jerusalém, era todo o programa da libertação.

A "emancipação" dos grilhões do presente, do trabalho escravo, fazia-se quase que magicamente - a iconografia militarizada e violenta é uma contribuição posterior do bolchevismo - pela "união", pela solidariedade e pela luta. Meia dúzia de frases que hoje nos parecem ingénuas, mas foram terrivelmente poderosas, ilustravam como dísticos esta literatura: "um por todos, todos por um", "paz entre nós, guerra aos senhores", "o homem livre sobre a terra livre", "quem não trabalha não come", "proletários de todo o mundo uni-vos!".

No seu conjunto um pouco heteróclito, propaganda anarquista, sindicalista, pacifista, antimilitarista, antitouradas, vegetariana, neomalthusiana (ou seja, a favor do controlo dos nascimentos), homeopática, espírita nalguns casos, era a contracultura popular na época, que circulava entre um pequeno mundo de artesãos urbanos, tipógrafos, cinzeladores, marceneiros, canteiros, fragateiros, e mais meia dúzia de profissões já extintas. Era lida também por estudantes e intelectuais, quase sempre os mais remediados e desenraizados, vivendo o mundo mítico das mansardas, escrevendo versos e sonhando com uma versão social da Dama das Camélias no meio das chamas da revolução. Aquilino, Nemésio, Ferreira de Castro leram e ocasionalmente escreveram literatura próxima destes panfletos.



Quando olho estes livrinhos frágeis - À Mocidade, A Evolução Legal e a Anarquia, Necessidade da Associação, A Conquista do Pão, No Café, Entre Camponeses, A Sociedade Futura e tantos outros -, endireitando as páginas dobradas, consertando os rasgões, protegendo-os com um plástico qualquer do Futuro que os envelheceu, não posso deixar de perguntar o que sobra de todos eles depois de cem anos de "guerra total" que nos endureceu face a todas estas ingenuidades. Mas mesmo que nada no nosso mundo do século XXI se pareça com o mundo das tabernas revolucionárias de Alcântara, não consigo deixar de ter uma forte sensação de déjà vu. Isto continua tudo por aí, quase da mesma maneira, o mesmo pensamento, a mesma visão, mesma pulsão igualitária, niveladora, os mesmos gestos simples e mágicos de que se espera o milagre da Revolução, a mesma ilusão de um mundo primitivo e feliz, sem egoísmo e sem maldade a não ser nos "de cima", nos "senhores". Este mundo está vivo e bem vivo na Internet, na Rede, no ciberespaço. Nada se cria, tudo se transforma.

Nos dias de hoje todas as teorias da História, que sofreram a crise das teleologias, os herdeiros de Hegel, Marx e Teilhard de Chardin, reconverteram-se em utopias tecnológicas, que mais do que descritivas são programáticas, dizem-nos, com a felicidade de um sorriso, não só como as coisas vão ser assim, mas também como devem ser assim. Gente culta e inteligente, génios da tecnologia, que não sabem muita história, não escapam à ideia de que as novas tecnologias permitirão uma engenharia social poderosa, que nos tornará mais solidários (em Rede), mais poderosos na igualdade (as ideias niveladoras fazem o seu caminho com a noção de "empowerment"), num mundo que não precisa de mediações, não necessita de delegar poderes, mais felizes porque interagimos numa terra sem propriedade (os átomos dissolvem-se nos bits e estes não tem dono).

Do Linux, e de todo o software grátis e "livre", a mágica palavra (lembram-se de "o homem livre sobre a terra livre"?), à saga teórica e prática contra os direitos de propriedade, que institucionalizou o velho "roubo" de que falavam Proudhon e Preobajensky; da "town hall democracy" à ideia de construir um mítico agora em que todos podem votar sobre todas as questões em tempo quase real, não sendo necessário nem um parlamento, nem um governo, podendo ser este apenas um grupo de tecnocratas executores das decisões da "comuna";
Exemplos abundam na bibliografia Electronic Democracy, que retrata muitas das utopias da Internet no seu início; vários textos de Eben Moglen um dos mais activos e proeminentes defensores do "free software", Anarchism Triumphant: Free Software and the Death of Copyright; Freeing the Mind : Free Software and the Death of Proprietary Culture, etc., etc.
da Wikipédia, enciclopédia colectiva dos homens comuns que não precisam de "senhores", em que mais importante do que o rigor dos artigos é o facto de serem feitos por todos, onde são as massas que "fazem" a ciência (como se diz num comentário num blogue: "A wikipédia não é mesmo uma enciclopédia de autor. Prefiro assim. Prefiro que seja validada a opinião da generalidade, daqueles que verdadeiramente fazem algo pela disseminação de cultura. O conhecimento absoluto e pessoal está condenado com este novo critério editorial") ao "jornalismo dos cidadãos", em milhares de pequenos passos, a Revolução passou para a Rede e aí dissolve os poderes tradicionais.

Passou também a Contra-Revolução, mas isso é toda uma outra história.

(No Público de 14 de dezembro de 2006)

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14.12.06


COISAS DA SÁBADO: A ENTIDADE

Deixo a análise da deliberação da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social) sobre o caso Cintra Torres / Público para outra altura, porque merece uma atenção mais cuidada, mas não se pode deixar passar este fabuloso comunicado com que a mesma “entidade” encerra um diálogo que considera “tão picaresco como pouco edificante”, sendo que assim se classifica também a si própria.

Vale a pena ler os termos desse comunicado onde se diz que “o Director do jornal "Público" [pode] ficar descansado”. Mas que é isto? Que linguagem é esta? Depois continua, insultando o director do Público numa alusão que não pode deixar de se perceber ás suas posições editoriais sobre o Iraque, mesmo que se escreva a pretexto da sua reacção à deliberação da ERC:
Registada que fica a sua enorme "coragem" e arrojo de lutador pela liberdade” , porém com o “o sabor amargo de ver como, com tanta "heroicidade", se brinca com a História e com o exemplo daqueles que - mas a sério - lutaram, e quantas vezes pagaram com a sua própria liberdade ou até com a vida, a liberdade de expressão e opinião de que hoje todos beneficiamos.
Este é um comunicado puramente político, ad hominem, mais uma peça que, tendo outra origem e outro pretexto, se insere numa campanha política que de há muito existe contra o director do Público. Ora, quem fala nesta voz é o Estado, porque, queira-se ou não, a ERC fala pelo Estado português, e é por isso que esta linguagem é grave. Ela mostra completa ausência de sentido de Estado e um sentimento de impunidade preocupante.

Com este comunicado, caso não seja retirado de imediato, a ERC deixou de ter condições para exercer a sua função de forma minimamente aceitável. A exigência da sua demissão devia ser uma causa, a começar pela demissão por livre consentimento de todos os que, dentro dela, discordam deste caminho. Se a ERC não se demitir já, arrastará a sua existência de forma conflituosa nos meses que vêm, sendo que todas as vezes que diga alguma coisa, mesmo que justificada, exercerá sempre o efeito contrário àquilo que pretende dizer. A história abunda destes exemplos. A começar pela história portuguesa. Não haverá aqui surpresas, está escrito nos céus.

Eu podia aqui fazer uma declaração de interesses, desnecessária porque todos sabem o que faço e penso. Eu não só escrevo no Público, como partilho muitos pontos de vista com o seu director e por isso também me sinto alvo do comunicado insultuoso da ERC. Porém a minha principal declaração de interesses é outra: é a favor da minha liberdade de escrever o que penso, sujeito apenas à lei comum nas suas consequências, e não dou à ERC qualquer direito de censurar, adjectivar ou ironizar sobre as minhas posições. Aceito isso de qualquer leitor, com razão ou sem ela, não do Estado.

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RETRATOS DO TRABALHO EM TAVIRA, PORTUGAL


(Salvato Feijó)

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À MEMÓRIA DE LOYOLA DE PALACIO

Por aquelas bandas, não havia muitas assim. E muitos ainda menos.

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COISAS COM QUE NÃO SE DEVE BRINCAR

Teve razão Henrique Freitas em demarcar-se da posição do Grupo Parlamentar do PSD quanto ao modo como foi recebida uma delegação do PE "sobre os voos da CIA" nas instalações do PSD na Assembleia, como tiveram os ex-ministros Paulo Portas e Figueiredo Lopes em não aceitarem ser interrogados pela mesma comissão. Quem conheça o Parlamento Europeu sabe que este tipo de sub-sub-sub comissões representa um nicho para algumas causas marginais, que as Comissões propriamente ditas não acolhem nem dão estatuto e importância. Aliás, seria interessante saber em que países o trabalho deste grupo tem a relevância que lhe é dada em Portugal, quer por governos, quer pela imprensa.

É verdade que é um deputado do PSD que a dirige, mas o modo como os seus trabalhos são conduzidos e divulgados - com o relatório praticamente escrito já de antemão - não corresponde de nenhum modo às posições em matéria de política externa que é suposto ter o PSD. Mais: o modo como o governo português e o Ministro dos Negócios Estrangeiros foram atacados mereceria a solidariedade do PSD e não a crítica implícita na solicitude em a acolher. Seria muito mais natural que fosse nas salas do Bloco de Esquerda ou do PCP que essa reunião tivesse sido feita, e é um presente de mel dar-lhe a legitimação de reunir numa sala de um partido que é suposto ter uma política externa atlantista. Como o PS neste caso.

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GRANDES CAPAS


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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 14 de Dezembro de 2006






Ouvindo Abdel Halim Hafez, numa interpretação ao vivo de Kariat Al Fengan.

*


Enquanto muitas das nossas editoras produzem toneladas de livros irrelevantes, lixo traduzido aos montes, a Cotovia faz a diferença com excelentes edições. Dois exemplos: Um, a série que Abel Barros Baptista organizou de livros de autores brasileiros com o título provocatório de "Curso Breve de Literatura Brasileira" e que chega agora ao fim dos seus dezasseis volumes prometidos (mas que raio de número que nem sequer é pitagórico, bem podiam acrescentar mais quatro para satisfazer a nossa vontade hegeliana de repousar o "espírito" na calma das décimas).

Outro, é o terceiro volume do teatro de Brecht que inclui algumas das suas mais famosas "peças didácticas", uma das quais eu traduzi para o TEP já há muitos anos. Já não leio Brecht há muito tempo, faço mal claro. Agora com o descanso das exaltações que o tempo dá, vejo o "grego" que há neste teatro, por exemplo no Coro Instruído na Peça Didáctica de Baden Baden Sobre o Acordo, uma que só li agora.

*

Não sei o que quer dizer quando afirma que dezasseis não é um número pitagórico. Isto prende-se, é claro, com a questão «O que é um número pitagórico?», a qual tem várias respostas possíveis. É frequente chamarem-se (erradamente) números pitagóricos a tripletos (a,b,c) de números naturais tais que a^2 + b^2 = c^2. Mas acontece que 16 aparece num destes tripletos, nomeadamente em (12,16,20) (bem como em (16,12,20), obviamente). Por outro lado, designam-se por vezes por números pitagóricos os números obtidos pelo seguinte processo: parte-se de um polígono regular (por exemplo, um triângulo regular) e considera-se a sucessão de conjuntos de pontos

.....................................................

............... .................

............... . ............ . .

............................ . . . . .

e assim sucessivamente. Então os números de pontos possíveis para uma tal figura designam-se por números pitagóricos. No caso do triângulo, isto dá os números 1, 3, 6, 10, 15, 21, ... e efectivamente 16 não surge aí. Mas se se partir de um quadrado, a lista em questão é 1, 4, 9, 16, 25, ... e aí já pode ver o número em questão.

(José Carlos Santos)

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COISAS SIMPLES


(Henri Le Secq, Foto de uma quinta perto de St.-Leu-d' Esserent, por volta de 1852)

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EARLY MORNING BLOGS

925 - Ballade des proverbes

Tant grate chievre que mau gist ;
Tant va le pot a l'eaue qu'il brise;
Tant chauf'on le fer qu'il rougist,
Tant le maill'on qui qu'il se debrise ;
Tant vault l'omme comme on le prise,
Tant s'esloigne il qu'il n'en souvient,
Tant mauvais est qu'on le desprise ;
Tant crie l'on Noël qu'il vient.

Tant parl'on qu'on se contredit ;
Tant vault bon bruyt que grace acquise ;
Tant promest on qu'on se desdit ;
Tant pri'on que chose est acquise,
Tant plus est chere, et plus est quise,
Tant la quiert on qu'on y parvient,
Tant plus est commune, et mains requise ;
Tant crye l'on Noël qu'il vient.

Tant ayme on chien qu'on le nourrist ;
Tant court chanson qu'elle est aprise ;
Tant gard'on fruit qu'il se pourrist ;
Tant bat on place qu'elle prise ;
Tant tarde on que fault entriprise ;
Tant se haste on que mal advient ;
Tant embrasse on que chiet la prise ;
Tant crye l'on Noël qu'il vient.

Tant raille on que plus n'en rit ;
Tant despend on qu'on n'a chemise ;
Tant est on franc que tout s'il frit ;
Tant vault «tien » que chose promise ;
Tant ayme on Dieu qu'on suyt l'eglise;
Tant donne on qu'emprunter convient;
Tant tourne vent qu'il chiet en bise;
Tant crye l'on Noël qu'il vient.

Prince, tant vit fol qu'il s'avise,
Tant va il qu'aprés il revient,
Tant le mate on qu'il se ravise ;
Tant crye l'on Noël qu'il vient.

(François Villon)

*

Bom dia!

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13.12.06


RETRATOS DO TRABALHO NO DONDO, ANGOLA


Lavadeiras lavando roupa no Rio Kuanza, junto à cidade do Dondo.

(Pedro Reis)

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES:
ESFERA PÚBLICA, ESFERA PRIVADA, CUSTOS E EMPRESAS


Escrevo-lhe (...) relativamente a uma notícia que acabei de ouvir no noticiário das 9h00 da TSF (dia 13 de Dezembro), mais precisamente aos comentários produzidos sobre essa notícia pelo Dr. Van Zeller, presidente da CIP. (...) em resumo o Dr. Van Zeller foi convidado pela TSF a comentar a nova directiva da UE relativa à comercialização de produtos químicos no espaço europeu e que faz sair do âmbito da esfera pública a tarefa de analisar os perigos para saúde pública dos produtos químicos comercializados no espaço europeu, incumbido as respectivas empresas produtoras a tomar tal iniciativa.

Não quero aqui comentar a bondade desta directiva mas os comentários do Dr. Van Zeller que disse abertamente confiar que a directiva em Portugal fosse aplicada devagarinho e que se arranjaria, concerteza, um "jeitinho" de a tornar menos cara para as empresas e de fazer demorar a sua aplicação, utilizando os "prazos", "protocolos" e outras medidas habituais em Portugal. Disse o conceituado empresário que é natural que os países nórdicos apliquem estas novas regras integralmente - "é da raça deles cumprir com estas coisas" - disse abertamente, acrescentando logo de seguida que em "Portugal" somos mais de aplicar "devagarinho" e arranjar "jeitinhos" para que as empresas não tenham os custos que estas medidas implicam. Terminou, como é habitual hoje em dia, com a ameaça-chantagem da deslocalização das empresas para fora do espaço europeu.

É esta irresponsabilidade social, esta (...) vontade de arranjar "jeitinhos" que levem as empresas portuguesas a transferir tudo o que é custos para o Estado e tirar-lhe tudo o que signifique vantagens, que me parece causadora do nosso crónico atraso. Ainda que esta seja uma opinião transmitida individualmente ela foi proferida na qualidade de representante de um grande espectro empresarial português e é, como tal, significativa.

De acordo com a mesma notícia há, neste momento, cerca de 30.000 produtos químicos à venda no espaço europeu não testados relativamente aos efeitos nocivos para a saúde pública, sendo muitos deles apontados como responsáveis pelas subidas das taxas de incidência de cancros e infertilidade na CE. Falando economicamente, muitos daqueles 30.000 produtos podem ser responsáveis pelo aumento das despesas dos estados com a saúde e mais uma das razões do aumento do déficit orçamental do sector em todos os países europeus.

Ora a transferência da obrigação de estudo das consequências para a saúde pública da utilização daqueles produtos para a esfera privada pode ser entendida como uma medida de contenção de custos, fazendo-os suportar por quem tirará directas vantagens da sua comercialização, mas também pelo reconhecimento da incapacidade estatal de proceder a essa análise, cuja falta tem consequências directas no aumentos dos custos dos erários públicos.

Em resumo, parecem-me medidas acertadas para a resolução de um duplo problema: um problema económico-financeiro do estado e um problema de saúde público. Que o presidente da CIP, tão ávido em clamar por contenções de despesas e restrições orçamentais noutros sectores, refutou claramente, dizendo, sem pejo nem decoro, confiar que as empresas irão arranjar "jeitinhos" para não cumprir com tais regras. O que apenas transmite a ideia de uma absoluta irresponsabilidade social por parte de quem profere tais afirmações e, pior, das entidades que o mesmo representa.

(Adeodato Pinto)

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12.12.06


IMAGENS POLITICAMENTE INCORRECTAS 9

(enviada por Vieira Pinto)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 12 de Dezembro de 2006





O PC Magazine é para um amador uma excelente revista sobre computadores, ainda melhor depois da revisão editorial do último ano. A revista passou a cobrir não apenas os computadores, periféricos e programas, mas tudo que se está a tornar digital: automóveis, casas, electrodomésticos, roupa.

*

The image “http://www.intersilo.com/IMAGES/harrywinston.jpg” cannot be displayed, because it contains errors.Os jornais estão cheios de publicidade a relógios de luxo. É um mercado em que se aplica a nova lei: os pobres ficam com o digital, os ricos com o analógico, uma variante da lei de que os pobres ficam com o virtual e os ricos com o real. Ambas as máximas traduzem o actual ciclo das coisas, e apagam o seu exacto oposto, cujo tempo se começa a esgotar.

*

Falar sozinho era considerado sinal de loucura, hoje entrou nos hábitos sociais. Uma mãe de família a falar animadamente para as paredes do carro, com gestos em apoio; um yuppie parado num canto a falar para um fio que lhe escorre do ouvido, são paisagens urbanas de hoje. Com a nova consola Wii da Nintendo as casas vão-se encher de um bailado virtual, mais uma visão nova para juntar ás outras. Afastem as jarras e segurem as cortinas.

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RETRATOS DO TRABALHO NO JAPÃO


Jardineira varrendo as folhas do Outono no jardim de Kanasawa.

(Maria Emília Malta)

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INTENDÊNCIA

NOVO Actualizadas as notas LENDO / VENDO / OUVINDO / ÁTOMOS E BITS de 10 de Dezembro e O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: OUTRO TIPO DE SCUTs e DEIXOU DE HAVER SEGUROS? com novos comentários.

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RETRATOS DO TRABALHO EM ALDEIA VIÇOSA - GUARDA, PORTUGAL


Preparação do fogo do Natal no largo da Igreja Matriz.

(Alexandrina Pinto)

*
O fogo em frente à igreja matriz é uma tradição da Beira Interior . É chamado de Madeiro . Na noite de 24 para 25 , a população reune-se em frente à Igreja Matriz , enquanto vé crepitar o fogo . O objectivo desta tradição julgo que seria aquecer os mais desfavorecidos ou os sem - abrigo , que nesta altura do ano ( mais fria ) podem usufruir do calor e da companhia de outras pessoas.

(João Melo)

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EARLY MORNING BLOGS

924 - Seguro assento na coluna firme

Seguro assento na coluna firme
Dos versos em que fico,
Nem temo o influxo inúmero futuro
Dos tempos e do olvido;
Que a mente, quando, fixa, em si contempla
Os reflexos do mundo,
Deles se plasma torna, e à arte o mundo
Cria, que não a mente.
Assim na placa o externo instante grava
Seu ser, durando nela.

(Ricardo Reis)

*

Bom dia!

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11.12.06


RETRATOS DO TRABALHO EM TOURIA - LEIRIA, PORTUGAL


(Luís Leal Pinto)

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10.12.06


INTENDÊNCIA

Actualizada a nota O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DEIXOU DE HAVER SEGUROS? e LENDO / VENDO / OUVINDO / ÁTOMOS E BITS de hoje com comentários de Estrela Serrano da ERC, a título pessoal, e de Eduardo Cintra Torres.

Em actualização os ESTUDOS SOBRE O COMUNISMO.

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DO AMOR FILIAL

(CONVERSA VERDADEIRAMENTE OUVIDA)

"- Quando a Mãe morrer sou eu que a vou enterrar.

- Não és nada, sou eu!


- Ó Mãe, quem é que a vai enterrar, eu ou ele?

- Claro que sou eu, sou o mais velho.

- Mas eu gosto mais da Mãe do que tu.


- Isso é que era bom, ó cretino!

- Mãe (ofendida e ingrata): mas por que raio é que me querem enterrar?
"

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RETRATOS DO TRABALHO NO GROUND ZERO, NOVA IORQUE, EUA


(Joana Lopes)

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GRANDES CAPAS


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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: DEIXOU DE HAVER SEGUROS?

http://www.litoralcentro.pt/noticias/434.jpg

[O leitor refere-se a esta nota publicada na Sábado:
"Quem ouve alguns comerciantes de zonas periodicamente inundadas, muitas delas procuradas para o seu ramo de negócio exactamente pelo seu potencial turístico junto aos rios e ao mar, a queixarem-se de que o estado tem que fazer alguma coisa pelos seus prejuízos, no caso actual resultado não de uma grande catástrofe natural, mas de uma intempérie mais vigorosa, pergunta-se sobre a nossa atávica dificuldade em lidar com a responsabilidade individual. Será que deixou de haver seguros? Será que a preguiça e o deixar andar levou a esquecer os riscos de ter estabelecimentos em leitos de cheia? Será que não há escolhas individuais, riscos assumidos, vantagens ponderadas com desvantagens na localização de alguns negócios? Parece-me bem que sim e que é a coisa mais natural do mundo prever o que acontece face a fenómenos tão naturais como respirar. "]
Relativamente ao seu artigo na Revista Sábado Nº 135, de 29 de Novembro, com o subtítulo “Deixou de haver seguros?”, permita-me prestar-lhe alguns esclarecimentos sobre este assunto. A resposta à sua questão é que, efectivamente, deixou de haver seguros!

Durante os últimos quatro anos fui presidente da Associação Comercial de Águeda, localidade recorrentemente associada ao fenómeno das cheias. A baixa da cidade, e muito do seu comércio, situam-se junto ao Rio Águeda. Este afluente do Vouga há muitas décadas que tem sido visita ocasional do espaço urbano, causando, pouco frequentemente, alguns estragos avultados em lojas, habitações e espaços públicos.

A última grande cheia com prejuízos relevantes para os comerciantes foi em 2001, a anterior em 1995, ficando-se pelos “ameaços” habituais quase todos os Invernos. A forte exposição mediática que caracteriza as nossas cheias, (potenciada também pelas “cirúrgicas” visitas de um aguedense, Manuel Alegre, que às vezes parece só vir à sua terra quando na casa da família a água sobe acima dos joelhos), acaba por contribuir para algum alarmismo, erradamente, banalizado.

O resultado da “fama” das cheias de Águeda é que as companhias seguradoras se recusam a efectuar seguros aos comerciantes localizados nas chamadas “zonas de risco”. A Associação Comercial de Águeda tem tentado alertar para esta deliberada fuga a quaisquer riscos que, afinal, constituem a essência do negócio segurador. Creia, (...) que não são a preguiça ou a “atávica dificuldade em lidar com a responsabilidade” que impedem os comerciantes de segurar os seus bens, nem sequer os eventuais custos elevados dos prémios, na medida em que a recusa das seguradoras surge assim que associam o local às cheias do Rio Águeda.

(Alberto Marques, Águeda)

*
Já tenho vindo a lamentar que a questão da Industria Seguradora esteja a ser tratada numa óptica miserabilista e sempre apontando às empresas do sector a culpa por algo que não corre bem na sociedade no aspecto catastrófico.

Penso que o problema carece de uma análise de raiz e nunca apontando às empresas privadas do sector a responsabilidade pela falta de cobertura de tais danos como os que são abordados pelo leitor de Águeda que, com toda a justiça, reclama solução para o problema das cheias.

A menos que estejamos a pensar no espírito mutualista com que nasceram as seguradoras - onde a iniciativa cooperativa constituiu a sua essência - é ao Estado que esta questão tem sempre que ser questionada. O Estado somos todos nós e, assim, torna-se sempre premente que ele assegure as condições de vida aos cidadãos.

Esse leitor, que já foi membro executivo de uma associação de comerciantes, saberá que, como investidor privado, orienta os seus negócios para a rendibilidade e sempre sabe escolher os produtos que deseja comercializar. Nunca atribuirá quaisquer direitos aos seus clientes para escolher os bens que ele deve vender permitindo-lhes isso sim, numa óptica de inteligência profissional, que eles possam sugerir "para mais tarde pensar".

O que faz falta na nossa sociedade - e isto abrange uma discussão mais lata e todos os sectores - é esclarecimento. Quando se discutem os seguros o que leio ou oiço é sempre que as companhias são "as culpadas de tudo" e nada nem ninguém vejo aparecer na "praça pública" para as "defender" dessa injusta e desajustada imagem.

O que se pode - e deve - por em causa é o bom ou mau profissionalismo desta indústria, aliás, como o de outra qualquer. A transparência com que vende, a rapidez com que responde nos momentos da sua "razão de existir", o sinistro.

Ora, se aceitamos este "estado social" que cada vez mais depende da iniciativa privada ou aceitamos as regras dessa iniciativa ou então - como defendo - devemos também cada vez mais reflectir na necessidade de todos nós - digo, Estado - criarmos as condições de segurança para os cidadãos. Mas, á boa maneira portuguesa, continuamos a querer "sol na eira e chuva no nabal".

(Francisco Teixeira)

*

Com efeito não são só os comerciantes de Águeda que se podem queixar da falta de seguros. Assim um honesto cidadão, praticamente desde criança que pode ter um seguro de doença. Vai pagá-lo pela vida fora até á data mágica em que atinge os 65 anos. A partir desta idade, quer tenha sido saudável como um touro toda a vida, ou se tenha servido desse seguro várias vezes veja se há alguma companhia de seguros em Portugal que o aceite para seguro de doença. Se calhar até aceitam, mas com um prémio tão agravado, e com tantas exclusões, que o seguro só funcionará se a pessoa cortar um dedo, entre as 16 e 16,30 de uma sexta-feira dia 13.
Isto é, os seguros só são bons quando não são precisos. Já agora pode perguntar aos lavradores do Douro como é, já que só podem fazer seguro que cubra a geada nos meses de Junho e Julho, isto é no pino do verão.

(Manuel Castelo Branco)


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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: OUTRO TIPO DE SCUTs


Ponderei seriamente se lhe deveria escrever. Já muito se falou das escolas e do ME. É um assunto quase permanente, mas não resisto.

Quando se fala de ensino é sempre constrangedor falar de dinheiro. Ensinar é uma missão e é suposto os professores serem missionários. É neste contexto que, quer a Sr.ª Ministra da Educação, quer qualquer um dos seus secretários de serviço, afirma que a motivação dos professores está no sucesso dos seus alunos.

A estória que vou contar inicia-se em 26 Julho de 2005 cerca de 4 meses depois da tomada de posse deste governo e é também a estória deste governo. Na referida data foi publicado um o decreto-Lei nº121/2005 que acabava com a modalidade de estágio no formato existente. Os professores estagiários deixavam de ter as suas turmas e optava-se pela"modalidade de prática pedagógica supervisionada". Os estagiários deixavam de ser professores de modo a não terem de ser remunerados e os orientadores viam a sua carga horária crescer. A condição do estágio foi diminuida. Os argumentos usados eram então a necessidade de uma gestão eficaz dos recursos e que em mais nenhuma profissão os estágios eram remunerados. Assim estes alunos viram as regras alteradas a meio do jogo, tal como os orientadores que começaram a repensar se valeria a pena continuar nestas condições. Falava-se que os orientadores não teriam também direito a remuneração já que uma série de diplomas tinham sido revogados.

A situação era confusa. No momento em que as faculdades necessitavam de escolas e orientadores não se sabia como é que as coisas iam funcionar. Os orientadores já tinham sido colocados ao serviço e era complicado mudar as regras a meio. Não mais se falou no assunto, era uma situação consentida. Os orientadores recebiam menos que os seus colegas das universidades privadas mas recebiam. Em Julho de 2006 a situação voltou a colocar-se. Estava-se a discutir o ECD e muita coisa se ouvia. Esperava-se que as Universidades defendessem os seus cursos de formação de professores nas reuniões com o ME.

Percebeu-se que existiam dificuldades em arranjar orientadores e escolas mas era necessário arranjar soluções. Em alguns casos sugeriram-se, digo, aliciaram-se com possíveis verbas os orientadores e as escolas de modo a conseguir assegurar os estágios. Mas no fim sempre o silêncio não se concretizando nada. Iniciado o ano lectivo os orientadores continuaram a receber a tal gratificação, que diga-se para além de ser miserável foi a única que não sofreu aumento em Janeiro deste ano.

É agora, a 10 Novembro 2006, que a estória começa a ganhar o interesse histórico. Surge do Gabinete de Gestão Financeira do ME um ofício circular (nº16/GGF/2006) onde se chama a atenção que as escolas devem suspender o pagamento da dita gratificação. E que as gratificações pagas entre Setembro de 2005 e Novembro de 2006 deverão ser devolvidas, a menos que o Ministro das Finanças, num gesto característico da época natalícia nos perdoe ter aceito tão miserável gratificação.

Não penso que quem é orientador o seja pelas gratificações, mas este tratamento não me parece correcto. É fazer pouco de quem suou a camisola. Agora que todos (Universidades e ME) se apanham com a sua situação resolvida (arranjaram escolas e orientadores durante dois anos) recolhem os parcos maços de notas com que vêem acenando desde Julho de 2005 e dizem que se enganaram.

Resta-me acrescentar que as universidades privadas pagam gratificações que chegam ao dobro das pagas pelo ME e que estes obtêm do ME a mesma redução lectiva nas escolas públicas que os orientadores das universidades públicas. Faço notar que gosto do que faço mas este tratamento "silencioso" é um atentado à escola e aos que trabalham no que acreditam, mas é também uma scut. Uma dessas auto-estradas com portagem virtual em que a conta será paga no futuro.

(Carlos Brás)

*

Quis o destino (e eu próprio, perfeitamente consciente dos riscos que corria e corro) que me encontrasse nessa situação de formação, que neste momento estou a desenvolver, podendo, portanto, corroborar os comentários aqui feitos e deixar a todos os cibernautas mais algumas achegas, que mais não são que notas de reflexão cívica:
1. Legalmente (Portaria 1097/2005), o estagiário está situado num "limbo" entre a condição de aluno e a de professor. É definido com "aluno estagiário" (cf. artigo 5º da mesma portaria), não sendo sequer considerado docente .
2. Nem sequer me vou deter sobre o aspecto da remuneração (que não existe e, além disso, os "alunos" ainda têm a seu cargo as despesas com as propinas do curso de Especialização em Ensino, nas Faculdades. Posso-lhes dizer que o meu custa 920 Euros, no total anual) - que já tem sido amplamente debatido - apesar de me parecer injusto que o " estagiário voluntário" (e é esta a nossa condição antropológica) não tenha (numa parte das escolas) acesso a fotocópias nas mesmas condições que os demais colegas e a outros materiais didácticos
3. Outro aspecto que dá que pensar é este - o orientador pedagógico, sendo o "titular" das turmas (o estagiário apenas usufrui das turmas "emprestadas" no decorrer do seu exercício docente, na melhor das hipóteses duas aulas por semana, na pior 15 blocos de 90 minutos no decurso do ano lectivo ) e, para todos os efeitos, neste moldes legais, aquele sobre quem recaem todas as responsabilidades, é o único a poder tomar medidas disciplinares no interior da sala de aula (faltas disciplinares)
4. Para terem assento nas reuniões de coordenção de grupo de docência e conselhos de turma, os Estagiários têm que pedir autorização ao líder da reunião para estarem presentes (muitas vezes é o Orientador quem o faz)
5. Na escola em que me encontro a "trabalhar", temos a felicidade (eu e os meus dois colegas de núcleo de estágio) de ser tratados cordialmente por todos os funcionários e pela maioria dos colegas, mas outros nossos "pares" não têm a mesma sorte ...
Pergunto-me se é esta a formação que desejamos para os futuros docentes deste país (que só o serão - talvez - plenamente cerca de 30 anos depois do seu ingresso na carreira docente).

Dra. Maria de Lurdes Rodrigues: das duas uma - ou o Ministério está a querer lançar uma aviso à navegação (leia-se às universidades), dizendo que se estão a formar demasiados professores, ou a tutela considera que já não vale a pena apostar na formação inicial de Professores porque, desta forma, consegue futuros profissionais submissos, dóceis e abúlicos, tão ao gosto de uma governação prepotente e anti-democrática.

Meus caros, pergunto-lhes quem pensam que fica a ganhar com este modelo de estágios? Pois, na minha opinião não tenho dúvidas: O Ministério! Poupa custos, "domestica" a classe e contribui para a reprodução de um modelo de docência ultrapassado, que não contribui para melhores aprendizagens, mas apenas para adiar soluções verdadeiras e reformas urgentes.

(GONÇALO MAIA MARQUES)

*

A propósito do post sobre as SCUTS do ME, era interessante ainda trazer ma outra iniciativa do ME e que mostra um pouco da política miserabilista e de perseguição que faz aos docentes:
Sempre foi normal – como em qualquer empresa, diga-se – que quando surgem, ao longo do ano lectivo, “horas” para uma dada disciplina – fruto de reajustamentos de horário, medidas de apoio, etc – estas sejam distribuídas pelos horários incompletos desde que o professor tenha habilitações para tal. Desta forma era normal que um docente colocado com 4 ou 6 horas (ou dez, doze, por aí fora) e que muitas vezes leccionava com prejuízo financeiro e apenas a tentar conseguir tempo de serviço, tivesse no decorrer do tempo um ligeiro acréscimo de horas. Digamos que qualquer patrão, após reconhecer o trabalho de um funcionário e tendo mais serviço para distribuir, não se importa de o fazer… Pois o ME lembrou-se agora de criar uma incompatibilidade e se uma escola tiver necessidade de um docente para leccionar 4 horas, terá de abrir concurso público, mesmo que dentro da bolsa de docentes na escola tenha um elemento com horário incompleto e capaz de fazer as mesmas funções. Desta forma é possível termos na mesma escola e disciplina, dois docentes com horários de 4 horas em lugar de um docente mais satisfeito com um horário de 8 horas.

(Emanuel Ferreira)

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RETRATOS DO TRABALHO EM SINGAPURA


(Sílvia Mota)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 10 de Dezembro de 2006



Excepcional o filme de Graça Castanheira realizado para a RTP sobre Fernando Lopes Graça que passou na 2. Sóbrio, fluído, com músicos a explicarem a música de Graça com entusiasmo e rigor, o que é particularmente difícil, sem palavras a mais ou a menos, um imigo, tão timorense quanto nós. E a este propósito, ainda que o não queira, não consigo desligar-me de um comentário ouvido em Bali quando alguém me dizia que, finalmente, ficava demonstrado que os indonésios, durante os anos da ocupação, nada mais fizeram senão reagir aos desacatos dos timorenses, porque, como agora se via, - acrescentava – os timorenses são violentos e não sabem viver em paz. Recordo que nem me sobrou sangue frio para lhe responder – aliás, nem sequer tinha bons argumentos - e que me senti bastante envergonhada."(Angela Carrascalão no blogue Timor do Público.)



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Cada jornal sua causa: o Público é Rui Rio, o Diário de Notícias é Jardim. Em ambos os casos a militância da causa está nas delegações locais, no Porto e na Madeira.



Relativamente à sua observação de que Rui Rio é uma das causas do Público, devo dizer que esta me parece correcta mas incompleta. É que Rui Rio também é uma causa do Jornal de Notícias e, ainda por cima, exactamente do mesmo modo que é uma causa do Público. Por outro lado, muitos dos seus leitores de fora da região Norte não podem ter consciência do que se diz de Rui Rio no suplemento local daquela região.

(José Carlos Santos)
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As análises quantitativas da comunicação social – quanto tempo X ou Y, governo ou oposição, partido A e partido B aparecem num écrã de televisão ou no espaço de um jornal - podem, se isoladas do contexto (e o contexto é a análise do conteúdo, para a qual também há métodos científicos) dar resultados exactamente ao contrário do que parecem dizer. O Governo pode até ter menos tempo que a oposição, que isso por si só é irrelevante se todo o tempo do Governo for de ouro e todo o tempo da oposição for de chumbo. É por isso que os Momentos-Chávez do Primeiro-Ministro (ontem houve mais um na RTP a propósito de um Projecto de Alargamento de não sei que regalias sociais …) são sempre tempo de ouro. Por exemplo, para a contabilidade do Diário de Notícias, o jornal que alguns estudos revelam ser o que dá mais espaço às vozes da oposição, a entrevista de Morais Sarmento em que contabilidade fica, Governo, oposição ou oposição da oposição? Os estudos quantitativos fornecem elementos para a análise, mas não são a análise e muito menos a “ciência”. Não é difícil passar em todos os testes quantitativos, que pelos vistos a ERC está agora a utilizar para “fundamentar” os seus pareceres (e em breve tratarei do inacreditável parecer sobre o Público e Cintra Torres, fruto de dois males complementares e que só se irão agravar – a existência da ERC e o modo da sua composição), e fazer uma excelente obra de manipulação.

Eu escrevi “inacreditável” por razões de pura retórica, porque o que está a acontecer com a ERC está-lhe inscrito no código genético. Ou é assim, um braço armado de uma maioria, qualquer que ela seja; ou é mais uma colecção de empregos avulsos no Estado de que os partidos não querem prescindir e que se arrasta na sua irrelevância. Para efeitos de memória: há muito tempo que propus o fim deste tipo de “regulação” dos media, que chegou a ser a posição oficial do PSD apresentada na Assembleia da República. Depois houve uma inversão, em grande parte por influência dos acossados pelo Independente que, não tendo nada a que se agarrar, consideravam que mais valia existirem os pareceres inócuos da Alta Autoridade para condicionar os juízes em tribunal a favor das suas queixas contra o abuso da liberdade de imprensa. Havia então (e penso que ainda há) centenas de processos que se arrastavam nas secretarias por resolver devido à utilização da imunidade parlamentar pelo director do jornal acusado. Era compreensível a reacção, mas estava longe de ser uma política e o seu preço paga-se neste equívoco perigoso, a que naturalmente o governo do PS quer dar mais poderes.

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Leitora assídua do seu blog não podia deixar de ler e responder ao seu comentário sobre a ERC. Como sabe, tenho uma enorme admiração pelo seu trabalho intelectual e por isso, a título muito pessoal, gostaria de lhe deixar o meu comentário sobre o que escreveu.

Em primeiro lugar, e independente da sua discordância sobre a existência de entidades reguladoras para o sector da comunicação social, recordo apenas que elas existem na generalidade das democracias consolidadas, como é o caso do Reino Unido, da França, dos EUA, da Alemanha, entre outras. Não vou, obviamente, discutir aqui a questão do modelo de sociedade em que vivemos, embora não lhe esconda que discordo da sua posição sobre as virtudes de uma regulação dos media assente, apenas, no mercado. Recordar-lhe-ei, tão só, que não foi essa a escolha dos governos que tivemos desde 1974 e, portanto, não é esse o quadro jurídico em que nos movemos. A ERC limita-se a cumprir as leis da República, como lhe compete.

Sobre a composição da ERC, a que também se refere no seu blog, confesso que não esperava de alguém que foi dirigente partidário e deputado, figura relevante no espaço público mediático, com capacidade para “marcar a agenda” jornalística e política, que viesse questionar a legitimidade da Assembleia da República para escolher e fazer eleger os membros do órgão regulador dos media. Quem possuiria, então maior legitimidade para o fazer? E como se alcançam maiorias, sem ser através de negociações, cedências e acordos em sede parlamentar? Seria, então, melhor que os membros da ERC fossem nomeados pelo governo do momento? Ou escolhidos por corporações? Acaso o Dr. Pacheco Pereira confrontou as atribuições e competências da ERC com os currículas dos seus membros? Não deveria ser esse o quadro de discussão sobre as pessoas escolhidas pelo Parlamento? Bastaria, aliás, conferir o modelo de escolha da ERC com o das suas congéneres europeias e americana para verificar que a sua legitimidade nada fica a dever à daquelas.

Quanto às motivações das pessoas escolhidas ou de quem as escolheu, gostaria de dizer-lhe que não me revejo em qualquer das hipóteses que expõe no seu texto: “braço armado de uma maioria, qualquer que ela seja”; ou “mais uma colecção de empregos avulsos no Estado de que os partidos não querem prescindir e que se arrasta na sua irrelevância”.
De facto, não apenas não sou nem alguma vez fui “braço armado” de quem quer que seja, como nunca necessitei de “empregos avulsos no Estado”, uma vez que possuo uma situação profissional consolidada e independente de partidos ou governos (Não falo em nome dos restantes membros mas sei que se encontram todos em idêntica situação).

Quero, finalmente, referir-me ao seu comentário sobre “os testes quantitativos” que, segundo diz, “a ERC está agora a utilizar para “fundamentar” os seus pareceres”. Devo apenas esclarecer que a ERC iniciou a monitorização da informação televisiva precisamente por considerar que não pode basear as avaliações a que legalmente está obrigada em estados de alma ou em apreciações casuísticas que, essas sim, são subjectivas e manipuláveis. O que chama de “testes quantitativos” são análises de conteúdo, baseadas em metodologias testadas e praticadas há muitos anos, que não se baseiam, apenas, em números e que têm em conta aspectos que, ao que sei, constam também das suas preocupações, tais como, a questão da imagem, os horários de transmissão e tantos outros que necessitam de uma abordagem qualitativa. Reconhecerá, apesar de tudo, que sei do que falo.

Sem pretender contrariar o seu pessimismo quanto à ERC, estou confiante que o trabalho que estamos a desenvolver mostrará, a seu tempo, que a regulação é necessária e útil aos cidadãos, embora, como em tudo o mais, possa desagradar a alguns.

(Estrela Serrano)

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Sobre a decisão da ERC resultante de um artigo que escrevi para o Público, gostaria de informar os leitores do seu blogue que tentarei em breve, na medida das minhas forças, desmontar o que é, na minha opinião, a total mistificação «científica» a que o Conselho Regulador chegou com métodos quantitativos para tomar uma decisão favorável à RTP e, assim, favorável ao Governo.

Eu não esperava outra decisão senão uma condenação. Desde o primeiro dia, logo após a publicação do meu artigo, ainda antes de qualquer reunião do órgão regulador, o seu Presidente tomou uma posição contra o artigo e contra mim em declarações ao Diário de Notícias (22.08). Ele disse que eu escrevia por «ouvir dizer», que foi exactamente o que disse a Casa Branca de Nixon depois das primeiras notícias do Washington Post sobre o caso Watergate.

Na audição, foi patente para mim a tentativa, por parte dos dois membros mais activos do órgão regulador neste caso, de desviar o debate do conteúdo do artigo para questões metajornalísticas, como o documento final veio a revelar. Tentarei também explicar esta estratégia, que coincide com os interesses manifestados desde a primeira hora pelo DI da RTP. Há outros elementos a considerar, como o tipo de análise que é feito ao meu artigo, que considero totalmente malicioso e partindo do princípio de que tudo nele é «presunção».
Não quero roubar espaço ao seu blogue com a simples chamada de atenção de todos os aspectos incríveis deste documento. Considero o documento final da ERC monstruoso e, como José Manuel Fernandes, «gravíssimo e infame». Subscrevo a declaração de voto de Rui Assis Ferreira, um dos cinco membros do órgão regulador, que chama a atenção, ponto por ponto para a gravidade do documento a que os seus colegas votaram sim.
Espero ter forças para poder rapidamente desmontar o que são na minha opinião as falácias, mistificações e enviesamentos aberrantes a coberto da «cientificidade» («cientificidade» que serve de argumento principal, como se vê na mensagem de Estrela Serrano), bem como uma incrível orientação a favor do governo e de uma linha editorial da RTP. Digo que espero ter forças porque este documento visa, na minha opinião, condicionar a minha liberdade -e a de nós todos, comentadores, jornalistas e cidadãos - de criticar e de informar no espaço público. É, na minha opinião, um documento negro para a história da liberdade de informar e de comentar em Portugal depois do 25 de Abril.

A ERC tem orçamento e pessoal contratado para produzir o que é na minha opinião uma monstruosidade, eu terei de usar as minhas horas livres para trabalhar na desmontagem do que considero um monstro contra a liberdade do jornalismo e da crítica no espaço público. Espero que o espaço público português leia este documento infame da ERC e o debata urgentemente - não por mim, que não interesso nada, mas pela liberdade de informar e de criticar, que é, depois do pão em cima da mesa, o bem mais precioso para os indivíduos e as sociedades.

(Eduardo Cintra Torres)

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O problema da desconfiança sobre a independência da ERC mantém-se, no entanto. Para além dos curricula dos seus membros terem que ser vistos sobretudo à luz do curriculum de nomeações políticas e/ou governamentais e assessorias que tiveram no passado, a verdade é que dado que o processo de cooptação do Presidente da ERC nunca foi clarificado de modo cabal e absolutamente transparente, mantém-se ainda a suspeita na opinião pública de que ao não terem sido enunciados, por exemplo, procedimentos e critérios de cooptação, perfis de personalidades do sector, ao não terem sido anunciados nomes e curricula de professores e/ou investigadores seniores especialistas em comunicação social e enfim de outros cooptáveis propostos pelos diferentes cooptantes, ao terem aparecido notícias nos media de que o nome do Presidente vinha consensualizado a priori dos aparelhos partidários e do Governo, logicamente que a instituição ficava gravemente manchada na sua própria origem. Sabendo-se ainda que a pessoa em causa não era sequer especialista do sector mas sim em Política Internacional, e que havia colaborado com o gabinete do ministro Morais Sarmento (e isto à revelia do próprio regulador - a então AACS) e depois também com Santos Silva, num processo de co-regulação televisiva entre os governos do PSD e do PS e os grandes grupos de media portugueses, dando ao ministro Santos Silva "informações muito positivas" do sector televisivo numa altura em que a televisão generalista em Portugal atravessava (e atravessa) uma fase extremamente crítica sob o ponto de vista do pluralismo, do debate político, social e cultural e da diversidade de programação, então perceber-se-á um pouco mais sobre este "braço armado", ferido dessas dependências várias na sua própria origem que mancham indelevelmente a instituição.

(F. Rui Cádima)

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Depois de ter visto no seu blog (...) referências à Deliberação da ERC, resolvi procurá-la e lê-la. Encontrei-a, então, no site da ERC.

Devo confessar que a sua leitura me deixou perplexa, por várias e más razões, que sumariamente apresento.

Os comentários feitos ao autor do artigo (Eduardo Cintra Torres) revelam claramente uma animosidade pessoal que chega a ser constrangedora para o próprio leitor. Não menos animosidade parece merecer o Director do Público, chegando-se ao ponto de se afirmar que ele deveria ter impedido a publicação do texto. Ficámos agora a saber que a ERC defende a "castração" de alguns opinions makers. Mas além de animosidades claras, a Deliberação está ainda recheada de apreciações cujo alcance não se percebe.

Quais as razões para a referência sem análise das palavras imputadas ao Primeiro-Ministro numa viagem ao Brasil - apenas assentes em fonte indirecta, pois o Director do Público reproduziu aquilo que um colaborador seu diz ter presenciado - que teria dito mal dos jornalistas e criticado o seu trabalho. Esta leviandade em imputar comportamentos é preocupante.

Uma última palavra para os membros do Conselho Regulador da ERC que votaram a
deliberação: a favor, Azeredo Lopes, Estrela Serrano e Elísio Oliveira; contra, Rui Assis Ferreira e Luís Gonçalves da Silva, com duas declarações de voto contundentes que devem ser lidas com a maior atenção, pois parecem revelar uma leitura bastante diferente dos outros daquilo que deve ser a ERC. Estaremos perante uma divisão fracturante?

Escusado será dizer que me revejo nas declarações de voto (Rui Assis Ferreira e Luís Gonçalves da Silva) que infelizmente foram minoritárias e que revelaram coragem, num país onde as diferenças de opinião têm geralmente custos elevados. Só não percebo a razão para os media terem, em geral, "abafado" as duas declarações de voto, quando elas são tão esclarecedoras.

Não seria boa ideia o seu site incluir as declarações de voto? São esclarecedoras. Afinal, a entidade que comete o atentado à diversidade de opinião tem opiniões contrárias no seu seio. Não podemos deixar que as escamoteiem.

(Eduarda Magre)

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A propósito dos argumentos que aqui se trocam acerca da Deliberação da ERC sobre o artigo de Eduardo Cintra Torres, será interessante ler a "notícia em destaque" publicada hoje no site da mesma Entidade.

Nos primeiros dez pontos desse 'artigo', a Entidade Reguladora responde, de forma bastante cordial e aceitável, ao editorial do jornal Público, de 8 de Dezembro de 2006, de José Manuel Fernandes.

No entanto, o que se escreve do ponto 11 ao ponto 15 merece ser lido com especial atenção. Num estilo muito pouco habitual num documento oficial de uma instituição do Estado, começa por dizer-se que "pode, no entanto, o Director do Jornal 'Público' ficar descansado", acrescentando-se que ficou "registada [...] a sua enorme coragem e arrojo de lutador pela liberdade", e confessando que a Entidade "fica, porém [com] o sabor amargo de ver como, com tanta 'heroicidade', se brinca com a História". Finaliza-se afirmando que a ERC dá por encerrado "este diálogo, tão picaresco como pouco edificante".

Se é certo que a Entidade Reguladora para Comunicação Social fazia falta e que tem agido bem em diversas situações (como é o caso da cobertura noticiosa que o Público e o JN fazem da actualidade da Câmara Municipal do Porto), também é verdade que, neste caso, parece ter errado em toda a linha, e continuar a errar, como fica provado por mais esta pitoresca peça de informação que é este comunicado.

(Artur Vieira)

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Das atribuições da entidade que regula dos media:

Tratamento preferencial de pessoas, empresas, partidos e organizações pelos media – Só é possível controlar quando se torna evidente e/ou transparente e/ou público, sendo que por essa altura, já se mobilizaram para além dos contra visados, o resto da sociedade civil, media, blogs, etc., ficando em funcionamento um escrutínio difícil de igualar (pela ERC ou outra entidade pública qualquer).

Direito de resposta – Enquanto houver concorrência, há sempre quem se disponibilize a dar ouvidos ao visado, isto nas raras vezes é que não é do interesse do órgão em questão publicar a resposta.

Ingerência política – Escrutinável de forma mais eficaz pela sociedade civil, visados, media, blogs etc. do que por uma entidade reguladora. Este tipo de escrutínio é inconclusivo? Também o é sempre o de um parecer de uma entidade – não é a assinatura e o voto maioritário de uma comissão que resolve questões complexas de forma conclusiva.

Conteúdos inadequados – Cada media ajusta os conteúdos aos seu público-alvo, senão perde clientes. É uma questão de concorrência. Tem funcionado assim e tem funcionado bem.

E podíamos continuar a descrever de que forma a auto-regulação dos media, a sociedade da informação e a economia de mercado, já actuam de forma mais eficaz sobre estas questões e outras eventuais que a ERC tem como atribuições, do que esta alguma vez o fez ou conseguirá fazer.

Quem considere tais afirmações ingénuas, tenha ao menos o bom senso de perceber que também é ingénuo pensar que a entidade reguladora resolve qualquer uma destas questões.

(Jorge Gomes)

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EARLY MORNING BLOGS

923 - A mi buitre

Este buitre voraz de ceño torvo
que me devora las entrañas fiero
y es mi único y constante compañero
labra mis penas con su pico corvo.

El día en que le toque el postrer sorbo
apurar de mi negra sangre, quiero
que me dejéis con él solo y señero
un momento, sin nadie como estorbo.

Pues quiero, triunfo haciendo mi agonía,
mientras él mi último despojo traga,
sorprender en sus ojos la sombría

mirada al ver la suerte que le amaga
sin esta presa en que satisfacía
el hambre atroz que nunca se le apaga.

(Miguel Unamuno)

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Bom dia!

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9.12.06


NÃO APAGUEM A MEMÓRIA,
MAS TAMBÉM NÃO LEMBREM SÓ UMA PARTE DA MEMÓRIA



O movimento cívico Não Apaguem a Memória! tem conduzido uma campanha a favor da preservação dos locais e sítios onde durante a ditadura de Salazar e Caetano se prendeu, se julgou, se torturou durante 48 anos. O movimento nasceu de um protesto contra a transformação do edifício onde funcionava em Lisboa a PIDE num condomínio fechado e apresenta como seus objectivos a transformação da cadeia do Aljube, do Forte de Peniche, do Forte de Caxias, da sede da PIDE/DGS e suas delegações no Porto e em Coimbra, dos Tribunais Plenários da Boa-Hora em Lisboa e de S. João Novo no Porto, do Tribunal Militar, dos Presídios Militares, da Companhia Disciplinar de Penamacor, da Prisão de Angra do Heroísmo e do Campo de Concentração do Tarrafal "em lugares de memória da resistência e da liberdade conquistada".

A sua última manifestação foi feita junto do Tribunal da Boa-Hora lembrando uma das faces mais repelentes e indignas, para não usar outras palavras, do regime ditatorial, e a que mais escapou à reposição da justiça - a dos "juízes" do regime. Protegidos pela corporação, juízes e magistrados que tinham tido de forma repetida uma actuação vergonhosa para homens que se diziam do direito escaparam do opróbrio público que a sua acção exigia. Quem assistiu ou foi sujeito a uma julgamento antes do 25 de Abril sabe bem do que falo e por isso toda a memória é pouca.

Dito isto, convém no entanto não esquecer que o "apagar da memória" não se limita à displicência e complacência dos dias de hoje em relação a um passado político que cada vez menos diz alguma coisa aos tecnocratas que nos governam, passado que ignoram quando não o acham antiquado e incómodo. Há também outros intervenientes nos mecanismos do esquecimento que usam a reivindicação do "lembrar" para iluminar partes da história e esquecer outras, em função de um utilitarismo político que só contribui para enfraquecer o que poderia ser a utilidade cívica destes movimentos.

Tenho há muito tempo a convicção de que é necessário abandonar de vez o ponto de vista repressivo/ético, a história de um painel de dupla face e um pouco esquizofrénico entre as vítimas e os algozes, entre a vitimização e a épica da resistência. Esta aproximação à questão da memória da ditadura serve às mil maravilhas para a sua instrumentalização política e acaba por servir mais para a propaganda do que para a normalização da memória como conhecimento. Ela é da mesma natureza do saudosismo salazarista que se alimenta de votos secretos para os Grandes Portugueses da RTP e de best-sellers sobre o Grande Proibido, seus amores e suas "opiniões" avulsas, da produção livreira do Natal.

Veja-se o caso do PCP, um partido que de há muito considera esta "memória", que o movimento cívico Não Apaguem a Memória! quer preservar, como sua propriedade privada. Acaso não era suposto o movimento dizer alguma coisa sobre a política do PCP de fechar os seus arquivos e apenas divulgar documentos escolhidos a dedo para não ferir uma história tão "oficiosa" como falsa? Ninguém contesta o direito legal que o PCP tem de não abrir os seus arquivos, mas talvez se deva exigir ao partido, que participa nas iniciativas do movimento Não Apaguem a Memória! e as apoia, que se comporte de forma diferente e que não ajude a sonegar do conhecimento de todos a parte da memória colectiva que se encontra fechada nas suas sedes. Não é um objectivo do movimento "lutar pela salvaguarda da memória da resistência à ditadura do Estado Novo, para que seja dignificada a luta pela liberdade e pela democracia"?

Não se exige ao Não Apaguem a Memória! que faça a história da oposição, mas sim que dê dos homens que resistiram à ditadura um retrato mais fiel à sua acção e não os reduza aos fotomatons propagandísticos em que muitas das suas vidas se tornaram. O "apagar da memória" não se fez só transformando a sede da PIDE num condomínio, mas faz-se todos os dias quando homens como Vasco de Carvalho, José de Sousa, Pável, Fogaça, Piteira Santos, Manuel Domingues, Álvaro Duque da Fonseca, Galvão, Manuel Sertório, Cunha Leal e muitos, muitos outros, vivam num limbo do esquecimento ou presos na caixinha da parte da sua vida que é considerada politicamente correcta.
NÃO APAGUEM A MEMÓRIA!
Por outro lado, a tendência destes movimentos cívicos para se assumirem com um papel puramente reivindicativo aos "poderes públicos" leva-os a ter uma acção residual no trabalho que poderiam realizar de defenderem eles próprios a "memória" favorecendo edições, recolhendo memórias, preservando documentos e testemunhos que de outro modo se vão perder. Não é essa a sua vocação, dirão, não se querendo substituir a arquivos e outras instituições que têm essa obrigação. Mas porquê, se tantos exemplos existem fora de Portugal de um trabalho imprescindível dessa natureza feito entre a militância e a história, mas sempre útil para a memória. É verdade que o sítio na Internet do movimento já começou a incluir artigos e notas necrológicas, mas percebe-se que o movimento se sente mais à vontade a seguir uma política de salvaguarda do património repressivo do que a lembrar vidas concretas dos homens que resistiram e que possam chocar com histórias "oficiais". E mesmo essa salvaguarda patrimonial será difícil se não se concentrar numa aproximação museológica consistente para a qual apenas o Forte de Peniche me parece ter condições de exequibilidade.

Mas o principal problema que subsiste é de concepção, é a crença de que a memória da ditadura se mantém viva contrapondo ao "fascismo" um "antifascismo" memorialístico assente numa dicotomia moral entre o bem e o mal que se reproduz na democracia entre os "resistentes" e os indiferentes, entre os que "querem" lembrar-se e os que "querem" esquecer-se. Ora entre os que querem esquecer não estão apenas os próceres da ditadura, hoje um resto de um resto, mas muitos a quem parte da memória é útil e outra parte maléfica e diabólica. Se o movimento cívico Não Apaguem a Memória! não conseguir ultrapassar este lado da recusa de lembrar ficará preso num gueto político que o condenará a ajudar mais o esquecimento que a memória.

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O ABRUPTO FEITO PELOS SEUS LEITORES: URBANISMO, ORDENAMENTO, CORRUPÇÃO


Várias têm sido as linhas que tem escrito deprecando a fealdade urbanística que vem desfigurando o nosso país. Lamento, no entanto, que poucas vezes se tenha abalançado a explorar a etiologia dessa maleita - que, contrariamente ao que se pensa, tem causas na Economia Política do nosso país e não na falta de bom-gosto ou bom senso. Tomo por isso a liberdade de lhe sugerir que debruce a sua atenção um pouco mais sobre o nosso desordenamento urbano. Permita-me que use como mote para o efeito a seguinte notícia, veiculada hoje nos jornais portugueses:

"O ministro da Economia foi esta semana a Grândola entregar o alvará de construção do projecto turístico da Herdade de Pinheirinho a Joaquim Mendes Duarte, presidente da Pelicano – Investimento Imobiliário SA, entidade promotora do empreendimento. (...) A história remonta a Novembro de 2001, quanto a Pelicano foi parte num contrato-promessa de compra e venda dos terrenos que integravam o lote n.º 31-17, com uma área de 412,85 metros quadrados, situado na Quinta da SAPEC, freguesia da Quinta do Anjo, concelho de Palmela. A Pelicano terá acordado vender os respectivos terrenos por 288 200 euros, com o preço a ser pago em dez prestações."
Este processo, na essência igual a todos os outros que estão na génese do nosso desordenamento urbano, exemplifica muito bem a Economia Política do nosso país. Não é apenas o sector urbanístico que está em causa: é toda a organização política e económica do país.

Na ausência de alvarás de loteamento e licenças de edificação, um terreno de uso estritamente agrícola naquela zona, não vale mais do que 1 euro por metro quadrado. Porem, como este exemplo bem ilustra, assim que é reclassificado de urbanizável, passa a ser vendido a 288200 €/412,85 m2 = 698,07 €/m2.

São 697 € de mais-valias urbanísticas por metro quadrado. Por outras palavras, são 1.394.000 CONTOS de mais-valias urbanísticas por hectare. Vá lá, se descontarmos uma generosa "área de cedência à administração pública" de 50% do terreno, sobra apenas das mais- valias a exígua bagatela de 697.000 CONTOS por hectare.

Este rendimento não é um lucro, pois não resultou do factor de produção trabalho. Este rendimento não é um juro, pois não resultou da assunção de riscos sobre o capital. Este rendimento é uma RENDA PURA gerada por uma decisão político-administrativa. O pedido de reclassificação de terrenos agrícolas em urbanizáveis é portanto uma clara e manifesta procura de rendas ("rent-seeking" activity). É uma forma de obrigar os cidadãos que procurem habitação a pagar ao promotor uma fortuna por um bem que ele não produziu (o solo) e um serviço que ele não prestou (a concessão de alvará).

Vale a pena recordar as palavras de Anne Krüger, economista pioneira no estudo da grande corrupção:
"If income distribution is viewed as the outcome of a lottery where wealthy individuals are successful (or lucky) rent-seekers [promotores de loteamentos, diria eu], whereas the poor are those precluded from or unsuccessful in rent-seeking, the market mechanism is bound to be suspect. (...) The perception of the price system as a mechanism rewarding the rich and well-connected may also be important in influencing political decisions about economic policy. If the market mechanism is suspect, the inevitable temptation is to resort to greater and greater intervention [criando PDMs, RENs, RANs, PINs, &c, diria eu], thereby increasing the amount of economic activity devoted to rent-seeking [pedidos de desafectação, revisão e suspensão de planos de ordenamento, diria eu]. As such, a political vicious circle may develop."

("The Political Economy of the Rent-Seeking Society", in The American Economic Review 63 (3), 1974)

É para evitar estes fenómenos que a constituição espanhola afirma, no seu artigo 47º
"(...) La comunidad participará en las plusvalías [mais-valias urbanísticas] que genere la acción urbanística de los entes públicos [por exemplo, reclassificando os solos e atribuindo alvarás]."

...E é por terem violado este preceito que em Espanha nos últimos meses tem havido literalmente dezenas de mandatos de captura de autarcas, funcionários públicos e promotores imobiliários. As políticas urbanísticas são, no país vizinho, discutidas com enormes frontalidade e seriedade, dedicando-se ao tema dezenas de colunas de opinião em todos os principais periódicos.

Entretanto entre nós, portugueses, graças a uma legislação escrupulosamente preparada para obnubilar a posse pública obrigatória das mais-valias urbanísticas, os milionários instantâneos que o nosso urbanismo produziu estão em liberdade, ostentando sem qualquer pudor as fortunas que conquistaram à custa do endividamento de todos e da pauperização dos cofres do Estado.

É por isso inútil apontar o dedo somente à empresa Pelicano: esta é apenas um exemplo particular de um fenómeno generalizado e legalizado. Todos os terrenos que foram loteados desde 1965 (ano da privatização dos loteamentos) permitiram essa mesma imoralidade, com todo o amparo e protecção dos órgãos legislativos,executivos e judiciais do Estado Português. Repito, todo o país sofre das mesmas patologias - a Herdade do Pelicano difere apenas por ser mais mediática. Revoguemos pois as Leis que permitem estes cancros.

Poucos tópicos de Economia Política merecem tanto consenso como a posse pública das mais-valias urbanísticas. Entre os seus defensores estão David Ricardo, Stuart Mill, Henry George e, mais recentemente (por surpreendente que pareça) Milton Friedman. Um dos seus defensores mais fervorosos de todos os tempos não foi senão Winston Churchill. Por todo o Ocidente civilizado se procede à sua posse pública, seja por proibição dos loteamentos particulares, seja por cobrança exaustiva de toda a valorização do terreno reclassificado. Em Portugal, nada.

Não obstante estas evidências, os loteadores portugueses que enriqueceram às custas destas mais-valias procuram desacreditar aqueles que se opõe a esta forma de enriquecer, acusando estes últimos de serem "extremistas" e "anti-liberais". É o cúmulo da
desinformação: fazer crer que é liberal uma política de solos que permite enriquecer sem trabalho, pedindo alvarás ao Estado e às Autarquias.

Consagrar a posse pública das mais-valias urbanísticas não é uma opção ideológica de Esquerda nem de Direita. É uma opção que foi tomada por todos os Estados modernos entre os quais, neste capítulo, Portugal não se inclui. É uma pré-condição básica para que o ordenamento do território seja economicamente eficiente, socialmente equânime, tecnicamente sustentável, e esteticamente harmonioso.

Por desconhecimento ou conveniência, os políticos portugueses e seus comentadores jamais debateram publicamente este problema, com rigor conceptual e precisão factual. Uma vez por outra, carpem o horror dos subúrbios. Esporadicamente surpreendem-se com o novo- riquismo dos promotores; espantam-se com a existência de contubérnios entre autarcas, dirigentes futebolísticos e promotores imobiliários; culpam disso o financiamento partidário e camarário, falhando grosseiramente o diagnóstico.

(Pedro Bingre do Amaral)

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OS NOVOS DESCOBRIMENTOS

Saturn and the

Rex tremendae majestatis

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MAIS UMA VEZ

Uma pequena tempestade, uma chuva marinheira e um vento apessoado, nada de muito grave, deitam abaixo por um dia as comunicações neste canto rural do nosso moderno Portugal. Ao menos em Ferreira do Alentejo sempre devia ter banda larga, inaugurada pelo Senhor Primeiro Ministro, agora a meia dúzia de quilómetros da capital é que não há nada. Sem telefone fixo, sem internet, sem telemóvel. Desta vez o telemóvel (pelo menos a TMN) resolveu acompanhar os seus irmãos mais velhos presos à linha no silêncio obstinado. O silêncio não está mal, se não fosse forçado. Pergunto aos vizinhos se têm telefone e dois em três respondem-me que "não há telefone, nem internet". Interessante, notarem a falta da internet. As coisas vão mudando. O que não muda é o tempo desgraçado que demora a reparar as ligações, até porque a Lei de Murphy faz com que as avarias aconteçam sempre aos feriados ou ao fim de semana. Será que lá por cima, onde se comunica em Wi Fi de cabeça para cabeça, se cuida de garantir piquetes de urgência, ou já não há esta coisa? Ah! en passant, faltou também a luz, mas foi mais passageiro. Até à próxima avaria.

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EARLY MORNING BLOGS

922 - Los justos

Un hombre que cultiva un jardín, como quería Voltaire.
El que agradece que en la tierra haya música.
El que descubre con placer una etimología.
Dos empleados que en un café del Sur juegan un silencioso ajedrez.
El ceramista que premedita un color y una forma.
Un tipógrafo que compone bien esta página, que tal vez no le agrada
Una mujer y un hombre que leen los tercetos finales de cierto canto.
El que acaricia a un animal dormido.
El que justifica o quiere justificar un mal que le han hecho.
El que agradece que en la tierra haya Stevenson.
El que prefiere que los otros tengan razón.
Esas personas, que se ignoran, están salvando el mundo.

(Jorge Luis Borges)

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Bom dia!

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7.12.06


GRANDES CAPAS


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COISAS DA SÁBADO: MEMÓRIA DE ALFREDO PEREIRA GOMES

Morreu a semana passada Alfredo Pereira Gomes um dos importantes matemáticos portugueses do século XX, perante o silêncio e o esquecimento. Parte desse silêncio vinha da modéstia do próprio, que aceitou muitas vezes desaparecer de uma cena onde era grande, outra parte vem da nossa proverbial ignorância acerca dos portugueses cujo valor não passa pela exposição dos media. Tive o privilégio, para usar esta expressão gasta mas verdadeira, de com ele conviver nos seus últimos anos, conversando sobre o seu mundo muito especial, o mundo de uma geração maior de matemáticos que foram também homens da oposição a Salazar e por isso fizeram carreira fora de Portugal.

Alfredo Pereira Gomes fez mesmo um esforço para me explicar o seu ramo das matemáticas, mas, ruim entendedor, fiquei-me com as suas histórias povoadas de gente como seus irmãos e irmãs (o mais conhecido foi Soeiro), e os cientistas que se ligaram ao PCP desde os anos trinta, com as suas vidas académicas perturbadas pela repressão e obrigados a desenvolver os seus projectos em França, nos EUA e no Brasil. Essas histórias não eram alheias à demarcação de um território próprio nas matemáticas, e incluíam apreciações muitas vezes mordazes e irónicas, mas eram vivas, traziam gente viva consigo para a réstia de memória que eu lhes podia dar escrevendo sobre eles.
Espero, tenho a certeza, que uma matemática muito especial o espera agora. Se ele fosse crente não teria muitas dúvidas que se morresse há uns anos, teria Fermat à porta do Paraíso a explicar-lhe o seu último teorema. Agora esse problema parece resolvido, mas haverá certamente outros que Alfredo Pereira Gomes defrontará com a harmonia muito especial do seu trabalho e do seu gosto.

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MANHÃ CEDO HOJE EM VISEU


(José Guilherme Lorena)

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EARLY MORNING BLOGS

921 - Cuál es mejor?

Hay dos modos de conciencia:
una es luz, y otra, paciencia.
Una estriba en alumbrar
un poquito el hondo mar;
otra, en hacer penitencia
con caña o red, y esperar
el pez, como pescador.
Dime tú: ¿Cuál es mejor?
¿Conciencia de visionario
que mira en el hondo acuario
peces vivos,
fugitivos,
que no se pueden pescar,
o esa maldita faena
de ir arrojando a la arena,
muertos, los peces del mar?

(Antonio Machado)

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Bom dia!

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6.12.06


COISAS DA SÁBADO: UM SIM NO REFERENDO

Votarei sim no referendo sobre o aborto, sem grandes parangonas morais, sem grandes proclamações sociais, sem certezas absolutas sobre nada, nem sobre a moralidade, nem sobre a liberdade do acto de interromper uma gravidez. Respeito os dilemas dos que votam não, respeito os dilemas dos que votam sim, porque em ambos os lados há a consciência de que o que defrontam é um mal social, uma perturbação a evitar, um momento sempre de uma certa crueldade interior, a da vida aliás. Mas como não acredito em grandes proclamações morais, nem pelo sim nem pelo não, voto sim por um conjunto de razões dispersas, sociais, culturais e filosóficas, que admito que se diga serem de mal menor. Será de mal menor, mas quantas vezes muitas coisas que fazemos são de mal menor? Até no Catecismo da Igreja Católica há várias escolhas de mal menor.

E porque, tudo ponderado, as vítimas da situação que hoje existe são as mulheres, sobretudo as mulheres, quase que só as mulheres. Merecem (ou exigem) que os homens que fizeram quase todo o mundo à sua volta, à sua dimensão e ao seu modo, e que entre outras coisas tem esta diferença fundamental que é não engravidarem, lhes dêem uma liberdade que elas sentirão sempre como sendo, no limite, trágica, mas como sendo uma liberdade. No dia do referendo votarei pela segunda vez na vida por género, como homem mais de que como cidadão.

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5.12.06


GRANDES CAPAS


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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 5 de Dezembro de 2006


Uns jovens com as prioridades no sítio - inscrição numa caixa Multibanco na Universidade Nova.



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A entrevista de Robert Pirsig no Guardian. O seu livro, emblemático dos anos setenta, Zen and the Art of Motorcycle Maintenance "was the biggest-selling philosophy book ever".

*

No número dois da Prelo, a revista da Imprensa Nacional, cinco prefácios de Nietzsche a "cinco livros não escritos", traduzidos por João Tiago Proença. Dos cinco, dois: "Sobre o Pathos da Verdade" e "O Estado Grego".

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EARLY MORNING BLOGS

920 - Poema manuscrito nas folhas brancas de um livro e lá esquecido

Não teimes, não insistas, não repitas,
mas vive como quem, teimando, insiste,
e, porque insiste, como que repete.
Esse das sombras o silêncio fluido
escoando-se por ti quando não passas,
parado que ouves, não mais é que o tempo
de hoje em que vives só alheias vidas,
de ti alheadas qual de ti vividas.

Por outro tempo te criaste impuro,
difuso e firme, no clamor de versos
que os tempos de hoje reconstroem como
delidas cartas um fogacho acendem.
Outro que seja, é teu, pois o escutaste
na dor de apenas ser, na dor de ouvir
quão desatentos menos homens são
os homens todos. Teu, sem que teu seja,
que destes e dos outros se fará
serena ciência de possuírem tudo
o que juntares para ser roubado,
quando, parado no silêncio fluido,
se escoava nele o próprio estar na vida,
atento como estavas, poeta como eras
daquele ser não-sendo que eram todos
em ti, dentro de ti, à tua volta.

(Jorge de Sena)

*

Bom dia!

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3.12.06


GRANDES CAPAS


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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 3 de Dezembro de 2006



Um excelente "caso" de como funcionam os bastidores da "comunicação" em Portugal, raras vezes retratado com tanta clareza, como se encontra hoje na coluna do provedor do Público (sem ligação). Justifica comprar o jornal.

Por falar nisso, em comprar o jornal em papel, não é preciso ir mais longe do que a blogosfera, onde era suposto existir uma percentagem muito superior de leitores da imprensa em papel, para verificar a crise dos jornais. Observando-se o ciclo de leituras dos autores de blogues (pelas citações), verifica-se que são muito dependentes da comunicação social, em linha e audiovisual, mas pouco do papel.

NOTA: O texto já está disponível em linha.

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EARLY MORNING BLOGS

919 - Ajedrez

II

Tenue rey, sesgo alfil, encarnizada
reina, torre directa y peón ladino
sobre lo negro y blanco del camino
buscan y libran su batalla armada.

No saben que la mano señalada
del jugador gobierna su destino,
no saben que un rigor adamantino
sujeta su albedrío y su jornada.

También el jugador es prisionero
(la sentencia es de Omar) de otro tablero
de negras noches y de blancos días.

Dios mueve al jugador, y éste, la pieza
¿Qué Dios detrás de Dios la trama empieza
de polvo y tiempo y sueño y agonías?

(Jorge Luis Borges)

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Bom dia!

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2.12.06


EARLY MORNING BLOGS

918 - Ajedrez

I

En su grave rincón, los jugadores
rigen las lentas piezas. El tablero
los demora hasta el alba en su severo
ámbito en que se odian dos colores.

Adentro irradian mágicos rigores
las formas: torre homérica, ligero
caballo, armada reina, rey postrero,
oblicuo alfil y peones agresores.

Cuando los jugadores se hayan ido,
cuando el tiempo los haya consumido,
ciertamente no habrá cesado el rito.

En el oriente se encendió esta guerra
cuyo anfiteatro es hoy toda la tierra.
Como el otro, este juego es infinito.

(Jorge Luis Borges)

*

Bom dia!

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1.12.06


IMAGENS POLITICAMENTE INCORRECTAS 9



Alentejo? Não. Angola.Nazaré? Não. Mossâmedes.



Lisboa dos prémios Valmor? Não. Nova Lisboa. Leixões? Não. Lobito.

A capa e as gravuras fazem parte de uma brochura publicada pela Agência Geral das Colónias em 1930. É difícil ser mais claro no engano e no auto-engano

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SENTIMENTOS MISTURADOS

Uma das entrevistas da série que Rui Ramos fez para a RTP teve como "personagem" Jorge Silva Melo. Para além do interesse geral da entrevista, tudo nela me é demasiado próximo para não me sentir muitas vezes a falar pela sua voz, nós que somos da mesma geração e vivemos muito tempo, muita história, muita gente em comum. Pode-se dizer que somos velhos amigos, amigos "antigos" daqueles cujas amizades especiais não necessitam de muita fala (ou se calhar necessitam). Mesmo quando discordamos com veemência e com picardias mútuas, sabemos até que ponto fomos feitos pela mesma massa, pelo mesmo desgraçado país que é tão completamente o nosso.

Na entrevista, Jorge Silva Melo fala do mundo que ambos conhecemos nos últimos anos da década de 60 em Lisboa, no movimento estudantil, na oposição, na Kulturkampf entre o neo-realismo e a pop, entre a Sylvie e os Beatles. Ainda havia "cidade", dizia Jorge Silva Melo, ainda havia bairros, ainda havia cafés, teatros, cinemas. http://jpn.icicom.up.pt/imagens/cidade/cafeopiolho.jpgNos cafés, o lugar emblemático do convívio permitido no tardo-salazarismo, descreve-se o ambiente do Monte Carlo, da Grã-fina, do Vavá, com os seus grupos diferenciados e as suas hierarquias, a que podia somar nos mesmos precisos termos no Porto o Piolho, o Ceuta e o Majestic. Tudo me era familiar naquela conversa, a mesma nostalgia, os mesmos mixed feelings, os sentimentos misturados de um mundo ao mesmo tempo perdido na nossa juventude e tenebroso, porque era o mundo da ditadura, da censura e da PIDE. Nesses mesmos cafés estava a PIDE, como todos nos lembramos, numa mesa próxima, da qual ninguém se queria aproximar, mas que se aproximava de nós pelos ouvidos, e pelo ar improvável dos disfarces do agente em funções, meio amanuense, meio rufia, gente que o próprio salazarismo fino não queria por perto, mas que lhe fazia a sale besogne. Havia muita paranóia, mas, descontada toda a obsessão pela perseguição, sobrava um grão imenso de realidade violenta, bafienta, claustrofóbica, mesquinha e provinciana, que contaminava tudo. Quem o vive, não o esquece nunca.

Jorge Silva Melo falou também desse momento único da experiência estudantil militante dos anos 60 que foi a tragédia das inundações, quando centenas de estudantes organizados pela Igreja e pelo movimento associativo foram ajudar as vítimas ainda a desgraça estava em curso, nas operações de salvamento, de recolha dos mortos, da ajuda aos vivos, de salvamento do pouco que sobrava entre a lama. Nessa intempérie, não muito diferente da que caiu a semana passada, morreu um número desconhecido de pessoas. A censura nunca permitiu que se soubesse o número exacto e muita gente desapareceu desde então.

Os estudantes associativos, a elite política das universidades, comunistas, católicos progressistas, esquerdistas, e muitos voluntários atraídos por uma solidariedade que não sabiam ser proibida, iam pela primeira vez conhecer o Portugal sobre o qual falavam em abstracto nos panfletos. Os mundos do salazarismo eram tão socialmente estanques que se podia viver sem contactar com os traços mais revoltantes da miséria, que grassava nos arredores de Lisboa, e no interior do país, onde por essa altura centenas de milhares de portugueses faziam a valise para irem para França.

Jorge Silva Melo fala da descoberta deste mundo de pobreza suburbana, que se acentuava no reverso do "milagre económico português" que estava em curso, levando milhares de portugueses a viver em bairros da lata e em habitações degradadas na faixa ribeirinha. As chuvas atiraram-nos para a morte e os estudantes que viam os bairros da lata e os esteiros pela primeira vez encontravam um mundo que não estava em nenhum manual. Sem conhecerem as fábricas, que eram uma reserva do PCP, os esquerdistas que nasciam como cogumelos daquela chuva voltavam-se para aquelas margens, como no exílio, encontravam na emigração nos bidonvilles.Uma nova massa, um novo campo de manobra.

Mas Jorge Silva Melo está (como eu) entre dois mundos: o que gostamos é o que desgostamos. Nas suas memórias entrevistadas está uma contradição que não se sabe resolver. Ele gosta da "plebe", da "canalha" de Gomes Leal, da malta suburbana que fala o português do Kuduro, e queixa-se ao mesmo tempo de que ninguém vai ao teatro nesta "não-cidade" em que vivemos.

“Eu vejo-a vir ao longe perseguida
como de um vento lívido varrida
cheia de febre, rota, muito além…
- pelos caminhos ásperos da História –
enquanto os reis e os deuses entre a glória
não ouvem a ninguém.

Ela vem triste, só, silenciosa,
Tinta de sangue, pálida, orgulhosa,
Em farrapos na fria escuridão…
Buscando o grande dia da batalha.
É ela! É ela! A lívida Canalha!
Caim é vosso irmão.

Eles lá vêm famintos e sombrios,
Rotos, selvagens, abanando aos frios,
Sem leite e pão, descalços, semi-nus…
(…)
São os tristes, os vis, os oprimidos
(…)
São os párias, os servos, os ilotas
Vivem nas covas húmidas, ignotas
(…)
Eles vêm de muito longe, vêm da História.
Frios, sinistros, maus como a memória
Dos pesadelos trágicos e maus.

(Gomes Leal, A Canalha)


Claro que ninguém vai ao teatro, claro que acabaram os cafés (pelo menos em Lisboa), claro que se desertificaram os bairros, claro que acabou a Lisboa dos anos 60, tão íntima como provinciana, onde éramos os absolutos cosmopolitas, exactamente porque os filhos dos deserdados das cheias, os filhos dos operários do Barreiro, os filhos das criadas de servir, os filhos dos emigrantes de Champigny, os filhos da "canalha" anarco-sindicalista e faquista de Alcântara mandam no consumo e o mundo que eles querem é muito diferente. Eles entraram pelos cafés dentro e transformaram-nos em snackbars e em lanchonetes, entraram pelas televisões e querem os reality shows, entraram pela "cultura" e pela política e não querem o que nós queremos, ou melhor, o que nós queríamos por eles. O acesso das "massas" ao consumo material e "espiritual" faz o mundo de hoje, aquele que é dominado pela publicidade, pelo marketing, pelas audiências, pelas sondagens. É um mundo infinitamente mais democrático, mas menos "cultural" no sentido antigo, quando a elite, que éramos nós, decidia em questões de bom senso e bom gosto.

E agora? Queríamos que "eles" tivessem voz e agora que a têm não gostamos de os ouvir quando o enriquecimento revelado por todos os indicadores económicos e sociais dos últimos 30 anos transformou muitos pobres na actual classe média, "baixa" como se diz na publicidade, nos grupos B e C das audiências. Nós queríamos que eles desejassem Shakespeare e eles querem a Floribella, os Morangos e o Paulo Coelho. E depois? Ou ficamos revoltados ou pedagogos tristes e ineficazes, ou uma mistura das duas coisas. Nós ajudámos a fazer este mundo de mais liberdade e mais democracia, que o é de facto. O 25 de Abril foi o que foi porque a geração de 60 o fez assim. Se os militares tivessem derrubado Salazar nos anos 40 ou Delgado o tivesse feito em 1958, o país seria certamente muito diferente.

O Jorge Silva Melo acha que permanece fiel aos idos de 1968 no seu trabalho teatral, nos Artistas Unidos, no PREC, no Abril em Maio. Eu também. Só que eu penso que não é nem a nostalgia, nem a pedagogia, nem a "animação cultural" para as "massas" que resolvem o dilema. Deixo de bom grado a "animação cultural" filha de Malraux-Lang para os ministérios da indústria e comércio, e se calhar ele também deixa. O que sobra? Uma nova forma de elitismo, a única que salva, no sentido bíblico: a criação. Mas isso é toda uma outra conversa a ter. Entretanto, lá que estamos enredados nas mesmas linhas estamos.

(No Público, de 30 de Novembro de 2006, corrigidas umas gralhas resultantes de uma certa forma de vontade própria que os erros acabam por ter ; onde estava (pensado) "as chuvas atiraram-nos para a morte", eu enganei-me e escrevi "as chuvas atiraram-nos para a norte" e a máquina final escreveu "as chuvas atiraram-nos para o Norte". Na verdade foi para o Sudoeste, para a foz do rio.)

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LENDO
VENDO
OUVINDO

ÁTOMOS E BITS

de 1 de Dezembro de 2006



Esadof! Como é grande o poder do capitalismo para fazer dissolver os bons velhos costumes, tementes à Obra, do Millenium BCP, fazendo-o, esadof!, falar assim para vender uns servicinhos à malta do dito...

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INTENDÊNCIA

Actualizada a nota LENDO / VENDO / OUVINDO / ÁTOMOS E BITS de 28 de Novembro de 2006.

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COISAS DA SÁBADO: MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS

http://semanal.expresso.clix.pt/imagens/ed1673/fotos/capa/fcap-a261.jpgHá gente que se deve lembrar mais alto quando morre. Para justiça e ilustração alheia. Há gente que o melhor que se pode fazer é ficar silencioso perante a enxurrada de vozes adventícias que falam por obrigação da vénia, a quem nunca a teve e acima de tudo nunca a desejava. Cesariny escreveu e viveu em uníssono, mesma vida, mesma voz. Ter-se-ia rido imenso do que agora está para aí a ser dito. Convém não o levarem para o Panteão porque o seu fantasma ainda se vai deitar noutro túmulo qualquer. E a gente que lá está é muito respeitável e ele não.

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EARLY MORNING BLOGS

917 - Seaside

Swiftly out from the friendly lilt of the band,
The crowd's good laughter, the loved eyes of men,
I am drawn nightward; I must turn again
Where, down beyond the low untrodden strand,
There curves and glimmers outward to the unknown
The old unquiet ocean. All the shade
Is rife with magic and movement. I stray alone
Here on the edge of silence, half afraid,

Waiting a sign. In the deep heart of me
The sullen waters swell towards the moon,
And all my tides set seaward.
From inland
Leaps a gay fragment of some mocking tune,
That tinkles and laughs and fades along the sand,
And dies between the seawall and the sea.

(Rupert Brooke)

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Bom dia!

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© José Pacheco Pereira
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